Amor Selvagem!
8 Capítulo 8 GATOS E... PAIXÕES!
Notas iniciais
Residência do duque de Chamberlain duas horas, após a saída de Milo...
Camus chegou a sua residência com a roupa úmida pela chuva fina que caía. Seu semblante estava menos tenso, pois estava satisfeito com o resultado de suas negociações com o conde Standiford. Reservara o dia inteiro para resolver aquela questão delicada, antes que os comentários e as distorções evoluíssem, e conseguira convencer o conde a vender-lhe o cavalo e ainda desfazer o mal-entendido com Milo.
É claro que toda a negociação lhe custara uma boa soma em dinheiro, que não tinha planejado gastar. Entretanto, dividia com seu pupilo o instinto protetor com os animais e com quem não possuía condições de defender-se. Não deixaria que o pobre animal voltasse a uma rotina de maus tratos e como nunca gastava com frivolidades, permitiu-se abrir mão de uma pequena quantia que, no final, deixaria todos felizes.
Assim que colocou os pés no hall de entrada, Jonas veio ao seu encontro para tomar-lhe o sobretudo com uma breve mesura como sempre fazia. No entanto, dessa vez o ato veio acompanhado de uma intervenção.
— Sua Graça me perdoe, mas...
Ao perceber a expressão preocupada, Camus sentiu uma leve apreensão no estômago.
— O que foi Jonas?
— O senhor Milo foi convidado para uma recepção na casa do conde Jamian, Sua Graça. E... o jovem foi sozinho.
Uma ponta de surpresa se fez notar nas feições do ruivo. Como assim Milo havia sido convidado para uma recepção? E logo na casa de Jamian!
— Quanto tempo faz que ele saiu?
— Duas horas, senhor duque.
Camus calculava o tempo que já havia passado e o que poderia ser feito no momento, quando alguém bateu à porta. O criado abriu-a, dando passagem a Aiolia que vinha afobado e se mostrava ofegante.
— Ainda bem que está em casa! – disse o conde levando a mão aos cabelos acobreados. –Acho que cometi um grande erro não fazendo nada para impedir Milo de aceitar o convite do Jamian e não estou nem um pouco orgulhoso de mim mesmo. Ele convidou a todos nós, ontem, na ópera.
— Para que tipo de festa Jamian os convidou?
— Jamian nos apresentou Lady Louise e disse que dariam uma festa de aniversário em homenagem à dama. Eu, Saga e Kanon pulamos fora, mas Milo não soube inventar uma desculpa e acabou aceitando.
— Dama... Desde quando Jamian é visto ao lado de damas e comemorando aniversários? Está muito óbvio que é uma daquelas festas que ele promove em seu antro de jogatina e beberagem! – falou Camus contrariado, embora mantivesse o tom de voz, educadamente, baixo.
— Perdão, Camus... Eu... Eu não soube agir como devia, foi muito constrangedor. Até mesmo porque Milo nos deu um tapa de luva ao dizer que éramos hipócritas. Afinal, nós suportamos Jamian em nosso círculo e, no entanto, nos esquivamos dele como o Diabo foge da cruz!
— Eu vou até lá. Aquele tipo de ambiente não é adequado para Milo e, ainda mais estando lá sozinho. – disse o duque.
— Eu vou com você. – falou Aiolia.
A chuva fina continuava beijando a paisagem londrina quando o duque e Aiolia deixaram a mansão.
Camus seguia tenso no interior da carruagem. Acostumado a deslocar-se sem pressa e com cuidado, agora ordenava ao condutor que imprimisse velocidade à parelha de cavalos. Aiolia observava-o, mas não se atrevia a iniciar uma conversa. Sentia algo de errado no ar e a culpa o tomava. Entretanto, sua natureza expansiva não permitia que ficasse chafurdando em autocomiseração.
— Sinto muito. – disse, por fim, interrompendo aquele silêncio pesado.
— Não foi culpa sua, Milo está sob a minha responsabilidade. Eu devia tê-lo alertado sobre Jamian. – falou Camus.
— Aquele rapaz tem uma força de caráter invejável. Senti-me envergonhado quando ele me fez ver o quanto somos dissimulados. Ele não aceitou o convite de Jamian por ser ingênuo e sim porque julgou ser educado, como você o ensinou, já que não tinha mesmo outro compromisso. Ao contrário de nós que inventamos desculpas, Milo agiu como um verdadeiro cavalheiro. – disse Aiolia repetindo o ato nervoso de passar a mão nos cabelos.
Camus olhou para o conde e voltou a olhar para a paisagem borrada pela chuva. Aiolia tinha razão, Milo era intempestivo, mas franco e generoso. Não havia a menor dissimulação nele. O que sentia, demonstrava com sua energia contagiante e isso, unido à sua sensualidade natural, o tornava interessante e desafiador.
Interessante em demasia, principalmente para o bando de pervertidos que costumam cercar Jamian... Pensava e ficava ainda mais preocupado.
— Ainda estamos muito longe? Você sabe, exatamente onde é? Nunca frequentei a mansão atual de Jamian. — falou Aiolia.
— Não. Estamos chegando. Pelo que Jonas disse, é logo adiante. – respondeu Camus apontando para uma construção que surgia entre árvores centenárias.
— Tenho que admitir que é uma bela mansão... – disse Aiolia notando as diversas carruagens que estavam estacionadas diante da casa.
Quando, a carruagem parou, a atitude de Camus surpreendeu Aiolia. Ao invés de descer, calmamente, o duque saltou com extrema agilidade e rapidez, ignorando até mesmo o criado que estava ali para receber os convidados e guardar as carruagens. Para não ficar para trás, o conde apressou o passo para acompanhar o amigo.
Um idoso mordomo vestindo libré abriu a porta e, rapidamente conduziu-os ao salão principal, aquecido por duas grandes lareiras e ainda impregnado dos mais diversos aromas que iam da comida, à bebida e aos perfumes das damas e cavalheiros. Camus correu os olhos pelo ambiente tentando localizar Milo, porém havia, apenas, casais conversando com intimidade, rindo ou em atitudes indecorosas.
— Por favor, procuro um jovem chamado Milo. – disse o duque.
— Ah, o jovem que chegou há pouco na corte. O conde convidou a todos para uma rodada de jogos na parte superior da mansão. Vou avisar que os senhores estão aqui. – disse o mordomo.
— Não precisa se incomodar, eu mesmo aviso. – cortou Camus e, sem demora, começou a subir as escadas.
Quando deparou-se com aquela cena, Camus sentiu uma indignação tão grande que parou de respirar. Ao contrário dos outros homens que externavam sua ira em explosões de força, o duque mostrava-se frio e com um olhar penetrante que parecia trespassar quem estava a sua frente.
— Soltem o senhor Milo ou sofrerão consequências bem desagradáveis! – disse Camus.
Os dois homens que seguravam Milo olharam para o duque e para Aiolia que também mantinha uma expressão fechada.
— O rapaz bebeu demais e estava sendo inconveniente. Nós apenas o estávamos levando para descansar um pouco. – disse o homem mais alto e com dentes semelhantes ao de um esquilo.
— Inconveniente? Não foi o que vimos agora! Pode deixar que nós cuidamos dele. – disse Aiolia enfrentando o olhar do homem que desviou e olhou sem graça para a viscondessa que se mantinha um passo atrás.
— Aiolia, tire Milo desta casa que eu vou ter uma conversa com o senhor Jamian. E os senhores venham comigo! – disse Camus olhando para os dois homens que haviam agredido Milo.
Aiolia, que tinha a mesma estatura e peso de Milo pegou-o e colocou-o sob suas costas sem maiores dificuldades, enquanto Camus seguia para encontrar Jamian.
Jamian ria e bebia champanhe no decote de Lady Louise quando Camus entrou na sala. Um quarteto de cordas tocava uma peça musical em ritmo dançante e todos pareciam bem à vontade sentados em divãs ou nas mesas jogando cartas.
— Conde Jamian desejo falar com o senhor. Agora. – disse o duque com o cenho franzido e gesticulando para que os dois homens entrassem junto.
Uma emoção impossível de definir desfilou pelo rosto com expressão de ave predatória de Jamian. Surpresa, talvez, e... até uma nota de medo. Então, inesperadamente, um sorriso forçado distendeu os lábios do conde.
— Sua Graça em minha humilde mansão! A que devo a honra?- perguntou Jamian olhando para os dois homens de cabeça baixa.
— Desejo falar-lhe e creio ser uma conversa que interesse, apenas a nós quatro. – respondeu o duque sério.
— Aconteceu alguma coisa? Lady Louise está de aniversário e... Bem, seria indelicado dispensá-la, assim como aos demais convidados. – questionou Jamian fazendo-se de desentendido.
Pela primeira vez Camus teve vontade de jogar a educação e o controle para o alto, pegar Jamian pelo colarinho e sacudi-lo. Entretanto, resolveu entrar no jogo. Havia algo acontecendo e ele tinha de descobrir o que era.
— Se não deseja ser protagonista de um escândalo policial que envolva, também as damas presentes, mande que saiam. Agora se não se importa em passar vergonha diante dos seus convidados, o problema é seu. – reiterou Camus num tom seco, sem deixar de encarar Jamian.
— Deixem-nos, por favor! – ordenou o conde, agora sentindo um tremor por dentro.
Lady Louise ainda lançou um olhar lânguido e provocante na direção de Camus antes de sair, assim como a sua dama de companhia que estava confortavelmente sentada no colo de um cavalheiro.
— Estarei esperando na sala de música... amor!— disse ela lançando um beijo para Jamian.
Quando todos saíram, Jamian resolveu tomar a iniciativa para disfarçar o nervosismo.
— Sua Graça está aborrecido, porque meu convite foi direcionado, apenas ao seu pupilo? Peço desculpas pelo meu ato indelicado. – disse Jamian, falsamente.
— Escute e escute bem, conde... Eu não sei que jogo está propondo, mas lhe asseguro que está pisando em terreno perigoso! Qual a sua intenção de convidar um jovem que mal conhece para uma festa desse tipo? Aproveitar-se da ingenuidade dele? Quando eu cheguei esses dois o estavam agredindo e pelo que vi, levando-o para o quarto. Eu exijo que se explique ou vamos todos fazer uma visitinha à polícia.
O medo que Jamian sentia, aumentou. Não sabia que desculpa inventar e nem tivera a coragem de fazer ele mesmo o que combinara com Valery. Pagara a baronesa Laurent Lieberth e seu irmão, ambos falidos, para forjarem um escândalo mostrando o jovem em uma situação indecorosa com um homem e uma mulher. Mas, pelo visto, tudo fora por água abaixo e agora era ele, Jamian que se encontrava em maus apuros.
— Creio que tudo foi um mal-entendido, meu caro duque. – disse Jamian sentindo as gotas de suor brotar em sua testa. – Vamos esquecer esse incidente, por favor! Eu peço desculpa por qualquer constrangimento que tenha causado ao seu pupilo. Esses dois homens fazem a segurança da mansão e, de repente, se excederam ou interpretaram mal a atitude do senhor Milo. Asseguro-lhe que serão, severamente, punidos!
Os dois homens se olharam e depois tornaram a baixar a cabeça. Camus olhou, demoradamente para os três, depois se fixou em Jamian.
— Eu jamais esqueço. Esteja certo disso, conde Jamian e mantenha-se afastado de Milo ou conhecerá um lado meu que ninguém conhece e nem deseja conhecer. E que fique bem claro que isso não é uma ameaça e sim, uma promessa.
Ditas as palavras, Camus deixou a mansão. Aiolia o esperava com Milo na carruagem e estava preocupado.
— Ele não parece bêbado e sim drogado, Camus. Veja como está gelado.
O duque assustou-se ao ver a face muito pálida de Milo. Um pontinho de sangue insinuava-se nos lábios cheios e no nariz, contrastando com a lividez da pele bronzeada.
— Milo! Milo! – chamou Camus batendo de leve no lado da face que não apresentava nenhum ferimento.
O jovem enrolou algo, mas não abriu os olhos. Camus insistiu, tomando cuidado para que o ato não parecesse mais uma agressão. Segurou a cabeça de Milo com carinho e murmurou bem próximo:
— Milo, abra os olhos e fixe em mim. Faça um esforço, eu sei que consegue!
Milo ouviu a voz dele e tentou abrir os olhos. A cabeça parecia cheia de líquido e as vozes ecoavam distantes. Ao entreabrir os lábios sentiu o sangue e o gosto salgado molhando sua boca.
— Camus... – falou com a voz entrecortada. – Eu... não...
— Isso, tente ficar acordado! – disse Camus sentindo um alívio e afastando o cabelo que permanecia despenteado sobre o rosto do jovem. – Eu estou aqui, está tudo bem.
O jovem estremeceu involuntariamente e um suor frio cobriu-lhe a testa. A voz dele parecia grossa e estranha.
— Estou com... frio. Tanto... frio.
Aiolia olhou para Camus que do alívio inicial retornou ao estado de extrema preocupação. Milo revirou os olhos, começou a tremer e sua respiração enfraqueceu.
— Camus, o que está acontecendo com ele? – perguntou Aiolia com o cenho franzido.
— Ele parece em choque, Aiolia. Por favor, desça, procure o Dr. Simon e leve-o até a minha casa. Rápido!
Assim que Aiolia desceu e foi providenciar outra carruagem, Camus rumou em alta velocidade para casa. Chegando lá, chamou Jonas e os dois levaram Milo para o interior da mansão.
— O que aconteceu com o rapaz, Sua Graça?— perguntou Jonas.
— Alguém o drogou naquela maldita festa!– respondeu Camus.
— O que faremos, senhor duque?
— Já mandei chamar o médico, vamos levá-lo para o quarto.
Verena estava na cozinha revendo o jantar que não fora tocado quando de repente, a gata amarela farejou o ar e correu em disparada para o salão principal da casa e depois para o quarto de hóspedes. Neste mesmo instante, Camus despia Milo e o colocava na cama.
— Jonas, traga água e toalhas limpas. – disse Camus.
O criado obedeceu e, quando deixava o quarto, a gata entrou correndo e roçando em suas pernas. Com seu olhar felino, direcionou-se para a cama onde Milo permanecia inconsciente. O rabo do animal começou a oscilar, enquanto ele estreitava os olhos esverdeados. “Tem algo errado com ele... Cheiro diferente!”
Camus esfregava os pulsos de Milo e, embora estivesse mantendo o controle, sentia os nervos à flor da pele.
— Vamos! Vamos, Milo, reaja! – dizia o duque.
A gata pulou em cima da cama e Camus a espantou.
— Desça! – disse ele num tom autoritário.
A gata se encolheu, mas não obedeceu. Ficou junto de Milo e olhando para o duque com uma expressão agressiva, mostrou-lhe os dentes. “Tente me tirar e eu te mordo!”
Antes que Camus fizesse um movimento na direção do animal, Jonas entrou, novamente, mas agora com uma expressão confiante.
— Senhor duque, o Dr. Simon chegou!
— Graças a Deus! Mande-o vir até aqui. – disse Camus.
Logo, Aiolia surgia com o médico que era bem mais baixo que ele e possuía um físico magro e encurvado. Elegantemente vestido com um terno preto, o Dr. Simon cumprimentou o duque e já foi abrindo sua maleta.
— Boa noite a todos. – disse o médico com uma voz um tanto fanhosa.
— Tive mais sorte que juízo! Ataquei uma carruagem e eis que o Dr. Simon estava nela. – disse Aiolia.
— Por favor, doutor, o paciente em questão está aqui. – falou Camus apontando na direção da cama.
A gata desceu da cama, mas achou um jeito de se esfregar no médico e deixar seu cheiro nele, emitindo dois miados curtos, que queriam dizer: “Cuide muito bem do meu preferido ou vai se ver comigo”, antes de afastar-se e ficar sentada, observando toda a movimentação.
O médico começou a examinar Milo sob o olhar vigilante da gata e estalou língua ao ver o sangue no canto da boca e no nariz. Verificou- lhe o pulso e as pupilas. Depois, auscultou- lhe o peito e olhou para o duque.
— O rapaz parece ter ingerido uma droga calmante, possivelmente ópio misturado ao álcool. A pressão baixa e a sudorese são fortes indícios da ingestão desta droga. Não há muita coisa que possa ser feita, a não ser esperar que o organismo dele reaja e fique limpo. É bom mantê-lo aquecido e estimulá-lo a permanecer acordado.
— A respiração dele está tão fraca. – disse Camus.
— Sim, a droga deprime a respiração e baixa a pressão sanguínea, mas o rapaz é bem forte. Pelo estado dele, a dose foi bem alta, mas mesmo assim ele não ficou totalmente inconsciente. Alguém já providenciou água e toalhas limpas?
— Sim, já pedi a Jonas para trazê-lo.
— Os ferimentos dele são superficiais, mas é bom limpar e desinfetar. Assim que ele abrir os olhos, deem-lhe um chá de verbena com sálvia e duas colheres de mel. Ajudará a eliminar a droga do organismo e mantê-lo aquecido. – falou o médico.
Camus pediu que Aiolia acompanhasse o médico e mandou que Jonas providenciasse o chá que o médico receitara. Depois olhou para o rosto de Milo que ainda estava pálido, mas notou que a sua respiração já estava ficando mais forte.
Agora com alívio verdadeiro, permitiu-se tocar no rosto adormecido, seu semblante se contraindo ao ver o pequeno machucado nos lábios desenhados do jovem. Não se lembrava de sentir tanta fúria dentro de si. Tivera que usar de todo o seu autocontrole para não açoitar Jamian e aqueles homens por terem ferido Milo.
Continuou a acariciar os cabelos soltos do jovem e sentiu um calor no peito quando ele abriu os olhos, devagar, e fixou-se nos seus. Ao contrário do que devia acontecer, nenhum dos dois se surpreendeu um com o outro e foi com um olhar terno que Camus afastou a mão, porém continuou sentado na beirada da cama.
— Está... zangado... comigo, não é? – perguntou Milo com a voz enrouquecida e os olhos inchados de sono.
—Não, não estou. Como se sente? – rebateu Camus.
— Péssimo... E com frio.
— Vou pegar mais cobertas. – disse Camus, fazendo menção de levantar-se.
Milo o pegou pelo braço. — Por favor, não... Só fique ao meu lado. – disse o jovem.
Acostumado a ponderar, rigorosamente, todos os fatos e ações, Camus não se deteve um segundo para pensar na inadequação do que estava prestes a fazer. Aproximou-se, ainda mais de Milo e o abraçou forte o suficiente para que ele soubesse o quanto ele se importava.
— Vai ficar tudo bem. – disse baixinho. – E o que aconteceu não foi sua culpa. Eu deveria tê-lo alertado. A culpa foi minha.
Milo retribuiu o abraço forte de Camus e pressionou seu corpo de encontro ao dele. Por um instante, o jovem perdeu o fôlego sentindo o corpo ansiar por mais e mais do calor que emanava do corpo do duque... Ouviu uma batida estranha e abafada e pensou ser do próprio coração, mas de repente percebeu que era o coração de Camus que retumbava, assim como o seu.
Sentiu a mão do duque acariciar seu pescoço e elevou a cabeça, enfrentando o olhar aturdido e cheio de desejo que Camus expressava. Os rostos estavam próximos, o hálito quente acariciando ambas as faces...
Camus se aproximava e Milo via o brilho rubro daqueles olhos castanhos, o aro negro de suas pupilas mergulhando, ansiando perder-se no azul dos seus...
— Camus... – a voz ainda rouca morreu em sua garganta e Milo engoliu a saliva com dificuldade.
O duque sabia que era errado, que não devia, e ainda assim aproximava sua boca, ainda mais dos lábios de Milo, até que o roçar lento e sedutor arrancou um ofego de ambos, fazendo-os estremecer.
Milo passou a língua sobre o lábio inferior de Camus e ele gemeu, tentando uma última vez, ordenar a si mesmo para parar com aquela loucura.
— Eu... Eu não devo. – gaguejou ele.
— Deve... sim... – disse Milo enfiando a língua na boca do duque, enquanto ele falava.
Camus estremeceu e estreitou Milo junto a si, sentindo um prazer tão intenso que parecia desmontá-lo por dentro... As línguas se tocaram, causando uma excitação aguda e um ardor no corpo que os fez devorar a boca um do outro, esquecendo as dores, os pequenos ferimentos, o mundo à sua volta...
Milo correspondia ao beijo com tanta avidez que nem parecia mais o jovem debilitado, instantes atrás. O duque provava dos lábios carnudos e descia pelo pescoço, mordendo e beijando com uma paixão inédita e tão feroz que desconhecia em si. Nunca vivenciara aquele transe sensual, onde nada mais importava, onde o desejo estava acima de quaisquer consequências...
Sentindo a boca que se abria sobre a sua pele, Milo inclinava a cabeça para trás sem conseguir conter os gemidos. Estava excitado, pegando fogo, desejando ir além e sentir Camus em seu corpo.
A gata os olhava com curiosidade e emitia um som, semelhante ao ronronar. “Seus dois mascotes estavam se lambendo e isso era bom, mostrava que gostavam um do outro e estavam se marcando para ser um do outro, assim como eram seus...”
Uma batida seca e curta, seguida do abrir da porta, fez Camus interromper o beijo, deixando Milo se sentindo incompleto e tremendo.
— Não... – sussurrou ele.
Sentindo-se quente e frio, corado e estremecendo, Camus afastou-se do jovem e tentava voltar ao seu normal, quando seu cérebro sinalizou que alguém entrava no quarto. Seu rosto alvo tornou-se tenso, mas mesmo assim ele retomou o controle e falou com voz tranquila.
— Entre, Jonas e sirva o chá ao senhor Milo. – disse ele, indo em direção à porta.
— Verena fez o chá seguindo, rigorosamente, as instruções do médico. – disse o criado.
— Obrigado, Jonas. Por favor, providencie um cobertor extra também, enquanto falo com Aiolia. Ele ainda está aqui, não? – perguntou Camus.
— Sim, Sua Graça. Ele permaneceu na sala, esperando o senhor.
— Vou falar com ele. O senhor Milo precisa descansar. – disse Camus olhando de relance para a cama onde Milo permanecia em silêncio, encarando-o e sem ousar aproximar-se, novamente, de seu pupilo.
Assim que o duque deixou o aposento, Jonas ajeitou os travesseiros às costas de Milo e serviu-lhe o chá.
— Sente-se melhor, senhor Milo? Verena mandou que eu trouxesse alguns biscoitos também. Ela sempre acha que comida é um santo remédio para qualquer mal.
— Sim, Jonas. Obrigado. Diga à Verena que eu sou muito grato por tudo. – falou Milo tentando esconder sua perturbação.
A gata olhou para Jonas com os olhos estreitos e miou, voltando a saltar em cima da cama. Carinhosa, ela ofereceu a cabeça para que Milo a acariciasse e miou. “Estou aqui, não se preocupe. Agora tudo vai ficar bem. Quer que eu morda esse aí que veio atrapalhar tudo? Ele faz o mesmo comigo quando eu procuro comida!”
— Essa gata arisca gosta mesmo do senhor! Não a vemos ser assim com mais ninguém. – disse Jonas franzindo o cenho.
O jovem sorriu triste, mas acariciou o animal.
— A senhora gata é a minha paixão, também.
O criado sorriu, notando que tanto a gata, quanto o jovem possuíam mesmo uma estreita ligação.
— Vou deixar a sineta, se precisar de qualquer coisa, toque que eu virei, imediatamente. — disse Jonas fazendo uma mesura e deixando o quarto.
— Obrigado, Jonas.
É, senhora gata... Eu estou perdido. Completamente perdido! Pensou Milo, quando se viu sozinho e ainda sentindo o gosto de Camus em seus lábios...
Logo, quatro gatinhos, agora um pouco maiores, se juntaram aos dois e Milo, mesmo sem querer, adormeceu cercado pelos animais que permaneceram aninhados a si.
Camus voltou, minutos depois, e entrou, silenciosamente, vendo a cena que, por um lado o tranquilizava e por outro, provocava em si uma profunda perturbação.
O que faria depois do que tinha acontecido entre ele e Milo? Por que mesmo sabendo que não devia, desejava tomá-lo nos braços e amá-lo como nunca fizera com qualquer outro? Deus, estou perdido. Completamente perdido! Sussurrou para si mesmo enquanto deixava o aposento para não cometer uma loucura...
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A viagem havia sido cansativa, com direito a problemas nas ferraduras dos cavalos e na roda traseira que fazia um rangido alto. No entanto, ali estava ele em Village West.
A mansão conservava a imponência que vivenciara em sua adolescência. Os arcos das janelas altas, os jardins bem cuidados, os vitrais do solarium, tudo, exatamente igual... As coisas materiais permanecem, mas e os sentimentos? Shion indagou a si mesmo.
Dohko construíra sua vida ali e os dois nunca mais haviam se encontrado. Sentia uma tensão crescente a cada passo em direção à porta. Com um suspiro, aproximou-se mais rapidamente, afinal não era um homem desacostumado de enfrentar desafios. Ainda assim, foi com relutância que ergueu a aldrava de bronze e a bateu contra a madeira.
Ouviu latidos e, em seguida, foi logo atendido por uma bela jovem acompanhada de um cão beagle e um gato tão branco que parecia um floco de neve. Shion olhou para os dois animais que pareciam muito amigos e sem querer, viu-se comparando aquela parceria consigo e Dohko.
— Sim? – perguntou Marin olhando-o com um sorriso.
— Perdão ter vindo sem avisar. Eu me chamo Shion e sou médico. O senhor Milo pediu que eu viesse ver o conde Dohko.
— Ah! Por favor, entre! – disse Marin cedendo espaço para que Shion entrasse.
A sala decorada de forma sóbria estava iluminada pelo sol da manhã. Shion viu a bonita visão dos jardins pela janela e as flores que estavam arranjadas em um vaso da dinastia Ming. O clima parecia agradável ali, embora o dono da casa estivesse doente.
— O conde ainda não acordou, teve febre à noite e se recusou a comer. Está cada dia mais fraco e eu... temo que ele... Bem, o senhor é médico. Espero que possa ajudá-lo, porque todos nós o amamos muito. – disse Marin com os olhos úmidos e sorrindo de leve.
—Por favor, leve-me até ele. – falou Shion.
— Pois não. Por aqui, por favor! – respondeu a jovem conduzindo Shion pelo amplo corredor que levava aos aposentos de Dohko.
Após abrir a porta, Marin deixou o médico entrar sozinho no quarto e quando a porta se fechou, ela fez uma prece silenciosa.
Shion atravessou o quarto com três grandes passadas e parou junto à cama encimada por um dossel. Olhou para o rosto adormecido e sentiu o peito apertar. Naquele momento tentou se lembrar de que homens não choram e sacudiu a cabeça.
— Dohko... — disse ele sentando na cama e tomando a mão dele entre as suas.
O conde abriu os olhos doloridos. Por alguns segundos, sorriu achando ser mais um dos sonhos que invadiam sua mente. Se recusava a comer e só queria dormir para refugiar-se naquele mundo, onde não havia dor ou solidão... Shion estava sempre ao seu lado e isso bastava.
— Shion... – ele murmurou levando a mão ao rosto do médico.
— Sim, estou aqui, Dohko. – disse ele e se sentiu invadido por uma forte emoção, como se ainda fosse o mesmo adolescente e o tempo não houvesse passado.
— Não é... um... sonho! Você está mesmo aqui... – falou Dohko ao perceber uma lágrima descendo pelo belo rosto de Shion.
— Vim cuidar de você. O Dohko que eu conheço jamais se entregaria. Já é hora de deixar essa cama! – disse Shion
Dohko soluçou, a voz embargada pela emoção ao sentir que a presença de Shion era real.
— Meu Deus... Você veio... – ele murmurou percebendo que lágrimas lhe escorriam pelo rosto.
Shion continuou a fitá-lo, contemplando o rosto pálido e emocionado por longos momentos. Depois apertou a mão que continuava entre as suas e levou-a aos lábios, beijando-a longamente.
— Você precisa comer para ter forças e levantar dessa cama. Vamos deixar entrar um pouco de sol. – disse o médico levantando-se da cama e abrindo as janelas.
O sol entrou majestoso, banhando parte do aposento e o ar tornou-se mais fresco, imprimindo leveza ao ambiente. Como se as palavras de Shion fossem a droga milagrosa que Dohko precisava, o conde moveu o corpo e recostou-se na cabeceira da cama.
Marin foi instruída a trazer um caldo de ervas e vinho do porto com gemada, canela e gengibre.
— Depois que comer, eu vou examiná-lo. – disse Shion e Marin observou que o conde já não parecia tão mal, embora continuasse pálido e fraco.
— Como chegou até mim? – perguntou Dohko.
— Conheci seu protegido. Ele pediu-me para vê-lo. Se não fosse por ele, eu jamais saberia do seu estado.
Dohko sorriu. Milo era, realmente, uma benção em sua vida.
Minutos depois, após ter tomado algumas colheradas de sopa e bebido o vinho do porto misturado à gemada e especiarias, os dois conversavam e o doente já dava sinais de melhora no rosto magro.
— Nunca pensei que o encontraria, novamente, Shion. Você... constituiu família?
— Não, minha profissão tornou-se a minha família.
— Nunca quis ter alguém?
Um sorriso malicioso brincou nos lábios do médico.
— Mesmo doente, continua o mesmo... O que quer saber? Se eu ainda amo aquele garoto arrogante, mas generoso que se sacrificou por mim, mesmo pagando um alto preço?
— Você soube... Eu sempre temi que achasse que eu tinha sido covarde e que nunca o tivesse amado. – disse Dohko sentindo a garganta doer.
— Sim, eu soube. Tempos depois, minha mãe contou-se tudo, antes de morrer. Ela sabia... Sabia que estávamos apaixonados, mas temia por nossas vidas e reputação. Quando ela me revelou tudo, você já estava casado e nada mais restava a mim, que seguir em frente.
— Meu casamento, minha vida, foi tudo uma grande farsa. Essa doença foi como uma libertação. Deixei que Pandora voltasse para Londres e se dedicasse ao amante, enviei Milo para que aprenda sobre as exigências de ser um nobre e me preparava para morrer em paz!
— Estraguei seus planos?— perguntou Shion franzindo o cenho.
Dohko sorriu e tossiu, um pouco. – Dizem todos que estou desenganado. Como espera curar-me, doutor?
— Viajei muito e aprendi muitas coisas em lugares e culturas que os europeus nem sonham existir. Existe, apenas, um remédio milagroso, capaz de erradicar qualquer mal sob a face da terra.
— E que remédio é esse? – perguntou Dohko fitando os olhos profundos e violáceos do médico.
— Amor. – respondeu Shion e Dohko sentiu o corpo que estivera tanto tempo adormecido, despertar com um ardor feroz...
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