Amor Selvagem!

6 Capítulo 6 “OLHO” DE GATO...


Notas iniciais
Bom final de domingo!! espero que a semana inicie bem para todos!!! Bjs, XD

A imensa e peluda gata amarela lambia a pata, cuidadosamente, enquanto seus filhotes pulavam e corriam pelo aposento onde Milo dormia. Faltava pouco para o amanhecer, porém ela já tinha saído durante a noite, ensinado seus gatinhos a caçar e agora era o momento do merecido descanso.

Com um brilho aquoso nos olhos esverdeados, ela olhou para o seu ser de estimação preferido e resolveu conceder-lhe a graça de deitar-se ao lado dele na cama ampla. Milo sentiu a maciez quente do pelo do animal e, mesmo dormindo, fez um movimento suave com os dedos, acariciando-a e fazendo-a ronronar...

A senhora gata gostava muito daquele ser e já o marcara como seu se esfregando em suas pernas e amassando-o com as patas quando ele a pegara no colo. Ele era perfeito, cuidara dela e dos filhotes num momento delicado e os deixara em segurança. Sabia como ninguém tocá-la nos lugares mais prazerosos do seu corpo, principalmente bem abaixo do pescoço, na barriga e num lugarzinho bem entre as orelhas...

Ela também gostava do jeito dele mostrar os dentes e emitir sons que a deixava feliz, mesmo sem entender aqueles rosnados esquisitos que os seres de duas patas costumavam pronunciar. Entretanto, mesmo sem compreender ela era capaz de sentir a vibração e as emoções que emanavam de seus corpos e agir de acordo...

O pelo mais longo, diferente e brilhante em cima da cabeça do seu preferido era da mesma cor que o seu e ele era tão brincalhão com seus filhotes que a deixava satisfeita. Sim, ela o amava muito por isso também, porque as mães adoram quando alguém divide com ela o afeto pelos filhos.

Já o outro, de pelagem vermelha na cabeça, era muito parecido consigo. Prescindia de toques corporais e não parecia muito interessado na rotina dela e seus filhotes. Ele a alimentava e a deixava em paz. Tinha até outros seres de duas patas trabalhando para ele. Bom, ela gostava dessa qualidade em seu outro mascote e também o tinha marcado como seu, pois afinal, ela era a senhora e apreciava os que sabiam agir, mas também ficar em seu lugar e, aquele ser sisudo e muito sério, certamente, era um que sabia.

Tinha acontecido apenas um incidente onde ela tivera de alertá-lo para não machucar seus pequenos. Fora apenas um pequeno aviso dado pelas suas garras, nada muito radical como uma mordida mais enérgica e profunda. Ah, um detalhe, seu ato havia aproximado seus dois mascotes um do outro e isso a deixara contente.

Virando de barriga para cima, a gata expôs os mamilos inchados e cheios de leite. De imediato, os gatinhos se aproximaram e abocanharam com gosto, sorvendo o alimento que os fazia crescer a olhos vistos. Ela resignou-se e os deixou mamar pelo tempo necessário, depois dormiu outra vez e só abriu os olhos quando ouviu seu preferido levantar-se da cama.

— Bom dia, senhora gata! – disse Milo esfregando os olhos e se espreguiçando.

Miau. (*Me deixe dormir!) O miado curto e baixo foi acompanhado de um piscar de olhos, seguidos de um espichar de pernas e logo, a seguir, um enrosco que a fez dobrar-se em forma de U e amontoar os gatinhos uns nos outros.

— Entendi... a senhora quer ficar mais um tempo na cama! Aproveite, enquanto a camareira não vem arrumar o quarto. Se fosse em minha casa, a senhora poderia ficar o dia inteiro em paz, mas aqui imperam a lei e a ordem. – falou Milo, sorrindo.

A gata não se moveu, assim como os filhotes que estavam saciados de leite e agora dormiam placidamente. Milo lavou o rosto, vestiu-se e deixou o aposento rumando em direção à cozinha. Quando ele surgiu na porta, sorridente e falando Bom dia! Verena olhou-o meio alegre, meio sem jeito.

Sua Graça deseja algo especial para o café? – perguntou ela.

— Especial? Não, por quê? E, por favor, não me chame de Sua Graça e sim pelo meu nome. Gosto de ser, somente, Milo! – disse o jovem se aproximando e beijando a mão da cozinheira. — Vim mais para desejar-lhe um bom dia e conferir o aroma desse pão que me lembra a minha infância. – completou ele com um sorriso largo.

Verena ficou vermelha ao sentir os lábios do jovem em sua mão ressecada e foi logo retirar a fornada que já estava pronta.

— Tome, experimente uma fatia de broa de milho! Eu fiz estas broas e pães para Jonas levar até o orfanato. O duque faz questão de fornecer alimentos para o desjejum dos órfãos. Sempre o fez e de forma anônima.

Milo mordeu a broa e fechou os olhos, sentindo um acentuado prazer na textura, aroma e gosto... O som que escapou de seus lábios fez Verena sorrir, satisfeita e orgulhosa.

— Já vou mandar servir seu desjejum à mesa, senhor Milo. Vou caprichar nos pães e bolo. – falou a cozinheira.

— Não se incomode em mandar servir, eu como aqui mesmo. Camus... Quer dizer, o duque falou que iríamos ao haras antes de visitarmos o alfaiate. Por falar nele, ele já levantou?

— Sim, Sua Graça sempre levanta antes do nascer do sol.

— Ele já fez o desjejum?

Sua Graça gosta de cavalgar sozinho antes de iniciar as tarefas e obrigações do dia.

— Admiro isso nele! Camus... Quer dizer, o duque, está sempre trabalhando para melhorar as coisas. Age muito diferente da maioria dos nobres que eu conheço. Mas, se ele foi cavalgar sozinho isso significa que...

— Que achei que gostaria de cavalgar também, então fui me certificar que tudo estava em ordem antes de levá-lo. Venha, vamos tomar o desjejum.

A voz grave de Camus irrompeu o ar de uma forma quase mágica e Milo fitou-o intensamente.

— Pensei que tinha esquecido. – disse o jovem.

— Eu jamais esqueço um compromisso agendado, senhor Milo. – respondeu Camus com um meio sorriso.

Sorrindo, o jovem pupilo acompanhou seu mestre com visível prazer e comportou-se com primor à mesa. Comeu com moderação (também pudera, já havia devorado três pedaços generosos de broa de milho, enquanto conversava com Verena) e ambos conversaram como legítimos cavalheiros. Camus sentiu orgulho de ver como ele aprendera depressa e já pensava no próximo passo para a inserção de Milo no círculo social da nobreza,que consistia apresentar o jovem à Temporada de bailes, óperas e teatro.

Quando terminaram, Camus aconselhou Milo a vestir um agasalho, pois após a chuva noturna, uma leve geada se formara durante a madrugada deixando o chão prateado e as árvores cintilantes. Assim que ambos estavam prontos, Camus levou Milo ao haras e notou como ele admirava mesmo cavalos e tinha pleno conhecimento do assunto.

Depois de muita conversa e troca de ideias, Camus deixou que Milo escolhesse um cavalo para montar e ambos se dirigiram ao St. James Park, embora o duque sempre exercitasse seus animais no Hyde Park. O motivo da troca é que a primeira opção possuía uma área maior para o hipismo e permitia que se usasse de maior velocidade nas corridas por ser um lugar menos na moda.

Já o Hyde Park era o ponto preferido dos nobres e isso faria com que Milo tivesse de ser comedido. Conhecendo a natureza indômita de seu pupilo, Camus achou que depois de tanta moderação, Milo merecia poder dar vazão ao seu temperamento.

— Bem, aqui estamos. Quer dar uma volta para conhecer o lugar ou já quer galopar de forma livre? – falou Camus montado em seu garanhão árabe.

— Eu gostaria de galopar, mas sei que pelas regras de etiqueta e por estar em sua companhia, devo portar-me com mais comedimento e começar devagar. – respondeu Milo.

Camus sorriu e Milo sentiu um estranho calor quando percebeu que, junto ao sorriso, o duque o olhava intensamente dentro dos olhos.

— Eu o trouxe aqui para que não precise ser comedido, Milo. Vá, galope um pouco na velocidade em que está acostumado.

— Eu... Eu... Bem, eu nem sei o que dizer, mas e você?

— Aiolia costuma vir aqui, vou ver se o encontro. Depois que você galopar um pouco por aí, nos encontramos para exercitarmos nossos cavalos juntos.

A resposta de Milo foi um sorriso largo e como se entendesse a necessidade de seu cavaleiro, a égua castanha emitiu um som que parecia querer dizer vamos logo e ergueu as patas dianteiras. O jovem atendeu-a de pronto e ambos dispararam, velozmente, por entre as árvores frondosas que ainda estavam salpicadas pelas gotas cristalinas da geada.

Camus vislumbrou os cabelos loiros de Milo esvoaçando da mesma forma que a primeira vez que o tinha visto e a cena trouxe-lhe calor e contentamento. Fazia muito tempo que não se sentia assim, energizado pela presença de alguém. Seus dias, por escolha própria, eram sempre direcionados ao bem comum e ao trabalho.

Quando estava só, cavalgava, lia e apreciava a beleza e o silêncio das paisagens campestres. Mesmo quando estava ensinando, seus pupilos sempre mantinham a devida distância pertinente ao mundo da nobreza e isso lhe era, perfeitamente, normal e confortável.

Entretanto, com Milo era diferente. Ele o comovia de forma íntima, mesmo que apenas sorrisse ou o tocasse, sutilmente, como no dia em que cuidara da sua mão. Era estranho, diferente e um tanto... assustador.

— Perdido em divagações, meu caro Camus?

A voz grave e com aquele tom só podia vir de uma pessoa... Pensou Camus ao ouvir o questionamento às suas costas.

— Conde Aiolia... Mas que prazer em vê-lo por aqui. – respondeu Camus voltando-se para trás.

— Vi um belo jovem voando sem asas, logo ali atrás, e me pareceu ser o seu pupilo. – retornou Aiolia com um discreto sorriso.

— Resolvi trazer Milo para um passeio, ele fez progressos incríveis e, como seu preceptor, devo recompensá-lo para que continue. Sabe que, daqui para frente, ficará cada vez mais difícil que ele tenha momentos de total liberdade. – falou Camus.

— Realmente, tomara que isso não lhe tire aquele delicioso frescor. – rebateu Aiolia.

Camus elevou uma sobrancelha e olhou para o amigo com certa intensidade. Aiolia percebeu e divertiu-se com o fato, fingindo ignorar o ciúme que percebia no amigo.

— Sabe do que estou falando... O verniz social muitas vezes abafa tanto a espontaneidade que acaba transformando as pessoas interessantes em personagens caricatos e cansativos.

— Acha isso a meu respeito? – provocou Camus.

— Se achasse, já o teria excluído do meu círculo de amizades, meu caro, mesmo você tendo sido íntimo de meu irmão, no passado.

A simples menção daquele fato fez Camus retomar uma postura tensa. Sim, tivera um relacionamento com Aioros no tempo em que ambos foram para a universidade. O envolvimento entre eles havia sido calmo, discreto e sem arroubos apaixonados. Ambos dividiam gostos semelhantes e possuíam a mesma consciência do dever. Não fora algo longo, porque a tragédia acolhera Aioros em seus braços e ele morrera de cólera, assim como seu pai, anos antes. Entretanto, apesar de ter conhecido o sexo e aprendido sobre seus desejos, ainda não havia sentido o ardor que tanto ouvia comentar em seu círculo íntimo de amigos. Sabia da relação de Saga com o irmão e de outros que, aparentemente, mantinham um status de mulherengos e bom vivant. Entre quatro paredes, todos pareciam desfrutar de uma intimidade prazerosa que ele só conhecia 1/3 dela, deixando o restante para a sua imaginação. Por isso que, talvez estivesse sendo difícil entender o que se passava com ele sob a convivência com Milo.

— Desculpe, Camus. Não devia ter tocado nesse assunto. – disse Aiolia, agora de forma sincera.

— Não precisa se desculpar. Vamos? – disse Camus mantendo uma expressão serena e indecifrável.

Aiolia concordou tocando a aba do chapéu e logo ambos viram a aproximação de mais dois cavaleiros. Um era o conde Jamian e os dois outros eram Saga e Kanon.

— Vejo que, hoje, todos nós decidimos trocar o Hyde pelo St. James!— falou Saga sorrindo.

Camus retribuiu o cumprimento e logo reparou que havia um clima eufórico tomando conta do parque. Alheio aos demais frequentadores, Milo deliciava-se com o vento frio de encontro ao seu rosto, o som dos cascos no chão, a incrível velocidade da égua castanha que o fazia sentir-se liberto de tudo e tão poderoso quanto aquele animal magnífico.

— Vejo que o seu pupilo é um cavalariço e tanto! – exclamou Kanon.

— Venham! – disse Aiolia. – vamos participar dessa corrida!

Estranhamente incomodado com aquela aglomeração e entusiasmo ao redor de Milo, Camus resignou-se e seguiu os amigos que soltavam exclamações de euforia.

Sem se dar conta de que lançara um desafio a uma corrida, Milo acabou desaparecendo por entre os arvoredos, sendo apenas alcançado por Camus cujo garanhão se equiparava ao poder veloz da égua montada pelo seu pupilo.

Quando os dois animais se encontraram, Camus sentiu a fita que amarrava seus cabelos se soltar e os fios ruivos bateram em seu rosto no instante em que emparelhava com Milo. Nenhum dos dois soube o que aconteceu, naquele exato momento, apenas pareceu que o tempo andou para trás, congelando as imagens e tornando-as mais lentas. Uma dança de fios loiros e vermelhos pareceu encher o ar junto aos olhares que se mesclavam em azul e castanho... Quando deu por si, Milo puxou as rédeas com força e Camus fez o mesmo.

— Fiz algo inadequado? – perguntou Milo um pouco ofegante.

— Não... Apenas iniciou uma disputa pelo parque que eu pensava estar mais vazio do que realmente está. – respondeu Camus levando a mão aos cabelos e tentando sorrir.

— Deixe assim... Seus cabelos são tão belos e dão ao seu rosto uma aura que eu não consigo explicar... – Milo se ouviu murmurar ao perceber a intenção de Camus em afastar os fios ruivos do rosto.

Camus elevou uma sobrancelha. Os dois cavalos estavam muito próximos e Milo o fitava de um jeito perturbador. Entretanto, mesmo assim, o duque permaneceu firme e focado no olhar de seu pupilo, até ele sorrir, levando a mão ao seu rosto e afastando alguns fios que estavam encobrindo seus olhos.

— Pronto, assim não interfere em sua visão... – disse Milo.

— V-Vamos nos juntar aos outros. – disse Camus sentindo seu coração acelerar com mais um toque de Milo.

— Que outros? Você disse que talvez só encontrasse o conde Aiolia.- retorquiu Milo.

— É, mas acabei encontrando todos aqui. Parece que tivemos a mesma ideia, ao mesmo tempo. E Milo, na presença deles devemos voltar a nos tratar com...

— Com nossos títulos. Eu sei, Sua Graça.— falou o jovem, agora sério.

Camus correu os olhos pelo rosto viril, porém de uma beleza que o remetia às pinturas românticas cuja temática oscilava entre o angélico e o sensual. Ele tinha que admitir para si mesmo que não era apenas admiração que sentia por aquele jovem, mas sim um sentimento permeado por um desejo esfomeado e caprichoso. Algo que jamais o tomara dessa forma...

— Não pense que eu gosto dessas convenções. Se dependesse de mim nos trataríamos de forma civilizada, porém isenta de títulos e hierarquias. Mas, infelizmente, essa sociedade em que está sendo inserido alicerçou-se sobre estes pilares e podem julgá-lo, erroneamente, se não respeitar tais aspectos. – disse Camus com um tom de voz profundo, porém mais suave.

— Eu sei, Camus... – sussurrou Milo, de volta, agora sorrindo.

— Ora, ora! Pois não é que os senhores formam uma dupla incrível? – disse Aiolia chegando junto com os outros três e desfazendo a intimidade, cada vez mais natural, entre Camus e Milo.

— Então, meu caro duque, não vai me apresentar seu... pupilo? – falou Lorde Jamian olhando Milo de cima a baixo.

— Senhor Milo, este é o conde Jamian. – disse Camus disfarçando a antipatia que tinha pelo conde.

Lorde Jamian Ellington Crow era conhecido na corte como um nobre com forte inclinação para a bebida e para o jogo. Era conhecida sua fama de apostador inveterado e mau perdedor, defeitos de caráter que Camus abominava. Portanto, seus contatos com o conde eram apenas esporádicos e em ambiente social.

— Muito prazer, senhor Milo. Se desejar um pouco de divertimento que incluam uma boa bebida e uma mesa de jogo, posso mostrar-lhe os melhores clubes privados de Londres. – disse Jamian piscando o olho para Milo, enquanto lhe apertava a mão.

Milo agradeceu a gentileza e, em seguida olhou na direção de Camus. Ele não gosta desse homem, portanto ele não deve ser flor que se cheire. Pensou o jovem, percebendo a tensão invisível nas atitudes educadas do preceptor.

— Bem, já que estamos próximos a estalagem do nosso querido amigo Godfrey Hounsfield, bem que podíamos ir lá beber um bom uísque e conversar um pouco. O que acham? – falou Saga.

— Acho uma boa ideia! – disseram Aiolia, Kanon e Jamian, ao mesmo tempo.

— Eu e o senhor Milo temos um compromisso no Alfaiate. Fica para uma próxima vez. – falou Camus.

— Ah, mas que pena... Bem, não faltará oportunidade, já que o jovem, pelo visto, está se preparando para a Temporada. — falou Jamian olhando, ostensivamente, para Milo.

Desta vez, Milo sentiu o olhar malicioso sobre si, mas nada naquele homem era atraente, nem mesmo a promessa de diversão. Tomando a iniciativa, despediu-se dos demais e foi com Camus para seu próximo compromisso.

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Pandora acordou entre lençóis conhecidos. Sim, voltara para a sua mansão, após a noite ardente e pecaminosa que tivera. Por alguns segundos, após abrir os olhos, teve a esperança de ter sonhado com tudo aquilo. No entanto, quando saltou da cama e sentiu o corpo dolorido foi assaltada por um sentimento de angústia e confusão. Acuada por tais sentimentos, viu-se à mercê de suas próprias e proibidas emoções.

Amava Hades e por ele, havia se sujeitado a dividi-lo com outro homem! Como aquilo podia ter acontecido? Porque nunca desconfiara dessa preferência do amante? Quem era Minos e há quanto tempo estaria dividindo com ele o prazer nos braços do conde? Milhares de perguntas alfinetavam sua mente e seu coração.

— Oh! – protestou ela, angustiada, detendo-se diante de um espelho.

Havia um brilho torturado em seus olhos violáceos, os lábios delicados tremiam. Hades... um nobre belo e cobiçado que a tomara por amante e que sempre lhe parecera apaixonado e ardente a tinha transformado em uma devassa.

— Hades... – falou ela, ouvindo-se rouca e desejosa de tê-lo em seus braços.

Podia relembrar, claramente, sussurrando o nome dele no auge da paixão, enquanto ele a penetrava e depois gozava no corpo de Minos. Só ao repassar a cena em sua mente, seu corpo formigava e incitava o reacender daquelas arrebatadoras sensações em seu íntimo. Sentiu-se úmida e envergonhada...

Lentamente, soltando as fitas na frente de sua camisola bordada, abriu-a. Olhou para o reflexo de seus seios desnudos e eretos no espelho revivendo os lábios ardentes de Hades e Minos em seus mamilos. Com a ponta do dedo tocou-os de leve e fechou os olhos ao sentir, novamente, o sugar e o lamber que a tinha levado às alturas. Abruptamente cobriu o rosto com as mãos.

— Oh... que os céus me ajudem...Estou perdida! Perdida! – sussurrou entre lágrimas, sabendo que se tornara uma escrava dos desejos do amante e também dos seus.

Uma batida leve na porta a fez cobrir-se e limpar os olhos com as costas da mão.

— Posso entrar, senhora? – falou uma voz feminina.

— S-Sim... Quer dizer, espere um pouco. – respondeu Pandora.

Voltou para a cama e cobriu-se, tentando disfarçar o vermelho dos olhos.

— Entre! – disse ela.

— Com licença, minha senhora. Tem uma visita perguntando se pode recebê-la. – disse a jovem criada.

— Quem é?

— A viscondessa Valery.

Apesar de estar com os olhos um pouco inchados, Pandora os arregalou ao ouvir o nome. O que será que essa mulher pretende comigo? Pensou assustada.

— Você lhe disse que eu estava acordada?

— Não, disse que veria se estava e se poderia atendê-la.

Pandora não sabia o que fazer. Podia fingir que ainda dormia e assim evitar a visita desagradável. Por outro lado, tinha curiosidade em saber o que aquela mulher desejava.

— Está bem, diga-lhe que desço logo. Depois volte para me ajudar com o banho. – falou Pandora.

Trinta minutos depois, Pandora desceu ao salão principal onde Valery a esperava sorvendo uma xícara de chá sentada perto da grande e luxuosa lareira.

— Ah, bom dia minha cara. Espero que tenha dormido bem. – falou Valery estendendo a mão com um sorriso.

— Bom dia, viscondessa. Espero que o chá esteja do seu agrado. – disse Pandora se esforçando para manter a voz inalterada e evitando um olhar mais direto.

— O chá está perfeito. Mas, não foi para degustá-lo que eu vim, por isso, vou direto ao assunto, minha querida.

Uma onde de pânico invadiu Pandora, mas ainda assim obrigou-se a sustentar o olhar agudo da viscondessa. Essa mulher parece uma Harpia! Pensou, enquanto se sentava.

Por alguns momentos, Valery apenas a fitou. Observou-lhe o belo e jovem rosto...

— Vamos falar com franqueza. – disse a mulher madura. – Você foi a escolhida de meu marido e de seu amante para completar o triângulo erótico perfeito! Antes de você, era eu a completar o triângulo. Então tornei-me velha demais para os jogos e fui elevada à categoria de esposa. Entretanto, meu marido ainda é jovem e fogoso. Ele e Hades mantêm uma relação íntima desde quando Minos ainda era adolescente. Sinceramente, não entendo muito desse tipo de amor, mas a verdade é que os dois não conseguem ficar longe um do outro, mesmo Hades deixando bem claro que também ama as mulheres e não as usa, somente, como fachada...

— Como você lida com isso? – perguntou Pandora com verdadeiro interesse.

— Bem, eu tenho dinheiro, joias e toda a sorte de regalias. Quando mais jovem, tive muito prazer também. Quando Hades se afastava, Minos se dedicava a entender o erotismo feminino e a elevar seu nível como amante. Agora, já não tenho tanta necessidade de sexo como jovenzinhas como você.

— Porque me procurou? – falou Pandora.

— Procurei-a para lhe dar um conselho. Os jogos são como um vício e consomem boa parte da sua juventude. Procure assegurar-se que Hades a proteja e a deseje, mas junto a isso, cerque-se de dinheiro e bem-estar. Por enquanto, você está no auge do vigor e da beleza, mas tudo isso acaba. Você é casada, não?

— S-Sim, eu sou.

— Então se certifique de herdar a própria fortuna.

— Você quer dizer que...

— Que precisa do dinheiro de seu marido para assegurar seu futuro. Soube que o conde Dohko está muito doente e que as chances dele são pequenas.

— Sim, é verdade. Mas, deve saber também que ele tem outras ideias quanto a sua fortuna. Ele deixará sua herança a um jovem que cresceu sob a sua tutela. – disse Pandora com um tom irritado.

— Por isso estou aqui, minha querida. Vamos reverter esse quadro e acabar, de vez, com essa loucura de seu marido.

Notas finais
****Agradeço o carinho, a presença, os comentários, enfim, todo o tipo de interação, seja ele visível ou invisível!! Bjs e, mais uma vez, obrigada a todos!!!XD ****A quem está ansiosa para a "pegação" entre Camus e Milo, aviso que, pelo próprio clima e época da fic, a coisa tá lenta, mas quando engrenar...Deus nos acuda!! * risos