Amor Selvagem!
20 Capítulo 20À MEIA-NOITE, TODOS OS GATOS SÃO PARDOS
Notas iniciais
Antes que Hades dissesse algo, Pandora acordou, ouvindo as palavras do barão. Ao invés da voz grave do conde, foi a voz suave dela que respondeu, irrompendo na amplidão da sala.
— O conde tem razão, senhor Radamanthys, eu e ele temos muito a conversar. Eu agradeço a sua gentileza e peço, agora, que nos deixe sozinhos.
Radamanthys franziu o cenho e sentiu-se tentado a insistir. Porém, ao focalizar nos olhos de Pandora viu o faiscar de uma força, que ele sempre soube que estava ali, dentro do coração ainda pleno de sonhos só esperando o momento de aflorar...
— Foi um prazer, senhora. Sabe que tem em mim alguém que pode confiar. – disse o barão.
— Obrigada. – respondeu Pandora.
Antes de sair, Radamanthys dirigiu-se a Hades, encontrando o olhar intenso dele sobre si.
— De todas as perversões, a única imperdoável é aquela que oferece o que nunca poderá dar. Não faça isso com ela. – disse o barão.
O conde sorriu, friamente, porém nada falou. Voltou-se para Pandora, enquanto Minos se aproximava de Radamanthys e o acompanhava em direção à porta. Com um sorriso moleque, Minos chamou o barão.
— Enquanto os dois conversam, que tal tomarmos um café e relembrar os bons velhos tempos? Espero que não tenha esquecido nossa amizade.
O barão fitou Minos e sorriu irônico.
— Sim, eu esqueci, Minos. Aliás, fiz questão de enterrar bem fundo o passado.
— Não sabia que era tão rancoroso.
— E eu não sou, apenas me reservo o direito de não incorrer nos mesmos erros e me reaproximar de pessoas que só pensam em si mesmas.
— Nós já fomos amigos e eu não creio que o tenha magoado tanto que tenha de me evitar. Ninguém pode controlar seus sentimentos e não pode me culpar pelo que aconteceu.
Radamanthys o olhou, depois tornou a sorrir, balançando a cabeça.
— Sabe, Minos, você e Hades foram feitos um para o outro. Isso é um fato incontestável, ambos são sedutores, hedonistas e egocêntricos... Ainda não descobri o porquê de ainda fingirem caber mais alguém nessa relação simbiótica que os mantém. Manter as aparências? Oh, sim, pode ser isso. O grande Hades tem o seu lado covarde, apesar de tudo.
Minos ficou sério, depois enfrentou o olhar agressivo de Radamanthys.
— Eu nunca tinha vivenciado esse tipo de sentimento, Radamanthys, mas desde a primeira vez que eu coloquei os olhos em Hades, eu sabia que o queria. Não sei explicar isso e também não importa mais. Éramos pouco mais que garotos, você e eu. Sinto muito se você se apaixonou por ele e... ele me escolheu.
— Como você mesmo disse, éramos um pouco mais que garotos e, mais tarde, eu acabei compreendendo que a paixão que achava sentir por Hades era, apenas, porque me sentia visível ao lado dele. O modo como ele te olha, o tom grave da voz... É natural para ele seduzir.
— Creio que ele se redimiu apoiando o duque de Wyvern quando ele quis adotá-lo.
— Eu nunca soube se ele fez isso por ter algum sentimento por mim ou se foi, apenas, para acalmar a sua consciência.
— É claro que ele gostava de você. É por isso que está cortejando Pandora? Por vingança?
— Não. Por ironia do destino eu me apaixonei por ela e descobri que nós dois temos muito em comum. Hades foi apenas um detalhe tragicômico, ambos fomos suas crias e aprendemos muito sobre nós mesmos, depois disso. No final... – disse Radamanthys suspirando. – Acho que tem razão, ninguém controla ou manda em seus sentimentos. Eu quis Pandora assim que a vi. De certa forma, o círculo se fechou e é hora de seguir em frente.
Por um instante, os dois ficaram em silêncio. Depois, ainda olhando-se nos olhos, os dois riram.
— Adeus, Minos. – disse Radamanthys lhe estendendo a mão.
— Adeus, Radamanthys. Como dizem nos romances policiais, “nos encontraremos no Inferno”.
Mais uma vez, ambos riram e cada um tomou o seu rumo.
Quando restara, apenas os dois, Hades fitou Pandora, encontrando um olhar firme, diferente da paixão hesitante que ela costumava mostrar. Havia um silêncio incômodo, que logo foi rompido pela voz grave do conde.
— Então, o que significa tudo isso? Por que mudou tanto, Pandora? Por acaso não lhe dei tudo o que sempre quis? Paixão, luxo, sexo sem limites...
Ela deixou escapar um riso nervoso e olhou-o como se ele fosse um estranho.
— Você me deu tudo isso e acreditou ser, somente isso, que eu desejava. Não posso culpá-lo, porque durante um tempo, eu também acreditei que era isso que me fazia feliz. Meu amor por você deixou-me cega para a verdade.
— Verdade? Qual verdade? Uma vida comum com escolhas medíocres? Isso você já tinha com Dohko, um casamento insípido, uma vida monótona e aculturada. Eu descortinei um mundo novo para você, a fiz conhecer pessoas inteligentes e mostrei-lhe o prazer na sua forma mais ousada e intensa!
— Prazer, não amor! – gritou ela. – E sim, eu desejo uma vida normal com filhos, amor e um marido que tenha somente a mim na cama! Sou uma mulher, não um objeto erótico a ser usado por você e por Minos!
— Não me venha com essa conversa patética de vítima inocente, Pandora. Você não foi um mero objeto, você também usufruiu de nós dois e sabe muito bem disso.
— Tem razão. – disse ela limpando as lágrimas que brotavam com as costas da mão trêmula. – Eu quis, usei e fui usada. Mas, agora, não desejo mais isso e como sei que não me ama, prefiro romper nosso compromisso.
Hades a olhou e, por um momento, ela teve esperança de ouvir que ele a amava, que podia ser diferente.
— Temos conceitos diferentes de amor, minha cara. E se esperava de mim um romance de folhetim, sinceramente, você me desaponta, profundamente. Creio que terminamos aqui. – disse o conde dando as costas à Pandora.
— Hades... – chamou ela.
Ele virou-se, encarando-a com aqueles olhos frios que agora não transpareciam nenhum sentimento ou emoção.
— Posso parecer uma tola romântica e patética, mas vou dar-lhe um conselho. Acredito que você seja capaz de amar, embora não nutra este sentimento por mim. Falta-lhe a coragem de admitir que seu único amor é um homem e que mesmo sentindo desejo por outras mulheres, é com ele que você resgata a sua humanidade e se permite ser você mesmo.
Hades manteve a expressão severa e isenta, porém algo dentro de si remexeu-se e ele pensou em Minos. Entretanto, sorriu friamente e fez uma saudação com a cabeça.
— Adeus, Pandora. Espero que encontre o que procura.
Pandora sentiu o lábio tremer, mas manteve a cabeça erguida.
— Adeus, Hades. Eu também desejo que seja feliz.
Quando a porta fechou-se, Pandora desabou sobre a chaise e permitiu-se chorar. Sentia uma dor aguda no peito, mas também um contraditório alívio por ter tido a coragem de dizer tudo que sentia.
Minos esperava encostado a uma árvore, os cabelos longos e revoltos encobrindo o rosto, o corpo voluptuoso à vontade. Quando Hades saiu, os olhares se encontraram e o jovem artista sorriu. Era simples, assim. Ele sorria e Hades fazia-lhe as vontades. O conde o desejava e lá estava ele, excitado e disponível...
— E então, o que ela disse?- perguntou retirando a franja dos olhos.
— Creio que agora, seremos, somente, você e eu. – respondeu Hades e, estranhamente, sentiu-se muito bem ao ouvir-se dizendo aquela frase.
Franzindo o cenho e depois tornando a sorrir, agora de um jeito malicioso, Minos aproximou-se de Hades de um jeito lânguido, porém cuidadoso.
— Sei que pretende casar-se para ter uma fachada respeitável e manter as aparências. Mas, às vezes, eu gostaria que sempre fôssemos só nós dois. Sem Valerys ou Pandoras. Eu... amo você, Hades. Sempre amei, mesmo antes que me fizesse seu. Eu nunca tive dúvidas ou hesitei... Sabe disso, não é?
Hades olhou-o, recordando-se do garoto impertinente e sensual que fora até sua cama e pedira para que o tomasse. Jamais vira hesitação nos olhos brilhantes e maliciosos, assim como jamais esperara sentir tanto prazer com ele. Somando-se a isso, lembrou-se das palavras de Pandora...“ É com ele que você resgata a sua humanidade e se permite ser você mesmo.”
— Sei, e a recíproca também é verdadeira.
Frente à resposta direta, Minos ergueu uma das sobrancelhas e depois tornou a sorrir.
— Então o que está esperando para me ter...?
— Abotoando seu sobretudo, Hades sinalizou para o cocheiro, fazendo-o trazer a carruagem até onde estava.
— Vamos para minha casa. – disse ele.
Assim que entraram na carruagem. Hades fechou as janelas e puxou Minos para o seu colo. O jovem riu, mas em seguida ficou sério quando percebeu o olhar ardente fixado nos seus.
— Creio que chegou a hora de terminarmos esse jogo de aparências. O incidente com Pandora me fez ver com mais clareza. A partir de agora, seremos somente você e eu.
— Está falando sério?
— Estou. Vai divorciar-se de Valery e passaremos uma longa temporada viajando pelo mundo. Eu a deixarei com uma boa situação financeira e a mansão. Creio que não haverá problemas.
Minos não cabia em si de tão feliz com aquela novidade. Quando abriu a boca para dizer algo, Hades o puxou e beijou-o. Não um beijo vigoroso e exigente, mas um beijo confiante. Seus lábios se encontraram com a intimidade que já tinham construído.
— Continuaremos essa conversa em meus aposentos... – murmurou Hades afastando os lábios dos de Minos.
O jovem artista ignorou a fala do amante e continuou abraçando- o pelo pescoço, beijando-o na orelha e, em seguida, colocando a língua dentro da boca entreaberta. Hades tentou resistir, mas os lábios apaixonados e os dedos de Minos em seus cabelos lhe davam um estranho prazer. Rendeu-se ao homem que amava e aprofundou aquele beijo, sentindo a excitação que só ele conseguia causar... Era algo irracional e primitivo, porém, como bem dissera Pandora, Minos era o único que tinha acesso ao seu coração.
0000****0000****0000
A maratona de jogos continuava, a todo o vapor, no Cabeça Cortada. Gritos de alegria ou frustração eram ouvidos continuamente e Kanon estava entre eles, junto de Juno e Saga que, por ora, havia saído.
— Ganhei! – gritou Kanon. – Onde está Saga? Já faz um tempo que não o vejo.
— Ele disse que ia tomar um pouco de ar e ir ao banheiro.
— Eu também bebi demais. Vou passar essa jogada e ir ao banheiro também. Talvez nos encontremos no caminho. – disse Kanon.
— Está bem. Eu ficarei bem aqui. – falou June sorvendo mais um gole de champanhe borbulhante.
Kanon abriu passagem entre homens e mulheres que bebiam, riam e contavam fichas. O clima transbordava sensualidade e muitos aproveitavam o toalette ou o pequeno salão contíguo às mesas de jogo para ignorar a etiqueta social e trocar carícias ousadas à meia luz... Foi em um destes locais que o eufórico Kanon presenciou uma cena que lhe tirou o fôlego, como se tivesse levado um soco na boca do estômago.
— S-Saga! – balbuciou ele ao encontrá-lo beijando de forma quase indecente a morena sedutora que, horas atrás, se aproximara de Máscara da Morte com segundas e terceiras intenções.
Saga desvencilhou-se dela e foi aí que Kanon notou que além dela, tinha um jovem de aparência andrógena que estava...
— Tire a boca daí!— gritou Kanon, agora fora de si.
Abotoando a braguilha, Saga deixou o jovem e a mulher de lado e foi até o gêmeo que estava transtornado e levava a mão aos cabelos.
— Ei! Isso não foi nada! – disse Saga tocando-o no ombro.
— Tire as mãos de mim! Como pode fazer isso comigo? O que há com você?
Frente àquela confusão, alguns curiosos se aproximaram e o vigilante Afrodite entrou em cena percebendo que havia algo muito errado. De forma elegante, falou baixo e firme:
— Senhor Kanon, por favor, me acompanhe.
Kanon olhou para Afrodite e depois para Saga. O gêmeo mais velho chegou junto dos dois e murmurou, fingindo estar bêbado:
— Vamos conversar em algum lugar mais privado... Eu bebi demais...
Afrodite fez um sinal para Máscara, o código para contornar situações indecorosas e conflitantes, enquanto direcionava Kanon e Saga para o escritório.
— Venham comigo. – disse ele, baixo, enquanto Máscara da Morte dispersava o grupo de curiosos oferecendo uma rodada de bebida por conta da casa.
A mulher que estava com Saga levou a mão ao decote, como se estivesse tentando diminuí-lo, enquanto fitava Máscara da Morte.
— Por favor, me acompanhe. – disse ele.
Sorridente, ela apressou o passo e o seguiu até perceber que ele a levava por um corredor estreito que dava para uma saída alternativa.
— Mas...? Aonde está me levando? Essa não é a direção das mesas de jogo. Eu estou acompanhando o conde Jamian e...
— E está sendo convidada a se retirar. Todos são avisados desde o início. Se quiser foder com alguém, o faça longe daqui e de preferência numa cama!
— Está sendo grosseiro!
— Creia-me, eu até estou sendo delicado. Não pense que joias e roupas escondem a sua verdadeira natureza, minha cara.
— Eu exijo que mande chamar o conde Jamian!
Máscara da Morte sorriu de um jeito perigoso como sempre fazia quando estava perdendo a paciência. O azul profundo chegou a faiscar como se fosse uma chama fria...
— Exige? Bem, eu posso dizer a ele que a senhorita sentiu-se mal e que eu fiz a gentileza de mandá-la levar em casa e assim, você ainda terá a chance de receber o seu pagamento de acompanhante. Ou... Eu conto ao conde o quê a senhorita estava fazendo com a língua do duque Saga dentro da sua adorável e experiente boca e adeus pagamento!
— Isso é golpe baixo, italiano!
— Baixo foi o que você e aquele outro estavam fazendo... Aliás, onde está o sujeitinho da chupeta?
A morena revirou os olhos.
— Não sei como consegue ser sócio do Afrodite. Ele sim tem classe!
Uma gargalhada sonora escapou dos lábios de Máscara da Morte.
— Agora, você falou uma verdade, Afrodite é refinado e se fosse por ele, não estaríamos nem tendo essa conversa.
— Pois eu exijo falar com ele!
— Ei, essa já é a exigência dois! A primeira era o conde, agora é o meu sócio. Decida-se.
— O que está acontecendo aqui? – perguntou Afrodite juntando-se aos dois.
— Ah, que bom que é o senhor. Imagine que...
— Você é a mulher que estava com Saga?
— Sim, mas eu...
— Como ousa usar este estabelecimento para agir como uma prostituta de rua? Suma daqui, antes que eu acabe com essa sua cara deslavada e a deixe de um jeito que nenhum bordel vai aceitá-la. Vamos, fora! – disse Afrodite com uma voz controlada junto de um olhar mortal que não deixava dúvidas quanto ao seu descontentamento.
Pálida, a morena olhou para Máscara da Morte e ainda tentou balbuciar:
— V-Você disse que ia mandar me levar e...
— Foi você que escolheu minha cara! Se tivesse atendido quando eu pedi... Agora, adeus oferta amigável. – disse o italiano dando as costas, enquanto Afrodite empurrava a mulher para fora e fechava a porta.
Os dois se olharam e Máscara percebeu a seriedade de Afrodite. O sorriso morreu em seus lábios ao pensar que agora o gêmeo carente buscaria um ombro amigo, como sempre fazia, e isso significava vê-lo perto de Afrodite...
— E então, o que aconteceu lá? – perguntou ele ao loiro.
— Saga está estranho, nem parece a mesma pessoa. – respondeu Afrodite.
— E o Kanon?
— Está abalado. Deixei os dois no escritório para que possam conversar e se acalmar. – disse Afrodite estranhando as perguntas feitas. — O que foi, porque está me olhando desse jeito?
— Nada. Vamos voltar ao salão. Depois dessa, precisamos dobrar a vigilância. — disse Máscara passando a mão nos cabelos como se os tivesse arrumando para encobrir o típico sinal de nervosismo.
— Ângelo...
— O que foi...?
Afrodite aproximou-se dele e sussurrou rente aos lábios entreabertos:
— Não se preocupe com Kanon ou com qualquer outro.
E, em seguida, deu-lhe um beijo apaixonado fazendo com que qualquer pensamento ou dúvida desaparecesse da mente dele. Quando as bocas se afastaram, Máscara fitou-o, totalmente, surpreso e excitado. Abriu a boca para dizer algo, porém, Afrodite tocou-lhe os lábios com os dedos.
— Mais tarde... Agora, nós temos que dar o exemplo.
Ditas as palavras, o loiro voltou ao salão, enquanto Máscara da Morte sentia-se invadido por um misto de sensações que iam do medo, da ansiedade até a felicidade de ter Afrodite em seus braços...
0000****0000****0000
Em meio ao torpor e o latejar das têmporas, Camus abriu os olhos percebendo uma silhueta que se levantava de uma cadeira ao lado da cama.
— Já era tempo de você voltar a este mundo! – disse Aiolia.
— Minha cabeça parece que vai explodir... – murmurou Camus.
— Milo falou que o Dr. Simon obrigou-o a tomar láudano. Além do gosto horrível, depois que passa o efeito é pior que a dor em si.
— Já amanheceu?
— Não, mas quase. Como vocês não foram ao Cabeça Cortada fiquei preocupado e passei aqui. Que situação, heim, meu amigo? Eu e Milo, assim como Jonas, acreditamos que foi o imbecil do Standiford que armou isso tudo.
Um débil sorriso brotou dos lábios de Camus. Fez menção de afastar as cobertas como se fosse se levantar.
— Não veio aqui, somente por isso. O que aconteceu com você?
— Nada de levantar-se! Milo me mata se eu deixar você se mexer daí. – falou Aiolia tornando a ajeitar-lhe as cobertas. – Ele só saiu daqui porque eu prometi ficar vigiando você enquanto ele providencia algo para que coma.
Recostado nos travesseiros, Camus fez uma pequena careta ao mover a cabeça.
— Milo costurou e tratou do ferimento que tive... Fico impressionado com cada talento que ele revela. Mas, agora me conte o que aconteceu.
— Como você sabe que aconteceu alguma coisa? O ferimento na cabeça o tornou vidente por acaso?
— Eu não seria seu melhor amigo se não notasse a sua agitação e o fato de permanecer aqui, numa clara atitude de tentar organizar as ideias. Embora eu tenha ficado feliz com a sua preocupação comigo.
Aiolia riu e arrastou a cadeira para mais perto da cama.
— Você é o homem mais perspicaz que eu conheço. Nada escapa desses seus olhos de águia, mesmo estropiado como está. Pois bem, meu melhor amigo... Aconteceu uma coisa inédita. Eu nem sei por onde começar.
—A julgar pelo desatino, você descobriu algo novo sobre si mesmo. Apaixonou-se?
— Camus! Pare com isso que já está me assustando! Como você soube?
O duque sorriu, depois mordeu o lábio inferior ao sentar-se de forma ereta.
— Sou mais velho que você e posso perceber o seu destempero. Quem é?
— É um... Um... Um homem! Pronto, acabei com este suplício! Pode ficar de queixo caído! E então, não está surpreso?
— Não.
— Como assim? Eu sempre fui hetero! Eu nunca mostrei interesse por homens! A única curiosidade que eu tive a respeito desse assunto era saber como você e meu irmão faziam. E só! Depois desisti, porque era patético imaginar vocês dois de quatro e... Ah! Esqueça! Nem sei por que toquei nesse assunto. Mas, agora me diga, por que não está surpreso? – falou Aiolia sem respirar e com um brilho de súplica nos olhos verdes.
Nesse meio tempo, a porta do quarto se abriu, revelando Milo que trazia uma bandeja com chá, café e alguns biscoitos e pães.
— Está acordado! Como se sente? Trouxe chá, café e algo para comer. – disse o loiro.
— Estou bem, Milo.
— Aiolia já lhe contou a novidade?
— Acabou de contar.
Milo riu e Aiolia remexeu-se na cadeira.
— Grandes amigos vocês são! Tripudiando sobre a desgraça alheia.
— Desgraça por quê? – perguntou Milo.
— Por que... Porque eu não sei o que fazer com isso! Eu não sei como cortejar um homem! E também nem sei se quero saber. Acho que vou recolher-me a algum mosteiro!
— Acalme-se, Aiolia. Tome um chá ou café. – disse Camus.
— Você é o doente aqui, sou eu quem tem de consolá-lo. Sou mesmo um amigo terrível! – falou Aiolia levando a mão aos cabelos.
— Tome um gole disso. – falou Milo mostrando uma garrafa de conhaque que trouxera junto na bandeja.
— Obrigado, Milo.
Camus franziu o cenho, porém Milo fez-lhe um sinal com a cabeça como se dissesse: “deixe, ele está precisando”.
Aiolia verteu o conhaque na xícara com chá e sorveu a mistura como se aquilo fosse um bálsamo para a sua alma torturada. Depois de três xícaras, olhou para Camus e Milo com um sorriso meio torto.
— Vocês dois serão as minhas... testemunhas. Eu nunca vi... Eu nunca senti o que estou sentindo... agora. Estou passando por uma... uma transformação! – disse o conde com a voz engrolada.
Camus falou algo no ouvido de Milo. O loiro deixou o quarto e logo voltou com Jonas e a senhora gata que fitou Aiolia de cima a baixo e depois se virou para a cama, miando e olhando para o duque.
Miau! (Você está melhor?)
O miado e os imensos olhos verdes da gata chamaram a atenção do duque que estalou os dedos, fazendo-a saltar sobre a cama e receber o tão bem-vindo carinho na cabeça.
Jonas se aproximou de Aiolia, com um sorriso amigável, convidando-o para acompanhá-lo até o quarto de hóspedes. O conde sorria e falava frases desconexas, mas o acompanhava. Após a saída dos dois, Milo sentou-se na beirada da cama e também acariciou a cabeça da gata amarela.
— Agora coma alguma coisa. – disse o loiro.
Camus sorriu, sentindo a cabeça pesada e um pouco de dor.
— Eu estou bem, não se preocupe. Prefiro não comer nada, agora.
— Você é forte, eu sei. Mas levou um tiro e, mesmo sendo de raspão, foi na cabeça. O médico disse que...
Antes que Milo terminasse a fala, Camus puxou-o, de encontro a si e o beijou. O jovem estranhou a impetuosidade do amante, mas nem por isso deixou de aproveitar.
— Estamos fogosos... meu duque... – murmurou Milo rente à boca do ruivo.
— Isso é apenas a prova do que acabei de afirmar. Já está amanhecendo e tenho muito que fazer. Pretendo ir à delegacia e não posso me dar ao luxo de ficar de cama. – disse Camus afastando as cobertas e levantando mesmo com dor.
— Depois o teimoso sou eu. – disse Milo.
— Vem comigo? – perguntou Camus ignorando a indireta e indo em direção ao roupeiro.
— Eu? Está me convidando prá ir junto com você para resolver esse caso?
— Sim, estou.
— Está falando sério? – insistiu Milo colocando-se a frente do ruivo.
Com um longo suspiro, Camus fitou-o com firmeza, mesmo sentindo a cabeça latejar.
— Somos um casal e temos que aprender a compartilhar as responsabilidades. Eu confesso que é da minha natureza ter tudo em ordem e que aprendi a lidar com as coisas de maneira individualista, mas amar você me faz ver que eu tenho em quem confiar e que posso sim, dividir não só o prazer, mas tudo aquilo que diz respeito a minha vida.
Milo abriu um sorriso largo e seus olhos brilharam com aquela vivacidade que Camus adorava ver nele. Então, foi a vez do loiro aproximar-se de forma sinuosa do duque e mordiscar-lhe o lábio inferior para depois aprofundar-se num beijo alucinante, explorando com a língua todos os cantos de sua boca.
Os dois perderam-se naquela carícia, até que uma batida insistente os fez separar-se.
Camus abriu a porta do quarto, revelando um preocupado Jonas. Ele estava parado no corredor com o cenho franzido e um tanto pálido.
— O que foi Jonas?
— O delegado está aí, Sua Graça.
— Ótimo, me poupa o trabalho de ir até a delegacia. Mas, porque esta expressão?
— É que... O delegado disse que veio, por que... o duque Standiford está morto. Foi assassinado.
Milo franziu o cenho e logo se voltou para Jonas.
— E o que Camus tem a ver com isso?
Jonas estremeceu, evidenciando o nervosismo em que se encontrava.
— O delegado disse que a arma do crime, pertence a Sua Graça.
Fale com o autor