Amor Real
8 Planos e Abraços
Notas iniciais
— Sou eu, pode abrir os olhos. – Lunie ouviu a voz da prima e pôde respirar normalmente e olhar ao seu redor.
Ela havia fingido passar mal e desmaiar quando foi chamada pelo rei, então duas criadas a carregaram até uma sala de descanso, e ficaram ali por incontáveis minutos até que a condessa entrasse e as expulsasse sem dizer muito.
Ela nunca havia agradecido tanto o fato da prima ser assustadora com as criadas.
— O que eu vou fazer? – Lunie podia ter dramatizado o desmaio anterior, mas só de pensar na loucura na qual sua vida havia se transformado, estava propensa a passar mal de verdade. – Meu príncipe não é meu noivo. Eu não quero me casar com o outro!
Desesperada era uma palavra muito leve para o estado em que a princesa se encontrava, e a condessa precisou se aproximar e segurá-la pelos braços com força.
— Para de escândalo! A rainha não pode te ouvir. Respira! – mesmo querendo chorar, Lunie se esforçou para obedecer Raquel, que a soltou depois de um tempo. – Eu conversei com o rei e disse que você teve um episódio de histeria porque não achou a sua roupa boa o suficiente pra ocasião, e pedi que o príncipe viesse te conhecer em um lugar mais reservado, só na presença do irmão mais velho, da minha e do seu tutor, enquanto os mais velhos decidem os detalhes do seu futuro.
— Minha mãe nunca vai...
— A rainha está fazendo sala pra sua futura sogra, então aproveite que ela só se importa em desfazer o “vexame” que você a fez passar. Agora respira e tenta não chorar, que eu vou buscar o seu noivo e o seu príncipe. – Raquel piscou e a deixou sozinha.
“Respira”
Por que aquilo parecia tão difícil de fazer?
“Não chora”
Só de pensar nisso, sentia sua garganta travar e as lágrimas inundarem seus olhos.
— Droga! – não era de xingar ou praguejar em voz alta, mas aceitou que a sua vida estava merecendo, depois de lhe pregar uma peça como aquela.
Longos minutos se passaram até que batidas na porta a fizesse se levantar e tentar parecer o mais apresentável possível.
— Princesa, muito prazer, não tive tempo de me apresentar devidamente devido ao seu mal estar. Sou Li ZhenYang, príncipe de Jiàn.
O homem era muito alto e, sem dúvidas, muito bonito. Lunie tinha certeza que não veria problema de se casar com ele se seu coração não estivesse totalmente comprometido pelo homem que estava ao lado do mesmo,
Homem esse que tinha um olhar tão devastado quanto sabia que estava o seu próprio.
— Mu Ziyang, pros mais íntimos. – Raquel tinha passado pela porta junto de seu tutor, e quando esta foi fechada, se aproximou e deu dois tapas bem fortes no ombro de ZhenYang, que a encarou sorridente, antes de abraça-la. – Não uso meu título nas competições, mas sou a Condessa de Heminn, antes que me pergunte o que faço aqui. Eu sabia que o retrato do seu príncipe me lembrava de alguém, Lunie! Eu venci o Mu Ziyang no arco no verão passado. E ele me derrubou na lança. Bastardo. Fiquei roxa por três semanas.
A interação entre os dois conhecidos era observada atentamente por Minghui, que encarava aquela intimidade toda com uma expressão de puro desgosto, mas sem dizer nada.
Alheios a tudo ao seu redor, Lunie e Ling Chao não conseguiam desviar o olhar um do outro.
A mesma dor.
A mesma angústia.
O mesmo amor transbordando dos dois.
Lunie percebeu que ele parecia mais magro, e que tinha olheiras leves, denunciando noites insones. Mesmo assim, era o homem mais bonito que já tinha visto.
Sem pensar muito nas consequências de sua iniciativa, ela deu o primeiro passo em direção à ele, mas não precisou dar o segundo, uma vez que Ling Chao logo cruzou o caminho que os separava e demorou para que os dois estivessem abraçados.
Lunie chorava copiosamente, enquanto tinha seu corpo agarrado com força.
— Me desculpa. Eu devia ter te falado... Eu pensei que tinha desistido da gente. – Ling Chao se embaralhava em suas palavras, enquanto a apertava firmemente em seus braços. Se sentia culpado por tudo que nunca tinha dito para a sua princesa. Se sentia ainda mais culpado por ter pensado que ela o tinha rechaçado.
— Eu não quero me casar com ninguém que não seja você. – ela segredou, em meio às lágrimas e aos soluços.
Ling Chao segurou seu rosto e encostou suas testas com delicadeza.
— Então foge comigo. Vamos pra qualquer lugar. – ele deslizou o polegar pela bochecha avermelhada, enxugando as lágrimas que continuavam a cair. – Só você e eu. Eu deixo a coroa, o país e até o continente se me pedir.
Ele aproximou o rosto do de Lunie, mas foi interrompido por Raquel, que separou o casal, mesmo sabendo que poderia apanhar da prima mais tarde.
— Você enlouqueceu? Ela não sobreviveria por dois dias sem ser princesa. – ela assistiu os dois abrirem a boca pra contestá-la ao mesmo tempo, mas não deu tempo. – Nada de fuga, a gente vai pensar em outro jeito pra arruinar o casamento.
Lunie fuzilou Raquel com o olhar por ter interrompido seu momento, mas uma parte dela também agradeceu à prima. Não queria que seu primeiro beijo com o amor de sua vida fosse em meio ao choro e confusão
— Eu estou de acordo. – ZhenYang sorriu pra Lunie, que se curvou para ele, o cumprimentando decentemente pela primeira vez. – Não quero soar rude, mas a última coisa que eu quero é me casar com você, cunhadinha.
Lunie ainda sentia o coração apertado, mas conseguia respirar um pouco mais aliviada por saber que seu noivo estava tão ansioso com o matrimônio quanto ela.
E, claro, nada a deixava mais tranquila do que saber que Ling Chao sentia o mesmo que ela, e estava disposto até mesmo a deixar a coroa para fugirem juntos.
Sabia que a prima tivera toda a razão ao interromper aquele plano sem pé nem cabeça que começava a surgir entre os dois. Podia se deixar levar pelos toques leves e pela voz doce de seu príncipe, mas tinha noção de que não sobreviveria sem sua vida de princesa herdeira por muito tempo, e que aquilo apenas destruiria qualquer coisa que pudesse tentar construir com Ling Chao.
— Vem, senta aqui. — Lunie se acomodou, tendo sua prima de pé em um de seus lados e Minghui do outro, sustentando uma expressão fechada desde que entrara ali. Lunie até pensou em protestar e sentar ao lado de seu príncipe, mas sabia que, caso a rainha decidisse os interromper, estar sentada de frente para os dois visitantes era o mais apropriado.
— Você não quer mesmo casar? – ela perguntou para ZhenYang. Mesmo ouvindo diretamente dele, uma parte de si ainda estava um pouco apreensiva. – Então por que aceitou?
Ele riu, balançando a cabeça.
— Como Raquel disse... – Minghui pigarreou e ZhenYang ergueu as sobrancelhas, não entendendo a interrupção.
— Condessa. – falou sério, e recebeu um revirar de olhos como resposta.
— Como a Condessa disse, eu participo de muitas competições pelos reinos. Sou um soldado, alguém que gosta de aventura, e não um rei. – ele abraçou o irmão pelos ombros. – Antes de saber quem era a minha noiva, eu já não estava muito animado pra todo esse circo, e agora que sei que se trata de você, tenho menos interesse ainda. – o olhar dele, visivelmente brincalhão, saiu de Lunie e pousou por alguns instantes em Minghui, antes de continuar. – Mas se a Condessa quiser, talvez possamos refazer o acordo.
Lunie, que até então estava tão imersa em seus próprios pensamentos e sentimentos que não tinha percebido o clima tenso da sala, finalmente se deu conta da situação.
Será que sua prima e o seu noivo tinham alguma história?
— Eu até faria esse sacrifício, mas você chegou tarde... Fiquei noiva essa manhã, e não quero mais um escândalo pra minha ficha, obrigada. – Lunie sentiu o queixo cair ao ouvir aquilo. Desde que tinha se despedido de Raquel, não soubera o desfecho de sua sentença, mas parecia que ela havia tido a escolha mais sensata.
Estava feliz por seu tutor, mesmo podendo ver o desdém na expressão da prima.
— Droga... Então teremos que arrumar outra coisa pra destruir o nosso casamento, princesa. Isso, é claro, sem colocar os dois reinos em guerra.
Lunie olhou para Ling Chao e ele abriu um sorriso confiante.
— Não importa o que eu precise fazer, a gente vai ficar juntos.
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Lunie estava em seu quarto.
Depois da conversa produtiva daquele grupo totalmente desajustado, tinham conseguido arrumar algumas tarefas para todos.
Raquel e Minghui seriam responsáveis por vasculhar todos os arquivos do reino em busca de algo que pudesse ser usado em vantagem deles. Leis, restrições, até guia de etiqueta seriam estudados minuciosamente para tentar achar algo que pudesse impedir Lunie de se casar.
Ling Chao deveria fazer o mesmo com os documentos de Jiàn. Ele pediria ao mensageiro para que levasse ao castelo de Orken o que precisava e passaria os dias e as noites fazendo o que fosse necessário para achar o que precisavam.
E, enquanto isso, ZhenYang e Lunie deveriam agir normalmente, com ele lhe fazendo a corte e ela aceitando de forma clara e obediente aos olhos dos pais.
Todos ficariam ali por mais três semanas, tanto para a corte do príncipe quanto para a festa de noivado da condessa, e quando a comitiva de Jiàn voltasse para casa, Lunie deveria escrever para Ling Chao sempre endereçando para ZhenYang, para que não houvesse nenhum tipo de dúvida sobre o noivado deles.
— Isso é tão injusto. Ling Chao no castelo e eu nem vou poder passar meu tempo com ele. – ela resmungou para a prima, que estava deitada ao seu lado. – Ele me abraçou tão apertado e quase me beijou... – seus dedos foram de encontro aos seus próprios lábios e ela sentiu o rosto arder só de imaginar o que teria acontecido se não tivessem sido interrompidos. – Será que ele vai tentar me beijar de novo?
Raquel suspirou, virando de lado e encarando a prima sem muita animação.
— Você acha que eu fiz certo em aceitar me casar? – Lunie abriu a boca e já ia começar a reclamar por ser completamente ignorada, quando Raquel riu. – Eu tô brincando... Eu ouvi todo o seu discurso de como a vida é triste e que você quer ficar em um canto escuro com o franguinho pra ele te beijar. E, sim, eu acho que ele vai tentar de novo, então já se prepara, porque depois não quero te ouvir reclamar que você estava mal vestida pro momento ou algo assim.
Lunie a empurrou, e se sentou, emburrada.
— Como se a gente fosse ter algum tempo juntos pra ele tentar qualquer coisa.
Ela abraçou os próprios joelhos e suspirou, sonhadora, enquanto lembrava como era confortável estar nos braços de seu príncipe.
— Bom, eu não posso prometer, mas somos dois casais noivos, e seu príncipe com certeza é honrado e não vai se importar de servir de guardião da nossa pureza em algum passeio ao ar livre. – Lunie sorriu só de pensar na ideia de um piquenique em uma das planícies que rodeavam o castelo.
Ainda não era o conto de fadas que ela queria, mas ela já conseguia sentir uma pontinha de esperança.
Continua...
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