Notas iniciais
Oie notas finais.

Calmaria

Depois que a Annie foi embora eu não estava na minha melhor condição, parecia que havia chorado há dias, meus pais não queria sair de perto de mim e eu apenas queria ficar sozinha. Algumas lagrimas ainda saiam do meu olho, mas não queria chorar perto dela.

— Vou dar uma volta com o Dunuts... — Falei.

Assobiei para o Dunuts e ele me seguiu até a porta, mas eu não queria sair, queria ficar no quarto trancada e fazer o que eu fazia de melhor. Esperei que eles passassem para a cozinha e subi as escadas, parecia que Matt estava na sala, mas não dei atenção a isso.

Entrei no quarto e fechei a porta devagar, não queria que ninguém soubesse onde eu estava. Encostei-me na porta e deslizei até o chão. Os próximos 20 minutos eu passei chorando com a cabeça entre as pernas, encolhida como um bebê. Eu sabia que ela poderia morrer, ela mesma disse isso, mas eu não conseguiria perder a única pessoa que se importava comigo, minha irmã.

Depois de 20 minutos encolhida e chorando eu já não agüentava mais ficar assim, levantei-me e fui até o banheiro que tinha no meu quarto e cerrei a porta, me encarei no espelho. Uma figura com rosto inchado de tanto chorar, meu cabelo estava desgrenhado e meus olhos vermelhos, aquilo não estava me ajudando em nada. Culpei a mim mesma por Annie estar doente. Porque todos que eu amo tem que sofrer?

Peguei a minha gilete, minha segunda melhor amiga e comecei a seção para tirar a culpa e me acalcar. Um corte pela doença da Annie. Mais um pela dor que ela irá sentir, pelos enjôos e perca de cabelo. Mais um por ser tão idiota. Mais um... Mais outro... No fim já estava escorrendo sangue pela pia do banheiro e alguns pingos no chão. Quando dei por mim já estava com os dois braços ensangüentados e aquilo não era uma coisa boa. Lavei a pia tentando tirar o sangue, mas quanto mais eu tirava, mais caia.

— Izzy? — Era a voz do Matt.

Assustei-me, ninguém nunca me viu naquele estado, meus pais sempre me pegavam depois dos cortes, nunca me viram sangrar. Se Matt visse contaria para meus pais e minha vida estaria arruinada de novo.

Deitei-me na cama colocando os braços por baixo do travesseiro, aquilo poderia me ajudar. Matt entrou assim que eu me deitei, mas não percebeu nada.

— Eu poderia estar pelada. — Falei com voz de choro.

— Eu não sei se você se lembra mais já te vi de toalha. Duas vezes. — Ele se sentou na beira da cama. — Você esta bem?

Demorei um pouco para responder, não pela pergunta, mas porque eu sabia que a resposta era não. Meus braços estavam ardendo, sentia a dor que eu sempre detestava, mas que me ajudava. A lagrima quente desceu novamente.

— Não. — Tentei falar, mas quase não consegui.

— Sei que é difícil, acredite. Mas eu estou aqui com você e... — Ele parou de falar quando olhou para o travesseiro. — Isso é sangue? O que você fez?

Ele puxou o travesseiro com tanta força que eu não pude segurá-lo, minha cama estava com uma poça enorme de sangue, aquilo com certeza poderia me matar, mas eu não me importava.

— Você não pode contar. — Disse me encolhendo no canto da cama, enquanto alguns pingos de sangue pingavam no lençol, com algumas lagrimas nos olhos.

— Izzy...

— Me promete que não vai contar, nem para eles nem para a Annie.

Ele não falou nada, apenas ficou me olhando. Pensei que ele iria sair correndo do quarto e contar para meus pais o que havia acontecido e que eu era uma louca maníaca, mas ele apenas me puxou para si e me abraçou, mesmo sujando toda sua roupa de sangue. Meu orgulho não falou tão alto dessa vez e chorei nos seus braços. Eu estava arrasada de mais para o meu orgulho falar tão alto assim.

Depois de algum tempo assim eu havia me acalmado, ele depositou um beijo no topo da minha cabeça e continuou calado. Ainda tinha medo dele falar alguma coisa, meus pais não poderiam saber disso. Nunca.

Acho que acabei dormindo, pois quando acordei estava em um quarto que não era o meu, na verdade aquele quarto não parecia com nenhum outro que eu já estive. Parecia um... Hospital.

Olhei para os meus braços e estavam enfaixados, mas não foi eu quem os enfaixou, olhei em volta e não parecia ter ninguém. Levantei-me da cama com uma agulha e soro enfiados no meu braço, estava um pouco tonta, mas consegui andar até perto da porta. Quando estava prestes a abrir Matt entrou segurando um sanduíche e refrigerante.

— O que você esta fazendo em pé.

— O que eu estou fazendo em um hospital? Você me prometeu que não iria contar!

— Na verdade eu não prometi nada a você.

Revirei os olhos e sentei-me na cama de novo. O encarei com o sorriso cínico e o sanduíche na mão.

— Vai ser onde então? Já te contaram aonde irão me internar? New York? New Orleans? Sabe, eles acham que me internar em lugares longe vai me ajudar me alguma coisa. Esta vendo? — Mostrei os pulsos enfaixados —Não estão ajudando.

— Não contei a eles. — Ele mordeu o sanduíche.

— O que?

— Não contei para seus pais Izzy. Você desmaiou e eles não estavam mais em casa, então te pus no carro e te trouxe.

— Há quanto tempo eu estou aqui?

— Duas horas e meia, os médicos te deram algumas vitaminas e sedativos, provavelmente poderá ir embora amanha.

— Não posso ir embora amanha. Preciso ir para casa.

— Mas não vai.

— Minha mãe vai desconfiar. O que vamos fazer?

— Fugir do hospital. — Ele sorriu e eu achei que ele estava brincando. Mas na verdade não.

oOo

Matt roubou alguns uniformes de enfermeiros para nós dois, aquilo não parecia uma boa idéia já que ninguém acreditaria que éramos enfermeiros.

— Isso não vai dar certo. — Falei segurando um dos uniformes.

— Claro que vai.

Matt começou a tirar a sua roupa e a jogar em um dos carrinhos que estava lá, eu já o vi pelado então aquilo não me fez ficar chocada, talvez um pouco. Tirei o vestido horrível de hospital que haviam me colocado e percebi os olhos de Matt em mim.

— Você já me viu de toalha. — Falei colocando a blusa de enfermeira.

Nós rimos do resultado final.

— Ninguém vai acreditar nisso. — Falei dando uma voltinha olhando para os pés.

— Vamos.

Depois de corremos o hospital inteiro com roupas de enfermeiros e topar com dois seguranças, conseguimos sair do hospital. Matt deixou o carrinho na porta e pegou apenas suas roupas, corremos até o carro dele. Ele entrou e eu dei a volta no carro, quando entrei quase cai em cima dele, estava um pouco tonta.

— Você esta bem?

— Só estou um pouco tonta. — A gente estava perto de mais.

— Acho que você precisa comer alguma coisa. — Ele disse colocando uma mecha do meu cabelo liso atrás da orelha. Não sei porque deixei ele fazer aquilo, mas me sentia bem ao seu lado. Seu rosto estava perto de mais e foi ficando cada vez mais perto. Em seguida nossos lábios se tocaram, novamente devagar e carinhosamente, passei meus braços pela sua nuca, ele pediu passagem para a língua e eu cedi... Porque fiz isso? Quando o ar nos faltou tivemos que parar, um silêncio constrangedor tomou conta do carro, mas decidi quebrar aquele silencio.

— Que horas são?

— 14h45m.

— Vamos para casa e tomamos um café lá, estou precisando tomar um banho, estou cheirando a hospital.

— Claro.

Ele também sorriu e em menos de 20 minutos já estávamos na porta de casa, o carro dos meus pais não estavam na garagem, sinal de que ainda não haviam voltado. Entramos na casa rindo do que havíamos feito. Entramos no meu quarto e me deparei com a cena da minha cama cheia de sangue, aquilo não deveria estar ali, alguém poderia ver.

Corri ate a cama e comecei a puxar os lençóis, joguei o travesseiro no chão e juntei todos os que estavam com sangue. Matt continuava me olhando.

— Queima esse enquanto eu limpo a pia do banheiro.

— Não posso ser seu parceiro no crime.

— Acabamos de fugir do hospital.

— Aquilo não foi crime. Na verdade você poderia sair à hora que quisesse.

— E você me fez fugir?

— Foi divertido não foi? — Ele sorriu

— Foi. — Sorri.

Ele pegou os lençóis e fronhas sujas de sangue e levou para fora, pela janela pude vê-lo as queimando no pátio, aquilo não era uma boa idéia, mas eu o agradeceria depois. Limpei rápido a pia do banheiro e o chão, logo não se via mais nenhuma mancha de sangue ou de qualquer coisa. Guardei a gilete no pote de lápis de sempre e arrumei o quarto do jeito que deveria estar.

oOo

Matt continuou queimando os lençóis enquanto eu vestia um moletom e saia com o carro, ele nem perguntou aonde eu iria, pois sabia onde eu estava indo, Dunuts estava me seguindo já que eu o pedi para ir comigo. Não demorou muito para que eu chegasse à casa da Annie, tudo estava muito calmo, como sempre foi. Bati na porta e logo Carly atendeu, seus olhos estavam avermelhados.

— Olá Izzy.

— Olá Senhora Marshall. A Annie está?

— Sim, pode entrar querida.

Notas finais
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