Notas iniciais
Boa Leitura ♥ (perdão pela demora)

Arthur Narrando

Nunca aconteceria de o sequestro ser algo superado por mim. Já entendi. Entretanto, passar por isso agora era diferente. Não acontecia mais coisas tão estranhas. Isso tudo era apenas por ter Alice novamente ao meu lado. Queria pregar a importância do amor aos quatro cantos. Era algo que poderia salvar muitas vidas em muitos lugares.

— Arlice estão juntinhos já cedo. – Soph brincou conosco e Alice saiu do meu colo. – Vocês são tão chatos e certinhos. – empurrou a prima, fazendo com que ela voltasse para as minhas pernas.

— Estou com um sono, foi um custo dormir nesses colchões de ar balançando. – meu irmão Yuri reclamou. – Ainda mais com a bêbada da Giovana ao lado.

— Eu a vi agarradinha ao seu corpo. – Ryan falou saindo do banheiro.

— Parei de tentar tira-la. Minha sorte não ter sido brutalmente violentado. – brincou e abriu minha mochila com nossas coisas, indo escovar dente.

— Cadê o casal imperante? Alguém avisa que os súditos estão a postos.

— Discutiram quase a noite toda. – Alice respondeu ao questionamento. – Kevin não consegue dormir nervoso. Deve ter pegado no sono só de manhã. — me olhou com certeza estranhando eu não ter ficado nervoso com o fato dela conhecer tanto meu irmão.

— É sério que o Rafael tem ciúme da Diana? – Lari perguntou se intrometendo.

— É melhor paramos de falar disso. – fiquei sério. – Quem vai até a padaria?

— Yurizinho lindo e bonzinho. – Ryan o provocou.

— Pode ser você Ryanzinho ridículo e malvadinho. – ele devolveu na mesma moeda.

— A creche já abriu pelo visto. – Kevin apareceu e arrancou olhares de todos.

— Só faltou uma taça em sua mão. Porque com esse roupão aí... É um Caleb novo mesmo.

— O Ryan já começa a fumar cedo assim? – minha irmã perguntou e parecia emburrada olhando para fora. O garoto havia saído. – Diana tá lá com ele, aposto que mudou o alvo.

— Isso importa? – Danilo a encarou. – Ela sabe que é indesejada, por isso não está aqui.

— Não vem defender sua irmãzinha não, tá? – olhei para Kevin com intuito dele conter aquela situação antes que virasse caos.

— Claramente você sente ciúme de Ryan, Otávia. – não era para ele colocar mais fogo ainda.

— Seus dois meios-irmãos vão se atracar. – Alice avisou segurando o riso.

— É só dizer que o quer. – continuou e deu um assovio alto. Seu “capanga” estava ao seu lado em dois segundos. – A sardenta quer te dizer algo. – vi a garota ficando vermelha.

— Você não tem vergonha de fumar essa hora da manhã não? – ela cruzou os braços e bateu o pé.

— Gente eu fiz muita merda ontem? – Giovana perguntou ao se levantar toda descabelada. – Acho que passei um pouquinho dos limites.

— Pouquinho? – Yuri riu. – Você tá me devendo uma noite de bebidas grátis e eu vou cobrar. Fica para o fim de semana que vem. Já temos algo Fael? – observou o loiro vindo pelo corredor.

— Não. – parou atrás de Kevin e ficou cheirando o pescoço dele.

— Sai. – meu irmão ordenou de forma rápida e cortante.

— Ainda tá bravinho? – meu amigo questionou o namorado parecendo se divertir. – Alguém pode convencer o Kevin de que eu não estou aqui por estar desconfiado? – a maioria riu. – Ninguém me ajuda.

— Posso ir com vocês nessa noite de bebidas grátis? – Larissa desviou a atenção fazendo o pedido a Yuri, Fael e Giovana. – Eu posso dividir a conta com a Gih.

— Tudo bem. Mais bebidas então. – encarei meu irmão com insatisfação. Ele estava resolvendo todos as dores do término com Sophia com bebidas e madrugadas com Rafael. Esse não era o melhor caminho. Porém, eu não podia dizer isso, porque também fiz a mesma opção quando aconteceu comigo.

A ida ao parque foi melhor que eu esperava. Foi divertido, fazia tempo que eu não me sentia assim. Por vezes olhava Alice e admirava seu sorriso fácil e contagiante. Eu tinha muita sorte.

Minha sorte não era apenas por tê-la. Era também pelas pessoas que me rodeavam. Todos eles eram importantes de algum jeito. E uma das mais importantes, que eu não via sempre, acabava de vir me ver. Fabiana apareceu no parque e pulou em meus braços.

— Por que ela não veio? – perguntou baixinho em meu ouvido e sabia que se tratava de Aline. Dei uma risada.

— Está indo mal na faculdade, disse precisar estudar. – ri mais ainda da sua expressão de decepção.

— Se eu soubesse nem teria vindo. – abri a boca em espanto.

— Não veio por minha causa então?

— Por mais que eu esteja muito mais perto daqui que de Torres, prefiro vim e ver todos. – tentou se safar. Depois suspirou. – É que estou com saudade.

— Vocês duas vão se ver. – a apertei. – Julho já está batendo na porta. Vai ir passar as férias lá, não vai? – concordou dando um sorriso enorme. Cumprimentei Alícia e observei Fabi entregar algo a Alice.

— Não era pra você ver. – minha amiga brigou comigo. – Era uma ajudinha em uma surpresa que Alice queria fazer pra você. Claro que eu tinha que estragar tudo. — se sentiu culpada, fazendo com que eu ficasse com pena dela.

— São fotos nossas? – perguntei pegando o pacote aberto.

— São. – minha namorada respondeu e começou a passar as fotografias uma a uma. – Olha só quanta coisa a gente já viveu Arthur.

— E já passamos. – a olhei com carinho e certa devoção. – O que era a surpresa?

— Não vou dizer. Quando você esquecer eu faço. – guardou as fotos e me beijou.

— Está convivendo demais com Kevin. Isso é contagioso.

— Por falar nele... Que inusitado. – apontou com a cabeça para trás. Observei meu irmão interagir com Alícia e Rafael. Ao contrário do loiro, ele não era tão inseguro e ciumento. Isso era uma sorte. – É o Murilo! – Alice exclamou ao pegar seu celular que chamava. – Deve ser para falar sobre o aniversário dele que está bem perto. – se afastou um pouco para atender.

Aniversário. Nem mesmo me lembrava que eles existiam. Estava tudo tão nebuloso para querer comemorar alguma coisa. Alexandre havia feito dezoito anos em maio, mês passado. Com tudo que me aconteceu e do jeito que eu estava, nem me importava com isso. Outro detalhe que só agora parei para pensar também, é que todos já estavam dando um rumo em suas vidas, só eu que não. Fiquei parado naquele maldito sequestro, dias, semanas e quase meses.

Senti Alice chegar ao meu lado e passar sua delicada mão em volta do meu braço e sorri de forma amorosa. Beijei o topo de sua cabeça e juntei nossas mãos. Queria tanto que ela estivesse em Torres, concluísse o ensino médio perto de mim e não aqui. Por um segundo pensei em fazer esse pedido, já que o motivo da ida dela foi por não conseguir estar em sua cidade natal quando eu estava “morto”. Juntando isso com a vontade de Kevin estar ao lado de Rafael, seria a decisão perfeita. O ruim era minha consciência dizendo que esse pedido não era certo.

O meu dever era coloca-la em primeiro lugar e lembrar sempre que qualquer decisão errada poderia influenciar diretamente em seu problema. O seu grave e complicado problema. Alice era a mais nova de todos nós e eu sempre me preocupei com ela, isso não era novidade, todavia, agora eu queria acompanhar ainda mais de perto o caminhar das suas emoções. Pediria isso aos seus pais e esperava que eles atendessem ao meu pedido. Acredito que, com toda nossa história, eu tenho um mínimo de motivo e direito para me preocupar tanto.

Isso incluía acompanha-la nas consultas, saber de todos os detalhes antecipadamente e ter a certeza que ela estava sendo assistida da melhor maneira, sem restar nenhuma dúvida.

Kevin Narrando

Tentava ignorar o fato de ser aniversário do Murilo. Fiz isso ano passado. Como eu consegui? Estava apaixonado demais por Rafael e nem percebi? Qual era o drama da vez? Nem me lembro bem. Passei a mão no rosto angustiado por diversas vezes.

— Hoje após as aulas. – falei ao atravessar perto da carteira de Felipe. Ele me segurou sem entender. – Vamos começar a estudar.

— Mudou de ideia assim tão rápido? – desviei o olhar.

— Preciso de distração. Quer ou não? – comecei a ficar impaciente.

— Claro. Claro. Estarei na biblioteca. – seu desespero me faria rir se eu estivesse com algum humor. Busquei Alice na escola, almoçamos, descansei um pouco e me encontrei com ele no horário combinado.

— Se concentra. – mandei pela segunda vez.

— Isso é muito difícil. – soltei todo o ar de dentro de mim.

— Quanto mais repetir isso mais bloqueado a aprender você estará. – me olhou concordando.

— O pior é que eu sei disso. – sua expressão de derrota até me causou alguma pena.

— Vamos dar um pequeno intervalo. – passei a mão no rosto. Como a biblioteca estava razoavelmente vazia podíamos ficar por ali mesmo se conversássemos baixo. – Perguntou tanto sobre meu namoro e não disse quase nada... Por sugerir ficar com minha cunhada – que não existia – imagino que seja solteiro.

— Sim, eu sou. – desviou o olhar.

— Parece um assunto ruim.

— As pessoas vão para a faculdade e acabam se separando. – afirmou sério. – Você vai estudar... Sua namorada segue a vida e dorme com outra pessoa em sua cidade. – baixei os olhos. – E mente para você por meses. Até que, você descubra com os próprios olhos. – senti a dor dele.

— Eu sinto muito. – disse rapidamente.

— Tudo bem. – deu um sorriso triste. – Sabia que eu me vi um pouco em você? – franzi a testa. – Até o pior acontecer eu não dava ouvidos para nada, eu acreditava ser possível. Você é assim. Espero que seu namoro pelo menos dê certo.

— Se depender do ciúme dele com toda certeza, não.

— Tem algum motivo para ele ser assim? – o olhei de relance.

— É bastante complexo. – voltei a encarar os livros. – Vamos continuar? – parecia que ainda era doloroso para Felipe falar sobre a ex namorada que pelo que puder perceber ele nutria rancor e com certeza, algum resto de sentimento. Fui levado para um lugar distante onde imaginei Luna chorando e sofrendo, enquanto eu crescia na barriga da minha mãe.

— Kevin. – balancei a cabeça e o olhei. – Eu te fiz a mesma pergunta duas vezes. – deixou sua caneta sobre a mesa e soltou uma respiração um pouco irritada. – Não quis me ensinar de boa vontade. Está aqui para se distrair de algo. Bom... – fechou seu material. – Realmente não está dando certo.

— Sim, está. – segurei seu braço antes que continuasse. – É que você falou de traição... Esse é um assunto que me faz divagar um pouco.

— Perdeu alguém que amava muito por ser infiel? – me julgou pelo olhar. Dei um sorriso. – Pela primeira vez vi uma contração dos músculos das extremidades da sua boca. – não aguentei e dei uma leve risada. – Gosto dessa sua expressão facial, devia usar mais vezes.

— Sorri porque se me conhecesse saberia que eu jamais seria infiel.

— Jamais? – riu alto, fazendo com que alguns olhares nos condenassem. – Somos humanos, você é humano. Está sujeito a erros.

— Nasci do erro. E acredite... É um lugar que eu avalio não ser nada bom. – baixei os olhos e depois voltei a encarar aquelas íris castanhas. – Algumas convicções são fortes e enraizadas demais para serem quebradas.

— Você... – o senti amedrontado. – Ficou sombrio. – fez um pequeno movimento com o corpo para trás. Algo sobre o Felipe que já percebi, ele era muito medroso. – Vamos mudar de assunto ou continuar estudando. – deixei que ele voltasse sua atenção para a leitura.

— Não tenha certeza que sou humano. – falei um tom acima do sussurro. – Existe um bicho dentro de mim que eles chamam na terra de demônio. Agora estou no controle, porém, às vezes posso me transformar nele. – vi seus olhos se arregalarem.

— Foi bom estudar, obrigado. – juntou suas coisas com pressa. – Preciso ir. – se eu soubesse ser tão fácil mantê-lo distante, já teria feito. O lado negativo é que perdi minha distração.

Sem ter como me distrair acabei descobrindo o que não devia. Ou devia. Só assim eu podia agir. Mexi meu corpo naquele sofá cinza confortável e sorri internamente ao ouvir os passos.

— Você é igual a um inseto que entra pelas frestas. – virei o rosto e encarei meu meio-irmão.

— Não foi difícil saber que se mudou para Paris ao finalmente me encontrar com o seu pai que te criou. – dei um sorriso ao ver que ele perdia o ar. – Foi ele mesmo que conseguiu que eu tivesse acesso ao seu reino. – travou o maxilar e deu alguns passos em minha direção.

— O que disse ao meu pai, Kevin?

— A verdade. Que você tá interessado em meu primo e eu não confio em você, queria vim ver com meus próprios olhos a situação. Ele confia em mim por eu descobrir sua paternidade.

— Você não tinha o direito de fazer isso! – praguejou fechando as mãos.

— Não? – sorri mais ainda. – Eu te dei uma oportunidade de ficar em casa. Não adiantou.

— Eu me mudei pra cá com a desculpa do escândalo que você mesmo inventou. – riu. – Satisfeito?

— Você SE MUDOU mesmo? – não acreditei em suas palavras.

— Pouco mais de onze dias. Já fiz uma ótima evolução conquistando o amigo dele para que ele o convencesse a me dar uma oportunidade... E posso dizer que... Funcionou. – uma súbita vontade de avançar naquele ser e quebrar cada parte dele tomou conta de mim. Respirei por diversas vezes para me controlar. – Acha que ele vai gostar da vista? – encarou as enormes janelas e portas de vidro. – Foi pensando nele que aluguei esse apartamento.

— Se o conhecesse saberia que esse tanto de vidro não vai agrada-lo.

— Conheço o bastante para saber a data de aniversário dele. – chegou perto de mim me fazendo tremer de raiva. – Sabe com o que o presenteei? – sua risada causou ainda mais calafrios em meu corpo.

— Com uma vida de perseguição eu imagino.

— Um presente que você nunca poderia dar. – nos encaramos. – Sabe que o meu pai é empresário de um grupo farmacêutico, não sabe? Não precisa me olhar com arrogância. – deu uma risada irritante. – Não estou medindo poder aquisitivo. Apesar que conseguir dinheiro curando pessoas é mais digno que as iludindo em suas viagens, praticamente roubando o valor de suas férias ou economias.

— Como se existisse um precipício entre cura e dependência química. Como se essa indústria não fosse a mais suja. – o encarei com tédio. – Anda Nicolas. Diz o que quer dizer.

— Já faz um tempo que está em teste um aparelho neurológico que pode aliviar os sintomas do problema do Murilo. Oferece alívio imediato para quem sofre do mal a partir de uma estimulação elétrica de alta frequência no cérebro.

— Você está querendo que ele coloque algo no cérebro? Algo que está em teste?

— Não é cirúrgico. Não essa versão. A próxima será. Os benefícios são muitos, melhora da qualidade de vida, diminuição dos impactos do transtorno e da medicação, aumento do tempo de efeitos dos medicamentos e melhora dos principais sintomas da doença, como crises, palpitações, falta de ar e o excesso de pensamentos involuntários.

— Lógico que você o convenceu rapidamente a usar isso.

— A vida que o Murilo tem é horrível Kevin. Imagina viver sem você conseguir automaticamente dar comando ao cérebro? Ele praticamente trabalha sozinho o tempo inteiro. Eu só quero ajudar. E vi uma oportunidade para isso.

— Eu não sou idiota. Você viu uma chance de tocar no ponto fraco dele, sensibiliza-lo e então quem sabe conseguir algo em troca.

— Sugerir a terapia de estimulação cerebral é uma jogada de conquista para você? Pensei que fôssemos iguais, mas vejo que não. Você está podre por dentro. Muito mais que eu.

— Tenho certeza que isso não é tão seguro assim. E ele já é refém de medicamentos, mais algemas? Já consegui pensar em mil cenários em que isso não é uma boa opção. Explique o que o uso excessivo pode causar Nicolas. – o desafiei.

— Não foi feito para usar excessivamente.

— E quem te garante que isso não vai acontecer? – ergui apenas uma de minhas sobrancelhas. – Murilo tem uma leve tendência ao abuso.

— Você não consegue aceitar que eu posso ajudá-lo. Algo que você nunca fez. Pelo contrário, apenas o prejudicou. – senti o sangue ferver em minhas veias e foi preciso mais que respiração para me controlar. Fui para um lugar em minha mente que eu sabia que não devia ter ido. – Faça o que quer fazer Kevin, vá atrás dele e o impeça de usar o dispositivo. Não vai ser preciso muito esforço, se você pedir ele não usa. Só admita pra si mesmo que as razões para isso é puro egoísmo e ciúme, e não a saúde de Murilo.

— Se eu não sair daqui sou capaz de te assassinar. – me levantei e fui até a porta que dava acesso à alinhada varanda. Admirei por alguns segundos aquela paisagem parisiense linda.

— O que você acredita que acontece caso haja o uso excessivo? – minha ficha finalmente caiu. Virei e o encarei sabendo que ele sorria.

— Amnésia anterógrada. – ele pareceu um pouco surpreso. – Se funciona como sedativo, o seu uso excessivo é prejudicial à memória, com certeza em escalas maiores. E é isso que você quer. Que ele não se lembre de mais nada.

— Deixa de ser louco. Se fosse assim eu optaria por causar uma amnésia retrógrada, assim ele esqueceria o passado com você. – me encarou com exaltação. – O máximo que vai acontecer é uma sonolência grande durante o dia Kevin. E Murilo me prometeu seguir as regras, ele não vai passar do limite.

— Até ele começar a ter que tomar algo para se manter acordado, piorar sua coordenação motora e esquecer até o dia que nasceu. Esse dispositivo não tem nenhum benefício. – fui andando até a porta. Foi então que me lembrei do motivo de ter ido até lá. E meus planos mudaram. – Não vou pedir para ele não usar. A escolha é dele. Mas quero que a gente volte a conversar quando eu estiver mais calmo. Pode ser? – ele pareceu convencido de que eu não mentia.

— Kevin... – me chamou quando eu já havia saído. – Por mais que eu não seja uma pessoa de virtudes... – não o deixei continuar.

— Não diga que quando se trata dele estamos do mesmo lado. Minha preocupação com Murilo é genuína, enquanto a sua é meramente carnal. Já me convenceu que está apaixonado. Tudo bem, isso é lindo. Porém, não é tudo. Não basta para você ser o suficiente. Para ser alguém melhor.

Nicolas não tinha o que rebater e o motivo era simples, eu dizia a verdade.

— Sim? – o garoto de suéter largo e bermuda de moletom me olhou minunciosamente e fez uma expressão que se assemelhava a malícia.

— Murilo tá por aí? – tentei olhar dentro do lugar.

— O porteiro me falou Kevin e eu não acreditei... – ficou me contemplando por tempo demais. – Pensei ser uma das gracinhas do Nic. – o trabalho do meu irmãozinho foi muito bem feito.

— Adam. – a voz insegura e trêmula de Murilo vinda há vários passos do amigo me dizia que ele nem mesmo sabia da minha presença. Mas ele sentia. Era como se eu fosse capaz de projetar algum sinal forte o suficiente para ele saber que eu estava ali. – Com quem você está falando?

— Ele vai ficar dias sem conversar comigo e a culpa é sua. – praguejou em um tom de voz sussurrado. Isso que dava pensar em Nicolas.

— Fiz uma pergunta. – ele avançou alguns passos e então parou de uma só vez. Nossos olhos se encontraram, restando ao seu amigo apenas se virar, não sendo mais uma barreira entre nós dois. – Achei estar ficando louco ao sentir seu cheiro. – me surpreendi com a sua fala. Não sabia ser esse o sinal que mandei. – O que está fazendo aqui? – olhei o garoto que permanecia em minha frente, mesmo que agora de lado.

— Vou ir para dentro, qualquer coisa grita. – ele se foi com Murilo sem tirar os olhos de mim e nem sequer lhe dar atenção.

— Podemos ir para o seu quarto? Suponho que esse garoto esteja contaminado demais com as manipulações de Nicolas e eu não queria que ele ouvisse nossa conversa.

Mesmo sabendo que ele iria hesitar, ver que tinha tamanha dúvida se devia ou não atender ao meu pedido era algo que com certeza me machucava. E isso tinha um motivo simples, eu insistia em acreditar que Murilo ainda confiaria em mim.

— Por que está aqui Kevin? – mudou a postura ficando ainda mais ereto. – Se quer mudar sua rota, por qual motivo não fazer indo atrás do seu namorado que você tanto exalta? – cruzou os braços.

— Nem tudo se trata disso. – ficamos nos encarando e senti que sua resposta iria vim tão amarga quanto antes. – Não estou aqui por nenhum namoro e sim por sua segurança.

— Você saiu de... – fechou os olhos e abriu rapidamente. – Cruzar essa distância toda é justificável? – ele não me deixou responder. – Eu me pergunto a razão de você não ter aparecido anos atrás quando eu terminei tudo. Sei que já disse que foi por saber que eu ficaria melhor sem você. É só... Agora você vive atrás de mim e com medo do que pode me acontecer. – seus dedos afundaram em seus cabelos. – Como pode ver, eu estou bem. Apenas volte.

— Queria que eu tivesse vindo naquela época? – perguntei após ele se virar e antes que ele fosse para dentro. Ele se voltou para mim e ficou me olhando por algum tempo.

— Não sei. Sei que poderia ter tentado. – seu olhar foi para a porta do outro lado do corredor. – Você não veio para que discutíssemos o passado Kevin. Era só responder o motivo de estar aqui e não chegaríamos a esse ponto. – eu estar em outro País, tão longe de casa ou ter deixado Alice sozinha na capital, era intimidante para ele, entendia isso, tudo o que eu poderia ser era paciente.

— Você não quis me levar para o seu quarto. – confessei de forma humilde e sincera.

— Não está entre os seus mandamentos de super fidelidade não entrar no quarto do ex namorado? – tentou brincar, faltando com a risada.

— Estou preocupado Murilo. Precisamos conversar. – notei que minha seriedade teve como efeito um susto devastador. Seus olhos estavam arregalados e o peito subia e descia com maior intensidade. – Não quero te assustar.

— Não gosto desse tom de voz, essa forma de se expressar e esse jeito. Acha que precisa ser ameaçador para que eu possa te ouvir?

— Se precisar eu irei ser. – deixei claro o quanto eu estava decidido. Não se tratava mais do que vivemos ou do quanto ele foi especial. Uma extensão do meu pai entrou no meio disso, fazendo com que tudo se tornasse alarmante.

— Vem. – finalmente entendeu o quanto estávamos perdendo tempo.

Entrei em seu quarto e ele deixou a porta aberta, se jogando na cama demonstrando estar muito confortável. Apontou com a cabeça para a cadeira para que eu pudesse me sentar. Neguei gestualmente, permanecendo sério e com o olhar nele. Após pouco mais de dois minutos movi meu rosto, olhando a sua mesa de estudos.

— Não vai dizer o quanto pareço estudar? Ou fazer alguma piada sobre pensar que eu só ficava na cozinha. – me olhou. – É algo que eu também não imaginei que houvesse tanta teoria. – continuei em silêncio. Encarei a janela. – Nenhuma gracinha? – analisou meu rosto. – Nem mesmo sobre como meu quarto daqui é diferente do de Torres?

— Você já usou? – questionei iniciando aquele assunto. Ele pensou um pouco não entendendo.

— É pela terapia de estimulação cerebral que você está aqui? – concordei. Sua cabeça balançou negativamente. – Não sou nenhum idiota Kevin. Não iria usar algo porque o seu irmão me deu. – sorri admirado. – Consultei o meu médico. Ele está bem empolgado. Disse que em conjunto com minhas medicações, o método pode ser considerado efetivo, ajustável e reversível.

— Reversível? – demonstrei minha confusão.

— Que pode mudar de função. Pode ser menor a estimulação de acordo com o impulso elétrico no eletrodo e... Ai Kevin, são termos médicos. Não me recordo nada. Só sei que ele ficou vibrando.

— E a parte que pode te prejudicar, ele não disse?

— Por isso é reversível. Diminui a frequência conforme a necessidade.

— E quando você começar a usar isso vai consultar com ele mais vezes? – eu estava começando a ficar em um estado que não seria legal.

— Não. Não tem motivo. – puxei o ar e soltei lentamente. Precisava me acalmar. Esse médico não conhecia Murilo como eu. E dizer a ele que era arriscado usar algo que o próprio já foi convencido do contrário por alguém que confiava tanto seria impossível.

— Ele pelo menos te falou dos efeitos colaterais?

— Milimetricamente. – eu já estava com vontade de quebrar alguma coisa.

— Dá pra responder minha pergunta? Você já usou? – desviou o olhar. Dei um sorriso. Conhecê-lo tão bem era um privilegio para mim agora. Eu me aproximei dele e me sentei em sua cama o surpreendendo.

— Sei que está inseguro. Caso contrário não teria procurado seu médico e nem estaria adiando o primeiro uso. – olhei em seus olhos. – Mesmo sem crises, a coisa que você mais iria querer era experimentar essa coisa... – ri baixo. – Você ama conhecer qualquer coisa nova. – vi seu rosto corar e senti meu coração acelerar, me culpado imediatamente por isso. Tentei manter o foco. – Não usa. Vai te causar sonolência, dependência, e efeitos mil vezes mais devastadores que os seus remédios. Além de tudo, você se conhece, sabe que vai perder o controle e ser desmedido. Não sabemos aonde isso vai te levar. É arriscado Murilo. Seu médico te vê uma vez por mês, menos ou mais que isso. Eu te vejo desde sempre.

— Seu poder de manipulação apelando para o emocional não muda né Kevin? – baixei o rosto. – Estou assim porquê... – respirou fundo e demorou para continuar a falar. – Meu médico é um dos melhores daqui e ele é bem caro. Algo me diz que ele se importa muito com dinheiro. O pai de Nicolas que é da cidade longe de Torres, tem sociedade com pessoas de outro País e demoraram anos para chegaram ao final desse dispositivo... – nos olhamos. – Ele é caríssimo. E como eu tive que responder muitas perguntas inclusive sobre quem me deu... Acho que o interesse maior dele é essa coisa toda de indústria, sabe?

— Sim. – concordei. – Então eu vejo que chegamos a um ponto comum. E a um acordo. – me levantei. – Você não vai usar. Cadê? – olhei para os lados.

— Primeira gaveta. – fiquei parado. Ele riu. – O que foi Kevin?

— Pensei que ao menos fosse dizer que tem direito de decidir se isso fica aqui ou não.

— Eu tenho o direito. E decidi que ele não fica. – sorriu. – Não ache que só porque você expressa as decisões, elas não foram tomadas antes.

— De vez em quando sinto falta desse seu jeito. Porém, só ocasionalmente mesmo. – confessei tentando me manter sério. Peguei o dispositivo que era pouco maior que um botão e possuía duas partes e coloquei em meu bolso. – É melhor eu ir.

— Nunca pensei que você fosse do tipo que conseguia o que queria e caia fora. – parei e fiquei olhando pra ele tentando entender o motivo dele estar tão provocativo hoje.

— Estou arriscando meu namoro ao vir aqui. – duvido que ele conseguiria dar a interpretação certa a essa fala. – Não posso prolongar ainda mais isso.

— Claro. Entendo. Pode ir. Já disse que nem devia ter vindo. – sua expressão mudou para culpado. – Sem querer ser grosso. É mais por sua situação... O seu namorado não suporta nosso contato.

— Você está certo. – tentei achar as melhores palavras para aquele momento constrangedor e chato. – Porém, não consigo evitar toda minha preocupação. Ele sabe disso.

— E sabe que está aqui? – nos olhamos e eu nem precisava dizer nada. Meu olhar já respondeu. – Kevin vá embora! É melhor.

Segui com ele para a saída do apartamento e uma garota apareceu dando um sorriso. Ela me olhava de um jeito estranho.

— Desculpa todo incômodo. Espero que não aconteça nos próximos... – olhei para cima, bem pensativo. – Meses.

— Conto com isso. – deu um pequeno sorriso e nos despedimos. Acenei para a garota e fui embora.

Aliviado e disposto a colocar aquela tecnologia em meu irmãozinho por tempo o suficiente até ele aprender quais eram os reais efeitos colaterais. Ele sabia muito bem que não podia entrar em uma briga comigo e se não sabia, agora iria aprender.

Notas finais
queria fazer uns comentários, mas se faço já entrego muito KKK só acho que não vai dar muito bom se o Rafinha souber dessa preocupação excessiva (tá em excesso? pra mim ir viajar pra outro País é excesso) Amanhã certamente com certeza na mais absoluta fé eu venho (isso se minha coluna deixar, estou sem cadeira decente, então por isso estou postando menos, por não escrever :'( )