Amor & Pecado

9 Capítulo 9 - Por Acaso


O suor está escorrendo pelo meu rosto e minha camiseta encharcada, só mais duas voltas e retorno para casa. O céu ainda está meio alaranjado, o sol nascendo no horizonte e a brisa fresca da manhã bate em minha pele quente. Hoje acordei com uma vontade imensa de chorar e sei que meu rosto não está molhado somente de suor, mas também de lágrimas. Não aguento mais fingir quem eu não sou, não aguento fingir que está tudo bem, quando não está.

Vinicius não se importa em ser teatral, na verdade ele gosta disso. Não se importa em entrar em uma Igreja, colocar seus joelhos no chão, fazer orações, cantar, interagir com os demais e depois se encontrar comigo. Eu o amo tanto, não quero perdê-lo, mas também não quero mais mentir, não quero mais frequentar um local onde todos recriminam minha essência, se não me aceitam do jeito que sou, por que ir? E também têm meus pais, qual justificativa darei a eles se eu largar tudo?

Pedalo cada vez mais rápido, é como se a velocidade da bicicleta ajudasse a limpar minha mente. Eu queria tanto ser normal, se pudesse escolher com certeza eu não seria assim. Mais uma vez meus olhos enchem d’água e as lágrimas caem. Meu peito queima, como se houvesse um buraco e as bordas ardessem. Já estou terminando a segunda volta no parque, ainda tenho vinte minutos para voltar e me arrumar para o trabalho. Freio à bicicleta no meio fio e me sento em um banco a poucos metros de uma barra de exercícios. Olho para ela com a intenção de ir até lá, mas logo a vontade passa, já pedalei o bastante.

Sentado ali, fico entorpecido, com as lembranças da minha infância, quando meu pai me trazia até aqui para andar de bicicleta ou quando eu vinha com Vinicius e nunca jogava futebol com ele e o restante dos garotos. Não tinha preocupação nenhuma. Por um instante fecho meus olhos e mais uma vez a brisa me refresca, sinto o cheiro da manhã e alguns passarinhos cantando, o céu já está mais claro e o movimento de carros no bairro começa ser um pouco maior.

– Bom Dia!

Abro meus olhos de repente, levo um susto. É Marcos, o cliente da cafeteria.

– Bom Dia? – Falo meio desconcertado em um tom de pergunta.

– É, Bom Dia! — Ele abre um sorriso e passa a mão pelo cabelo bagunçado. Está usando um short tactel preto e uma regata branca, além de seus braços estarem a mostra a regata justa marca perfeitamente seus músculos do tórax.

– O que você está fazendo aqui? – Pergunto ainda confuso.

– Bem... Eu tenho hábito de correr de manhã e aqui é um ótimo lugar. – Ele passa seus dedos longos novamente no cabelo bagunçado. Sua pele é tão clara, jovial, seus lábios vermelhos e seus olhos cor de mel tão doces, combinados com seu corpo, me faz compara-lo a um príncipe, daqueles filmes de meio de tarde que passam na televisão. Ele é realmente lindo. – E você o que faz aqui, sozinho tão cedo? – Ele ergue uma das sobrancelhas.

– Resolvi dar umas pedaladas para começar o dia com mais ânimo. – Respondo sem jeito.

– Isso é muito bom, se exercitar é fundamental. – Ele abre um breve sorriso. – É impressão minha ou você está um pouco abatido?

– Impressão sua. – Respondo. – Devo estar muito mal, já que um desconhecido percebeu que não estou nos meus melhores dias.

– Você mente muito mal.

– Como sabe que estou mentindo? Você nem me conhece.

– Claro que te conheço! Sei que você trabalha na Starbucks e faz um Caramelo Macchiato maravilhoso. – Ri. — Tem o hábito de pedalar durante as manhãs, pelo jeito que você fala e se comporta, deve ser de uma família conservadora que te educou muito bem e sei que você mentiu quando disse “impressão sua”, pois seus lábios sorriram, porém seus olhos não.

– Ok. Você pode até ter acertado algumas coisas, mas você acha justo saber “tanto” de mim e eu não saber nada de você?

– Não seja por isso. Chamo-me Marcos Accetti, sou empresário, tenho o hábito de correr, detesto sedentarismo, minha família é liberal, porém preza a educação e a formação de todos, voltei do exterior há seis meses, pretendo ficar por aqui por tempo indeterminado e sou um ótimo observador.

– Isso é um começo. – Sorrio.

– Posso lhe dizer mais, é só perguntar.

– Eu adoraria, mas tenho que ir para casa me arrumar para o trabalho. – Digo levantando.

– Mas já? Deixe eu te levar para um café da manhã, conheço uma padaria ótima por aqui.

– Não obrigado, tenho que ir senão chegarei atrasado.

– Se você chegar atrasado uns quinze minutos, tenho certeza que seu patrão não se importaria.

– Mas eu me importo, tenho que ir Marcos.

– Tudo bem. Mas me de uma chance de te levar pra sair, só pra tomarmos algo, como um café. – Ri. – Bom, você já deve estar cansado de café, pois trabalha em uma cafeteria, mas poderíamos ir para onde você quiser, como amigos claro. Lembro-me de ter dito que tem namorado.

– Sim, tenho. – Respiro fundo. Não me lembro de ter dito isso a ele. – Quem sabe um dia.

– Eu adoraria! Anote meu número.

– Eu já tenho.

– Tem?

– Quer dizer... Acho que ainda tenho, você o tinha anotado em um guardanapo.

– Tudo bem. Se achar me ligue e marcamos algo, caso contrário nos vemos por ai.

– Sim, nos vemos por ai.

– Tenha um bom dia Marcos! – Ele me abraça rapidamente e se despede com um lindo sorriso no rosto.

– Igualmente! – Respondo um pouco surpreso com o abraço.

Ele se afasta e o observo atravessar a rua, com a postura ereta e uma graça sem igual, o vejo entrar novamente em um carro vermelho e grande e consigo identificar o modelo, é um Mitsubishi ASX. Uau! Confesso que ele está mais lindo ainda com este carro. Realmente ele é um príncipe, lindo, educado e instruído. Mas sempre gostamos mais do bad boy, lindo, persuasivo e arrogante.