Amor & Pecado
24 Capítulo 24 - A Reunião: Narrado por Marcos e Vinicius
Notas iniciais
– O que?! – Pergunto surpreso. – Letícia esteve aqui?
– Sim, disse que daria umas voltas pelo bairro e voltaria em uma hora. – Diz Mariana.
O que essa garota veio fazer aqui? O que ela pretende?
– A que horas ela esteve aqui, Mari?
– Por volta das 16h00min.
Olho para o relógio e já são 17h45min. O tempo que Letícia disse que voltaria já acabou, pelo jeito ela não voltará. Algo está muito errado. Decido pegar minhas coisas e ir para a casa de Vinicius. Como Letícia não tem carro, provavelmente veio de ônibus. Irei de táxi, para chegar mais rápido do que ela na reunião. Minha intuição está gritando, algo está realmente muito errado.
X
– Boa Noite! – Vinicius abre o seu sorriso torto e para minha surpresa, me recepciona com um abraço. Ele está extremamente lindo, camisa branca, gravata grafite, calça social e colete.
– Boa noite. – Digo.
– Que roupas são essas, Marcos?
– Pensei que iríamos sair, lembra-se?
– Sim, mas você veio direto do trabalho? Por que não passou em sua casa?
– A saudade não deixou. – Sorrio. Detesto mentir e ludibriar as pessoas, ainda mais Vinicius, mas está sendo por uma boa causa. Preciso descobrir o que Letícia quer comigo, só então ficarei sossegado.
– Vamos ao meu quarto, deve ter alguma camisa sua no meu armário, pode pegar uma calça minha e um sapato, já que calçamos o mesmo número.
– Onde estão todos?
– Você foi o primeiro a chegar. – Ri. – E meus pais estão na cozinha.
Passo pela cozinha para desejar boa noite ao Pastor André e Diane, enquanto Vinicius sobe para o quarto. Pastor André me repreende pela roupa, e argumento que vim às pressas, com medo de me atrasar e nem passei em casa para troca-las. Digo que Vinicius irá me emprestar uma das suas e ele concorda.
– Estão aqui às roupas, pode tomar banho se quiser. Você já é de casa, sabe onde está tudo.
– Obrigado.
– Vou descer para recepcionar os demais.
– Não. – Pego em seu braço. – Não posso correr o risco de Letícia falar com Vinicius, antes de eu saber o que ela quer comigo. Por um breve instante, passa pela minha cabeça, ela ter me visto com Marcos no carro, já que ela disse a Mariana que voltaria e acabou não voltando. Não gosto nem de pensar nessa possibilidade, eu errei novamente em me deixar levar pelo momento, porém não cairei nessa de novo. Sinto-me muito mal por isso, mas na hora o desejo é incontrolável, mais forte do que eu.
– Por que não? – Vinicius me lança um olhar safado. Decido falar tudo, quer dizer, quase tudo.
– Hoje à tarde Letícia me procurou na cafeteria, porém eu não estava. Sai para comprar algumas mercadorias que estavam em falta no estoque.
– Letícia o que?! Como assim ela está a sua procura? – Vinicius semicerra os olhos.
– Não sei, eu também quero descobrir. Espera eu tomar banho e depois descemos, quero saber o que ela quer comigo, com você ao meu lado, não gosto dela, sabe disso.
– Ok. Irei te esperar, mas seja rápido.
Vinicius
Cretina! Vadia! Quem essa garota está pensando que é? Descumpriu nosso acordo de pensarmos em algo juntos e foi por conta própria atrás de Marcos. A raiva consome cada partícula do meu corpo, maldita hora que fui pedir ajuda a ela. Se Marcos desconfiar desse acordo entre eu e Letícia, não me perdoará tão facilmente. Corre o risco de rompermos nosso namoro sem chance de volta. Eu o “vendi” por um emprego, como sou otário!
– Estou pronto, podemos descer. – Marcos aparece na porta do quarto, levanto-me da cama, o puxo para dentro e tranco a porta, como de costume.
– Eu te amo! Eu te amo! – Coloco seu rosto entre minhas mãos e o beijo de forma exigente.
– Eu também te amo. – Marcos responde ao término do beijo. Seus olhos castanhos escuros fazem meu coração bater mais forte, chega ser palpável seu amor por mim.
Ao descermos, vemos que muitos dos convidados já chegaram, percebo que Marcos, por algum motivo, está apreensivo.
– O que foi, está tenso?
– Não, impressão sua.
– Vai mesmo tentar mentir para mim?
– Letícia é o motivo da minha tensão, não gosto dela e quero saber o que quer comigo. — Nesse exato momento os olhos de Marcos correm pela sala de estar, entre os convidados e enxerga Letícia próxima à porta. – Lá está ela. – Marcos pisa fundo e segue em sua direção, não consigo interrompê-lo e sou obrigado a segui-lo.
Marcos
Acabo deixando Vinicius para trás, ao mesmo tempo em que meu sangue ferve, meu coração acelera e bate nos ouvidos de tensão.
– Boa noite, Letícia. – Digo sério.
– Boa noite, Marcos. – Letícia abre um sorriso irônico e me mede dos pés a cabeça. – Olá Vinicius, como vai? – Diz a Vinicius que se encontra atrás de mim e nem responde seu cumprimento.
– Soube que foi atrás de mim hoje no meu trabalho, disse que voltaria e acabou não voltando, o que queria? – Pergunto tentando manter o controle.
– Ah! Estava andando por lá, precisava comprar algumas roupas e passei na cafeteria para tomar um expresso, resolvi lhe chamar para vir comigo a reunião de hoje, já que estávamos no mesmo lugar, poderíamos vir juntos, odeio andar sozinha. – Por um breve instante ela desvia seu olhar de mim e olha para Vinicius. – Falei a uma funcionária que voltaria, mas acabei perdendo a noção do tempo enquanto experimentava alguns vestidos e quando olhei para o relógio, imaginei que já estivesse saído do trabalho e vim para cá.
– Não acredito em você. – Digo entre os dentes.
– Por que não acreditaria em mim, Marcos? Não tenho cara de mentirosa, tenho Vinicius? – Ela pergunta e fixa o olhar no de Vinicius, que permanece quieto. Não estou entendo o porquê dela estar fazendo isso, é a mim que ela deve explicação.
– Sim, você tem. – Respondo. – Quero que se afaste de mim, quero que não dirija uma única palavra a mim, não vou com a sua cara.
– Quer saber de uma coisa, Marcos? Eu me simpatizava muito com você, mas depois dessa sua postura, sem motivos, estou mudando de ideia. Desculpe-me se fiz algo de errado e pode deixar, manterei distância. – Letícia é sarcástica. – Agora se me dão licença, tenho que encontrar minha avó.
Vinicius não tira os olhos dela, sua feição é de raiva e tenho a impressão de que ele sabe de algo, que não sei. Não acreditei na história contada por ela, mas deixei bem claro que a quero distante de mim.
– Vaca! – Digo baixinho, para ninguém ouvir.
– Irmãos, por gentileza, acomodem-se. Vamos começar a reunião. – Fala Pastor André.
Eu e Vinicius nos sentamos em um dos sofás.
– Quer uma bebida? – Pergunta.
– Sim, suco de laranja, se tiver. – Respondo.
– Ok.
Enquanto Vinicius vai pegar a bebida, mergulho em meus próprios pensamentos. A culpa de ter beijado Marcos pela segunda vez, faz com que eu queira desaparecer. Prometo a mim mesmo que nunca mais o beijarei, manterei distância conforme Vinicius pediu. E para piorar a situação, tenho certeza de que Letícia mentiu descaradamente, ao dizer que só queria minha companhia para chegar até aqui e fico apreensivo em imaginar, que talvez ela tenha visto algo que não deveria. Merda!
Percebo que Vinicius está demorando, olho para trás e o vejo conversando com ela, de pronto me levanto para ir até lá.
–... Não é mesmo, Marcos? – Fala Pastor André.
– O que? – Pergunto confuso. Do outro lado da sala enxergo meus pais, com o olhar “Onde você está com a cabeça? Preste atenção!”.
– Estou dizendo a todos os irmãos, o quanto você é zeloso e o como se empenha todos os anos para conseguir donativos para o Bazar. – Continua Pastor André.
– Ah, sim. – Respondo sem jeito.
– Você poderia dar algumas palavras sobre seus métodos para arrecadar donativos?
– Claro. – Sou o centro das atenções no momento, estou na frente de todos e antes deu falar qualquer coisa, congelo ao ver Letícia e Vinicius entrando no escritório do Pastor André.
Vinicius
– Sua IDIOTA! O que você foi fazer atrás do Marcos hoje, no trabalho dele? – Pergunto furioso. – Pensaríamos em algo juntos, lembra-se?
– Ei! Abaixa a bola. – Letícia fala ao sentar-se na cadeira do meu pai.
– Não abaixo nada e fala logo, qual foi a sua intenção em ir atrás dele?
– Já falei a ele e você ouviu. Estava por lá, comprando roupas, decidi tomar um expresso e convida-lo a vir comigo. Aproveitei que estaria ocupado ajudando seu pai e tomei minhas próprias decisões. Não preciso de você para toma-las.
– Não acredito nessa historinha, você está escondendo algo! – Começo a ficar louco de raiva e impaciência.
– Sente-se, pois o que tenho para te mostrar é bombástico! – Letícia sorri. – Se ficar de pé, é capaz de cair.
– Mostre logo o que você tem. — Sento-me e respiro fundo.
– Mostrarei, mas deixe-me concluir. – Letícia se recosta na cadeira e cruza as pernas. – Eu realmente menti ao contar essa história.
– Eu sabia! – Falo.
– Cala a boca! Você sempre me interrompe na parte mais emocionante. – Letícia tira seu celular da bolsa e fica com ele nas mãos. – Como eu estava dizendo, menti e não nego. Não voltei à cafeteria porque perdi a hora experimentando vestidos e sim porque flagrei nosso querido irmão Marcos em uma situação um tanto quanto constrangedora.
Minhas mãos começam a tremer, esse suspense está me tirando do sério.
– O que você viu Letícia? – Minha voz está embargada, um nó se formou em minha garganta e meu coração está acelerado. O medo de saber o que Letícia viu, faz meu corpo formigar, sinto que não é nada de bom, pois ela está sorrindo muito com a situação.
– Veja. – Letícia mexe no celular, procurando por algo e antes de me entregar sorri.
Meu mundo para, literalmente falando. Minha voz some, minhas mãos tremem e meus olhos enchem d’água. Tento me conter, porém o sentimento que esmaga meu peito é muito mais forte, as lágrimas escorrem pelo meu rosto.
Não acredito no que estou vendo.
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