Amor & Pecado

4 Capítulo 4 - O Início: Narrado por Vinicius


Espero não ter irritado ainda mais o Marcos com a nota de cem reais que coloquei discretamente em seu bolso, enquanto estávamos no carro. Me preocupo com ele e realmente quero ajuda-lo. Ultimamente estamos brigando muito, sei que sou meio convencido, mas é mais forte que eu. Gosto de ser notado e cobiçado, não gosto da Letícia como pessoa, mas curto o jeito que ela me olha, ela praticamente tira minhas roupas com os olhos, isso que ela frequenta a Igreja e sua avó, mulher que a criou, é muito rigorosa com os mandamentos. Mas jamais faria algo, com quem quer que seja enquanto estiver com o Marcos. Não tenho nenhuma pretensão de larga-lo. Só fico confuso quando paro para pensar aonde nossa relação irá nos levar. Se eu disser que não tenho medo dos meus pais e do julgamento das pessoas estarei mentindo, mas o que posso fazer se o quero tanto?

Era uma tarde qualquer do mês de Julho, durante o recesso escolar, que eu e Marcos ficamos pela primeira vez. Após termos apostado corrida de bike, por quase o bairro inteiro, estávamos estirados no tapete da sala de estar da minha casa, as janelas estavam abertas para o ar circular, o calor estava de matar e o suor escorria pelos nossos corpos. Como de costume eu estava sozinho em casa, tanto eu quanto Marcos somos filhos únicos e nossos pais sempre trabalharam fora, minha mãe é tradutora em um editora de livros infanto-juvenis e meu pai é contador, pelo menos era, até a Igreja expandir. Hoje ele se dedica totalmente a administração dela.

– Estou com sede, traz água pra mim? – Pedi à Marcos.

– E o que eu ganho com isso? – Pergunta.

– Nada bobão!

Fico de olhos fechados, até sentir um cutuque no pé da barriga.

– Levanta, trouxe sua água.

– Obrigado. – Sorrio.

Bebo em um único gole e me deito novamente. Marcos se senta ao meu lado e começa a mexer em meu cabelo.

– O que está fazendo? – Pergunto confuso.

– Te fazendo carinho, não posso? Somos meio que irmãos. – Marcos responde.

– É verdade. – Respondo meio desconcertado, nunca recebi carinho de nenhum cara e isso nunca passou pela minha cabeça.

Marcos fazia movimentos circulares com a ponta dos dedos, bem no centro da minha cabeça, comecei até ficar sonolento. Sua mão agora estava em meu rosto, eu estava tão relaxado que até me esqueci de que era ele ali ao meu lado e deixei que ele prosseguisse. Agora com a ponta do seu dedo indicador, contornava a linha dos meus lábios. Abri os olhos instintivamente e me sentei.

– O que você quer com isso Marcos? – Perguntei confuso novamente.

– Minha recompensa. – Disse ele rindo.

– Hã? – Agora eu estava realmente confuso.

– Pela água. – prosseguiu. — Larga mão de ser besta, você pegou a água porque quis.

Marcos fica mudo e sinto que na sua perspectiva, passou dos limites e naquele momento comecei a perceber que talvez ele gostasse de mim não só como amigo. Foi tudo muito rápido, de verdade, nunca tinha reparado nisso. Sabia que ele era diferente dos demais, mas não a esse ponto. E num passe de mágica, envolvido por aqueles olhos castanhos escuros estava beijando-o.

– Vai embora. – Pedi quando terminamos o beijo e vi sua feição de deleite.

– Por que? – Marcos perguntou.

– Vai embora! – Continuei.

– Mas...

– VAI EMBORA! – Gritei.

Nunca vou me esquecer de como os olhos de Marcos se encheram d’água no momento em que gritei. Ele se levantou e saiu pela porta.

Que diabos estava acontecendo comigo? — Pensei. – Beijei um cara? Meu melhor amigo? Seis meses se passaram, não liguei e mal olhei para a cara dele nesse tempo. Nunca havia ficado com homens, somente com garotas e falo que não foram poucas. Nesses seis meses que ficamos afastados fiz questão de ficar com praticamente todas as meninas que mostraram interesse por mim. Levou um tempo para me encontrar e saber o que realmente estava sentindo por Marcos. Cheguei à conclusão de que o que sinto por ele não surgiu no dia em que demos nosso primeiro beijo e sim de tudo o que vivemos desde pequenos até hoje, sempre fui muito ligado a ele.

Marcos diz que somos predestinados um ao outro, pois nascemos no mesmo dia, mês e ano. Sou apenas cinco horas mais velho que ele. Não acredito nem um pouco nessa bobeira, só ele pra acreditar nessas coisas, no mínimo teve ter visto essa bobagem em alguma revista adolescente que tem nas bancas de jornal.

Nesse um ano e meio nunca forcei nada com ele e quando digo nada, é nada mesmo. Marcos é virgem e respeito sua decisão, ele aguarda o momento certo, que com certeza será comigo. Seu primeiro beijo foi eu que dei, enquanto meu primeiro beijo foi seis anos antes do dele. Já aprontei muito nessa minha curta vida e não me arrependo. Mas uma coisa eu garanto, hoje sou inteiramente daquele pequeno ciumento de olhos castanhos escuros e cabelos negros, que me ensinou o que é gostar de alguém de verdade.