Amor & Pecado
33 Capítulo 33 - Recomeço
Notas iniciais
Acordo.
Ouço o som de algo “vibrando”. Meus olhos estão se abrindo lentamente, passo as mãos pelo grande edredom, até achar meu celular.
– Alô. – Digo cochichando. – Estou bem mãe. Desculpe-me, ok? Estou com Marcos, acabei saindo da quermesse e vim para a casa dele. Mãe! – Digo a interrompendo. – Mais tarde te ligo. Beijo. – Desligo.
Marcos está de bruços, descoberto e apenas com uma camiseta de malha azul clara e cueca boxer branca. Eu estou com a roupa do dia anterior, pelo visto nem banho eu tomei. Não me recordo de todos os detalhes da noite anterior, só o fato de Letícia estar grávida. Levanto-me cuidadosamente e sigo para o banheiro. Ligo a torneira, regulando a temperatura da água, enquanto a banheira enche. A variedade de sais de banho é enorme, acabo escolhendo um de aroma floral, acredito que me deixará mais relaxado. Minha mãe disse que quer falar comigo urgentemente, que algo muito grave aconteceu e precisa que eu volte logo para casa. Acabei a interrompendo e concordei, porém não voltarei cedo. Quero ficar longe de tudo e aqui com Marcos ficarei bem.
Marcos. Impossível pensar nele e não sorrir. Sinto-me mal pelo que fiz ontem. Chorei por outro, em seus braços. Que tipo de pessoa faz isso?! Sou um IDIOTA! Tiro minhas roupas e mergulho lentamente na água quente da banheira. O aroma dos sais já toma conta do ambiente. Pelas janelas entra a luz do sol, percebo que o céu está claro e que o domingo será lindo. Esfrego vagarosamente meu corpo com a esponja de banho.
– Bom dia. – Marcos entra no banheiro, sobe os pequenos degraus de mármore e senta-se ao lado da banheira. – Dormiu bem?
– Sim, dormi. – Digo acanhado. — Obrigado por tudo.
– Não foi nada. Estarei sempre ao seu lado. – Marcos sorri.
– Quero te pedir desculpas, por ter chorado daquela maneira em seus braços ontem. – Continuo sem graça.
– Foi difícil te consolar, porém o amor tudo sofre...
– Tudo crê... – Digo.
– Tudo suporta...
– O amor jamais acaba. – Completo a frase, admirado.
– Pode desfazer essa cara de espanto. – Marcos ri. – Sei que é uma passagem bíblica. Posso não frequentar uma Igreja ou acreditar plenamente em tal doutrina, porém procuro conhecer um pouco de tudo.
– Você é perfeito, sabia?
– Ninguém é perfeito. – Marcos diz ao se levantar. – Usarei o banheiro após o seu banho.
– Por que você não entra aqui comigo? – Sério que eu acabei de dizer isso?!
– Não entrarei porque perderei meu autocontrole. – Por um instante sua expressão fica séria.
– Para que autocontrole? – Pergunto com um pequeno sorriso.
– Para não me machucar e consequentemente não machucar as pessoas. – Marcos se retira do banheiro e volta para o quarto.
Estou simplesmente sem palavras. Nunca Marcos falou assim comigo. Merda! A culpa no meu peito cresce a cada instante. Querendo ou não, ele acabou de dizer que estou o machucando com certas atitudes. Apresso-me no banho e logo saio da banheira e me enrolo em uma grande e felpuda toalha salmão.
– Separei estas roupas para você. – Marcos aponta para a calça, camiseta, cueca, meias e um par de tênis em cima da cama.
– Obrigado.
Marcos entra no banheiro e ouço o som do trinco se fechando do lado de dentro. Observo as roupas separadas por ele. Vejo que são exatamente do meu tamanho e de muito bom gosto. Estão com um aspecto de que nunca foram usadas. Será que foram compradas para mim? As visto e deito novamente na cama. Encaro o teto e me perco em pensamentos. Ouço o som da água caindo, pelo visto ele preferiu tomar uma ducha a um banho de banheira.
As imagens da noite anterior tomam formas em minha cabeça. Letícia dizendo estar grávida, eu jogando o chá em Vinicius por ciúmes e raiva. Marcos me segurando... O que fazer com esse sentimento por Vinicius? Isto vai me deixar louco! Fecho meus olhos e tento limpar minha mente.
– Acorde! Vamos descer e tomar café da manhã. – Abro os olhos e Marcos pousa sua mão esquerda em meu rosto, enquanto seu polegar afaga a maçã do meu rosto. Está tão lindo com o cabelo curto e úmido. Seus olhos estão um pouco mais escuros que o normal, porém meigos como sempre. Seus lábios estão levemente repuxados para cima, formando um pequeno sorriso.
– Não estou com fome. – Murmuro.
– Você precisa se alimentar. – Marcos franze o cenho rapidamente. – Ontem deixei você dormir sem comer, mas hoje você não sai daqui sem tomar um café reforçado. – Marcos tira a mão do meu rosto e pega a minha, puxando-me. – Logo mais o levarei para casa.
– Não, por favor. – Seguro sua mão com força e ponho-me de pé rapidamente.
– Sua mãe deve estar preocupada. Ontem pensei em ligar para ela, mas seu celular tem senha e não tive coragem de acorda-lo para pedir o número.
– Falei com ela agora pela manhã. Pediu que eu voltasse logo para casa porque quer tratar um assunto sério comigo, porém não quero ir. Pouco me importa que assunto seja esse. Por favor, me deixe passar o dia com você. – Suplico o encarando no fundo dos olhos.
– Vamos tomar café, depois discutimos isso. Ok?
– Tudo bem.
Ao chegarmos à cozinha, reparo que está tudo muito organizado e silencioso.
– Estamos sozinhos? – Pergunto.
– Sim, estamos. Os empregados tiram folga aos domingos, já fico sozinho aqui, quase sempre e meus pais retornam a cada quinze dias.
– Então é você que vai preparar o café? – Pergunto desconfiado.
– Sim, serei eu. Por quê? Está com medo? – Marcos sorri.
– Um pouco. – Rio ao me sentar junto ao balcão.A cozinha é enorme e muito bem equipada. Marcos pega alguns ingredientes na geladeira e coloca ao lado do fogão cooktop vermelho, que da um contraste sofisticado junto ao balcão de granito preto.
Ele parece estar tão acostumado a fazer isso. Suas mãos são habilidosas ao quebrar os olhos na frigideira e cortar o bacon em tiras.
– Quer que eu frite para você também? – Marcos pergunta.
– Hã... Melhor não. – Sorrio sem graça. – Não tenho o costume de comer frituras pela manhã. Prefiro algo mais leve.
– Ok. Irei terminar de fritar estes para mim e vejo o que você quer comer.
– Posso procurar na dispensa o que quero. – Digo.
– Não precisa. Pode deixar, que eu te sirvo.
Marcos coloca os ovos e bacon em um prato, após estarem fritos e põe a mesa com mamão, suco de laranja, pão integral e alguns biscoitos. Ao ver a variedade de alimentos, me dou conta de que estou com fome. Sento-me, agora na mesa, e fico muito grato pelo mamão estar doce. Hmm... Está delicioso, na verdade.
– Você me disse que não estava com fome. – Marcos fala.
– Na verdade não estava, até ver o mamão. – Sorrio.
– Irei considerar o seu pedido de passar o dia comigo, porém terá que avisar a sua mãe, já que ela está contando que a pouco, você estará em casa.
– Ok, irei avisa-la. – Murmuro.
Terminamos o nosso café e como prometido, liguei para minha mãe e a avisei que passaria o dia longe de casa, como previsto ela protestou, porém Marcos tomou a liberdade de pegar o celular de minhas mãos e em num passe de mágica (e persuasão) a convenceu e prometeu que me deixaria na porta de casa as 20 h.
– O que foi isso? – Pergunto incrédulo.
– Nada como um pedido educado e simpatia. – Marcos da uma piscada.
O ajudo com a louça, ainda inconformado com sua habilidade. Minha mãe o conheceu ontem, literalmente falando e já está depositando sua confiança nele.
– Então... Vamos dar umas voltas o que acha? – Marcos pergunta.
– Ótima ideia! – Respondo entusiasmado. – O dia está lindo. Tem algo em mente?
– Sim, tenho. Deixe-me confirmar uma informação. — Marcos pega seu celular do bolso e verifica algo. — Tudo certo, vamos?
– Você não vai me falar qual é a sua ideia? – Pergunto curioso.
– Será surpresa e acredito que você gostará.
Marcos me pega pela mão e antes de sairmos pela sala de estar, ele verifica se os alarmes da casa estão ativos. Passamos direto pela garagem.
– Não iremos de carro?
– Não, iremos de metrô.
– De metrô?! – Pergunto surpreso e rio.
– Por que está rindo? – O cenho de Marcos está franzido.
– Ah! Você e o metrô não combinam. – Continuo rindo.
– Bobo. Vamos logo! – Marcos sorri.
Não faço ideia para onde estou indo e o fato de estar indo de transporte público com o Marcos me deixa um pouco preocupado. Será que ele sabe o que está fazendo? Chegamos à parada mais próxima de sua casa, o dia está quente e não há como não transpirar. Odeio isso. Marcos dá sinal para o ônibus com destino a estação mais próxima. Ao entrarmos avisto dois lugares vagos no fundo do ônibus. Paramos na catraca e Marcos tira sua carteira do bolso e estende uma nota de cem reais para o cobrador. Não consigo conter o riso involuntário, que logo se transforma em gargalhada. Os passageiros me encaram para ver o motivo da minha histeria. O cobrador olha rapidamente para nota, para Marcos e quando olha para mim não resiste e também ri, porém de forma mais contida.
– O que está acontecendo? – Marcos pergunta, constrangido.
– Nunca que o cobrador terá troco para uma nota de valor tão alto. – Contenho minha risada. – Deixe que eu pago. – Falo.
– Não... – Marcos protesta.
– Depois você me devolve, se isso lhe satisfaz.
Pago o cobrador com as moedas que eu tinha no bolso e passamos a catraca.
– Não gostei da forma que você rio de mim. – Marcos diz ao se sentar do meu lado.
– Me desculpe, não quis te constranger. Mas nunca que uma pessoa acostumada a utilizar transporte público, tentaria pagar a passagem com uma nota de cem reais. – Digo revirando os olhos. Marcos parece não entender a explicação. Para ele, ter essa quantia na carteira é tão natural, que o faz pensar que qualquer um também tem. Seu olhar confuso é tão lindo. Sua feição é de um garoto de dez anos que é motivo de chacota na escola, sem saber o motivo. Seus olhos percorrem os avisos colados nas janelas do ônibus.
– Entendi. – Marcos fala com um sorriso fraco. – Ao lado da catraca está um aviso de que o troco é de no máximo dez reais. Por isso você e o cobrador riram, não é? – Marcos ainda estava perdido com a situação.
– Foi por isso. – Há momentos que achamos engraçado sem ter motivo e esse foi um deles. Achei engraçado um burguês, que provavelmente nunca entrou em um ônibus, tentar pagar a passagem desta maneira. Por isso concordo com a dedução de Marcos e tento mudar de assunto.
Falamos de assuntos triviais até chegarmos à estação de metrô. Dou a ideia de recarregarmos o meu vale transporte, assim economizaremos dinheiro e a viajem fica mais prática, sem a necessidade e abrir a carteira a todo momento. Marcos segura seu celular e tenho certeza de que está fazendo a rota até o nosso destino, pois a cada parada feita pelo vagão, ele confirma a estação no celular. Agradeço profundamente a Deus, por estarmos em um vagão com ar condicionado, pois o calor está de matar. Pelo menos, o fluxo de pessoas nas estações está menor, já que hoje é domingo.
– Iremos descer na próxima estação. – Marcos me avisa.
Descemos na estação São Bento, estamos no centro da cidade de São Paulo. Onde estamos indo? Marcos guarda o celular no bolso e pega minha mão, pelo visto ele não tem mais dúvidas de onde estamos. Andamos por uns dez minutos, passando por todos os tipos de pessoas. As ruas do centro tem outro ar, tenho a sensação de estar em outro país. Meus olhos decoram cada esquina que passo com Marcos, para mim está sendo algo novo. Não tenho o costume de sair do meu bairro e muito menos fazer passeios culturais pelo centro. Paramos em frente a um edifício enorme chamado Altino Arantes.
– Estamos na nossa primeira parada. – Marcos sorri.
– Primeira parada? – Pergunto com a sobrancelha erguida. – Onde mais você me levará, hein?!
– Deixe a curiosidade de lado e apenas curta o momento. – Marcos responde com um sorriso carinhoso. – Viemos para fazer uma visita. – Marcos dirige-se ao porteiro.
– Desculpe-me Sr. mas o edifício está aberto para visitação apenas em dias úteis. Marcos chega mais perto do porteiro e fala algo baixinho em seu ouvido, me esforço para ouvir, porém não consigo. Apenas vejo um rápido cumprimento entre eles.
– Apenas dez minutos. – O porteiro finalmente fala, com a feição apreensiva ao abrir a porta para nós.
Impressiono-me ao adentrar o saguão com um enorme e belíssimo lustre de cristal no formato do edifício, pendurado no teto.
– Nossa! Isso deve pesar toneladas. – Digo impressionado a Marcos.
– Na verdade, uma tonelada e meia. – Marcos fala com certo ar de esperteza e eu acabo rindo. – Na verdade lhe trouxe aqui para ver outra coisa. – Marcos chama o elevador e entramos.
– O que?! – Pergunto arregalando os olhos.
– Você já irá ver. – Marcos agora está tão ansioso quanto eu. – Vim aqui pela primeira vez com uns dez anos de idade, em um passeio escolar. Desde então nunca mais retornei.
Passamos pelo trigésimo quinto andar e o elevador abre suas portas no topo do edifício. Perco o ar e a voz ao sair do elevador. Meu Deus, que vista linda! Penso comigo mesmo. O mar de prédios toma conta da minha visão e como pano de fundo tem o céu azul, que me faz ficar ainda mais maravilhado. Olho para cima e vejo uma torre, com diversas janelas e no topo da mesma a bandeira do Estado de São Paulo balança, conforme a velocidade do vento. Marcos me abraça por trás e pousa o queixo em meu ombro. Pode até parecer besteira, mas meus olhos se enchem d’água. A sensação de liberdade é incrível. Daqui de cima percebemos o quanto somos pequenos, comparado a esse mundo.
– Gostou? – Marcos sussurra em meu ouvido.
– A- adorei! – Gaguejo ainda sem acreditar na onde estou.
– Daqui do alto do mirante, conseguimos ver a Serra do Mar. – Marcos me gira apontando para o horizonte, sem tirar a outra mão da minha cintura. – O Pico do Jaraguá. – Seu indicador continua se movendo, juntamente com nossos corpos. – E alguns prédios da Avenida Paulista.
– Você pode ser guia turístico, sabia? – Rio.
– Posso ser o que você quiser Marcos. Basta você me dar a oportunidade. – Marcos me vira, deixando de frente para ele. O vento frio, do alto do prédio, chicoteia nossos rostos e os raios de sol nos aquecem ao mesmo tempo. O misto de sensações dentro de mim me deixa em êxtase. Como se eu fosse explodir de felicidade a qualquer momento. Suas mãos e braços protetores me envolvem em um abraço.
– Sim. – Digo com algumas lágrimas escorrendo pelo rosto.
– Sim, o que? – Marcos questiona confuso.
– Eu aceito seu pedido de namoro. Quero ser seu namorado!
– Sério?! – Marcos abre um sorriso largo e me olha no fundo dos olhos.
– Sério, seu bobo. – Respondo enxugando uma das lágrimas que não param de escorrer pelo meu rosto.
Seus lábios pedem passagem ao encontrar os meus. Seu beijo é carregado de cuidado e ternura. A sensação que tenho é de que somos os únicos no mundo e ao abrir os olhos serei capaz de alcançar as estrelas. Sinto borboletas no meu estômago de tanta felicidade. Pela primeira vez em muito tempo, sinto-me bem, protegido e amado. Ao abrir os olhos, fito o lindo par de olhos cor de mel que me desejou desde a primeira vez que me viu.
– Você está me fazendo o homem mais feliz deste mundo, Sr. Marcos Baldo! – Marcos se declara com a voz embargada e mãos trêmulas ao me segurar. Deposito um selinho em seus lábios.
– Nossos dez minutos devem estar no fim. Vamos descer, afinal de contas, o porteiro pode perder o emprego se formos flagrados aqui.
– É verdade. Mas antes, precisamos registrar este momento. – Marcos retira do bolso o celular e mira a câmera frontal para nós. Enquadra nossos rostos de forma que a paisagem esteja à mostra também e bate duas fotos. Uma de nós sorrindo e outra dele me dando um beijo no rosto. – Vamos! – Diz ao me pegar pela mão e corrermos para o elevador. Atravessamos o saguão as pressas. – Muito obrigado! – Marcos agradece o porteiro que alivia a expressão ao nos ver indo embora.
– Este porteiro é louco. – Digo ao estarmos distantes. – Há câmeras no edifício, com certeza irão ver que entramos.
– O problema já não é nosso. – Marcos responde.
– Você não tem medo?
– Não, afinal de contas não fizemos nada demais. Apenas fomos desfrutar da vista. – Marcos deu de ombros. – E nada neste momento estragará minha felicidade, pois a partir de hoje você é meu namorado. – Marcos sorri feito uma criança. – Agora iremos para a nossa segunda parada: Avenida Paulista.
– Que ótimo! – Digo. – Há muito tempo não vou até lá.
A viagem até o nosso segundo destino e rápida e tranquila, ao subirmos as escadas rolantes da estação e chegar à superfície, percebo que já é fim de tarde. Realmente a horas passaram rapidamente e neste momento meu estômago denuncia a passagem delas. Estou com fome.
– Que tal pararmos em algum lugar para comer? – Marcos sugere.
– Você leu meus pensamentos. – Sorrio. – E para ser franco, estou afim de um lanche do Mc’Donalds. Cheio de gordura Trans. – Brinco ao avistar o Mc do outro lado da avenida.
– Sem problemas, se meu namorado pede, eu faço. – Marcos fala ao pegar minha mão e atravessarmos.
Entramos no recinto, e como sempre, peço um Big Tasty, com fritas e refrigerante grande. Marcos se contenta com um simples hambúrguer e um suco médio de laranja. Ele confessa que não gosta de sair muito da sua dieta alimentar, o compreendo e me sinto satisfeito ao terminar a refeição.
– Preciso de algo doce. – Sorrio. – Quero um sundae de chocolate. – Peço a Marcos, fazendo beicinho.
– Caramba! – Ele sorri. – Você tem um apetite e tanto, hein?!
– Você não viu nada. – Rio.
Ele se deu por vencido e me acompanhou com outro sundae, porém de morango. Estamos andando tranquilamente pela avenida, observando pessoas de várias “tribos” indo e vindo. Roqueiros, skatistas, hippies e etc. Ao passarmos pelo MASP (Museu de Arte de São Paulo), encontramos um rapaz de vinte anos, aparentemente, com seu violão e cantando “Por você” do Barão Vermelho. Somos obrigados a parar e observar tal interpretação. A voz do rapaz é grave, porém muito afinada, sua habilidade com as cordas do instrumento é de impressionar qualquer um. Aos seus pés uma pequena caixa está aberta com algumas notas e moedas.
– Eu mudaria até o meu nome. Eu viveria em greve de fome. Desejaria todo dia, a mesma mulher. Por você, por você... – Marcos canta olhando para mim.
– Desejaria todo dia a mesma mulher? – Pergunto rindo. – Como assim?!
– Ah, você entendeu seu bobo! – Marcos me abraça e beija castamente meus lábios. Sinto meu rosto corar, nunca tinha feito algo parecido em público. Mesmo sabendo que aqui esse tipo de comportamento entre homens e mulheres é normal, não sou muito a favor da ideia. Mas prefiro guardar minha opinião, não quero, de forma alguma, arruinar nosso dia. Marcos abre a carteira e coloca uma nota dentro da caixa do artista, que agradece singelamente com um balançar de cabeça e um sorriso.
– Hora de irmos embora, não é? Você combinou com a minha mãe às 20h em casa.
– Sim, está na hora.
No caminho de volta, acabo cochilando no ombro de Marcos, enquanto estamos no metrô e fico atento ao pegarmos o ônibus com destino a minha casa.
– Boa noite. – Marcos fala ao parar em frente ao meu portão exatamente às 19h50. – Nos vemos amanhã no trabalho.
– Combinado. Boa noite. – Sorrio de volta. – Tome cuidado no caminho de volta, ok? – Digo preocupado. – Quando chegar a sua casa, me liga para avisar que chegou bem e, por favor, guarde suas notas de cem reais e utilize o cartão nas catracas. – Rio.
– Estou vendo que esse momento ficará marcado na história, não é?
– Sim, ficará. – Sorrio. – Obrigado por tudo.
– Isso não foi nada, meu príncipe. – Marcos me abraça rapidamente. – Até amanhã.
– Até. – Respondo embasbacado com tamanha gentileza e educação.
Entro em casa e o silêncio é predominante. Ascendo à luz da sala e subo as escadas. Bato levemente na porta do quarto dos meus pais e peço licença ao entrar.
– Boa noite. – Digo.
– Boa noite. – Minha mãe e meu pai respondem juntos.
– Como foi o seu dia? – Minha mãe pergunta.
– Foi muito legal, mãe. – Digo entusiasmado. – Marcos e eu fomos visitar um edifício histórico no centro da cidade, a vista é incrível. Poderíamos ir juntos algum dia.
– Vamos sim. – Minha mãe sorri suavemente. – Vejo que se divertiu bastante.
– Sim. – Respondo. – Qual era o assunto a ser tratado, pela manhã, com tamanha urgência?
– Você não ficou até o fim do Bazar Beneficente ontem, não é?
– Não. – Digo de pronto. – Marcos me chamou para ir até sua casa e aceitei, ele queria me mostrar alguns jogos importados que ele trouxe do exterior. – Que desculpa mais esfarrapada!
– Aconteceu algo grave com o Pastor André. – Minha mãe fala séria.
– O que?! – Arregalo os olhos e Vinicius vem de imediato em minha mente.
– O desgraçado foi preso, por corrupção. – Meu pai cospe as palavras.
– O que?! – Repito a indagação, agora com incredulidade.
– Não fale assim, Claudio. – Minha mãe o repreende. – Devemos perdoa-lo. – Meu pai se mantém em silêncio e pela sua expressão, vejo que sua resposta não é nada agradável e prefere manter para si.
– Meu Deus! Diane e Vinicius, como estão? – Pergunto.
– Estão bem, na medida do possível. Irmã Márcia contribuiu com a investigação no último ano e foi comprovado que somente André desviava dinheiro e que o filho e a esposa estão limpos.
– No último ano? – Pergunto ainda sem acreditar. – Quer dizer que ele nos roubava há muito tempo!
– Sim. – Minha mãe assentiu. – Porém, eu e seu pai estamos dispostos a oferecer suporte a Diane e Vinicius e gostaríamos de pedir a você que relevasse o motivo da briga entre você e Vinicius neste momento difícil. – Minha mãe pede. – Corrupto ou não, Pastor André nos ajudou em diversas situações e vocês são praticamente irmãos e não devemos dar as costas para os nossos irmãos. – Minha mãe me fita, carinhosamente.
– Tudo bem, mãe. Darei um jeito de falar com Vinicius. Agora irei tomar um banho e dormir, amanhã irei trabalhar.
– Tudo bem, meu querido.
– Boa noite a vocês. – Digo.
– Boa noite. – Ambos respondem.
– Marcos! – Minha mãe me chama, enquanto fecho a porta e volto a abri-la.
– Sim? – Pergunto.
– Eu te amo! – Ela fala me mandando um beijo.
– Eu também te amo mãe. – Respondo com outro beijo.
– E a mim, alguém ama? – Meu pai pergunta com um falso tom de desapontamento.
– Olha quem está com ciúmes. – Minha mãe fala ao abraça-lo.
Não resisto e como um garotinho de dez anos me jogo entre os dois na cama e abraço cada um com um braço.
– Amo vocês, igualmente. – Digo depositando um beijo no rosto de cada um.
Levanto-me e sigo para o meu quarto. Após separar minha roupa e estar me preparando para entrar no banheiro, meu celular vibra e recebo uma mensagem de Marcos.
Cheguei em casa, são e salvo!
Metrô e ônibus, nunca mais. Rsrs.
Obrigado por me fazer tão feliz!
Até amanhã. Beijos. ;)
Tomo meu banho e ao me deitar penso em ligar para Vinicius, mas logo a vontade passa. O que vivi com Marcos, hoje, foi tão bom que não quero correr o risco de estragar. Meu celular vibra mais uma vez e ao abrir a mensagem me deparo com nossa foto no topo do edifício. Sorrio e por instinto a coloco como protetor de tela do aparelho. Que hoje seja o inicio de um novo ciclo na minha vida. É o que desejo ao fechar meus olhos e adormecer.
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