Amor Mudo
5 Capítulo 5 - Mudo
Notas iniciais
"Eu queria tanto dizer que não te quero, não te amo, mas por mais que tento lhe esquecer, aprendo que não vivo sem o teu mundo."
Anônimo
— Deidara, eu estou com medo.
— Eu sei.
— Mas eu estou com medo.
— Eu já entendi, Ino.
— Deidaraaaaaaaa! Eu estou com medo.
— Caramba, Ino! Eu já falei que entendi! Você quer que eu faça o que? Dance a macarena? Seu medo não vai sumir. — Ele bufou.
— Você é um inútil mesmo, não serve nem para acalmar uma pessoa antes de uma cirurgia. — Ela estalou a língua. — O papai faria isso melhor.
— Uma pena que ele não esteja aqui, né? Agora cale a boca.
Deidara apertou sua mão e Ino sorriu.
— Ei, Deidara... — Começou. — Você acha que eu vou morrer?
— Tch, claro que não. Não vou permitir. Não vai sobrar ninguém pra encher o saco.
— ...Obrigada, Deidara.
— Nããããããão! Não torne isso emocional. — Ele apertou ainda mais e um sorrisinho surgiu em sua face. — É minha obrigação estar aqui.
Nesse exato momento, a porta abriu e a enfermeira entrou ali.
— Senhorita Yamanaka, está na hora.
Um calafrio percorreu todo o corpo da loira, que continuou estatelada segurando a mão do irmão enquanto outros enfermeiros entravam no quarto com uma maca. Com as pernas bambas, ela se sentou na maca para se deitar, sem nunca parar de segurar a mão de Deidara.
— Está na hora, maninha. — Deidara falou suavemente e a jovem soltou a mão dele relutantemente. — Você vai passar por essa.
— Sim. — Mas ela não acreditava nisso.
A maca começou a se mover.
E as memórias da Yamanaka também.
Sua infância. Adolescência. Faculdade. Festas, bebedeiras, estudos. Hinata, Deidara, papai, mamãe.
Sasuke. Sasuke. Sasuke. Sasuke.
A primeira noite. O primeiro 'eu te amo'. Os beijos intensos, as noites de amor e os momentos simples. As brigas e discussões.
Tudo.
— Ino. — A memória longínqua dele chamando o seu nome surgiu e ela fechou os olhos, sentindo as lágrimas ameaçando cair. — Ino! — A voz ficou mais alta, e ela duvidou seriamente da sua sanidade. — INO!
Real.
Era real.
Levantando subitamente e descoordenando o andamento da maca, ela olhou para trás e viu.
Sasuke.
Ele corria rapidamente, ofegante e com a respiração sôfrega.
— Senhorita Ino, permaneça deitada! — Pediu a enfermeira, mas foi prontamente ignorada. Nesse momento, Sasuke acompanhou a maca recendo olhares reprovadores dos enfermeiros. — O senhor não pode ficar aqui.
— Ino! Ino. — Ele começou segurando sua mão.
Ela quis o mandar á merda.
Falar para esquecê-la de uma vez.
Gritar com toda a força: "Me deixe em paz!"
Mas Ino não pôde. Simplesmente não pôde.
Estava feliz demais para isso.
Ele estava ali. Sasuke estava ali. Por ela.
Como ela se sentia uma fraca...
— Você não vai morrer. Não vai. — Ele disse com determinação. — Quando você terminar a cirurgia, eu vou te dizer algo. Eu tenho que dizer algo. Ino. Ino. — Ele disse, agoniado. — Eu te amo, nunca se esqueça disso. Eu amo você. Você. Apenas você.
— Sasuke... — Ela começou, mas dois enfermeiros os separaram, impedindo-a de dizer mais alguma coisa. — Sasuke! — Ela foi forçada a deitar, e última coisa que ouviu antes de entrar na sala de cirurgia, foi:
— VOLTE VIVA NÃO IMPORTA O QUE, INO! — Ele gritou, Sasuke nunca, nunca elevava a voz. Mas ele fez por ela.
Com isso, uma nova determinação nasceu no coração da moça.
Ela ia sobreviver. Ela tinha que sobreviver.
Assim ela conseguiria falar para Sasuke, mesmo que não houvesse mais voz para isso.
"Eu amo você também."
***
— Quando ela vai acordar?...
***
— Nós já falamos para você não aparecer aqui de novo, nossa filha não precisa de alguém como você.
***
— Não importa se você tem o divórcio ou não, nada muda o que você já fez.
***
— Saia daqui.
***
— Ino... Acorde logo...
***
— Mas o rapaz parece sincero, Inoichi.
— Não importa, ele manipulou minha filha. Nossa filha.
— Isso não seria a Ino que teria que nos dizer?
— ...
***
— Mãe, pai... Ela vai mesmo acordar?
— Não falei besteiras, Deidara. É claro que ela vai acordar. Todos sabemos o quanto Ino é forte. Um câncerzinho não vai parar a fúria de Ino.
— As vezes não tenho tanta certeza assim... Nem a Ino pode ser forte para sempre.
— Fique quieto.
***
— Minha filhinha... Tão pálida...
— Não fique triste, querida, ela vai melhorar logo. É Ino, afinal. A mesma menina que nos levava para a diretoria todos os dias por discutir com alguém.
— Espero que esteja certo...
***
— Você tem que acordar, Ino.
***
— Ino...
***
— Obrigada, Sra. Yamanaka.
— Por nada, filho... Tenho certeza que minha filha estava com você por um motivo. Só tome cuidado para Inoichi e Deidara não te verem. Tome seu tempo, vou ficar vigiando.
***
— Eu te amo, Ino... Você sempre soube, certo? Ou talvez não... Eu fui muito cruel. Eu queria pedir seu perdão, mas não sei se mereço... Ei, Ino. Por que não acorda para sanar minhas dúvidas? Penso que qualquer coisa seria melhor do que te ver pálida e doente desse jeito. Que seja sua raiva, seu ódio ou até mesmo seu amor... Eu recebo qualquer um deles com felicidade, se você acordar. Eu só queria ver o seu sorriso de novo... Seus olhos brilhando ao assistir aqueles dramas chatos. O seu rosto contorcido de raiva, e até queria sentir os tapas doídos que você me dava nos momentos de raiva. Você realmente não tem consciência da sua força. Eu só quero... Que você volte, Ino. Estou esperando. Todos estamos.
***
— Ino...
***
— ...Ino...
***
— ...Ino.
***
— Por favor, acorde.
***
A primeira coisa que a jovem ouviu ao acordar, foi o insistente "pi, pi, pi " que uma máquina fazia ao seu lado. Seguido de passos distantes, conversas indecifráveis, e um ressonar próximo.
Ela queria abrir seus olhos, mas eles pareciam pesar mil toneladas, então ela mexeu os dedos, mas também não conseguiu.
Porém não era porque ela pesava mil toneladas, e sim pela morna e macia sensação de calor que a envolvia. O calor de uma mão humana.
Lentamente, junto com os olhos que se abriam com dificuldade, as memórias de Ino voltaram. Sasuke e a briga. O câncer e a cirurgia. As últimas palavras antes de ela sucumbir a anestesia.
"— Você não vai morrer. Não vai. — Ele disse com determinação. — Quando você terminar a cirurgia, eu vou te dizer algo. Eu tenho que dizer algo. Ino. Ino. — Ele disse, agoniado. — Eu te amo, nunca se esqueça disso. Eu amo você. Você. Apenas você."
"— VOLTE VIVA NÃO IMPORTA O QUE, INO! — Ele gritou, Sasuke nunca, nunca elevava a voz. Mas ele fez por ela."
E agora, ali estava ele. A Yamanaka não conseguia mover o pescoço, mas o ângulo em que ela estava deitava dava a plena visão do homem deitado sobre suas coxas, com os cabelos negros espalhados pelo cobertor branco e segurando sua mão.
Sua mão.
Suspirando, ela gravou aquela divina imagem em sua memória, antes de se desvencilhar com cuidado e guiar a mão até a cabeça do rapaz e acariciar os fios negros e macios.
Ia tentar chamar o seu nome, mas lembrou de que já não tinha mais voz. Passou os dedos pelo pescoço e sentiu a aspereza da gaze, que protegia a cicatriz da cirurgia que lhe retirou a voz. E seus olhos arderam.
De hoje em diante, ela não emitiria mais nenhum som.
Antes que a primeira lágrima escorresse por seus olhos, Sasuke se moveu e gemeu, acordando. Confuso ele levantou, com os ossos estalando por todo seu corpo, fazendo uma careta ele esfregou os olhos, para só então olhar para o rosto de Ino.
Ao perceber que a mesma se encontrava acordada, o sono que marcava seu semblante se desfez em segundos e ele se levantou bruscamente para se aproximar da mesma, segurando seu rosto ainda que subitamente, delicadamente entre suas mãos que tremiam.
— Ino! Ino... — Ele encostou suas testas e suspirou. — Eu achei que você não fosse mais acordar...
Mesmo que ele tivesse tratado-a tão cruelmente, mantido-a nas sombras por tanto tempo, depois de todas as lágrimas que derramara por ele, nas noites mal dormidas que ela tivera agonizando sobre seus medos. Mesmo depois de todo o mal... Quando ele fazia isso, o coração de Ino ainda se derretia. Queria odiá-lo, mas estava feliz demais simplesmente por ele estar ali.
— ...! — Ela abriu a boca para falar algo, esquecendo-se de que suas cordas vocais já não estavam lá. Sasuke olhou-a confuso quando foi afastado e recebeu uma série de sinais indecifráveis.
— Eu... Me desculpe, Ino, não estou entendendo. — Falou com pesar e a loira suspirou exasperada, pensou por um segundo e apontou enfaticamente para o celular do homem a sua frente. — Isso? — Ele mostrou o aparelho e ela arrancou-o de sua mão, colocando a senha e começando a digitar furiosamente no bloco de notas.
"Por que?" Foi o que escreveu.
— Por que, você pergunta... — Ele suspirou e pela primeira vez a mesma notou as profundas olheiras que estavam sob seus olhos. Afinal, quanto tempo ela tinha passado desacordada. — Foi logo depois que você saiu do flat, eu pensei que poderia aguentar, eu juro que pensei. Mas, assim que a porta se fechou e eu me achei sozinho naquele apartamento enorme... Eu me senti tão vazio. Entretanto, não me deixei levar, eu tinha Sarada, eu ia passar por aquela, afinal, quantas paixões na nossa vida vão e vem?
Ino tinha que admitir que ele estava certo. Ainda lembrava do seu primeiro amor, Hyuuga Neji, durante o ensino fundamental, que nunca floresceu, já que o rapaz que era primo de Hinata, já era apaixonado por sua amiga, Tenten. E se lembrava também de seu ex, Sabaku no Gaara, que namorou por mais de dois anos no ensino médio, mas que no fim se separaram, já que eles tinham objetivos muito diferentes, então terminaram pacificamente e seguiram seus próprios caminhos. Nos dois casos, quando tudo teve um fim, doeu, e muito. Ela era Yamanaka Ino, e nunca tinha limites quando se tratava de amar alguém, e tendia a se machucar muito por causa disso. Porém, ela foi capaz de supera-los, Neji e Gaara. E hoje só conseguia lembrar deles como boas memórias de uma juventude brilhante.
— Eu me perguntei por uma semana toda... — A voz grave dele a surpreendeu.- O porquê de com você ser diferente. — Um arrepio desceu pela espinha da jovem. — A verdade, é que você estava tão cravada no meu corpo e alma. Ocupava um espaço tão grande no meu coração, que quando eu te deixei ir... Nada foi capaz de tapar aquele buraco. E quando Hinata me disse o que se passava com você, primeiro veio a raiva. — Ele deu um sorrisinho cansado. — Quantas não foram as vezes que eu falei pra você ver o que era essa dor de garganta, mas você nunca quis. Depois... — Seus olhos ficaram sombrios. — Veio o desespero. Você poderia morrer, e nossa última conversa terminou em lágrimas. Eu não podia, eu não queria que acabasse daquele jeito. Fui correndo para o hospital, e o resto você já sabe. — Ele pegou sua mão e apertou. — Eu me arrependo tanto, mas Ino... Só quando eu estive tão perto de perdê-la, eu percebi que não podia deixar isso acontecer. Porque eu te amo.
E foi tudo que Ino precisou ouvir.
Ela poderia perguntar por Haruno Sakura e Sarada. Poderia perguntar sobre a empresa. Mas essas perguntas poderiam ficar para depois. Tudo que importava era ela e Sasuke. Sasuke e ela.
Sabia muito bem que teria que enfrentar sessões de radioterapia, e não sairia tão cedo do hospital. Sabia também que poderiam haver problemas com a empresa e com Sakura, e principalmente, que ela nunca mais falaria. Mas sinceramente? Ela não dava a mínima.
Ah, ela se perguntava porque mesmo nessas condições, a felicidade que sentia era a maior da sua vida.
Talvez Ino fosse meio masoquista.
Beijou os lábios de Sasuke e deu sua resposta. Escutou algumas vozes e abriu os olhos durante o beijo, achando sua família na porta do quarto. Deidara e Inoichi pareciam em fúria, e sua mãe parecia estranhamente satisfeita. Franziu as sobrancelhas e apontou para fora, mandando-os embora, e apesar de seu pai e irmão parecerem ofendidos, sua mão não pareceu e os puxou saltitante para longe do casal.
Rindo da sua família, ela se aproximou mais de Sasuke e sentiu o calor de que tanto sentiu falta.
Meses depois...
Finalmente, o longo tratamento tinha acabado. Não foi tão fácil quanto a moça imaginou, mas finalmente acabou. As sessões de radioterapia deixaram sua pele do pescoço enegrecida e acabaram com sua autoestima, sem nem mencionar os efeitos colaterais.
Durante esse tempo, ainda houveram as aulas de linguagem de Sinais, que sua família, Sasuke e até mesmo Hinata e seu noivo Naruto — este foi arrastado mesmo — fizeram juntos. Ino quase chorou com todo o apoio, mas lágrimas não eram necessárias, ela poderia agradecer com um sorriso.
E também tinha o problema com Sakura e a empresa Haruno. Com o divórcio, a aliança financeira foi quebrada e Sakura ficou uma fera. Os dois passaram todo o tempo do tratamento lutando pela guarda de Sarada, que no fim foi dividida entre os dois. Os Hyuugas socorreram os Uchiha nas questões financeiras, e o pai de Sasuke apesar de ter ficado puto — até veio no hospital gritar com os dois, e acabou levando um soco de Deidara ao chamar Ino de "vadia sugadora de dinheiro" — acabou por aceitar a situação. Segundo Sasuke foi porque Mikoto, sua sogra, fez greve de sexo. Ino tentou não rir da situação, mas foi impossível.
Hoje era o tão esperado dia da alta, e ela não poderia estar mais feliz. Sozinha com Sasuke no quarto do hospital, ela "curtia" seus últimos segundos no quarto branco.
— Eu te amo, Ino. Eu sempre vou te amar. — Sasuke disse e a abraçou, e não pela primeira vez, Ino ficou triste por não poder respondê-lo. Mas haviam outras formas para dizer "eu te amo" para alguém.
Ela o afastou e o beijou e então o afastou de novo, olhando no fundo de seus orbes negros, inclinou a cabeça e repousou as mãos sobre o coração.¹
"Eu também te amo, Sasuke."
O amor que existia entre os dois não precisava de voz para ser real.
Um amor mudo, sem palavras. Pois palavras não são necessárias quando sua alma grita o que a sua boca não pode dizer.
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