Amor Mascarado
1 O começo
Acordei mais cansada do que estava quando caí no sono. Não sei como consegui esse mérito, visto que não existe barulho no Teatro Abeau ás sete da manhã. As únicas pessoas que costumam estar aqui a essa hora são uns poucos empregados, que vem começar a faxina e abrir as portas do teatro; e as outras meninas — bailarinas, aspirantes a prima donas , atrizes... e eu. Eu me considerava orfã, mas estar ali, com as meninas, me fazia sentir incluída em uma família (uma família um tanto quanto estranha, mas ainda assim, uma família).
Minha mãe me abandonou na porta da casa de Brigitte Giry, neta de Meg Giry, quando eu tinha cerca de 2 anos. Nessa época, ela tinha 16 anos apenas, provavelmente o motivo dela ter me abandonado. Claro que eu não me lembro de nada, essas são apenas as histórias contadas do ponto de vista da senhora Brigitte, que me trouxe para o teatro, lugar em que viveu a família toda dela.
Em meio a esse turbilhão de pensamentos, levantei-me e arrumei a cama. Escovei os dentes e os cabelos , lembrando-me de passar a escova cem vezes a cada lado da cabeça, como faziam as antigas e como nos era ensinado pelas conservadoras senhoras do Teatro. Enfiei-me numa saia de tule e coloquei por cima uma camiseta e um colar de ouro branco e esmeraldas, que me foi trazido dos Estados Unidos por um garoto de posição social elevada na grande e quase medieval Paris, Arnaud Monteg.
Num lugar onde as garotas ainda se casam aos treze anos de idade e não podem sequer usar calças sem serem atormentadas pela sociedade, era de se esperar que um garoto presenteasse com joias caras a menina que roubou seu coração. Me agradava a ideia de joias , mas não costumava aceitá-las, pois eram muitos os garotos que tinham esse costume incessante... E , também, eu sabia que não podia amá-los como eles diziam que me amavam. Eu não sabia amar, nunca ninguém me ensinou como fazê-lo. Nunca ninguém me amou, não verdadeiramente. Só enxergavam minha aparência, coisa que meus pais, se eu os tivesse, não fariam, provavelmente.
Há muitos anos, houve alguém que me fez sentir amada. Não amada pela aparência, como os garotos de Paris, mas por tudo — por meus pensamentos, modos, voz, e até por minhas manias. Esse alguém eu jamais vi, mas eu o costumava ouvir. Tudo começou quando eu tinha 6 anos e eu não me lembro bem do fim. Nenhuma história é boa sem um fim, e a única coisa que eu lembro dessa pessoa é de que ela existiu e que eu gostava dela, apesar de sua voz suave mostrar que ela tinha bem mais idade do que eu, na época. E me lembro, de vez em quando e apenas em sonhos, de músicas que ela costumava cantar pra eu dormir. E é só.
Agora, eu me contento dançando com as meninas do Teatro e sendo cortejada pelos garotos parisienses. Eles atiram rosas, joias e até bombons aos nossos pés, durante os ensaios. Eu não tenho muito espaço entre as meninas, então não costumo me apresentar nas grandes peças e óperas, mas ganho muitos presentes dos meninos durante os ensaios, o que me diverte. São tão bobos! Tenho apenas treze anos e não sou adepta a ideia do amor, portanto não me pretendo casar.
Então, estava eu num desses ensaios quando avistei um garoto com a pele de um castanho avermelhado incrível e olhos escuros e profundos. Ele era com certeza lindo e exibia um sorriso esplêndido pra mim, enquanto eu decorava alguns passos de Orfeu para ensiná-los a quem precisasse depois. Bom, como eu já disse, sou à prova de garotos e realmente, o que me chamou a atenção nele não foi a beleza extrema, e sim o fato de que já o conhecia. Mesmo assim, tinha a certeza de que nunca o tinha visto pelas bandas do Teatro Abeau. Tentei manter-me concentrada. A música me fazia vibrar. Talvez esse fosse um bom motivo para não sentir nada pelos belos rapazes que me cercavam — meu coração estava ocupado plenamente, pela música
Depois que a música acabou , fui pra junto de um balcãozinho atrás do palco para beber um copo da água. Virei-me par voltar e lá estava o menino alto de cabelos negros e pele bronzeada, a menos de cinco centímetros de distância.
-Ahn ... Olá. Será que pode me dar licença? — perguntei atordoada.
-Minha presença a incomoda, querida? — respondeu-me com uma pergunta, mania que eu odiava, num tom muito safado. Ele estava com os olhos fixos em minha boca e a mão direita foi parar no meu cabelo.
Estava prestes a tentar me beijar, pensei. Tentei me esquivar do, como passou pela minha mente, beijo da morte. Só era um nome para dramatizar as coisas, na verdade — eu aprendi isso muito bem, crescendo no teatro. Os lábios dele estavam prestes a tocar os meus, absolutamente contra a minha vontade e então, por motivo desconhecido, ele caiu pra trás. Alguma coisa pareceu ter empurrado ele e estava óbvio que não fui eu, pois depois de ter percebido os músculos do rapaz, havia desistido de usar a força. Olhei ao redor, mas não havia ninguém lá. Assim, fui correndo para perto das outras garotas, deixando o estranho conhecido para trás, com medo de que algo ruim acontecesse comigo também.
O acontecimento não me saiu da cabeça pelo resto do dia, fiquei me perguntando de onde eu conhecia aquele garoto bronzeado tão bonito e tão estranhamente safado — e nojento. E o fato de ele ter caído tão de repente, sem aviso prévio. não tinha ninguém ali. Não o vi mais, eu nenhum ensaio do dia e em nenhum lugar do teatro. Foi sorte.
Mas o fato era que eu senti que ia começar a me reservar um pouco mais. Quando o anjo da música, como se auto nomeava a pessoa que citei como um alguém que cantava em meus sonhos, desapareceu, eu lembro-me de ter ficado muito tempo trancada no meu quarto, chorando, pensando, ou simplesmente me isolando. Isso ainda não tinha passado totalmente e já estava voltando. Mal sinal, pensei.
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