Amor Mascarado
6 Nos braços do Anjo
Notas iniciais
Quando a música acabou, ainda preenchendo o recinto, Erik se virou para ver minha expressão.
-Não acredito que você compôs isso...
-Pra você! — ele completou meu pensamento num sussurro, chegando perto de mim. Depois seu meio sorriso (que era só o que eu podia ver, mesmo) se desfez, e eu vi um certo receio e tristeza em seus olhos. — Você não gostou, não é? Eu sabia, sabia que música nenhuma seria tão boa quanto você.
Ele estava realmente pensando que a música era ruim?
-Erik, não! — eu disse, e num impulso, me joguei em seus braços, passando minhas mãos em volta de seu pescoço — Foi a música mais linda que eu já ouvi na minha vida inteira. Você é um genio, Erik. — falei em seu ouvido
Não sei explicar bem o que aconteceu depois, foi muito rápido. Pensei ter visto seus olhos marejarem, e ele passou os dedos pelo meu cabelo.
-Obrigado, Catherine... — não pude deixar de perceber que ele dizia o meu nome como se fosse uma prece, e isso fez meu coração bater centenas de vezes mais forte. Cheguei a pensar até que talvez ele pudesse ouvir. Meu Deus, o que estava acontecendo comigo?" Eu não sou menina disso", pensei, "nunca senti nada assim antes".
Ele aproximou o rosto do meu, lentamente, obviamente me dando a opção de impedi-lo. Mas eu não queria. Eu gostava dele, talvez isso fosse pouco perto do que ele me fazia sentir. Sem contar que, com meus treze anos, nunca tinha beijado um menino, porque achava besteira beijar só por beijar. Agora fazia sentido. Aproximei um pouco mais o rosto do dele, nervosa e insegura. Senti sua respiração e meus dedos se entrelaçaram no seu cabelo — que estava imaculadamente penteado, e talvez ele fosse brigar comigo por bagunçá-lo depois.
Quando seus lábios tocaram os meus, gentis, eu quase pude ouvir fogos de artifício. "Tudo bem, isso foi só um selinho". Suas mãos desceram até a minha cintura, e seus lábios se separaram. Ficamos assim por um tempo, eu aproveitando o momento e pensando por que um homem — porque ele era realmente um homem feito — ficaria com um a criança, como eu. O beijo ficou mais urgente, e eu tive que parar para respirar. Nós dois estávamos ofegantes, a respiração entrecortada. Ah, eu sentia como se tivesse morrido e ressuscitado milhões de vezes.
-Ah, Catherine. Eu não posso fazer isso. — ele disse, os olhos profundos e cheios de mágoa.
-Como assim, Erik?
-Não posso te enganar. Não sou quem você pensa; não sou bonito, nem ao menos razoável, por debaixo da máscara.
-Ah, Erik. Isso não importa. Suas músicas refletem a sua alma, eu já vi a sua beleza. Quando você confiar em mim, quando se sentir pronto, você pode tirar a máscara. Não quero forçá-lo.
Não sei de onde as palavras vieram. Talvez isso tivesse algo a ver com o fato de Erik me fazer sentir um pouco mais madura que meus treze anos. "Nossa, eu tenho só treze anos." , pensei. Eu tinha me esquecido disso.
Erik me tomou em seus braços de novo, ainda gentil e respeitoso, mas dessa vez parecendo ainda mais urgente. E eu percebi que me derretia em naqueles braços, como nunca pensara que fosse capaz de fazer, com ninguém. Sempre dizem que tudo que é bom dura pouco. O momento passou, também, muito rápido. E de repente, eu abri os olhos. Simplesmente assim, sem nem me dar conta de que eles estavam fechados. Reconhecia o quarto — o mesmo em que eu desmaiei na primeira vez na morada no Lago — e de novo me vi procurando por Erik.
-Olá, Bela-Adormecida! — eu estava com a cabeça pousada sobre o peito dele, seu rosto queimando com um sorriso estonteante. Por um momento, meus neurônios começaram a queimar rápida e insuportavelmente — o que eu tinha feito ontem à noite? -, mas um segundo depois, ao constatar que nós dois estávamos devidamente vestidos, eu me acalmei. "Que ridículo. Eu sou uma criança", repeti pra mim mesma.
-Oi, Erik! — inconscientemente, minha voz saiu mais animada do que o normal, e com uma nota meio melosa. Eu... estava ficando melosa? Isso com certeza me faria rir, em meu estado normal.
Me levantei de repente. Que dia era? 20 de janeiro, não é? Ah, droga, eu não podia subir à realidade de novo, ou sequer ficar perto das meninas hoje... Era o pior dia do ano, porque era...
-Feliz aniversário, Catherine. — Erik me deu uma de suas rosas vermelhas, delicadamente ornada com uma fita de cetim preta. Ele sabia. Bem, não faria diferença então, se eu subisse ao Teatro de novo. Fiz uma careta. — Ah, Cathy, eu sei que nem todo mundo gosta de aniversários. Não vamos comemorar, se você não quiser, mas quero te dar algo. — Ele empurrou minha cabeça gentilmente, levantando-se, e pegou algo numa pequena escrivaninha de ébano. Era uma dessas pequenas caixinhas de jóias. Ele a abriu, se sentando na minha frente, e eu vi um anel de aro fino, ouro, enfeitado com um discreto coração de diamante. Ah, meu Deus!
- Não quero que pense nesse anel como símbolo de compromisso, Catherine. — disse ele, lendo minha mente. — Mas é lindo, não é? Não pude deixar de pensar em você, quando o vi. E agora, você tem catorze anos. Sabe, aqui isso significa que você é praticamente uma mulher feita. — dei um sorriso eufórico, e ele aproximou o rosto de novo, beijando minha testa.
Ficamos nos encarando durante um tempo e foi então que eu senti uma coisa que não era propriamente minha. Curiosidade. De repente, ela tomou conta de mim, e eu fiquei extremamente interessada em ver o rosto por trás da máscara. Meus dedos formigavam. Mas eu não podia, não é? Não podia tirar a máscara dele, eu prometera que não o forçaria a nada. Não podia. Peguei o anel da caixinha e o coloquei na mão direita, tentando fazer com que ela parasse de formigar. Seria possível que tudo aquilo fosse real?
-Bem, é meu aniversário. As pessoas devem estar me procurando.
-É, elas devem estar. Vou te levar de volta. Não pretendo ficar muito longe, hoje. É um dia especial. Você vai me reconhecer. Se lembra do caminho?
-Ah, com certeza não. É muito complexo pra minha cabecinha. — eu, de novo, estava sorrindo.Eu estava sempre sorrindo, quando estava perto dele. Erik sorriu também, primeiro parecendo simplesmente feliz, mas depois tomando um ar reprovador.
-Você não devia se subestimar, Catherine.
E assim, ele me guiou pelos muitos túneis, em silêncio. O momento não era de um silêncio ruim, o silêncio se fazia presente apenas porque ele podia ler os meus pensamentos. Era estranho. Eu conseguia ver muitas coisas em sua expressão, também. Chegamos no meu quarto, e quando me virei, Erik tinha sumido — e lá estava, de novo, o meu espelho. "É claro. Ele é mesmo brilhante."
O quarto estava vazio, a não ser por Audrey, que roncava e murmurava coisas sem nexo, em sua cama. Minha cama estava perfeitamente arrumada, como a deixara ontem, e pensei que talvez isso pudesse resultar em problemas. Eu ainda estava com a minha camisola de seda, de modo que foi só bagunçar minha cama e entrar debaixo dos cobertores, dando uma olhada no relógio. Já eram nove horas da manhã, e as meninas costumavam acordar só as dez. Resolvi não pensar muito nisso, porque de repente me pareceu muito conveniente que elas não estivessem ali. Talvez elas simplesmente fossem ter que ensaiar mais hoje.
Me permiti dormir mais uma hora e tive um sonho totalmente sem sentido. Erik estava lá, cantando, mas ele parecia estar com raiva. Havia uma garota com ele, assustada, parecida comigo mas que eu soube e cara que não era eu. E, preso a um portão de ferro por cordas, estava um rapaz que devia ter uns vinte anos, talvez, o cabelo loiro na altura dos ombros. Eu já vira aqueles dois em pinturas, quando eu era muito menor. Os quadros ficavam na casa de Michelle, minha mãe, e aqueles eram Christine Daaè e Raoul de Chagny. Talvez não tivesse sido um sonho afinal. Talvez fosse um pesadelo, e estivesse só começando.
Não estava. Mirelle me salvou da confusão do sonho, abrindo a porta com um estrondo.
-Ah, olha quem está aí! — disse ela, se aproximando da minha cama — Cinderela, onde você esquecceu sapatinho essa noite?
-Mirelle, nada de fofocas, não hoje. Eu tô com sono. — falei, logo me arrependendo, pensando no que ela pensaria.
-Não dormiu? — disse ela, nós duas arregalando os olhos. Depois, Mirelle riu. — Erik de novo?
-Aham... — murmurei, mergulhando a cabeça no travesseiro de novo. -Pode ser.
-Nada disso, senhorita Daaè. Não pense que eu me esqueci que hoje é o seu....
-Cala a boca, Mirelle — interrompi.
-ANIVERSÁRIO! -berrou ela, fazendo o ronco de Audrey parar.
Virei a cabeça pra ver se ela tinha realmente acordado. Sim, ela tinha.
-Ah, feliz aniversário, Catherine. — Audrey disse baixinho, depois se enfiando novamente debaixo das cobertas.
Mirelle recomeçou o discurso.
-Consegui uma coisa diferente pra você. Não vou te dar um presente.
-Tomou juízo, Mirelle?
-Não. A Ópera inteira vai te dar um presente, mais um só. Sabe o que vamos encenar essa noite?
-O quê? — perguntei, sem interesse..
-A sua história favorita, Catherine! A história da sua família. Que é... — ela fez uma pausa dramática
-Que é...?
- "O Fantasma da Ópera"!
Ah, eu não acredito nisso. Eu nem gostava da história. E eu era órfã. Não importa o que os outros dissessem, na minha mente, Michelle Daaè não existia. Sem mais demoras, eu escondi a cabeça em baixo do travesseiro
-Boa noite, Mirelle! — eu disse, e ouvi alguns gritinhos de animação de Mirelle, que estava saindo do quarto.
Notas finais
Beijos, Luna :*
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