Amor Mascarado
3 Fausto
Notas iniciais
Quarta-feira à noite , houve uma representação de Fausto. Nesta tarde, a Ópera toda estava em grande agito. Atrizes ensaiando seus textos aqui, estilistas loucos tentando consertar roupas defeituosas ali, dançarinas procurando as sapatilhas de ponta e , é claro, acusando o Fantasma da Ópera de roubo quando não as encontravam. Pobre homem injuriado!
Eu, é claro, estava pretendendo assistir a Adrienne, Sophie — uma das bailarininhas — e Matilde ali no tablado. Depois de ter colocado um vestido e penteado o meu cabelo decentemente, desci para o grande salão, mas já não havia mais poltronas para mim. Fui, desse modo, perguntar a Brigitte , que seguia o cargo da família e trabalhava como lanterninha no Teatro Abeau, se havia algum lugar que eu não tivesse visto ou se teria algum camarote vazio. Ela me respondeu negativamente, e eu fiquei a encará-la, pensando se seria assim tão ridículo uma criança de treze anos assistir a Fausto sentada no chão. Decidi que sim, era. Então, como se tivesse lembrado de algo crucialmente importante, ela disse:
-Bem, talvez o proprietário do camarote número 5 não se importe em dividi-lo com você, mocinha. -Por um momento breve, achei que ela tivesse querendo me assustar com suas superstições, afinal, o camarote 5 era o camarote do Fantasma e nunca, antes, eu pudera entrar ali. Mas logo percebi que ela estava falando totalmente sério comigo. Afinal, ela começou a puxar meu braço em direção ao camarote, e também, não era coisa das Giry mentir ou fazer piadas com os outros. Chegamos a porta do camarote e eu fiquei encostada na parede do lado oposto, me perguntando se deveria estar assustada. Ouvi alguns murmurinhos da sra. Giry, para dentro da porta.
Enfim, ouvi ela ter dito algo como " Será que a senhorita Daaè pode dividir o camarote com o senhor?" Achei ligeiramente estranho, porque todos sabiam que eu não usava meu sobrenome; tinha uma enorme repulsa pelo que me causara a minha mãe.
Acho que a resposta que recebera a dona Brigitte foi positiva, pois ela abriu completamente a porta e me deixou entrar. Andei meio hesitante e a princípio, ao penetrar o camarote, não vi ninguém. Sentei-me no primeiro banco da primeira fileira, o mais perto possível do tablado, pois eu era meio míope e não tinha nenhum binóculos a vista. Pude, com dificuldade, avistar no camarote de frente para aquele em que me encontrava, a cabeça ruiva e as esmeraldas que eram os olhos de Arnaud Monteg. Estes, estavam arregalados, olhando em minha direção. 'Ótimo,' pensei 'mais um supersticioso'. Ainda estava procurando qualquer sinal de vida na sala quando percebi alguma coisa em meu colo. Era uma rosa vermelha . Fiquei extremamente assustada — eu acho que eu saberia se tivesse alguma coisa no meu colo -, mas essa sensação durou apenas um segundo. Vislumbrei uma capa preta e então, do meu lado, estava um homem com uma máscara branca cobrindo o rosto inteiro.
-Desculpe, senhorita, — começou ele, verificando minhas mãos, provavelmente procurando por uma aliança — mas acho que devíamos nos apresentar, não? — Dei um sorriso envergonhado por estar 'roubando' o camarote de alguém tão ... Gentil?
-Sou Catherine. — disse simplesmente, ao passo que seus olhos ficaram curiosos, como se a sra. Giry não lhe tivesse dito nada.
-Só Catherine? — perguntou.
-Catherine Daaè, na verdade. Mas, de qualquer modo, não costumo usar o meu sobrenome. — fiz uma pausa, sem saber se isso o estaria aborrecendo. Não dava pra perceber nada sem ver seu rosto.
-E posso saber o porquê dessa rebeldia? É um sobrenome famoso.
-Bom... Fui rejeitada pela minha mãe e Brigitte, sua lanterninha, me adotou desde então. Prefiro não usar sobrenome nenhum ao ter que explicar a história toda e , por isso, ninguém nesse Teatro sabe dela, exceto pela sra. Giry.
-Lamento fazer você ter que explicar, nesse caso, mas você me deixa extremamente curioso. Se não gosta de contar isso a ninguém; se nenhuma dessas pessoas que moram com você desde que era pequena sabem da sua história, por que contou para mim?
Ele me pegou com essa pergunta. Eu não sabia por que contara a ele o que eu não dizia a mais ninguém. De certa forma, ele me inspirava segurança. Foi o que eu lhe disse, e seus olhos sorriram.
-Se isso te serve de consolo, eu também fui abandonado pelos meus pais.
Passamos os dois, então, a prestar atenção no que se passava no palco. Ele, ainda em silêncio, me passou um binóculos que eu não tinha visto. Mas, afinal, isso não era grande coisa, visto que eu não conseguira ver ele, antes. Não consegui realmente me preocupar com o que estava acontecendo lá embaixo, no tablado, porque alguma coisa estava me incomodando. Talvez fosse o fato de ele estar ali, tão perto. Mas tinha algo a mais. Algo do meu passado estava ali, presente, mas eu não consegui me lembrar o quê. Acabei esquecendo isso, me importando mais com o fato de ele estar se inclinando pra mim, me olhando, e sua mão estar brincando com os cachos negros nas pontas do meu cabelo.
Cerca de uma hora depois, a ópera acabou, mas ele continuava me encarando com os olhos, que percebi, eram azuis e tinham uma intensidade desumana. Me virei para ele para dizer o óbvio: que a peça tinha acabado e que eu tinha que ir. Ele assentiu, seus olhos tristes e sem dizer nada, me acompanhou até a porta e me assistiu indo embora. Eu estava com a rosa na mão — tinha o cheiro do homem do camarote número 5. Mas agora eu sabia. Ele era o alguém da minha infância, ou pelo menos, a voz era igual. E os olhos eram os mesmos olhos da caveira de manto vermelho no meu quarto, no baile de máscaras. Afinal, quem era ele?
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