Amor Mascarado
8 Ah, Catherine!
Notas iniciais
Esse capítulo tá bem grande, e acontece muuitcha coisa.
Eu estava quase dormindo ali, sem conseguir pensar em nada que pudesse me acalmar quando ouvi passos vindo em minha direção.
-Catherine, está tudo bem? — Erik disse, e eu abri os olhos. Ele estava ajoelhado na minha frente e pôs as suas mãos quentes em cima das minhas.
-Sim, só estou cansada. Não consegui dormir muito bem. -não deixava de ser verdade, não é? Eu não poderia mentir para ele.
-Jura? A história não te deixou brava comigo?
-Erik! Não, é claro que não. Mas de qualquer jeito, você podia ter me contado algumas coisas importantes...
-Como por exemplo?
-Ahm.... Quantos anos você tem, por exemplo.
-Eu não sei.
-Mas se você estava mesmo vivo em 1800 e sei lá quanto , como é que...? — eu estava desesperada, minha cabeça ia explodir.
-Fonte da Juventude — ele disse
-Ahm?
- O que você acha que tem na água do Lago? — Erik agora ria.
Ia demorar para me acostumar com isso. A ideia de conviver com um gênio ainda era totalmente absurda para mim. Eu não estava raciocinando, e nem respirando. Havia mais alguma coisa que eu queria perguntar, mas eu não me lembrava... Sabe, era mesmo difícil lembrar de alguma coisa quando ele estava por perto, não era exagero. Erik se sentou do meu lado, a expressão ainda mais preocupada.
-Está realmente se sentindo bem?
-Sim...Quer dizer, talvez um pouco de dor de cabeça... — isso talvez fosse mentira. Uma mentira leve, é claro, mas minha cabeça estava a ponto de estourar.
-Então acho que é melhor sairmos daqui rápido; você sabe que depois que a ópera acabar, todo mundo vai querer te parabenizar, não é?
-É, vamos logo.
Erik me ajudou a levantar e teve que ficar me sustentando pela cintura durante uma parte do trajeto até a sua casa. Ele parecia um pouco atormentado e com receio, e eu me sentia mal por ele, mas estava quase desmaiando. Não podia fazer muita coisa por ele, não agora. Quase não percebi quando chegamos lá, pois não tive que me preocupar muito com o caminho, já que Erik achou melhor me levar em seus braços depois de algum tempo tentando me manter em pé, andando, ao seu lado; e eu estava mergulhada em pensamentos, tentando não fechar completamente os olhos.
Ele me deitou na cama do meu quarto, enquanto eu sentia que estava ficando meio entorpecida. Tentei ao máximo ficar, ao menos em parte, consciente. Depois, Erik se sentou ao meu lado, olhando para mim com os olhos azuis tristes, e passou as mãos pelo meu cabelo, com cuidado, desfazendo o penteado.
-As pessoas exageram, Cathy. Eu não fiz tudo aquilo. Quer dizer, eu me arrependi. Não sou mais o Fantasma da Ópera...
Eu estava tonta demais para responder, mas tentei.
-Eu sei... — murmurei, a voz fraca e rouca.
-Não vai tentar fugir? — disse ele, com certa ironia, mas percebi que ele realmente esperava isso. Retomei alguma força para pensar.
-Não, Erik! Que ideias são essas? Não poderia ficar sem você. E acho que eu sei bem como as pessoas podem mudar. — Ele estava emocionado, e os olhos marejados. Ele sempre ficava assim quando eu dizia coisas do tipo, não é?
-Cathy, você está chorando? — Não tinha me dado conta de que meu rosto estava molhado. — Cathy, por favor, não faça isso. Me machuca ver você assim. — um segundo depois, Erik estava me abraçando, tentando me acalmar, murmurando que ia cuidar de mim. Nada de 'tudo vai ficar bem' ou ' vai passar', só "vou cuidar de você.". Talvez esse fosse um motivo para eu gostar tanto dele.
Mas, afinal, o que estava errado? O que não estava bem? Eu tinha descobrido que o homem por quem eu, vou admitir, estava apaixonada, era imortal, o Fantasma da Ópera e meio que um assassino, tudo no mesmo dia. Acho que eu estava sobrecarregada. Talvez fosse só isso. Eu não pretendia fugir de Erik, realmente não conseguiria ficar sem ele, era um ideia ridícula. Então, o que eu deveria fazer?
Ficamos abraçados por algum tempo; eu tentando para de molhar a roupa de Erik e ele afagando meu cabelo e acariciando minhas costas com suas mãos, sem dizer mais nada. Mas logo ele tirou seus braços de mim, olhando em meus olhos, e disse com a voz embargada:
-Acho que agora você devia descansar, Cathy. Está ficando tarde e sua cabeça deve estar doendo. Se precisar de alguma coisa, eu vou estar no meu quarto. — e ele saiu do quarto.
"Ah, Erik! Por quê?", murmurei, mentalmente. Eu queria tanto o calor de seus braços essa noite, queria sentí-lo ao meu lado, queria dizer a ele tudo o que ele me fazia sentir, só por estar por perto. Mas eu era nova demais para isso, não é? Não. De repente, eu me sentia, verdadeiramente, mais velha, madura. De qualquer forma, não seria certo chamar Erik agora. E eu realmente precisava descansar um pouco. Me levantei, pegando uma camisola de seda que eu deixara no quarto e vestindo-a. Só me restava esperar que eu conseguisse dormir sem ter pesadelos. Mas isso não me foi concebido. De novo, pesadelos, sobre Christine, Raoul e o Fantasma, que eu ainda me recusava a tomar por Erik. Ele não era mais a mesma pessoa. Acordei com meus próprios gritos de desespero. Parei de gritar, e Erik entrou no quarto, preocupado, os olhos arregalados.
-O que foi? Tudo bem? — perguntou ele
-Tudo bem, Erik, são só esses pesadelos. Acho que não vou conseguir dormir tão cedo. — disse, mais pra mim mesma do que pra ele.Talvez eu simplesmente não conseguisse mais dormir sozinha, depois de tanto tempo Ele se aproximou, colocando uma mão sobre meu rosto, me analisando.
-Ah, Catherine, você me assusta, ás vezes. Sempre me apavoro, achando que vou te perder.
-Ah, Erik. — eu disse, afagando-lhe o rosto. — Já disse que você não precisa ter medo. Tentei erguer o rosto, mas ainda estava um pouco fraca, de modo que Erik me ajudou, diminuindo a distância entre nós, se inclinando um pouco sobre mim.
-Quer que eu fique com você, essa noite? — ele disse, aproximando mais o rosto, naquele seu tom sedutor, levemente rouco. Mais uma vez, ele leu minha mente.
-Sim. — eu disse, sendo sincera e um pouco eufórica.
Ele deu um sorriso e entrou debaixo das cobertas, me aninhando em seus braços, passeando as mãos pelas minha costas, cintura, cabelos, cantando baixinho para que eu dormisse, e a voz dele era simplesmente maravilhosa. Mas, se eu não conseguia dormir sozinha, tentar dormir com Erik por perto seria ainda mais difícil. Era como se alguma coisa me puxasse para ele, como imãs e eu simplesmente não podia ficar incosciente enquanto estava ao seu lado. Mesmo assim, com sono do jeito que estava, talvez não fosse má ideia tirar só um cochilo... Num lugar em meio ao meu sono, eu percebi Erik me acariciando o rosto e os cabelos, cheirando-o, e depois as mãos quentes e suaves escorregando para o meu pescoço... Eu estava sonolenta, mas isso não me impediu de deixar escapar um gemido quando ele abaixou a alça da camisola, deixando meu ombro nu, e começou a beijá-lo. Ah, Erik realmente me deixava louca. Adormeci de costas para ele, seu rosto apoiado em meu ombro, seu braços em volta da minha cintura, e os pesadelos não vieram.
-Ah, Catherine. — ouvi Erik dizer, enquanto, lentamente, eu acordava.
-Erik — murmurei, virando para ele. Ele estava me observando, a mão apoiando o queixo.
-Cathy, eu estava pensando... Acho que eu estou, bem... pronto. — As palavras demoraram para fazer sentido na minha mente. Ele quis dizer... pronto para tirar a máscara, não é?
-É sério, Erik? Sabe que eu não quero te forçar a nada, não é?
-Não, não... Eu confio em você. — ele disse, fazendo sinal para que eu chegasse mais perto.
Eu o obedeci, e acariciei seu rosto. Ele fechou os olhos e eu, tentando ser o mais gentil possível, tirei a máscara. As sensações vieram uma seguida da outra. Primeiro, eu simplesmente olhei. Ele continuava de olhos fechados. Sim, a metade direita do rosto dele era deformada. Mas, depois, eu percebi que não me importava. Erik, à sua maneira, era a pessoa mais linda que eu já conhecera na vida. E então, eu pensei que seria até sem graça se a outra metade de seu rosto fosse tão perfeita quanto à esquerda. Ninguém é perfeito, mas Erik quase chegava lá.
-Vai fugir agora? — ele disse, arriscando abrir um dos olhos.
Eu acariciei a face deformada e vi as lágrimas escapando de seus olhos, agora abertos.
-Erik — eu sussurrei, aproximando o rosto -, eu te amo.
Ah, naquele momento ele pareceu mais feliz do que nunca, e mais lágrimas vieram. Então, ele me pegou naqueles braços quentes, sorrindo, e me beijou, durante um longo tempo. O mundo podia acabar, eu queria continuar ali com ele. Eu senti a eternidade em seus lábios, e quando nossos rostos se separaram um pouco, para podermos respirar, ele sussurrou, no meu ouvido:
-Ah, Catherine, eu te amo. Eu te amo. Você nem tem ideia do quanto.
-Eu te amo, Erik.
Era estranho dizer isso. A maioria das pessoas ririam, afinal, eu tinha catorze anos — estava adorando dizer que já tinha catorze — e estava apaixonada. Mas talvez tivesse algo a ver com Paris. Ou talvez, a idade verdadeira não estivesse em números e documentos, mas na mente.
Erik me beijou novamente, enquanto eu passeava os dedos pelo seu rosto, mas teve que se afastar, relutante.
-Você precisa voltar.
-Ah, Erik, eu sei. Mas eu queria poder ficar aqui para sempre.
Ele sorriu e nós nos levantamos. Eu me vesti depois que Erik saiu do quarto — tinha deixado quase todas as minhas coisas ali — e, como sempre, ele me guiou pelos túneis, com a máscara de volta ao rosto, até que chegarmos ao meu quarto.
Como eu não tinha arrumado a cama no dia anterior, ela continuava bagunçada, mas todas as meninas já tinham levantado. Eram dez horas da manhã... Fazia muito tempo que eu não ia aos ensaios — desde a pequena travessura de Matt, eu acho — então decidi dar uma passada lá. No caminho, encontrei Brigitte.
-Catherine, preciso conversar com você. — "Lá se foram os ensaios'.
A sra. Giry me levou até um camarim qualquer e trancou a porta. Sentei numa cama e fiquei olhando para ela.
-Que foi? — perguntei.
Ela pareceu sair de alguma espécie de transe.
-Sophie disse que você não anda dormindo em seu quarto. — tive um mini ataque cardíaco naquele momento. Eu contava com a discrição das meninas para minha sobrevivência. Brigitte me olhava com um ar reprovador, mas também um pouco de compreensão. -Tem estado com Erik.
-Sim. — não foi uma pergunta, mas era tipo de frase que precisava de confirmação. -Você o conhece, não é? Por isso ficou tão preocupada quando eu disse ao Monteg o nome dele.
-É. Catherine, sei que você não entende, mas ele pode ser perigoso. Mantenha distância.
-Não posso, sra. Giry. Não posso ficar longe dele; é loucura. — eu choraminguei, suplicando.
-Catherine! Eu te criei, menina. É bom você obedecer. -ela, obviamente, não queria conversa; e usou seu tom de mais autoridade, o que significava que não se deixaria contrariar.
-Sra. Giry, você não entende. Eu... eu o amo.
Brigitte arregalou os olhos.
-Você não sabe o que está falando, e é melhor eu não saber que você continua se encontrando com ele. Agora, pare de dizer besteiras, e venha comigo. Tem alguém que gostaria de te ver. — ela disse, segurando meu pulso e me arrastando até a entrada do Teatro.
Chegando lá, eu vi um casal sentado num banco. A mulher tinha cachos negros, olhos verdes e o nariz arrebitado... Parecia um pouco cmigo, não fosse pelos olhos e pelos lábios, finos demais. O homem tinha cabelos e olhos negros, a pele branca, e lábios mais cheios que o dela. Ambos eram muito bonitos e jovens, não deviam passar dos trinta. Fiquei olhando para os dois por algum tempo; e os dois olhavam para mim também, esperançosos. Brigitte apareceu por trás de mim, dizendo:
-Querida, esses são Michelle Daaè e Luigi Beppe... Seus pais biológicos. Eu a olhei com os olhos, já normalmente grandes, arregalados. Depois, olhei para os dois e me sentei numa cadeira de frente para eles, do outro lado da salinha.
- Oi. — eu disse. O que esses malditos queriam.
-Oi, Catherine, você está tão linda! — disse a mulher, Michelle.
-E a cara do pai. — riu o homem, pronunciando as palavras com um leve sotaque italiano.
Os dois se levantaram e se aproximaram, para me abraçar. Cumprimentei-os, olhando para a sra. Giry com desespero por cima dos ombros de Luigi. Ela estava sorrindo, como se achasse que eu estava amando aquilo.
-E então, como vai nossa mulherzinha? Tem catorze anos, não é? — foi Michelle quem falou.
-Sim. — murmurei — Estou bem. E vocês?
-Estamos ótimos. Queriamos ver nossa filha amada... — O que esses caras queriam de mim? — E temos que te perguntar uma coisa...
-Pode falar.
-Você não gostaria de ir para casa com a gente? — dessa vez quem falou foi o italiano.
- Estou em casa. Isso aqui é minha casa já faz uns doze anos. — eu disse com uma pontada cruel de ironia.
Michelle recuou, mas Luigi countinuou:
-Sabe, agora que somos mais velhos e temos condições de criar uma filha, achamos que seria certo oferecer uma casa para nossa filha.
Talvez, eles quisessem se redimir. Mas eu não ia sair do Teatro para morar com duas pessoas que eu nem conhecia, não importa o que eles dissessem.
-Desculpem, mas eu não pretendo ir embora daqui.
-Mas é claro que se os senhores quiserem, poderão fazer visitas! — exclamou Brigitte
-Poderão?
-Mas é claro! — ela disse, me fuzilando com os olhos
-Certo, mas agora tenho que voltar para a civilização. — e dei meia volta. Não queria passar mais nenhum segundo com aqueles dois. Eu não tinha família. E agora meu cerébro fora diminuído ao tamanho de uma azeitona; minha cabeça doía. "Enxaqueca."
Ouvi passos atrás de mim e quando olhei, vi a sra. Giry. Mas ela estava se afastando. Eu ainda tinha coisas para falar para ela, então resolvi segui-la, sem fazer barulho, de longe... Não perderia a chance de lhe dar um susto magnífico. Mas ela, rapidamente, entrou seguiu pelo corredor, virou a direita, entrando na ala dos camarotes, e entrou no camarote número 5. Ela se trancou lá, de modo que a única coisa que eu pude fazer foi esperá-la do lado de fora. Aproveitei para tentar ouvir alguma coisa, saber se Erik estava lá dentro.
-Erik! -berrou Brigitte -O que você quer com ela?
-Ahn? — ouvi a voz de Erik, mas num tom que ele não usava comigo — Do que está falando?
-Catherine! Você sabe perfeitamente bem...
-Ora, você não devia ser egoísta! Eu gosto dela, e ela gosta de mim. As coisas são bem simples desse jeito.
-Erik, você a está enganando, não é? Quero que fique longe dela.
-Não a estou enganando. Ela tirou a máscara. E ela não se importa. A propósito, não pretendo ficar longe...
-Não me irrite. Olhe, os pais dela estão lá fora e querem levar ela embora. Eu não permitiria, e ela mesma não quis, mas eles farão visitas. Se eu souber que vocês andaram se encontrando... Eu a mando embora daqui.
Eu não acreditei que ela estava pensando em fazer isso. Seria horrível, ela não podia... Não deu para ouvir nenhuma resposta -ao menos, verbal — de Erik, mas agora eu já não parecia tão interesssada em falar com a sra. Giry. Saí dali correndo, e fui ver os ensaios, mas percebi que depois de tanto tempo longe, já não sabia nem o que estava acontecendo. Para minha grande felicidade, Arnaud e Matt não deram as caras por lá, mas eu sabia que quando soubessem do ocorrido com Erik, viriam mais vezes do que nunca ao Teatro Abeau — principalmente da parte de Arnaud. Matt até que era legal, apesar de insuportavel — eu tinha certeza — quando bêbado. Resolvi olhar para o camarote número 5 e tive um rápido vislumbre da máscara. "Ah, Erik!"
Fui para o meu quarto e desatei em lágrimas. Acho que as lágrimas continuaram pelos dias que se seguiram e eu realmente não tinha vontade de sair do quarto, eu não tinha vontade de nada! Já tinha tentado abrir a passagem do espelho, mas da primeira vez Erik não apareceu, e alguns dias depois a passagem nem funcionava mais. Uns três, quatro dias se passaram sem que eu saísse do quarto.
De repente, ouvi três batidinhas rápidas na porta, enxuguei as lágrimas e Arnaud entrou. Ah, droga, já fazia tanto tempo que eu não via ele. Ele precisava vir estragar a minha vida logo agora, que ela quase já não existia. Ele se sentou na cama, na minha cama e ficou olhando para mim, feito um idiota.
-Olá... — ele começou.
-Oi. — eu interrompi, fria.
-Sabe, a sra. Giry me contou sobre o que aconteceu com Erik, e achou que talvez você precisasse de um pouco de companhia.
-Tudo bem, obrigada, mas eu não preciso que você fique aqui.
-Calma, não é só isso! Ela disse que é totalmente inaceitável que você, que agora é uma mulher, continue solteira. Então — ele disse, pegando uma caixinha de veludo preto e abrindo-a -, quer se casar comigo?- dentro da caixa havia um anel de aro fino prateado, incrustado de pequenas pedras.
Eu não estava acreditando naquilo. A sra. Giry era uma traidora!, me separando de Erik e ainda por cima armando para que eu me casasse com um insuportável, feito o Arnaud. Eu o odiava... Como seria bom se Erik pudesse me adotar; ou se eu pudesse simplesmente desaparecer. É, eu queria desaparecer mas não podia. Me dei conta de que Arnaud ainda estava parado na minha frente, com o rosto vermelho, segurando a caixinha.
-Arnaud, desculpe. Eu não posso.
-C-Catherine! Por quê? Será que não vê o quanto eu gosto de você?
-Arnaud, eu sei. Mas eu ainda gosto de Erik. Estar longe dele não vai me impedir de pensar nele, e nem vai me obrigar a casar com outro!
Eu sabia que não devia estar dizendo aquilo; Arnaud já estava nervoso — nunca é fácil propor casamento — e quando eu disse aquelas palavras ele começou a chorar. Juro. Ele estava chorando mesmo, e segurou minhas mãos. Suas mãos eram frias, as estavam suadas; Eca.
-Catherine, por favor. Por favor!
-Arnaud, não posso... não conseguiria me casar gostando de outra pessoa. Desculpe.
Ele tentou secar as lágrimas, mas foi inútil -se as lágrimas ainda caiam, não tinha como o rosto ficar seco. Depois se levantou e, dando uma leve espiada por sobre o ombro, abriu a porta e foi embora. Eu me senti mal por ele, mas eu gostava de Erik. Não me casaria. E me lembraria de fazer um bel voto de silêncio perto de Brigitte, nem queria mais ver sua cara.
A porta bateu outra vez, e eu só esperava que não fosse Arnaud de novo. Mas, dessa vez, quem entrou foi Matt.
-Oi. — ele disse. Eu não queria ser grossa com ele, eu acho. Então, só murmurei um 'oi' e fiquei rezando para que ele não fosse repetir a proeza do primo, enquanto ele se ajoelhava ao lado da minha cama. -Não vou te pedir em casamento, Catherine, apesar de gostar de você. Não precisa ter medo. — soltei o ar lentamente
-Tudo bem.
-Eu sei o que a a sra. Giry fez, e não foi nada, ahm..., legal da parte dela. Eu só queria que você soubesse que se precisar de qualquer coisa, se precisar desabafar... Pode contar comigo. Não quero que você fique desse jeito.
Ah, ótimo. Eu estava feliz por ele não estar simplesmente falando para eu esquecer Erik, ou coisas assim, como Arnaud faria. É, acho que Matt estava no lado claro da força. Dei um sorrisinho fraco, meio triste, e ele me abraçou. Em situações normais, eu daria um soco na cara de qualquer um que pensasse em fazer isso. Mas eu estava há tanto tempo ali, sozinha; e Matt estava querendo me ajudar, então eu simplesmente deixei, correspondendo ao gesto. E o abraço dele era bom. Claro, nem se comparava a estar nos braços de Erik, mas... Sei lá, talvez amenizasse um pouco a dor.
Ele se distanciou um pouco para me olhar, e deu um sorisso melancólico. Então, ele simplesmente foi embora, dizendo que se eu precisasse, ele estava no quarto número três, da ala B. Ótimo. É bom saber que nem todos estão contra você.
Mas depois de tudo isso, eu simplesmente entrei na depressão de novo. Lágrimas e lágrimas por mais uma semana. Na quarta-feira á noite, eu saí do quarto. Fui assistir à "Aníbal" , a peça que estava em cartaz agora. Quando essa peça saísse, Mirelle disse que eles voltariam com "O Fantasma da Ópera". Adrienne seria a Christine, foi o que ela disse.
A peça demorou mais duas semanas para sair de cartaz. Era quase um mês sem ver Erik, e eu ainda não conseguia sequer sorrir. A noite de estréia foi um sucesso, Adrienne estava linda; e apesar da voz dela ser um pouco esganiçada demais quando ela falava, ela sabia cantar. Ela era soprano, é claro. No segundo dia, alguma coisa estranha aconteceu. Eu estava assistindo aos ensaios na primeira fileira, como me era de costume. Adrienne estava maravilhosa, quando de repente, alguma coisa caiu, sei lá, do teto. Eu acho. Eu não consegui ver o que era, mas Adrienne se machucou, o braço sangrando. E para completar, ela caiu do tablado, sem conseguir se concentrar o suficiente para descer pelas escadas. Ela teve que ir para o hospital, e não vai poder andar por algum tempo. Ou mexer o braço.
Mas o show não podia parar. Todo mundo queria ser Christine Daaè. Audrey, Mirelle, Sophie, Charlotte, Matilde e Isabelle. Os diretores não queriam que as meninas mais conhecidas se apresentassem, por isso, escolheram Adrienne para ser Catherine.
-Catherine, venha cá! Você canta? — disse Beaumont, o diretor do Teatro Abeau.
-Não, definitivamente não. — eu falei, mas como ele continuou fazendo gesto para que eu me aproximasse, eu simplesmente obedeci.
-Tome, cante isto. — ele disse, me dando uma letra de música. Eu conhecia o ritmo, ao menos, da música, mas era um dueto. Eu falei isso para Beaumont. -Cante só a primeira parte, será o suficiente.
E a música começou. Eu me preocupei só em saber as palavras, se conseguisse cantar aquilo sem desafinar uma única vez já seria um feito e tanto. Quando eu terminei de cantar, deixando a última nota — agudíssima — pairando no ar, Beaumont aplaudiu. Logo as outras meninas se juntaram a ele. Mas a música não parou, e a outra parte, quem cantava era o Fantasma. E foi isso o que aconteceu. Beaumont, Mirelle, Matilde, todos ficaram apavorados quando uma voz masculina começou a cantar sua parte. Eu simplesmente ouvi, porque era lindo, e olhei para o camarote número cinco. Lá estava a máscara, mas eu acho que eles não perceberam, Erik cantava comigo, para mim, e sorria. Desviei o olhar para não ter que chamar a atenção dos outros para o camarote. Eles continuavam paralisados. Quando a música acabou, eles ficaram olhando, por um tempo, o queixo caído. Quem se recompôs primeiro foi Beaumont, que disse:
-Parabéns, garota, você agora é Christine Daaè.
-Sou contralto. — murmurei
-Não é uma boa contralto então, senhorita. Apesar da sua facilidade com as notas graves, você atingiu os agudos sem problemas. — ele disse, sorrindo e apertando minha mão.
Eu sabia que eu tinha conseguido cantar os agudos, só não sabia que tinha feito isso sem desafinar. "Ótimo. Agora eu tenho que ensaiar essa droga", pensei, revoltada.
-A propósito, o que foi aquilo? Quero dizer, quem cantou com você?
-Eu... eu não sei. Se você não sabe, image eu!
-Tem razão, tem razão. Vou te dar os roteiros para que possa ensaiar, hoje à noite terá a sua primeira apresentação. Adrienne vai ficar feliz em saber que foi tão bem substituída. — ele me entregou uma tonelada de papéis, e foi embora, sem me dar tempo para pensar. Foi engraçado, ele fez exatamente o que eu fazia com as pessoas quando não queria conversa, não é? Me arrisquei a dar uma olhada para o camarote número cinco, que estava vazio.
Bom, tudo bem. Como é que se entra no personagem? "Tudo bem, então eu sou Christine Daaè, tenho dezesseis anos e sou órfã... Estamos em 1871, ou algo assim, e eu sou uma dançarina..." Aquilo não estava ajudando. Sei lá, talvez simplesmente acontecesse. Quem fazia o papel de Fantasma era Bertràn, um garoto alto e bonitinho, antigamente meu melhor amigo. Seria, com certeza, estranho ter que fazer uma ópera com ele, ainda mais em termos 'amorosos'. E Raoul de Chagny seria ninguém mais, ninguém menos que nosso querido Matt! — a propósito, isso teve uma pontada irônica. Agora eu sabia porque ele estava aqui, ele queria virar ator. Tudo bem, eu sempre achei que Raoul era um pouco, bem,... estranho. Sei lá. Mas não era como Matt que eu o imaginava, talvez por gostar ao menos da sua aparência e imaginar Raoul como aquele estereótipo de garotinho mimado e perfetinho — branquelo, loiro de olhos claros.
Ensaiamos o resto da manhã, e também durante a tarde inteira. A química definitivamente não aconteceu. Bert, como o chamávamos, era bom, mas não era tão intenso ou genial quanto o Fantasma da Ópera merecia ser. Matt era brilhante como ator, tenho que admitir, mas ainda estava representando Raoul de Chagny. Isso não ajudou. Talvez alguma química tenha acontecido com ele. Talvez.
Tudo estava uma bagunça completa, algum tempo antes da ópera começar. Eu já tinha decorado todas as minhas falas e todas as músicas e, acredite, era muita coisa. Christine aparecia, eu acho, em todas as cenas. Ou quase todas. Eu não estava nervosa. O máximo que poderia acontecer se eu errase, seria eles me tirarem da peça, mas isso não aconteceria. Ainda assim, alguma coisa ia acontecer. Eu sabia disso, só não sabia o quê. A calma me tomou, enquanto Brigitte -ainda não estava realmente falando com ela — e Audrey me arrumavam, empurrando-me as roupas que eu deveria usar. Meu cabelo estava mais cacheado do que nunca. E, de repente, eu era Christine Daaè, já não podia reconhecer Catherine no espelho. Eu estava usando um vestido branco, longo, e havia um corpete por cima dele, deixando a saia e as mangas ainda há mostra, mas marcando as curvas. Eu parecia alguns anos mais velha.
No palco foi tudo muito calmo. No começo, havia cenas de Christine sendo 'humilhada' por Carlotta e depois, quando a prima dona não pode mais cantar, Christine deu a volta por cima, pegando seu papel. Mas quando chegamos às cenas com o Fantasma, eu fiquei meio tonta. Não deixei transparecer, é claro. Bert parecia mais alto, e estava genial em seu papel. Não sei quando isso aconteceu, sendo que não estava assim nos ensaios. A máscara cobria seu rosto inteiro. E o público aplaudia. Foi uma sensação boa. Mas quando Bert começou a cantar, e quando eu olhei em seus olhos, eu percebi porque ele tinha mudado tanto, porque ele estava tão perfeito no papel. Porque ele era Erik. Me entenda, não estou dizendo que Bertràn tinha entrado no personagem, mas sim que era realmente Erik ali, junto de mim, os olhos azuis brilhando como nunca. Ah, Erik. Ninguém além de mim pareceu perceber alguma coisa. Também, como poderiam?, eles estavam quase como hipnotizados pelo Fantasma da Ópera. Na última cena, Christine beija o Fantasma. Agora, a química tinha acontecido, total e completamente.
A Ópera foi á loucura! Nós agradecemos ao público e depois eu fui para o meu camarim. Nunca poderia me acostumar com isso. Imaginem qual foi minha surpresa a ver Erik ali, junto de mim. Depois de um mês, eu já tinha considerado ficar trancada naquele quarto maldito até apodrecer. Mas, não, com Erik não funcionava assim. Eu não podia pensar em ficar longe dele.
-Não sabia que você cantava, Catherine. — ele disse, trancando a porta do camarim e se aproximando.
-Nem eu. — falei, baixinho.
-Eu fiquei mal por ver você chorando nas últimas semanas, Cathy, mas você sabe porque não podemos voltar a nos ver, ao menos por um tempo. — Eu tentei evitar que as lágrimas começassem a jorrar, mas não tenho certeza sobre o meu sucesso quanto a isso. -Eu vim aqui porque eu precisava te dizer que te amo. Não quero que pense que te abandonei, mas estou fazendo isso porque não quero ficar sem te ver. Você foi esplêndida essa noite. Nunca tinha percebido como você parece com Christine. — agora ele sussurrava no meu ouvido, po cima do meu ombro
-Erik, não faça isso. Por favor, eu não aguento ficar longe de você. — eu disse, virando de frente para ele.
-Cathy, eu estou bem aqui!
-Agora! Mas daqui a um segundo você pode sumir e eu não quero que você vá! — minha voz estava fraca, tanto pelo esforço que fiz no tablado como pelo desespero.
-Ah, Catherine... — ele disse, secando uma lágrima teimosa que cismara em escapar do meu rosto. -Isso dói tanto em mim. Você não quer ir para casa de seus pais, quer? — fiz que não com a cabeça — Então, por favor, não me faça sentir culpado por fazer isso. Não vai ser para sempre.
Ele deslizou as mãos pelos meus ombros, descendo-as pelas costas e quadris, me puxando para si. E eu o beijei com urgência, pois não sabia quanto tempo teria que ficar sem ele. Queria guardar para mim o máximo que podia.
-Catherine! Catherine? — alguém estava batendo na porta. Era a voz de Matt. -Você está aí? Estava maravilhosa hoje.
Erik afrouxou um pouco o abraço, mas eu continuei com os braços em seu pescoço.
-Matt! Estou me trocando, me procure depois, no meu quarto.
-Certo, estou indo!
-Chaaato... — murmurei, revirando os olhos, e Erik riu.
-Vai ter que se acostumar. — e aproximou o rosto de novo. Minhas mãos subiram de seu pescoço para o rosto, acariciando-o, enquantos os braços dele me sustentavam pela cintura. Ele começou a descer os lábios, beijando meu pescoço e eu tombei a cabeça para trás. Era tão bom estar com ele. Soltei um gemido, ainda fraca, e Erik fez o mesmo, logo em seguida.
Alguém bateu na porta de novo.
-Agora, não! — dei um grito. Não queria que ninguém atrapalhasse, droga.
Mas Erik se distanciou.
-Acho que você realmente devia trocar de roupa agora. Matt está te esperando. — ele disse, com uma ponta aguda de ciúmes.
-Ah, Erik!... — comecei a dizer, mas ele me interrompeu, com um último beijo, e quando eu retomei forças, ele já tinha desaparecido.
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