Notas iniciais
É a primeira vez que escrevo algo desse gênero e não sei se será bem recebido. A minha conta no nyah é bem recente e ainda estou explorando território para perceber o que é realmente a minha 'área'.
Agradeço que quem leia e tenha gostado, POR FAVOR, deixe review caso contrário não irei continuar a postar.
Sei que o capítulo pode ter ficado um pouco longo, mas vale a pena dar uma chance e ler até o fim.

São Paulo é a maior cidade da América do Sul e a quarta maior de todo o mundo. É também uma das mais violentas e sobrepovoada. Certo filósofo italiano disse que não é seguro ser-se rico e muito menos bilionário num país como o Brasil pois a diferença entre as classes sociais é de tal forma drástica e extrema que o rico não pode usufruir da sua fortuna sem que o pobre seja afrontado.

Eu sempre achei o dinheiro — mero pedaço de papel adornado com números — sobrevalorizado. Mas uma garota herdeira de milhões como eu dizendo algo assim soa a nada mais do que mero cinismo. Por mais que eu não seja e quanto mais me esforço para provar o contrário onde quer que fosse era rotulada como patricinha, mimada, sonsa, filhinha de papai, metida, arrogante e a lista continua. Gostaria que pelo menos alguém alguma vez tivesse parado e pensado que na realidade não sabiam nada sobre mim para além do meu sobrenome. Sim, porque a maioria não sabia sequer o meu primeiro nome.

O suor escorria pela minha testa a medida que dobrava a velocidade das pedaladas enquanto focava o céu nublado e as dezenas de prédios lá fora.

- Cem. — Grunhi jogando a cabeça para trás após finalmente atingir o número de pedaladas impostas por mim mesma.

Deixei que meu corpo amolecesse até finalmente sair da bicicleta de ginástica limpando a testa na pulseira toalha à volta do meu pulso. Virei a garrafinha de água na boca sentindo todo o trajeto da minha garganta até meu estômago ser refrescado.

Tomei um duche de água morna e com um conjunto de moletom bem confortável me sentei à frente do macbook pro para checar pela milésima vez a minha conta bancária e email. E ambos estavam tal qual o costume — a conta bancária cheia e o email vazio. Após cinco anos totalmente à parte da sociedade ainda não consigo evitar me encher de esperanças e fantasiar que algum dia terei alguém que me envie um email simplesmente para saber como foi meu dia.

- Ah, do que você está reclamando Abigail? Não era exatamente isso que você queria?... Estar sozinha. — Murmurei com o queixo apoiado nas palmas da mão e cotovelos sobre a mesa de vidro.

Na manhã seguinte cumpri a mesma rotina até algo fora do habitual roubar a minha concentração. Havia movimento no corredor. Vozes e até mesmo algumas gargalhadas vez por outra. Colei a bochecha à madeira escura e fria da porta de entrada assistindo através do orifício preenchido por uma lente de vidro graduada — ou deveria dizer espiando — a meia dúzia de homens fardados com uma camisa cinza com o logotipo de alguma empresa estampado nas costas. Eles carregavam móveis para dentro do apartamento à frente do meu. O apartamento que estivera vazio por três meses após a morte repentina de Dona Cássia — a inquilina mais idosa e também a única com quem eu ponderava por vezes interagir pela energia caridosa que a envolvia.

- Estes são os últimos. — Um dos homens anunciou aos outros que arfaram aliviados.

Dentro de alguns minutos eles dispersaram e nas duas horas que se seguiram o silêncio voltou a reinar e retomei o que estava a fazer antes. O relógio na ecrã do computador marcava três da tarde em ponto quando ouvi mais uma vez vozes vindas do corredor.

Fui até a porta espiando novamente. Um homem alto de talvez dois metros de altura ou algo rondando isso conversava animado com alguém que estava fora do meu campo de visão e audição. Ele vestia uma camisa branca com as mangas arregaçadas até a meio do braço e uma calça jeans escura. A pele lisa do seu rosto da cor do ébano só era corrompida pelo cavanhaque.

Por fim ele adentrou o apartamento desaparecendo no seu interior. Pulei de susto me afastando da porta num movimento brusco quando o rosto do Senhor Araújo — o zelador do prédio — surgiu aparentemente vindo do nada à frente da minha porta numa versão distorcida pela graduação do vidro. A campainha ecoou seguida da frase de todos os dias:

- Senhorita Clayton venho buscar a lista de hoje.

Me recompus do susto destrancando a porta com a típica hesitação de momentos de tensos como este. Abrir a porta do apartamento ainda que por meros segundos me faz sentir exposta e à mercê do tumúlto da cidade algo que me leva ao pânico literalmente.

— Boa tarde, senhorita. — O homem de meia idade com duas faixas de cabelos grisalhos na lateral da cabeça sorriu amistoso ao me ver ainda que apenas com metade do rosto visível e a outra escondida atrás da porta.

- Boa tarde. — Minha voz soou rouca me obrigando a limpar a garganta antes de completar.

- Aqui está a lista para hoje. — Tirei-a do bolso de trás da calça entregando-a nas suas mãos.

- Mais alguma coisa? — Perguntou quando não voltei a bater a porta apressada como já era hábito.

Meu olhar caiu sobre a porta escancarada do apartamento da frente. Senhor Araújo lançou um breve olhar por cima do ombro na mesma direção e ergueu as sobrancelhas compreensivo.

- São novos inquilinos. Um casal. Ele é advogado e ela foi modelo por alguns anos, mas acho que desistiu do ramo.

- Hum. Sabe me dizer quem são?

- Ele Ivan Silva e ela Cristal — Disfarcei o sorriso que quase me escapou ao ve-lo se esforçar por pronunciar o nome de forma correta — Albuquerque. Formam um casal muito bonito.

Dito isto o homem alto — Ivan, não é mesmo? — reapareceu com um molho de chave nas mãos e passos apressados. Meu corpo entorpeceu e aquela sensação de estar na beira de um precipício prestes a cair em queda livre se apossou de mim. Ele parou assim que deu pela nossa presença nos comprimentando com um aceno de cabeça. Depois seguiu caminho pelas escadas.

Senhor Araújo pareceu se aperceber do meu mal-estar e tentou se aproximar sendo impedido pela voz doce e femenina que nos surpreendeu aos dois. Uma moça jovem de estatura média e pele mulata algures entre o tom chocolate-caremelo estava parada na entrada do apartamento. Ela vestia uma saia coral longa e de tecido fino que caia sobre seus pés escondendo a sandália alta de provavelmente quinze centímetros que só fora notada quando ela deu dois passos se aproximando mais. Seu rosto era oval, os lábios carnudos e ligeiramente rosados, os olhos eram grandes e de um tom castanho avelã.

- Seja bem vinda ao Columbus. — Senhor Araújo foi cortês — Estão bem instalados? Se precisarem de ajuda em algo não hesitem em chamar. — Se mostrou prestativo tal como realmente é.

- Obrigada. Nós estamos muito bem instalados, mas caso precisar de algo já sei a quem recorrer. — Ela sorria exibindo dentes brancos perfeitamente alinhados.

- Esta é a senhorita Abigail Clayton. — Apresentou fazendo com que a moça me focasse.

- Prazer, Cristal Albuquerque. — Estendeu a mão com um sorriso meigo que prendeu meu olhar de forma estranha e hipnótica.

Limpei o suor da palma da mão na calça de moletom discretamente antes de finalmente apertar a sua. Assim que nos tocamos uma sensação estranha invadiu minha barriga se alastrando por todo meu corpo.

Notas finais
Não estou botando muita fé que seja dessa vez que meu percurso como autora aqui no nyah arranque, maaaas... Não desisti ainda.
Se leu, obrigada. Se leu e gostou me faça feliz e deixe seu review. Ainda se leu e não gostou, me desculpe por fazer perder seu tempo. E se não leu..bem, você não está aqui e eu estou sendo louca e falando sozinha.