Amor Ignóbil
1 Capítulo Único
Notas iniciais
O ar chocava-se com força contra o rosto alvo do jovem guerreiro, tamanha a velocidade com a qual o cavalo trotava. Depois de uma batalha mortal contra o poderoso e até então, fantasioso Fafnir, Mathias finalmente tinha o anel em mãos. Saindo do terreno oriundo da moradia do falecido animal, o dinamarquês acabara em uma floresta densa e fria. O cavalo percorria o terreno irregular com velocidade, restringindo ao mínimo o campo de visão do bravo guerreiro, fazendo assim, sua confiança estar completamente focada no animal.
A chuva fina acabou tornando-se grossa e áspera com o passar do tempo, fazendo com que o viajante procurasse por abrigo. Ao deixar os olhos levantarem-se diante dos pingos de chuva, avistou uma montanha, e esta parecia sussurrar o seu nome. Intrigado, mudou o curso da direção que tomava, indo ao tal local. Cuidadosamente, o nobre cavaleiro passou por aquela floresta úmida, chegando a um terreno tão hostil quanto o primeiro.
Uma montanha íngreme envolta em chamas o aguardava. O loiro respirou fundo, a fuligem e enxofre invadindo suas narinas. Aquela era Hindarfiall, a prisão onde uma das Valquírias dormia em sono enfeitiçado. Segurou com mais força as rédeas de seu cavalo, e um grito de comando fora proferido de seus lábios. Na mesma hora, o alazão de pelugem branca como a neve começara a trotar em alta velocidade, em direção às chamas. O dinamarquês segurou a respiração, fechando os olhos.
Cruzaram as chamas, ilesos e vivos.
Uma vez do lado de dentro da montanha, encontraram-se com uma caverna escura, onde uma luz tênue os atraía para dentro.
“Está tudo bem...”
Mathias acalmara o animal, descendo do mesmo. Deixou com que seu cavalo ficasse do lado de fora, e sacando sua espada, entrou na caverna.
Ninguém sabia os perigos que podiam haver ali. O maior deles, pelo menos, já havia enfrentado, que no caso são as chamas.
O loiro andou com cautela, atento a qualquer ruído suspeito. O clima dentro da caverna era agradável, se comparado ao calor da parte exterior da montanha. Acabou por encontrar um cômodo improvisado, ainda que houvesse certo conforto. Dali em diante, descansou a espada, observando o ambiente. No centro, havia uma grande cama, e bem no meio desta, a tal Valquíria.
O cavaleiro, ao se aproximar ao ponto de tocar a borda da cama, pôde perceber que havia algo de errado. Não era uma Valquíria que estava ali adormecida.
Era um garoto, mais ou menos de sua idade.
O dinamarquês arqueou as sobrancelhas, nada mais do que confuso e surpreso. Resolveu se aproximar ainda mais, sentando-se ao lado do corpo do adormecido. E assim, observou suas feições. Apesar de ser um jovem, seu rosto era esculpido com perfeição, virilidade e delicadeza. Os cílios ligeiramente mais claros e longos que os seus, a pele branca como marfim, os lábios desenhados em um enquadramento perfeito, como se pedissem por um beijo. Mathias não se conteve, erguendo uma das mãos ao acariciar aqueles cabelos claros e macios.
O coração do bravo cavaleiro dera um solavanco ao ver que a excêntrica Valquíria franzira o cenho ao receber tal carícia, abrindo lentamente os olhos. Olhos de um azul límpido, profundo e hipnotizante. As bochechas de Mathias avermelharam-se com discrição, ao ver que o outro o encarava, compenetradamente.
“A qual nome devo chamá-lo?”
A voz grave daquele que dormia ressoou fracamente, pelo desuso.
“Sou aquele que todos chamam de Mathias. Príncipe da Dinamarca.”
O garoto ergueu o tronco, sentando-se na cama. A mão fria ergueu-se, tremulamente, tocando a face rubra do dinamarquês, iniciando uma carícia com os dedos finos.
“Sou Lukas. Filho de Wotan. E fui aqui castigado por desobediência. Acabara, tu, de salvar-me do sono eterno.”
A frase fora dita em tom baixo e monocórdio, saindo mais como um sussurro. Mathias levou a mão esquerda até a de Lukas, aquela que ainda acariciava seu rosto. Era incrível o contraste das duas mãos. A de Mathias era mais áspera, pesada e suja pelas batalhas. A de Lukas era fina, delicada e com dedos longos, a pele tão macia quanto seus cabelos.
“Obrigado, Mathias.”
O Príncipe fitou o rosto do outro, completamente fisgado por sua face inexpressiva. O coração batia rápido, um súbito nervosismo apoderou a mente de nosso bravo herói. Ele estava apaixonado pela tal Valquíria, que no final das contas, era do mesmo sexo que si. Mas ele não podia ficar. Ele precisava retornar para seu reino, levando o tesouro que carregava consigo. Desviou os olhos azulados, demonstrando insegurança, rapidamente captada pelo outro no cômodo.
“O que foi?”
“Eu não posso ficar.”
Um desapontamento ligeiro pintara o rosto de Lukas, fazendo-o recolher a mão. Mas nunca desviar os olhos frios do rosto daquele que o salvara.
“E para onde deves ir?”
“Preciso voltar ao meu Reino, levar o tesouro que encontrei, ao derrotar Fafnir. Mas, tens minha palavra, Lukas...”
Fora a vez de Mathias acariciar a faceta de Lukas, fazendo seu rosto enrubescer discretamente.
“... Voltarei para te buscar. Quando as coisas se acalmarem. Juro-te, irei retornar por ti.”
Fora a vez então do menor desviar o olhar. Depois de tantas traições, inclusive de seu próprio pai, até a mais experiente e sábia das mentes acaba enfraquecendo, atormentada pela insegurança e desconfiança.
“Não acredito em ti...”
“E por que não? O que devo eu fazer para que acredites em mim?”
O tom de voz usado por Mathias fora doce, e o afago que proferira na bochecha esquerda daquele que duvidava fora ainda mais atencioso. Um longo período de silêncio estendeu-se entre eles, tempo suficiente para que Lukas voltasse seus orbes ao rosto de Mathias, encarando-o com determinação aparente.
“Quero um beijo como promessa.”
O rosto alvo do dinamarquês queimou com aquele pedido, a vermelhidão contrastando seus olhos azuis. Engoliu em seco, encarando-o fixamente. Aproximou lentamente seu rosto ao dele, soltando o ar com força ao sentir ambos os narizes se roçando. Lukas semicerrou os olhos, os cílios parecendo ainda maiores.
Por fim, Mathias tocou os lábios de seu amado com os seus, iniciando um singelo selinho. E com rapidez, se afastou, não dando tempo para tornar aquilo um beijo eloquente.
“Quando nos encontrarmos da próxima vez, irei te dar um beijo de verdade. Essa será nossa promessa.”
Sussurrou o maior, com um sorriso de canto nos lábios. Lukas afastou o rosto, concordando com certa timidez.
E assim, o cavaleiro partiu, e o coração de Lukas, indo junto com ele.
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Em um Reino distante desta cena, mais precisamente no castelo da família real, a notícia de que um bravo cavaleiro passaria pela região se espalhou como a peste. A Rainha, ao saber que um destemido, elegante e bravo príncipe passaria na cidade por alguns dias, não pôde deixar de ficar eufórica. Viu isso como uma possibilidade de desencalhar pelo menos uma de suas filhas. Pelo menos de uma, ela salvaria a honra.
“Mas mulher, como irás empurrar as barangas para o bravo Príncipe? Estás a enlouquecer?!”
Exclamara o Rei durante o jantar, batendo com a caneca de hidromel sobre a mesa.
“Olhe como falas de suas filhas! E ainda quando elas podem ouvir-te!”
Retrucou a Rainha, apontando na direção das pobres coitadas.
“Estou a dizer, mulher, que nossas filhas não estão ao nível do príncipe!”
“Você não entende! Pois és cego! A honra de uma de nossas filhas, pois então, salvarei!”
Dito isto, a pobre mulher deixou a mesa, saindo e batendo a porta da sala de jantar. Mas teria de concordar. Nenhuma de suas filhas estava à altura do Príncipe que vinha, tanto em beleza quanto em dotes. Mas ainda havia a mais nova delas, Taimi. A garota não passava de uma adolescente, com suas jovens 15 primaveras. Entretanto, apesar de ser a mais nova das cinco filhas, era a mais formosa e também a com os melhores dotes. Sabia cantar como ninguém, além de que andava com elegância, apesar de às vezes, ser atrapalhada. E ela seria a escolhida.
Com as mãos esfregando-se uma na outra, fora até o quarto da filha mais nova, persuadindo-a a participar de seu plano absurdo. A menina, de princípio recusou o pedido, mas acabou concordando ao ver o choro falso e desesperado da mãe.
A pobre adolescente, então, se fez apta a participar daquele plano, aceitando se casar com o valente príncipe, mesmo que já tivesse aquele que amasse. E no dia da chegada do nobre dinamarquês, trajava um vestido lilás, que combinava com a cor de seus olhos raros. E enquanto isso, em seu quarto, a mãe desgostosa abrira sua gaveta secreta, retirando de lá um frasco, contendo em seu interior uma poção do esquecimento.
Tem-se enfim, início ao seu maquiavélico plano.
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Mathias fora recebido com dignidade no castelo daquela família de nobres. Fora bem alimentado, ouvira uma carga de elogios, além de ser superestimado. No meio do jantar, porém, a Rainha dera um jeito de fazer a poção chegar aos lábios de nosso guerreiro.
“Você deve estar com sede, depois de tanto cavalgar, meu nobre jovem! Vamos! Beba um pouco!”
Em um só gole, Mathias esvaziara o conteúdo do copo, sorrindo com agrado à anfitriã. Poucos minutos depois, a poção fizera efeito, fazendo o príncipe sentir-se tonto, e em meio à tontura, as lembranças de seu amado Lukas foram completamente apagadas de sua mente, e também de seu coração.
“De qualquer modo, esta é minha filha, Taimi.”
Apresentara ao jovem, sua filha mais nova, a jóia da família. Mathias olhou para a garota, vendo-a sob uma espécie de névoa densa. Um dos efeitos da poção.
“Ora... Muito... prazer...?”
“O que achou de minha filha?”
Perguntou a rainha, insidiosamente, segurando a pobre menina pelos ombros, que apenas desviava o olhar da situação. Não o amava. Não havia como.
“Sua filha?”
Perguntou novamente o príncipe, massageando as têmporas. A tontura e confusão foram se dissipando de sua mente, e a imagem da jovem princesa fora captada com mais fervor pelos olhos do dinamarquês. De fato, ela era muito bonita.
“Sim... O que acha de se casar com ela?”
“Grimhilde!”
Exasperou-se o Rei, batendo com as mãos na mesa pesada de madeira antiga.
“Ora, fique quieto, idiota!”
Mathias recusara de início, um pouco constrangido. Mas ao longo do jantar, não resistiu. Depois de horas de persistência da Rainha, e por ter caído nos encantos de Taimi, o Príncipe, ao recobrar seu bom-humor, anunciou, em alto e bom som.
“Está bem, persistente Rainha! Irei casar-me com sua filha!”
Em meio às lágrimas da anfitriã, e de um suspiro frustrado por parte da jovem, o banquete continuara.
Os dias seguiram-se agitados no Reino de Giuki, e após um mês de longos preparos, Mathias e Taimi casaram-se, com direito a uma grande festa. Depois da cerimônia, um dos irmãos da noiva chegara; de muito longe, e dera os parabéns ao casal, apesar de desgostoso com a ideia.
Berwald era um rapaz um pouco mais velho que Mathias, ligeiramente mais alto e mais forte. Entretanto, não tinha nem um terço da peripécia e coragem do dinamarquês. Uma grande pena. Além de tudo, ainda nutria um amor incestuoso por sua pobre irmã, e este era correspondido. Os dois, porém, nunca contaram seus sentimentos.
“Meus parabéns, ao casal feliz...”
Murmurou, apertando a mão do novo cunhado. Lançou um olhar dolorido à garota, mordendo o lábio inferior. Teria que desistir, enfim. Apesar de tudo, também havia algo que desejava, ou melhor, alguém. Talvez ela o fizesse esquecer de seu amor pecaminoso. Talvez.
Aproveitou que agora o famoso e destemido guerreiro era seu cunhado, e resolveu pedir auxílio.
“Mathias, agora que somos algo como irmãos, tomo liberdade para lhe fazer um pedido.”
“Mas como quiser, meu bom irmão! Peça o que quiser!”
Respondeu o novo cunhado, com um sorriso cativante no rosto. Apenas mais uma amostra de sua inexperiência.
“Bem... Há uma mulher, que há muito tempo está enfeitiçada nas entranhas de Hindarfiall.”
Esta palavra produziu um lampejo na memória de Mathias, fazendo-o ver; de relance, olhos azuis profundos e hipnotizantes. Piscou algumas vezes, tentando mandar aquela confusão para longe. Berwald, então, prosseguiu.
“É uma das Valquírias, filha adotiva do Rei Atli.”
“E o que o impede de ir até lá, com suas próprias pernas?”
“Acontece que o Castelo Cavernoso está cercado por um anel de chamas...”
“Anel de chamas... Valquíria...”
Algo naquelas palavras despertavam algo muito poderoso na mente do dinamarquês, e também, em seu coração. O que diabo era aquela incômoda e aflita situação?
“O pai verdadeiro de tal dama é Wotan, e a encerrou neste castelo, em um sono profundo, e que só poderá ser despertada pelo mais bravo e corajoso dos homens. Aquele que conseguir resgatá-la de volta à vida.”
O irmão de Taimi cerrou os olhos, fingindo uma expressão de suplicia.
“Mathias, mataste um dragão horrendo em apenas um piscar de olhos! Sei que podes fazer tal favor! Por favor, eu lhe imploro...!”
“Mas, Berwald, você já tentou isto para ser digno do amor dela?”
Perguntou Mathias, incomodado com a covardia aparente do cunhado.
“Mas é claro! Entretanto, as chamas quase engoliram a mim e ao meu cavalo!”
Depois de um longo suspiro, o dinamarquês passou as mãos pelos cabelos, suspirando. Acabou sorrindo, e concordando.
“Está bem. Irei até este castelo e a despertarei para você.”
Respondeu em tom simplório; já esquecido do fato de que ele próprio já fizera isso.
“Ótimo! Mas como fará para ficar parecido comigo?”
“Tenho algo perfeito, que carrego comigo.”
Respondeu, oferecendo-o uma piscadela, e assim, mostrando o anel que ganhara, depois de matar o terrível Fafnir.
“Se isto foi capaz de transformar um anão em um dragão, com certeza será capaz de me transformar em você.”
Estava, então, decidido. Enquanto os dois homens conversavam, Taimi apenas ouvia, o coração se despedaçando. Seu irmão era assim, tão fútil, a amar alguém apenas se esta possuísse a beleza divina? Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto macio da jovem, e ela jurou de coração esquecer sobre Berwald, e assim, aprender a amar seu marido.
Depois de alguns dias, os preparativos da viagem de Mathias estavam prontos, e ao jovem se despedir de sua esposa com um beijo, e subir no cavalo, o cunhado se aproximou, pigarreando.
“Mathias, espere.”
O loiro obedeceu.
“Não se esqueça de guardar a castidade quando estiver com ela. Quero que a Valquíria seja apenas minha.”
Anunciou, com uma pontada de ciúme aparente na voz grave. Mathias não pôde deixar de rir do cunhado, desferindo um tapinha em seu ombro.
“Não sejas tolo, Berwald. Casei-me com tua irmã, e a ela nunca irei desonrar. E não se esqueça caro cunhado, que estarei com a sua aparência, o que facilitará as coisas.”
Acrescentou o príncipe, com um leve tom de ironia na voz, prontamente percebida pelo cunhado, que se incomodou; guardando aquela gafe para cumprir e demonstrar a sua mais odiosa ingratidão.
Com estas palavras, o jovem guerreiro partiu rumo aos terrenos oriundos em que a Valquíria supostamente adormecia.
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Mathias chegou ao castelo na noite daquele mesmo dia, e depois de passar novamente pelas chamas, andou até o mesmo cômodo, o qual não se lembrava de ter estado, encontrando lá a suposta Valquíria.
“Mas...”
Murmurou, ao perceber que esta não era uma mulher, e sim um homem. Entretanto, por ainda ser filho de Wotan, o jovem possuía uma beleza invejável, e que a muitas mulheres ultrapassava. Mathias piscou, e conforme o combinado anunciou que estava lá para tomar posse de si, tornando-o seu.
A princípio, Lukas se recusou, argumentando que outro já havia estado lá e o despertado, e que a este cavaleiro seu coração pertencia – Uma vez que o próprio filho de Wotan não reconhecera Mathias, pois este tinha a aparência de seu cunhado.
“Não tens escolha. Serás meu, querendo ou não.”
Ordenou o príncipe disfarçado, não dando ouvidos às vontades do outro, e assim, pedindo que se deitasse com ele. Lukas, temendo uma violação, acabou por cair na persuasão do homem, indo em direção à grande cama do centro; chamando o visitante com um aceno da mão. Tinha seu coração partido. Seria ele, amaldiçoado e assim sofreria para o resto de sua vida?
Logo após a suposta Valquíria ter se deitado na cama, Mathias fora ao encontro desta, deitando ao lado do amado que já não mais reconhecia. E para honrar a promessa que fizera ao cunhado, e também aos votos de casamento, Mathias deixara sua espada; Notung, entre os dois corpos, honrando a promessa.
No dia seguinte, os dois retornaram ao castelo, e Lukas permanecera calado durante todo o percurso. Teria que se desculpar com Mathias, algum dia. Isso se os dois se encontrassem novamente.
Assim, depois da recepção calorosa, o verdadeiro Berwald, ao ver sua nova esposa, sentiu o coração se apertar, tamanha era sua beleza. E mesmo que esta fosse um rapaz, sua mente e coração ficaram preenchidos com o filho do Deus Supremo. E Taimi, aos poucos, perdia espaço em seu âmago.
Lukas fora tomado nos braços de Berwald, e os dois se dirigiram à cozinha. Enquanto isso, Mathias voltou à sua forma original, tomando Taimi em seus braços. Do outro lado do castelo, Berwald oferecia à Lukas uma bebida, e nesta havia a mesma poção que condenara o jovem príncipe dinamarquês. A poção do esquecimento.
“Vamos, Lukas... Você deve estar com sede. Tome.”
Meio incerto, o mais novo recebeu o cálice, a inexpressão presente em seu rosto pálido e infeliz. E quando a última gota fora bebida, Mathias fora apagado completamente da memória e coração do mesmo. Assim como sua expressão de tristeza. No final, acabara aceitando Berwald, achando que este fora aquele que lhe salvara.
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Os dias se tornaram novos meses, e a convivência entre a família do castelo começou a tornar-se tensa, uma vez que Lukas e Taimi iniciaram uma briga fútil e tola, envolvendo nada mais do que a vaidade.
“Pois meu Mathias é muito mais corajoso do que Berwald!”
Gritava Taimi, cerrando os punhos delicados, em ristes.
“Não sejas tola, Taimi. Quem salvou-me das chamas e libertou-me do sono eterno fora Berwald, e não seu precioso Mathias. Que demonstração de coragem maior, senão esta?”
Respondeu, retoricamente, Lukas; a voz ríspida contrastando com o rosto inexpressivo e indiferente.
“E quem foi que matou um dragão cara a cara? Que eu saiba, não fora o inútil do seu Berwald!”
“Modere sua língua, Taimi.”
Retrucou o rapaz, cerrando os olhos, colérico.
“Berwald é seu irmão.”
“Irmão idiota por ter se casado com um homem! E ainda mais um rameiro como você!”
Lukas arregalou os olhos, ao ver que a cunhada vinha para cima de si, as unhas longas e afiadas tentando arrancar um pedaço de seu rosto. Acabou por se defender, desferindo um tapa no rosto da garota, que às lagrimas, não conseguira mais segurar a dor de um coração partido. Ela ainda amava Berwald, e não o perdoava por deixá-la ter se casado, sem ir atrás de si.
“E você não passa de um enganado! Saiba que quem salvou-lhe aquele dia fora Mathias...! O meu Mathias!”
“Mentira!”
Exclamou Lukas, alterando o tom de voz pela primeira vez. Foi então que Taimi retirara o anel do anelar, e o mostrara ao outro, que o encarou, pasmo.
“Está vendo? Este é o anel que Mathias conquistara do Dragão, e que o suposto Berwald usava no dia que te salvou. Era Mathias o tempo todo! Ele é o único corajoso aqui!”
Lukas dera alguns passos para trás, reconhecendo o anel. Que outra desculpa teria para explicar o modo de como o Anel fora parar das mãos de Berwald para as de Taimi? Nenhuma! Lukas fora enganado, desonrado e humilhado por aqueles malditos humanos. Ele fora vítima de uma trama imunda.
“Fora Mathias que o seduziu, em nome de Berwald!”
Explodiu a cunhada, em uma gargalhada hedionda, que intensificou-se ao ver que ganhara a discussão. Lukas, com uma mescla de expressões, retirou-se do salão, andando a passos rápidos e firmes em direção a seu quarto. Começou, então, a planejar uma terrível vingança contra Mathias. Ele pagaria, por tê-lo humilhado desta forma.
Quando chegou ao cômodo, encontrou com Berwald, e depois de injuriá-lo de todos os nomes possíveis, exigiu dele uma compensação sangrenta.
“Quero que mate o marido de Taimi!”
“Matar Mathias...? O que está dizendo?”
“Achas que poderei andar de cabeça erguida depois da humilhação que fizeste-me sofrer? E o culpado é Mathias, por ter permitido e me trazido para cá!”
Lukas nunca esteve tão consternado antes, ao ponto de que sua respiração era pesada e ofegante. Berwald mordeu os lábios, se aproximando do rapaz furioso, acariciando carinhosamente seus ombros.
“Lukas, meu amor, este foi um meio que fiz para conquistá-lo...”
“Fora um meio para humilhar-me, você quer dizer!”
O ódio não permitiu Lukas de ser racional, fazendo uma ideia venenosa e fatal brotar em seu consciente. Um sorriso mínimo surgiu no canto de seus lábios, e a voz soou mais sarcástica do que ele planejara.
“E você, seu ingênuo... Acha mesmo que o cínico do Mathias dormiu ao meu lado sem me tocar?”
Berwald encarou o amado, a expressão tornando-se confusa e aflita.
“Acreditou na história da espada metida entre nós? Francamente...”
“Está mentindo...”
Sussurrou o maior, ao que provocara um sorriso de escarninho no rosto pálido de Lukas. Mas isto fizera o passado reviver limpidamente em sua memória, e Berwald lembrou-se da ironia utilizada por seu cunhado, ao prometer que não tocaria na Valquíria. E aquilo fora suficiente para brotar o ódio da falsa traição no coração do Príncipe.
Mas Berwald não teria a coragem de matar aquele que lhe trouxe a felicidade, e agora, o ódio. Mandou que um mensageiro procurasse o segundo irmão, aquele que vivia caçando em uma distante floresta.
Alguns dias se passaram, e quando o cavalo deste irmão cruzou os portões do castelo, Berwald prontamente tomou seu tempo, em desespero fingido.
“Emil, Emil! Serás tu a limpar a honra de nossa família!”
“Limpar o quê?”
Perguntara o recém-chegado, aflito.
“A honra!”
“Mas por quê? O que houve? Como... -“
Berwald fizera o outro calar-se, começando a introduzi-lo dos fatos recentes, desde o casamento de Taimi, à promessa envolvendo a Valquíria e então, à traição. Emil não entendera muito da história, mas como sangue estava envolvido, seu instinto de caçador ficou aguçado, o que o permitiu prestar atenção no que seu irmão dizia.
“E o que eu ganho com isto, afinal?”
“Ficarás com todo o tesouro de Mathias! Há um baú cheio de ouro e jóias, no quarto deste!”
Aquilo fora o bastante para Emil aceitar tal desafio, e naquela noite, agiria.
Fora até o quarto da vítima, pé ante pé, e ao esgueirar a parte superior do corpo para dentro do quarto, encontrou Mathias deitado ao lado de sua esposa, com os olhos abertos. Emil rapidamente saiu do cômodo, o coração batendo descontroladamente no peito. Respirou fundo, secando o suor que formou-se na testa. Talvez ele estivesse dormindo... Muitos dormiam daquele jeito.
Resolveu arriscar mais uma vez, entrando de corpo inteiro agora. Esgueirou-se na penumbra do cômodo, vendo que naquele momento, os olhos azuis do príncipe estavam fechados. Suspirou de alívio. E com cautela, voltou a se aproximar da cama, a espada afiadíssima segurada com força pelo cabo. Emil olhou as feições jovens do cavaleiro, e respirando fundo, desferiu um golpe violento no peito do mesmo, nem se dando o trabalho de retirar a espada da carne do dinamarquês. Simplesmente saiu correndo do quarto.
Mas algo de errado acontecera, e ele sentiu um formigamento terrível na parte inferior do corpo, e assim, fora ao chão. Uma dor aguda o atingiu, e confuso, ele olhou para trás, percebendo que já não tinha mais pernas.
Pois tão logo Mathias recebera o golpe fatal de seu agressor, retirara a espada de sua própria carne e a lançara com tanta força na direção do caçador, que o partira pela cintura, deixando a parte inferior ainda dentro do quarto.
Deste modo, os dois pereceram pela mão um do outro.
Taimi, que ainda dormia tranquilamente, acabou acordando com toda aquela agitação, e ao ver seu marido morto, e suas próprias vestes sujas com o sangue dele, começara a gritar, enojada; e seu grito ecoou por todas as paredes do Castelo de Giuki, fazendo com que todos acordassem, e se dirigissem até o quarto do casal.
Mas já não havia mais nada a se fazer. Lukas concluíra com sucesso a sua vingança.
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Taimi culpara Lukas de todos os absurdos, mas ninguém lhe deu a merecida atenção. A garota havia enlouquecido, depois de viver o trauma. Em meio à confusão, Lukas acabou recuperando a memória aos poucos, lembrando-se enfim de seus reais sentimentos por Mathias. Aquilo fora como a facada final.
No dia do enterro do Bravo Herói, enquanto Taimi chorava nos braços de Berwald, os olhos de Lukas acompanharam todos os movimentos prestados perto do corpo imóvel de Mathias, agora, coberto por flores, pronto para ser cremado. O rapaz pediu que esperassem, e se aproximou do defunto. Encarou-o, tocando-lhe a pele de mármore, com seus dedos longos e gentis. Lágrimas escorriam pesadas de seus olhos azuis.
Em um movimento sutil, retirou um punhal do bolso, afundando-o no peito. A vertigem tomou-lhe o corpo, e ele foi ao chão. Os olhos inundados d’água permitiram apenas enxergar as silhuetas daqueles que correram em seu auxílio.
“P-Por favor... Enterrem-me junto à Mathias. Eu os imploro...”
Essas foram as últimas palavras proferidas por seus lábios, e seu último desejo fora atendido por aquele que o enganara; Berwald.
Lukas acabou sendo cremado junto de Mathias, e a espada do dinamarquês fora posta entre eles, assim como naquela noite; onde o príncipe provara a todas a sua lealdade.
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