Amor Fati
5 Lei da Inércia
Notas iniciais
Meus olhos estavam fechados. Sentia o sol do final de inverno carioca — estação do ano em verdade inexistente na cidade —, banhando meu corpo, junto a brisa leve que levantava alguns grãos de areia.
Movi meus ombros e braços devagar, espalhando-me ainda mais em cima da canga, como uma estrela do mar preguiçosa. Meus óculos de sol protegiam meus olhos da luz intensa da tarde, enquanto minha mente vagava para longe da praia, esquecendo-me do aroma marinho misturado ao cheiro de filtro-solar, bem como de minhas companhias naquele momento.
Um mês se passara desde aquele dia. Daquela noite, na verdade, para a qual supostamente eu me preparara, e que ainda assim fora surpreendida.
Uma espécie de sorriso enviesado surgiu em meu rosto, quase como um esgar instintivo. Mais uma vez me recordava dos últimos acontecimentos... Das últimas aulas, pelas lembranças vívidas que perpassavam meus pensamentos como se as revivesse mais uma vez.
Depois que me despedi de Bento naquela noite de sexta-feira, lembro-me de ter passado um bom tempo quase como entorpecida, minha consciência dividida entre o tempo que passei conversando, rindo e me divertindo com meus amigos e o fluxo de sensações que volta e meia me invadia, quando me percebia distraída. Aquilo fora estranhamente... Arrebatador.
Não me entenda mal. Talvez você esteja me julgando deslumbrada ou algo do tipo. Não é como se eu fosse completamente inexperiente, ou influenciável. Ao menos eu não me considero assim. Desde os treze anos, quando dei meu primeiro beijo com um vizinho de Marcos em uma daquelas típicas festinhas de pré-adolescentes que se julgam amadurecidos, eu me abri para os mistérios, agruras e doçuras da sexualidade.
Lembro que esta minha abertura para as grandes revelações do feminino foi no mínimo uma decepção. Longe do que os filmes da Disney e romances baratos ensinam a nós, meninas, senti na verdade por todo o tempo que eu cumpria algum tipo de protocolo social, e tenho a impressão de que o pobre coitado também. Afinal de contas, quando terminamos o "trabalho" que tínhamos de fazer, o garoto de meros doze anos na época foi saudado heroicamente pelos seus amigos presentes na festa, como se tivesse se recuperado de uma doença terminal.
Já eu, me afastando discretamente com medo de ser convidada para algum tipo de continuação de algo que não fora nada além de úmido e mecânico, fui a procura de Daniel, afinal, para que servem os melhores amigos?
Encontrei-o rapidamente em um canto na pista de dança, falando com alguns garotos aleatórios. De vez em quando era difícil ser a melhor amiga dele. Ele estava sempre rodeado de pessoas, graças às suas habilidades sociais que beiravam o sobrenatural.
Lembro-me da reação que teve quando lhe contei. Deu um daqueles seus sorrisos ridiculamente largos e contagiantes que me fez começar a rir na mesma hora. Comemoramos com um high five de sempre e ele passou a noite inteira me enchendo o saco por ter me esgueirado de fininho para longe do primeiro conquistador dos meus lábios.
Fiquei com outros desde então, meu melhor amigo incluso nesse bolo, naquela peculiar situação que já narrei. O importante é que, aliviada, descobri enfim que aquele tipo de contato poderia realmente ser bom, quando compartilhado com alguma mínima vontade real. E, assim como acontece com todo reles mortal, de beijos inocentes passei para os amassos, e dos amassos, para o que naturalmente vem depois.
A questão primordial foi que, nunca, em nenhum tipo de envolvimento, fugaz ou não... Nunca eu passara anteriormente por alguma experiência tão controversa, e, ao mesmo tempo, tão irresistível. Bento era apenas um homem, e eu tinha plena consciência disso, mas todo o seu comportamento dissimulado, que antes me trouxe receio, pouco a pouco era substituído por reações que me traziam uma mistura de emoções, aparentemente opostas.
Aquilo me enraivecia, a princípio. Toda a percepção de mundo que eu construíra até então era baseada no tipo de julgamento que eu conseguia fazer daqueles que me cercavam. Eu não gostava de mentir, de fingir. Sempre preferi encarar a realidade, ácida ou não, do que me cercar de ilusões. A dor da verdade era preferencial a uma mentira fadada a se revelar.
Mas aquele homem, aquele ex-namorado de minha mãe que agora era meu professor particular... De alguma forma ele conseguia enevoar meu olhar julgador sobre ele, impedindo-me de chegar a conclusões definitivas. A verdade é que eu não sabia realmente o que ele queria comigo, o que significavam aquelas aulas particulares, aquele suposto favor que prestava ao meu tio.
Era por isso que insisti durante todo esse mês na tarefa que eu me comprometera. Entenderia quem era aquele homem. Flagraria suas perversões, exibiria sua sordidez, escondida por trás daquele irritante máscara paternal de gentileza. Eu queria dobrá-lo, queria eu mesma vencê-lo em sua dissimulação, mas ele parecia sempre estar um passo à frente.
Passei aulas usando roupas ao estilo de minha mãe, imitando seu modo de se arrumar apenas para provocá-lo. Depois de ver que aquilo aparentemente não surtia grande efeito, resolvi ser mais audaz: usaria da minha aparência sonsa e juvenil para jogar na cara dele a problemática projeção que fazia em mim.
Lembrando-me de todos os clichês "lolíticos", usei saias de pregas, shorts de cintura alta, blusas cropped, e todo o tipo de arsenal fetichista adolescente contra aquele sujeito. Pouco a pouco, Bento abria-se paulatinamente, dividindo-se entre afabilidade e flertes contidos. Contudo, pude sentir que o dobrei de fato apenas na última aula.
Na ocasião, Bento chegaria mais cedo, e eu me esquecera disso. Eu ainda usava uma camisa feminina do Timão, shorts esportivos e meiões, pois havia acabado de jogar uma pelada na quadra de futebol que havia no playground do prédio de Beto.
Meus cabelos estavam presos em uma maria-chiquinha despretensiosa, ainda desalinhados. Ao passar pela minha imagem refletida na televisão apagada da sala de estar, olhei-me dos pés à cabeça e sorri. Se eu tivesse ensaiado, talvez não tivesse sido tão efetivo.
Deslizando com meus meiões de futebol pelo piso liso da sala, tirei um pirulito de coração de uma caixa de doces que havia perto da porta, rasguei o plástico e abri a porta.
O jeito que Bento me olhou da penumbra do hall de entrada me fez prender a respiração.
Ainda assim, com sua furtividade profissional, meu professor conseguiu lidar com toda aquela fantasia imoral com civilidade invejável. Eu percebia a forma cada vez mais “carinhosa” que ele tinha de se dirigir a mim. Como sentava-se cada vez mais próximo de onde eu decidia ficar, naquela enorme mesa da sala de jantar. Como nossos braços e pernas se roçavam em inocentes acidentes imprevistos com uma frequência exponencialmente maior a cada aula. Como ele inventava os mais diversos pretextos para me tocar, para despedidas com longos beijos em meus cabelos ou minha testa, quando eu o puxava cada vez mais para seus limites.
Surpreendi a mim mesma percebendo o quanto aquilo simultaneamente me irritava e me entretinha. Em meio aos meus dias tediosos e modorrentos, por mais patético, no fundo, que aquilo fosse... Brincar de seduzir Bento me divertia, mais do que eu gostaria de admitir.
Sabia que ele via minha mãe em mim. Mas o que isso significava para ele... O que isso significava para mim, eu não fazia a menor ideia.
— Ô, Gasparzinho! — Beto me saudou de longe, enquanto eu despertava de minhas imagens mentais chamativas — vai ficar igual a um camarão desse jeito! — troçou meu hipócrita amigo gaúcho, tão branco quanto eu.
— Não enche o saco! — retruquei, colocando o braço direito acima da testa, olhando para o céu azul anil de meados de setembro.
— Ciça, para de ser fresca, vamos jogar um altinho — convidou-me Afonso, fazendo algumas embaixadinhas na areia, perto da água do mar. Suspendi-me por meus cotovelos, erguendo meu corpo ainda lânguido.
— E vê se tira esses óculos ridículos de coração também! Quer pagar de hipster e fica parecendo uma vespa... Microscópica do jeito que é, ainda me bota óculos maiores do que a cara no rosto! — Daniel continuou a zombaria, sentado debaixo de uma barraca ali perto, fazendo os meninos rirem. Percebi sua namorada, Sandra, deitada em seu colo e de costas para mim, tremer um pouco o corpo. Pelo visto, dera risada também. Não me surpreendia. Insegura como era, provavelmente deveria adorar ver Daniel repudiar algo que tivesse relação comigo.
— Olha quem fala, o cabeça de samambaia... — debochei de volta, fazendo pouco dos cabelos compridos e cacheados de meu melhor amigo — pelo menos espera seu primo voltar da água — sugeri.
— O Felipe só vai sair de lá quando a gente for embora. Ele vem pra praia surfar, trazer a gente aqui de carro é um favor que eu consigo pra vocês — complementou Daniel, encarando-me com um olhar debochado como se fosse digno de uma medalha de honra ao mérito.
— Nossa, realmente, o que seria da gente se não fosse você! — zombei em retorno, revirando os olhos e me sentando na canga. Tirei os óculos e os guardei, olhando em volta para a paisagem da praia de Grumari, na zona oeste do Rio de Janeiro. Naquela sexta-feira, tínhamos saído mais cedo, pois o professor que nos daria o último tempo faltara por razões de enfermidade.
Grumari era minha praia favorita no Rio, por ser a de maior preservação da vegetação em seu entorno e também de melhor qualidade da água. Lembrava a fantasia que eu tinha do que seria uma praia havaiana, sem construções humanas por perto.
— Ciça. — A voz baixa e doce de Sandra, namorada de Daniel, se fez ouvir do colo dele. Surpresa, olhei para ela, esperando o que poderia querer de mim.
— Vai acender um? — perguntou ela, enrolando-se no colo do namorado como uma gata satisfeita.
Olhei de esguelha para Afonso, que, se ouviu o que ela pediu, decidira ignorar. Em seguida, encarei Daniel, que, como eu imaginava, respondeu:
— Hoje não, linda — meu melhor amigo negou o pedido da namorada com delicadeza, acariciando os cabelos dela. Em seguida, abaixou-se para beijá-la e fazer-lhe um pouco de cócegas, enquanto Sandra exclamava em uma voz aguda apaixonada.
Levantei-me por completo, vestindo a saída de praia que usara naquela tarde, e andei até meus amigos que batiam uma bolinha. Não iria ficar assistindo de camarote aquele espetáculo meloso de amor adolescente.
Enquanto começávamos o altinho — improviso no qual a única regra é seguir as regras do futebol no que se refere ao toque e domínio de bola, e não deixá-la nunca cair no chão, passando-a de participante em participante — pensei em Afonso e como aquela prensa do policial o deixara ainda mais quieto e ensimesmado do que de costume. Ainda bem que Daniel tivera a sensibilidade de não deixar Sandra fumar um baseado na frente dele.
Qualquer um interessado em conhecer o cenário urbano desta cidade tem como parada obrigatória algumas das praias do Rio. Não há na metrópole nenhum outro local onde as mais diferentes classes sociais convivam, dispondo do mais próximo do que se compreende por “igualdade” em um mesmo espaço.
“Igualdade”, reitero, pois nem mesmo na livre circulação da praia os direitos das classes sociais são iguais. Isso se reflete na forma como, por exemplo, nós, os jovens de classe média alta se aproveitam deste local.
Se há algo que o dinheiro pode comprar, independentemente da idade, é o praticamente livre acesso aos bens e atividades ilegais. Aproveitando-se da famigerada impunidade onipresente na sociedade brasileira, até mesmo nós, meros pirralhos de dezesseis ou dezessete anos — porém cuja aparência e vestimentas exibem um padrão financeiro elevado —, podemos fumar maconha deliberadamente em plena areia da praia.
Uns dos vários privilégios que o dinheiro pode comprar, uma das supostas benesses controvertidas que Afonso jogou na nossa cara quando enfrentou a dura realidade. Ele, um morador de comunidade — o eufemismo para o termo que contém também interpretações infames, “favelado” —, cuja família vive com o dinheiro contado, é forçado dia a dia a conviver com jovens como nós, que não fazem a menor ideia do que é ser obrigado a trabalhar como aprendiz para permitir que a própria família consiga arcar com as contas do mês.
Jogamos altinho por cerca de meia hora, quando o sol já batia à pino. Decidi sair para caminhar pela areia com Afonso, pois ainda não havia tido a chance de me desculpar em palavras. Como éramos amigos há tempos, depois daquele incidente respeitei o afastamento de meu amigo, que depois de poucos dias voltou a conviver conosco como se nada tivesse acontecido.
Reparei em Beto voltando para debaixo da barraca, sentando-se na companhia de Daniel e Sandra. Logo depois, já caminhando com Afonso, vi a forma contrita com que Roberto encarou o primo de Daniel, Felipe, um rapaz bastante bonito de vinte anos de idade. Passaram a conversar, e vi como Beto não parecia nada à vontade. Provavelmente se sentia atraído pelo primo de meu melhor amigo, e senti uma pontada de compaixão por ele, ainda tão reprimido.
Quando já tínhamos caminhado até a ponta direita da praia e voltávamos, mudei o assunto — que era a atual má fase do Flamengo, e a consequente frustração de Afonso —, para o que queria realmente falar. Aspirei profundamente o cheiro de maresia para me dar coragem, sentindo o sal limpando meus poros.
— Afonsinho... Desculpa por... Por aquele dia — fui direta, olhando para as ondas que batiam ao longe. Em seguida, voltei meus olhos para o rosto dele.
— Tá tranquilo — respondeu Afonso, meio andando, meio chutando a areia com leveza. Percebi que o deixara sem jeito.
— Assim... Eu só fiz aquilo porque achei que era o certo a ser feito. Não queria te ofender — ratifiquei, passando os dedos pelo meu cabelo ainda molhado de água do mar.
— Ciça, sou seu amigo — Afonso pareceu soltar a respiração, um tanto cansado — mas vê se não fica puta... Vocês são muito mimados, demais — meu amigo fez a acusação, e eu não pude discutir. Realmente, comparando com a realidade dele, éramos um bando de folgados.
— Isso impede vocês de enxergarem algumas coisas... Coisas que não são... Não são da vida de vocês. Não culpo vocês: você, Dan, Marcos, Beto... São gente boa. Nem todos são assim na escola, gente que além de mimada é ruim mesmo — admitiu ele — mas não se preocupa com o meu trabalho, com o meu jeito de resolver as coisas lá em casa. Isso é comigo. Só espero que vocês respeitem isso — pediu meu amigo, olhando para a areia que chutava parcialmente ao caminhar.
— Tudo bem — disse, estalando os dedos da mão, entrelaçando-os. Estávamos desconfortáveis, não conseguíamos nos encarar nos olhos.
— Assim... Você passou por uma barra na sua família. O lance dos seus pais. E o que você passa, né, sozinha com seu tio. Mas é outro tipo... Outro tipo de coisa. Você entende de umas coisas que eu não saco, e vice-versa — completou Afonsinho, parecendo encerrar o assunto. Eu apenas anuí em silêncio, passando os dedos pelo meu cabelo.
— Acho que tem certas coisas que só experimentando na pele para sacar... — refleti, encarando o mar.
— Com certeza... — Afonso continuou, limpando a garganta. Em seguida, parou de caminhar, e eu me detive também, instintivamente.
— O que foi? — perguntei, ressabiada.
— Tem um siri no seu pé! Sai daí, ele vai te beliscar. — Afonso apontou, arregalando os olhos.
Pulei para o lado, comprimindo um gritinho bobo e agudo. Afonso começou a gargalhar, ao passo que percebi que meu amigo tinha acabado de me enganar. Não havia nada ali.
— Dessa vez passa, seu babaca! — retorqui, me fazendo de ofendida. Afonso continuou a rir e me deu um empurrãozinho leve, amigável.
Voltei meus olhos para ele, fingindo irritação. Era bom vê-lo rir, logo ele, que tinha uma vida tão dura, tantas responsabilidades.
Seguimos caminho de volta para meus amigos, e agora que Afonso estava leve outra vez, refleti distraída sobre o que conversamos.
Por mais que conhecesse meus amigos, por mais que convivêssemos diariamente, sempre haveria partes da vida deles das quais eu jamais saberia, jamais participaria.
Tais como os meus recentes acontecimentos de polêmica interna, jamais imaginados até por mim mesma.
*****
Acabamos voltando muito tarde da praia.
Cheguei em casa por volta das dezoito horas e alguns minutos, morrendo de fome e consideravelmente cansada. Tive apenas tempo de tomar um banho rápido e esquentar um prato de comida do que Eliete preparara para o almoço daquele dia, quando já escutei a campainha tocar.
Quase atirei o prato de comida na pia, andando ligeira pela cozinha, atravessando-a para chegar na porta da frente. Sentia que eu fora descuidada naquele dia, vestida com uma camiseta de algodão qualquer, um short velho e ainda por cima descalça. Todavia, perceber-me realmente preocupada com aqueles detalhes esdrúxulos me trouxe algum receio.
Aquela brincadeira começava a ficar um tanto séria demais.
— Boa noite, Cecília — Bento me cumprimentou, dando-me dois beijinhos superficiais no rosto, à moda carioca. Depois, parou, e encarou meu rosto franzindo de leve as sobrancelhas, enquanto eu fechava a porta.
— Tomou sol hoje? — perguntou, sorrindo com doçura ensaiada.
— Fui na praia — respondi, dando um sorriso curto em resposta. Eu não era tão boa quanto ele para fingir simpatia.
— Percebi — ele manteve o sorriso — está vermelhinha. — Indicou o meu rosto enquanto algo indecifrável em suas feições se modificava. Ele ainda mantinha o mesmo sorriso com ar paternal, mas seus olhos escuros mostravam uma expressão mais ardilosa.
Senti meu coração palpitar um tanto, enquanto instintivamente engoli em seco. Seguimos até a sala de jantar, na mesma rotina que eu quase me habituava, não fossem os acontecimentos sempre... Imprevisíveis, que a acompanhavam.
Sentamo-nos um ao lado do outro, enquanto eu puxava o livro de física que havia deixado em cima da mesa já no dia anterior. Aquela aula seria reservada a última revisão de exatas para o primeiro exame do vestibular da UERJ, primeira prova oficial que eu faria naquele ano, a ocorrer no dia seguinte, em um sábado.
— Então você tinha me falado por mensagem para revermos os conceitos principais de física que vão cair na UERJ... — Bento começou, folheando o livro didático com um lápis. Vi seus dedos longos agilmente passarem por cima das páginas, o estalar das folhas ritmados com meus batimentos cardíacos.
— Acho que poderíamos terminar revendo mecânica clássica. As Leis de Newton — sugeri, sustentando meu rosto em minhas mãos apoiadas pelos meus cotovelos. Movi meus pés abaixo da mesa para frente e para trás, em um gesto infantil propositadamente calculado. Volta e meia meus pés descalços esbarravam nos pés calçados e nas pernas cobertas de Bento, trazendo-me pequenos sobressaltos prazerosos.
— Pode ser. — O professor me sorriu com fingida candura, e eu lhe agraciei com outro sorriso seco, fingindo, de minha parte, que acreditava.
Bento moveu mais algumas páginas, e chegou ao capítulo relativo ao assunto. Passou ele próprio a introduzir o tema, cruzando os dedos das mãos, me encarando com atenção.
— A primeira Lei de Newton é conhecida como a Lei da Inércia. Consequentemente, sustenta que: se a força resultante, ou seja, o vetor soma de todas as forças que agem em um objeto — Bento indicou com o lápis o vetor representado na parte conceitual do capítulo — é de resultado nulo, a velocidade do objeto é constante. — Ele abaixou o lápis, franzindo o cenho enquanto analisava a introdução do capítulo no livro de física.
— Assim, se um objeto está em repouso, ficará em repouso a não ser que uma força resultante não nula aja sobre ele. Da mesma forma, um objeto que se move não mudará de velocidade a não ser que uma força resultante, também não nula, incida sobre ele — meu professor expôs o conceito básico, enquanto eu ainda mantinha minha cabeça inclinada, concordando devagar.
Era estranho pensar o quanto aquela lição em si combinava com o contexto no qual estava inserida. Qual seria o resultado de um vetor total de forças a incidir sobre o comportamento de Bento, se eu o levasse a extrapolar seus limites?
Ainda era um mistério para mim, mas, naquele momento, escutando sua voz calma e controlada, encarando seus orbes escuros naquela expressão sempre tão contida, tão dissimulada... Tive certeza de que estava disposta a aumentar a força resultante até atingir o resultado pretendido.
Nossa aula se passou sem mais imprevistos, e incrivelmente me vi aprendendo aquela matéria que eu tanto julgara detestável antigamente com facilidade. Passamos cerca de duas horas ininterruptas revendo conceitos e resolvendo exercícios difíceis, questões que foram cobradas em outras provas da UERJ, e meu resultado foi surpreendentemente positivo. Acertei cerca de oitenta por cento dos exercícios feitos, todos envolvendo mecânica clássica. Por mais duvidosos que fossem os reais desígnios daquele sujeito, eu não podia negar que ele era um excelente professor.
— Estou tão afiada que seus serviços já não serão necessários muito em breve — provoquei, saindo da sala de jantar. Olhei para trás, na direção de Bento, que me seguia para o corredor.
— Você nunca realmente precisou, Cecília. Inteligência não é algo que te falte — meu professor soou lisonjeiro, e eu dei mais um de meus sorrisos de lábios fechados em resposta.
— Sabe, você não precisa me chamar de Cecília. Acho que já pode se sentir à vontade para me tratar por Ciça — falei com o máximo de delicadeza que conseguia, caminhando para a sala.
Bento soltou algum tipo de riso disfarçado, porém educado. Encarei-o.
— Falei algo engraçado? — Novamente senti a típica irritação que me acometia junto ao comportamento fugidio daquele homem.
— De forma alguma — afirmou meu professor particular, retratando-se com um sorriso polido. Percebi que ele se movimentava, munido de sua pasta de trabalho, para a porta da sala de estar.
Naqueles instantes decisivos, senti-me finalmente impelida por uma coragem súbita. Já não aguentava mais aquele jogo de ambiguidade. Se eu poderia impelir maior força resultante para vencer a inércia... O momento era agora.
— Fred vai demorar para chegar hoje. Foi a um jantar de trabalho — avisei a Bento. Talvez ele não soubesse, mas minha frase era apenas uma forma disfarçada de dizer que ele foi a algum puteiro com colegas de trabalho, cheirar coca e satisfazer suas necessidades primárias com sexo insosso. É claro que não fora isso o que meu tio dissera, mas eu já aprendera a prever que essa era a maior probabilidade.
— Quero dizer, se você quiser tomar um café, a gente tem uma máquina de Nespresso. — Indiquei com o polegar para trás, na direção da cozinha.
Reparei na hesitação de meu professor particular. Substancialmente, seu rosto mantinha-se na mesma expressão impávida. Pude notar a indecisão dele apenas pela análise de seus outros gestos e maneirismos, habilidade que somente nosso tempo de convivência me proporcionou.
— Bom, é uma proposta irrecusável. — Bento sorriu, afável, enquanto eu o levava para a cozinha. Coloquei duas cápsulas de Rosabaya de Colombia, café já naturalmente frutado e mais adocicado, e servi o líquido a nós dois em duas xícaras distintas.
Levei em uma bandeja para a sala, enquanto nos sentamos perto um do outro, dessa vez no sofá. Ajeitei minha blusa de algodão e bebi meu café em goles pequenos.
— Já se decidiu, Cecília? — Bento perguntou, enquanto sorvia o líquido quente da xícara e me encarava com olhos solícitos.
— Pelo quê? — retruquei, um pouco consternada. Interpretei aquela frase erroneamente, de forma tola, por um segundo. Instantes depois entendi o que ele queria realmente dizer.
— Ah, claro. Vestibular — corrigi-me, levantando as sobrancelhas e dando um sorriso amarelo. Bento continuou imperturbável.
— Não tenho muita certeza ainda, mas acho que vou para humanas mesmo — respondi, bebendo mais um gole de café.
— Alguma veia artística? — ele perguntou, com inocência aparente.
— Pff! — respondi, soltando o ar com a boca, fazendo uma careta espontânea de incredulidade. Bento me surpreendeu com o primeiro sorriso honesto da noite.
Não seria o último.
— Quem me dera... Eu até gostaria, mas o único talento que eu tenho é para jogar futebol, e nem tão bem assim — admiti, dando de ombros e colocando a xícara de café vazia na mesa de centro na frente do sofá.
— Duvido muito que seja o único — Bento retrucou, sentando-se de forma mais confortável no sofá — você é uma garota muito sensível, além de inteligente. Isso é um elogio, antes que duvide de minhas intenções — brincou ele, sorrindo com graça, enquanto levantei uma sobrancelha inquisidora.
Bento deixou sua xícara na bandeja, ao passo que me muni outra vez de coragem e o desafiei.
— O que te leva a achar que me conhece? — indaguei, mesmo sabendo que soaria desagradável. Como já tinha dito antes, não tenho o mesmo talento para a atuação que meu professor particular.
Bento abaixou o rosto, unindo as pontas dos dedos. Em seguida, levantou os olhos para mim, e me senti indefesa com a suavidade arrojada de seu olhar.
— Se possível, eu gostaria de conhecer. Mais — ele rebateu, sua voz tão calma quanto suas feições. Sentindo-me desarmada, mas sem querer dar o braço a torcer, respirei fundo e passei meus dedos pela raiz de meu cabelo, puxando-o com leveza para trás.
Mantive o olhar penetrante de Bento por todo o tempo, e respondi.
— Acho que é possível — retorqui, com um sorrisinho enviesado. Bento deu também um sorriso de canto de lábios, enquanto continuei.
— Se incomoda se assistirmos a reprise do Bate-Bola de hoje? Teve participação do Tite, eu queria ver — pedi, já me movendo até o controle remoto.
— Sem problemas. Talvez eu assistisse se estivesse em casa — falou meu professor, polidamente.
Liguei a televisão na ESPN, e me aconcheguei mais no sofá em formato de “L”, levantando as pernas para cima do estofado. Passamos o tempo do programa conversando, e percebi que Bento entendia mesmo de futebol, dando pitacos sobre a qualidade técnica de alguns dos jogadores do Corinthians, comparando com a escalação atual do Galo, rival momentâneo de meu time pela liderança no Brasileiro.
Foi um momento no mínimo curioso, depois de tanta tensão e comportamentos imprecisos, compartilhar aquele tempo despretensioso com um sujeito tão evasivo quanto Bento. Deixei-me levar, rindo legitimamente, e me sentindo finalmente à vontade em sua companhia. Eu poderia mesmo me acostumar com aquilo.
Perto do final do Bate-Bola, na chamada de um intervalo, Bento conferia seu celular, ao passo que me espreguicei, estalando minhas costas. Estava exausta, com a pele quente por um dia debaixo do sol, e certa fadiga pós-praia me trazendo inevitável sonolência.
— Se incomoda se eu deitar? — pedi, quase sem pensar. Naturalmente aquilo veio a soar parcialmente ingênuo... E provocador.
Bento apenas levantou seus olhos lentamente do visor do aparelho celular. Piscou, e percebi que ele levou uma fração de segundo para assimilar a ideia. Posso dizer que pude antever o que se passava em sua mente naquele momento.
— A casa é sua — disse meu professor, com mais um de seus sorrisos falsamente paternais.
Sem hesitar, puxei-me ainda mais para cima do sofá, arrastando-me para o lado, de forma que deitasse meu corpo todo em cima do estofado. Minha cabeça estava a centímetros do colo de Bento, e eu tinha consciência de que meus fios de cabelo resvalavam em sua perna esquerda.
Com a ajuda do cansaço pelo dia ativo, munida do descaramento que também fazia parte de minha personalidade, pude me sentir recompensada internamente com a inquietação que se ergueu no ar. Podia imaginar as mãos de Bento tremendo para tocar em meus cabelos, ou até mesmo meu rosto... E sabe-se lá o que mais poderia se passar na cabeça do velho pervertido.
Insolente, mantive-me alheia a qualquer dilema da mente torta de meu professor particular, enquanto prestava atenção nas últimas palavras de Tite ao fim da entrevista.
O programa enfim acabou, e eu imaginei o suposto alívio que Bento poderia ter sentido, e me controlei para não rir. Bocejei, cobrindo o rosto com as mãos, e finalmente arrisquei um olhar para meu professor particular, piscando os olhos e vendo seu rosto daquela perspectiva inédita.
Tive um sobressalto quando vi que me encarava, com os mesmos olhos de quando quase o beijara na frente do prédio de Marcos.
Levantei-me um pouco mais brusca do que pretendia, tentando disfarçar o ato súbito com uma espreguiçadela forçada. Ao encarar Bento, que já estava de pé, preparando-se para ir, vi que me olhava com divertimento.
Filho da puta. Ainda não acabou.
— Cecília, muito obrigado por me dar o prazer da sua companhia. Mas já está realmente tarde — meu professor pediu licença para se retirar, com a cortesia que lhe era de costume.
— Tudo bem, você pode ir embora — brinquei, abanando uma mão petulante. Vi algo faiscar nos olhos escuros dele, como se reprovasse minha impertinência — mas a gente tem uma regra aqui em casa.
— E qual seria ela? — indagou meu professor.
— Você vai me ajudar a lavar essas xícaras — falei, dando um sorrisinho curto, o tipo de expressão que eu fazia quando queria convencer meus amigos a fazer algo para mim, mais especificamente Daniel. Só que jamais agira de forma tão dúbia com eles.
— A Eliete está de folga amanhã, vamos lá — insisti, movendo a mão como se quisesse que ele levasse a bandeja. Bento me encarou um tanto incrédulo, e eu cruzei os braços, levantando as sobrancelhas em uma expressão divertida.
Ele riu genuinamente outra vez naquela noite, e eu me senti novamente descontraída.
Depois de ter convencido meu professor a levar a bandeja com as xícaras de café vazias, fomos juntos até a cozinha, e o guiei até a pia. Sentei-me em cima do balcão em um estilo de cozinha industrial, amplo e resistente. Logo em seguida, contemplei o trabalho de Bento.
— Você deixou uma manchinha. — Apontei com o indicador, provocando.
— Acho que você não olhou direito, então — Bento assegurou, não parecendo ter percebido meu deboche, atento ao que fazia. Movi-me para mais perto dele, sorrindo um pouco, tentando olhar dentro da xícara.
Surpreendendo-me por completo, Bento fechou a torneira e respingou, com os dedos quase secos, poucas gotas d’água em meu rosto, fazendo-me fechar os olhos e rir, chocada. Fora uma brincadeira delicada, mas eu jamais esperaria aquilo de alguém tão capcioso quanto ele.
E então o ouvi rir, verdadeiramente, outra vez.
— Qual foi?! — exclamei, incrédula. Bento sorria, parecendo leve, a imagem alguns anos mais velha do homem que abraçava minha mãe na fotografia do escritório do meu tio.
A mesma expressão, o mesmo brilho no olhar.
— Você pediu por essa — brincou de volta meu professor, movimentando-se para sair da cozinha.
Foi então que, naturalmente, diferente de todos os gestos ensaiados, atuados, calculados... Puxei-o pela camisa, quando me deu as costas.
Naquele momento, não queria que ele fosse. Não queria que me deixasse ali.
Queria que ficasse ao meu lado, apenas um pouco mais.
Bento parou de caminhar. Eu, porém, não soltei sua camisa. Meus dedos estavam cravados no tecido, como se aquilo fosse um ato não apenas involuntário, como, na verdade... Inevitável.
Demorou apenas um segundo, mas gravei o ato com riqueza minuciosa de detalhes, tamanho o arrebatamento daquele instante. Em um piscar de olhos, finalmente aconteceu, e eu descobri o quanto ansiara por aquilo.
Bento moveu-se em minha direção, voltando-se para mim, sentada em cima do balcão. Seus olhos azuis escuros miravam os meus com voracidade tenaz, ainda mais impetuoso do que naquela noite determinante em seu carro.
À luz incandescente das lâmpadas da cozinha, eu mesma senti-me candente, minha temperatura corporal já elevada agora alcançando níveis ainda mais altos.
Meu professor moveu uma de suas mãos até meu rosto, acariciando-o com os dedos, seguindo de minha bochecha até meu pescoço, repousando com firmeza delicada em minha nuca. Cada toque dele em minha pele sensível a abrasava, fazendo-me abrir imperceptivelmente meus lábios, por instinto.
Simultaneamente, senti um dos braços de Bento enlaçarem minhas costas, arrastando-me para seu corpo, e, ao vislumbrar seu rosto muito próximo do meu, fechei meus olhos consciente de que ele não retirara seus orbes dos meus por todo o tempo.
Em uma inspiração, senti os lábios dele nos meus, e de imediato beijei-o de volta. Meus braços que repousavam inertes finalmente recebendo o ímpeto, a força resultante para impulsioná-los. Enlacei Bento pelo pescoço, sentindo seu cheiro almiscarado, sua barba aparada roçando em minha face, instigando-me como ninguém antes conseguira. Apressei-me ainda mais contra ele, meus lábios e língua desejosos e sôfregos, entregues ao impreterível, ao que eu provocara, ao que ele provocara, ao que, no fundo, ambos sabíamos que aconteceria.
Em meio aquele afã inexorável, tive parcial discernimento de que eu mesma levava minhas pernas a cingir ainda mais o corpo de Bento contra o meu, enquanto me entregava a sentir seus braços, agora ambos em minhas costas, enlevando-me naquele ato inconsequente, tomada pelo puro desejo desperto e indomável.
Se houve algum vencedor naquele jogo de contrários, certamente não se revelou naquele ato. Ali, não havia espaço para fingimentos, somente para o mais primário instinto carnal.
Enquanto nossos corpos uniam-se, agarravam-se um ao outro como se num frenesi desesperado e mútuo, embevecidos pela volúpia, senti as mãos de Bento que apertavam minhas costas descerem, entrando pela barra de minha camisa, levando-me a gemer alto em seus lábios. Senti os músculos abaixo da pele que ele tocara contraírem-se deliciosamente, quase dolorosamente, enquanto toda uma onda nova de calor afogava minha consciência.
Seus dedos agarraram-se aquela minha porção de pele tão firmes que quase me machucaram. Gemi outra vez, ainda prensada contra ele, ainda em meio aqueles beijos ávidos.
Subitamente, fugaz e surpreendente como era, Bento se afastou. Senti minha temperatura corporal abaixar alguns graus instantaneamente, ainda demorando a raciocinar, a assimilar o que acabara de acontecer.
Arfei levemente, recuperando a respiração, aferindo que meu rosto deveria refletir um rubor puro, e, desta vez, sem ter relação alguma com a quantidade de exposição ao sol naquele dia.
— Tenho que ir — Bento falou, simplesmente. Moveu-se, sem me esperar, para sair da cozinha.
Pisquei algumas vezes, ajeitei minha camisa e meu short, e pulei do balcão para o chão. Apertei o passo, e já o encontrei na frente da porta, abrindo-a com as próprias mãos, girando a chave da fechadura.
— Boa noite, Bento — despedi-me, satisfeita, não exatamente sabendo discernir pelo quê.
Ele demorou a me escutar. Parecia um tanto desnorteado, enquanto apertou o botão para chamar o elevador, no hall de entrada.
— Boa noite, Ciça — enfim respondeu, fazendo significativo uso de meu apelido. Ambos ouvimos o som do elevador parando em meu andar.
Pensei por um segundo que ele sairia correndo para dentro do elevador, e aquilo trouxe-me um riso frouxo aos lábios. Porém, meu professor me surpreendeu outra vez.
Sem dizer palavra, abaixou-se, segurando em meu rosto, beijando longamente minha testa em despedida.
Soltou-me, foi até o elevador, e, segundos depois, desvaneceu.
Depois de fechar a porta, passei algum tempo tentando convencer a mim mesma de que aquilo realmente acontecera. Tão súbito, tão inesperado, contudo... Fora tão autêntico, tão espontâneo, inegavelmente movido pela vontade inerente de ambos.
Fui para meu quarto, um tanto letárgica, e tentei me distrair abrindo meu notebook, conferindo minhas redes sociais, deitada em minha cama. Entretanto, minha mente não queria abandonar o que acabara de acontecer. O que se delineara ali, na minha cozinha, em cima do balcão.
Eu sabia que uma hora aquela espécie de ebriedade iria passar. Que eu provavelmente me perguntaria aonde estava com a cabeça por fazer o que fiz, incentivar o que incentivei, e me questionaria o que aconteceria a partir de então. Mas ainda estava entorpecida.
Eu ainda podia sentir os dedos de Bento em minha pele. Seus braços puxando-me para si, seus lábios esfaimados nos meus, mutuamente afoitos pelos dele.
Não havia me recuperado, ainda inebriada, quando ouvi o som de batidas na porta do meu quarto. Pelo visto, tio Fred chegara, e eu nem sequer reparara.
— Entra — falei, e me surpreendi com a rouquidão em minha voz.
— Só para avisar — meu tio disse, sem melindres — amanhã à noite não marque nada, temos um jantar em família. — Fechou a porta, tão rápido quanto entrou.
Olhei para a tela do notebook, descendo uma página aberta sem nem ler o que ali havia. Dirigi meus olhos para o lado, vendo um exemplar de "Lolita" em cima da mesa de cabeceira, junto aos meus óculos de sol vermelhos, em formato de coração.
Sorri.
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