Amor Fati

4 Hibridização


Notas iniciais
Olá, queridas! E queridos! Venho nesta noite de sexta-feira atualizar esta querida história (ao menos por mim)! Pois é, quem é vivo sempre aparece... Então, gostaria de dedicar este capítulo a Gigi V, Peregrina Flor, LaurenPS, Arrriba, WandererAndy, Serendipity, Lady cyrus, Lu, CSI Fanfiction, Prin e Lena! Lindas leitoras que comentaram no capítulo passado, essa volta é pra ti, minhas flores! o/ Se preparem que esse capítulo tem um pouco de tudo... Crítica social, interações Danilia, e, claro, como não poderia faltar... Bento e Ciça! Ainda mais cenas conturbadas... Preparem-se! Dito isso, beijos e boa leitura! o/ Quem quiser favoritar, recomendar, etc, é muito bem-vindo! Por favor, deixem reviews! Ps: felicíssima que a história está com 48 leitores *-* em apenas tão poucos capítulos!

Naquele dia, eu estava particularmente inspirada.

No segundo fatal, abaixei a caneta enquanto a sineta tocava, sinalizando o final da prova. Ouvi o burburinho de estojos e mochilas se abrindo, de cadeiras sendo arrastadas enquanto conferi o que havia escrito antes de entregar a avaliação.

Gastara todas as quatro páginas da folha de papel almaço, preenchendo as questões de literatura. Tratava-se de perguntas de revisão para as provas de vestibular, envolvendo o movimento literário do realismo.

Português e literatura sempre foram certamente minhas matérias favoritas. Nunca tive dificuldades para a interpretação de texto, qualidade minha que acredito advir de minha sempre intensa observação da realidade.

Como já deve ter percebido, eu não sou de falar muito, mas costumo estar sempre atenta ao que ocorre ao meu redor. Enquanto mil e um pensamentos se alastram pela minha cabeça, sou capaz de formular, oralmente, cerca de apenas uma palavra para expressá-los.

Assim, fechei a folha de almaço com minha cabeça ainda abaixada, apoiada em cima de meu braço esquerdo, meu rosto tão perto da folha que podia sentir o cheiro da tinta. Arrastei a cadeira com estrondo para trás, raspando no chão em um ruído agudo, até que ela enfim encostou-se a parede, ao passo que varria a sala com o olhar.

Daniel já tinha saído. Cumprira com honra o papel de garoto prodígio que era. Terminara a prova em metade do tempo, o primeiro de nosso grupinho desajustado a concluir o exame.

Sentada no fim da classe, podia ver apenas a cabeça baixa de Marcos, ainda nervosamente esfregando o punho direito pelo papel, o que claramente indicava que não terminara a avaliação. Roberto acabara de se levantar, dando a prova nas mãos da professora, enquanto da pequena janela de vidro que havia em cima da porta bem adiante, na extrema esquerda da sala, eu pude ver o rosto de Afonso também estudando os alunos que ainda ocupavam a classe.

Ergui minha mochila do chão, jogando meu material escolar de qualquer jeito lá dentro, e caminhei até a mesa da professora de literatura. Deixei a prova defronte a ela, uma senhora que devia ter quase sessenta anos, e ela retribuiu-me com um sorriso curto quase indiferente.

— Gostei da prova — elogiei, esforçando-me para ser simpática. Não era mesmo um de meus atributos.

Ademais, eu não era do feitio “cdf”, muito pelo contrário. Contudo, levando em conta o quanto minha moral estava em baixa com o corpo docente, pois perigava repetir o ano pela possibilidade considerável de reprovar nas ciências exatas, não custava nada agradar os professores de matérias em que eu podia me sair bem. Ou melhor, nos que eu queria me sair bem.

A verdade era que, no fundo, eu não ligava.

Desde o início do terceiro ano, eu sentia minha vida, tanto acadêmica quanto em outras áreas, um tanto sem sentido. Faltava algo. É claro que uma afirmação dessas, dita por uma “patricinha” que nasceu em berço de ouro, deve ser algo julgado no mínimo patético. O que me faltava, se eu tinha tudo?

Nem eu mesma sabia. Não sabia que profissão seguir, não sabia o que seria da minha vida no final daquele ano, não sabia se eu sequer estava preparada para o fim da escola. Era algo hipoteticamente tão simples, mas tão enigmático na prática.

Não era como se eu realmente tivesse algum apoio na vida. Ainda mais considerando o projeto ridículo de guardião que era meu tio Fred. Eu tinha dinheiro, e muito. Tudo o que o dinheiro poderia comprar. Mas, infelizmente, ele não conseguiria me dar os esclarecimentos que eu buscava.

Como já disse antes, eram nesses momentos de reflexão que a solidão que eu me habituara a sentir tornava-se realmente desconfortável. Eu gostava do silêncio e da introspecção, mas abominava essa horrível sensação de desamparo.

No fim, sentia-me contemplando um abismo de incertezas, incertezas as quais eu provavelmente não teria outra forma de encontrar as respectivas soluções, se não ao me jogar de cabeça no vazio. Permitindo que ele me invadisse.

Preenchesse-me, em toda a sua incompletude.

De volta à entrega da prova, a professora ajeitou os óculos, presos por aquelas cordas ao pescoço que idosos gostam de usar, e permitiu uma pequena troca de palavras comigo.

— Escolheu dissertar sobre qual romance? — a professora Regina perguntou, desviando o olhar de meu rosto para vasculhar minha prova.

— Memórias Póstumas de Brás Cubas — respondi, indicando com os dedos na direção da questão que ela já encontrara.

— Jura? Mas você foi a aluna que melhor analisou Dom Casmurro, no segundo ano — mencionou o trabalho que eu fizera, após a leitura do romance referido.

— Quis dar uma variada — menti.

Na verdade, certo protagonista Bentinho tornara-se real demais para que eu pudesse voltar a olhar para aquele livro, um de meus favoritos, com os mesmos olhos.

Um Bento com alma de Capitu. Pensei, lembrando-me das mensagens que trocara com o meu professor particular na noite anterior. Até mesmo frases simples e aparentemente desprovidas de malícia pareciam ter um sentido oculto, quando proferidas por aquele homem oblíquo e dissimulado.

Logo que saí da sala, encontrei-me com Afonso, ainda mais quieto do que de costume naquele dia, depois da derrota humilhante do Flamengo para o Fluminense, durante o jogo da última quarta-feira. Já havia o provocado em razão daquilo, de forma que conversamos sobre nosso desempenho na prova. Comentei que tinha achado o exame razoável, omitindo o fato de que o considerara fácil para não parecer esnobe na frente dele.

Meu amigo bolsista era um rapaz inteligente e esforçado, tão capaz quanto Daniel, mas a defasagem cultural de sua família, efeito infelizmente ligado à sua baixíssima renda, acabava por prejudicar-lhe diversas vezes nos estudos. Não era culpa dele, nem de sua família.

Eu sabia que o pai dele mal era alfabetizado; viera ao Rio de Janeiro quando jovem para trabalhar como marceneiro. A linhagem de Afonso vinha de pessoas humildes, simples, do interior de Minas Gerais, o que se fazia visível em contraste com a aparência ostentosa e privilegiada dos típicos moradores da zona sul do Rio.

Lembro-me de uma ocasião, quando éramos crianças ainda, que seu pai veio buscá-lo em uma das peças da escola e trouxe toda a família. Meu amigo ficara muito feliz pelo apoio, mas um dos colegas mais endinheirados e também mais desagradáveis de nossa turma convencera algumas crianças a provocá-lo quando descemos do palco, debochando da fala simplória de seu pai e familiares, dizendo frases gentis como “volta para a roça, caipira” e “seu pai não tem dente não?”

Depois desse dia, seus pais nunca mais vieram prestigiá-lo. Tenho certeza de que não foram eles que ficaram incomodados, mas meu amigo que quis se preservar... Que quis preservá-los. A crueldade, afinal de contas, não tem fronteiras etárias.

Passaram-se alguns minutos enquanto eu conversava com Afonso, e logo Beto voltou do banheiro e interagiu conosco.

Por fim, Marcos, quase enxotado para fora da classe, enfim entregara sua prova e saíra da sala de aula de literatura. Estava um pouco suado, como se o exame tivesse não só exaurido sua mente como sua resistência física.

Já era por volta de uma e vinte da tarde, e eu pretendia ir ao caixa eletrônico sacar certa quantia de dinheiro. Meu tio, na quarta-feira daquela semana, descobrira meu pequeno estoque de maconha, e eu não pretendia deixar de fumar e relaxar apenas por mais um de seus chiliques hipócritas. Aquele cocainômano não tinha a menor moral para exigir um comportamento limpo de minha parte, naquele sentido.

Descemos juntos, nós quatro, enquanto Roberto se despediu de nós no portão da escola, indo até o ponto de ônibus para pegar a condução para sua casa no bairro da Gávea. Afonso passaria em casa, na favela próxima ao colégio, para buscar sua quentinha de almoço e ir para o turno da tarde na loja do centro da cidade onde trabalhava como aprendiz.

Marcos, também atarefado, iria para a loja nerd que havia em Ipanema para participar de um torneio vespertino de Magic: the Gathering, e eu novamente fui deixada a sós. Atravessei a rua e caminhei até o banco, sacando o dinheiro, e logo meu celular começou a tocar.

Lembrei-me novamente das mensagens de Bento, e um arrepio tomou-me de assalto, quando olhei o visor do aparelho eletrônico e reparei que era uma ligação de Daniel. Senti um súbito alívio misturado a uma esquisita sensação de frustração.

— ‘Que que ‘cê quer? — perguntei, grosseiramente sincera, guardando o dinheiro.

— Fala aí, pentelha. Vamos pro centro hoje? — Daniel me convidou.

— Fazer...? — indaguei, abrindo a porta transparente do banco.

— Vamos num puteiro — falou meu melhor amigo com ironia, fingindo seriedade.

— Aquilo que eu te falei, sua lesada! Comprar aquele compilado de questões da UERJ! — Daniel lembrou-me, com sua irreprovável postura responsável de sempre, que pretendia comprar um livro com as questões do vestibular daquela universidade especificada comentadas.

— Ah — eu ia começar a reclamar, mas ele me cortou rapidamente.

— Te espero na porta do metrô. Já deixei a Sandra em casa — avisou-me, deixando claro que chegaria rápido naquela estação próxima ao colégio, já que sua namorada morava relativamente perto.

Sem muita escolha, fui encontrar meu melhor amigo. Era uma ótima ideia, na verdade, tendo em vista que meu dia demoraria a passar. Não teria distração melhor do que matar tempo com Daniel.

Afinal, eu tinha planos para a noite, que já começavam a me deixar ansiosa. Grandes planos...

Assim que cheguei à entrada do metrô, Daniel lá estava, mexendo em seu celular. Levantou os olhos para mim e disse um “fala” com sua simpatia genuína de sempre, puxando-me pelos ombros para um abraço curto e fraternal. Senti-me um tanto mais calma perto dele. De fato, a companhia de meu melhor amigo tinha efeito tranquilizador em mim, quase como um ansiolítico.

Seguimos aguardando o vagão prosseguir pelas estações até o centro da cidade, em nossas conversas, provocações e bobagens típicas. Pretendíamos ir para o sebo que a mãe de Daniel uma vez nos indicara, com uma vasta coleção de tomos variados, englobando volumes literários a livros didáticos. Descemos enfim na estação Carioca, subindo pelas escadas rolantes. Paramos para comer um lanche qualquer no fast-food que havia na saída, e continuamos rumo à livraria, enquanto eu agora tinha um sundae de chocolate na mão.

Quando cruzávamos o Largo da Carioca para chegar a Avenida Nilo Peçanha, as ruas ainda estavam lotadas por conta dos transeuntes que ainda andavam para lá e para cá, ao fim do horário de almoço. Foi então que Daniel segurou firme no meu braço e me puxou para perto de um ambulante qualquer, onde havia algumas pessoas reunidas.

— Pivetada — ele sussurrou aos meus ouvidos, e eu vi com o canto dos olhos um grupo considerável da garotos esguios andando rápido, alguns até mesmo sem camisa, quase correndo em meio a multidão. Era triste, quase preconceituoso constatar aquilo... Mas era visível que pareciam assaltantes.

Era apenas uma questão de tempo para que começasse uma reação em cadeia.

Em poucos segundos, vi uma mulher xingar alto, enquanto um idoso olhava para trás, surpreso, sendo logo empurrado para o chão, e vários daqueles garotos saíram correndo, em debandada. Vi algo brilhante na mão de um deles, que corria já muito distante. Parecia ser uma corrente.

No momento em que eles se afastaram e sumiram de vista, deixando para trás apenas um grupo de pessoas indignadas, diluído por um grupo maior que ignorara solenemente o que havia acontecido – nós dois inclusos, infelizmente -, o ambulante próximo a nós comentou:

— E depois querem vir falar de direitos humanos... É todo dia assim, todo dia! — comentou o vendedor, irritado.

Fingi concordar, meneando a cabeça afirmativamente, e eu e Daniel nos afastamos. Subitamente, senti vergonha e até mesmo um pouco de culpa instintiva por estar usando aquele uniforme.

Meu rosto e cabelos bem cuidados, minha compleição física bem alimentada, limpa, apresentável. Meu uniforme de escola de garota rica, assim como o de Daniel, deixava evidente o que nos diferenciava como estranhas peças do espectro urbano... Devíamos ter a mesma idade daqueles garotos, talvez apenas um pouco mais novos, mas quantas não eram as fatídicas diferenças... As desigualdades entre nós.

Sem reação possível, continuamos com nossa tarefa inocente, saindo daquele espaço que era uma das áreas nobres do centro da cidade, e nos dirigindo para a Rua da Carioca, um ponto mais maltrapilho. Mendigos passaram ao nosso lado, pedindo-nos por dinheiro sem realmente nos enxergar, assim como nós fingíamos que não os viam. Playboyzinhos e indigentes se ignorando mutuamente naquela perversa situação cotidiana.

Chegamos a tal livraria, e fizemos rapidamente as compras. Daniel, um pouco mais sério, obrigou-me a comprar um exemplar das questões reunidas, e resolvi agradá-lo apenas para que não mais me azucrinasse a paciência. Percebi que ele se esforçava para desanuviar a tensão anterior, fingindo que nada havia acontecido, mas pensei em algo que poderíamos fazer para realmente nos sentirmos melhor naquele momento:

— Ei. O Afonsinho ‘tá no trabalho ainda, não? Que tal a gente aparecer por lá só para dar um oi? — sugeri, lembrando que Afonso trabalhava em uma loja de departamentos naquela rua.

— Pode ser, é por aqui mesmo — concordou Daniel, me dando um empurrãozinho para o lado de implicância, apenas de brincadeira. Empurrei-o de volta, mais animada por nossas brincadeiras infantis, quando chegamos mais perto da loja de Afonso e tivemos mais uma surpresa negativa.

Um PM fardado conversava com nosso amigo, ainda sem o uniforme da loja. Conversava era eufemismo, na verdade, parecia ameaçá-lo. Eu não me surpreenderia se começasse a espancá-lo ali mesmo, pelo olhar ferino que lhe dava.

Pelo visto, o cercara antes que ele entrasse no trabalho, já que havia mais alguns estabelecimentos até o ponto em que Afonso trabalhava.

Cercou meu amigo e o culpou, por ter a nossa idade, por já não estar com o uniforme do colégio... Por ser negro. O PM provavelmente julgava que fazia parte do grupo de assaltantes.

— Eu já falei que não fui eu, não, senhor, eu juro — Afonso garantia com humildade. — Pode falar com o meu patrão, eu estou indo trabalhar, pode abrir minha bolsa, eu sou trabalhador, sou trabalhador! — meu amigo implorava, parecendo humilhado.

O policial não esperou outra deixa. Arrancou a mochila do garoto de seus braços, abrindo e jogando todo o conteúdo no chão. Cadernos, livros, o uniforme da loja e outros pertences caíram pela calçada, alguns dos objetos parando em uma água insalubre, provavelmente o esgoto que vazara de algum bueiro.

Tínhamos de ajudá-lo de alguma forma. Percebendo que ele ainda não repara em nós, enquanto transeuntes pareciam evitar o policial e meu amigo, olhei para Daniel:

— Pega isso daqui e leva lá — passei uma boa quantidade de dinheiro, quase tudo o que havia sacado do caixa, para as mãos de meu melhor amigo. Dei um olhar urgente para Daniel, que hesitou por um momento.

— Entra nessa loja aí e me espera — murmurou para mim, e eu discretamente fiz o que ele sugeriu. Daniel estava ainda mais sério do que eu, mas logo vi surgir em seu rosto sua expressão mais comedida e conciliadora. Ele conseguiria.

Por mais que aquilo tudo fosse errado, revoltante e injusto, eu sabia que de nada adiantaria me dispor a tentar um diálogo e um suborno.

Eu era uma garota de dezesseis anos. Uma patricinha. Uma mulher.

Dificilmente o PM me deixaria falar, e se eu me aproximasse a cena ficaria ainda mais chamativa.

Observei de longe a conversa, fingindo que olhava os sapatos expostos no mostruário do início da loja. Afonso retirava suas coisas do chão, enquanto Daniel, com seu carisma inabalável, pouco a pouco ia dobrando o policial. Vi seu gesto discreto, dando a entender que tudo poderia ser muito bem resolvido, ali e agora. Tive certeza que os passantes sequer repararam que ele oferecera dinheiro ao PM.

Depois de alguns minutos, Daniel veio ao meu encontro, a expressão mais aliviada, junto de Afonso. O garoto recolhera seus pertences do chão e já os realocara em sua mochila, mas suas feições mostravam um incômodo gritante.

— Que merda de ideia foi essa, Ciça? — Afonsinho me perguntou, apontando o dedo no meu rosto.

— O quê? — Olhei para ele, sentindo-me surpresa.

— Eu não preciso que vocês me façam favor nenhum não! — Afonso reclamou claramente consternado. — Não preciso da pena de vocês, do dinheiro de vocês — declarou, olhando-me com desdém.

— Afonso, a gente só queria... — Daniel intercedeu, tentando tocar o ombro do amigo, que deu-lhe um empurrão realmente agressivo.

— Porra, não quero saber! Vão pra casa de vocês, pro seu tio — ele me encarou com o que parecia ser um tipo de inveja contida — e pra sua mamãe, cheios da grana — falou meu amigo, encarando Daniel com o mesmo olhar.

— Vão lá fumar maconha, vão logo estragar a merda da vida de vocês e deixem a minha em paz! Eu tenho que trabalhar pra sobreviver — atestou, dando-nos as costas, depois de nos olhar com uma expressão irascível que eu nunca vira em seu rosto.

Senti minha face ferver. Estava atordoada.

Tentando ajudar, sem querer acabamos piorando a humilhação de Afonso. Ou pelo menos era assim que ele compreendera o ocorrido.

Senti-me arrasada. Olhei para baixo, franzindo os lábios, temendo chorar. Aquilo doera mais que a última bronca e a quase surra de meu tio.

— Vem. — Daniel me puxou com gentileza pelo braço, olhando na direção da loja de Afonso.

Tive certeza de que nem ele conseguiria melhorar nosso humor depois dessa.

*****

Daniel me deixou em casa, ainda acabrunhado, e decidimos que falaríamos de novo com Afonso amanhã. Lembrei-me que havíamos combinado, naquela noite, de ir para a casa de Marcos passar algum tempo, ver filmes, jogar videogame, enfim, o de sempre.

Não sabia se meu amigo que sofrera aquela humilhação iria, mas resolvi que o deixaria ter seu espaço.

Assim, matei o tempo que restava assistindo a canais esportivos depois de um longo banho reflexivo. Ao anoitecer, separei meu material de química, e vesti-me para a ocasião.

Se eu começaria com o que planejara, os mínimos detalhes importavam. Sentindo-me estranhamente resoluta por levar aquilo adiante de forma tão ferrenha, olhei meu guarda-roupa e tive o trabalho metódico de examinar algumas fotos de minha mãe.

Há muito eu já reparara que minha mãe, apesar de fisicamente parecida comigo, não tinha provavelmente a mesma personalidade, o que inclusive era visível na forma como se vestia. Pelo visto, fazendo jus ao seu nascimento de elite, ela se dava ao trabalho de aparecer sempre bem arrumada em todas as fotos, inclusive as tiradas em sua intimidade familiar. Com vestidos vintage, maquiagem cara, algo que me lembrava de um tipo de pin-up sofisticado, ela aparentemente não media esforços para cumprir o estereótipo.

Procurei a roupa mais parecida que tinha com o vestuário típico de minha mãe, o que foi uma tarefa exaustiva. Eu era muito baixa para vestir aquele tipo de coisa. Minha mãe poderia gostar de parecer uma Audrey Hepburn em miniatura, mas aquilo era exagerado demais para mim. Forçado, até.

Peguei um vestido de verão. Algo leve, floral e acinturado com um decote discreto e saias soltas.

Teria de servir.

Vamos assombrar esse velho pervertido. Pensei, com empolgação cruel.

Esperei algum tempo na sala, ligando novamente na ESPN, até que a campainha tocou.

Um espasmo inegável de ansiedade me subiu dos pés à cabeça. Era uma sensação no mínimo estranha. Sentia-me igualmente no controle da situação, mas também muito insegura, por um lado.

Desliguei a televisão e andei de forma medida até a porta. Abri, e respirei fundo instintivamente ao vê-lo mais uma vez.

Bento mexia em sua pasta, não olhava diretamente para mim, seu rosto iluminado pela fraca luz do hall de entrada.

Analisei mais uma vez as rugas de sua face, seus cabelos levemente grisalhos apenas nas laterais, e então ele me viu.

Senti um aperto forte no peito quando ele me encarou. Como uma pulsão simultânea de aproximar-me dele e de sair correndo para longe, em fuga do olhar que quase me fulminara.

— É tão bom te ver, Cecília — falou ele com aquela voz modicamente cortês. Deu-me um de seus sorrisos discretos, enquanto eu dava espaço para que ele entrasse no apartamento. Pude mais uma vez antever em seu olhar fuzilante, no qual ele gastou um milissegundo para avaliar minha silhueta, o quanto aquela postura não passava de uma encenação.

Senti raiva novamente.

— Tudo bem? — respondi, tentando manter o mesmo tom desinibido e agradável. Pretendia mudar de comportamento em breve, dependendo da brecha que ele me concedesse.

— Tudo. Espero que com você também. — Bento manteve o mesmo jeito paternal. Aquilo me trazia uma espécie de rebuliço interno muito desagradável. Tinha vontade de agredi-lo.

Eu havia pensado em tudo, planejado cada detalhe. Mas bastou ele chegar para sentir que poderia perder o controle da situação.

— Ah, sim. Estou ótima — concedi-lhe um sorriso largo, e ele me olhou com uma expressão curiosa.

Fui gentil por todo o percurso até a sala de jantar, oferecendo-lhe água e café, o que ele aceitou. Busquei o café recente preparado pela Eliete, que havia acabado de ir embora, e dei-lhe o meu livro de química marcado nas páginas que deveríamos estudar.

Enquanto ele se servia do café sem açúcar, virou as folhas da matéria, avaliando-a.

— Ah, isso é fácil — disse em um tom gentil. — Você vai aprender rapidinho. — Olhou-me mais uma vez, piscando devagar. Até mesmo sua forma de piscar parecia irritantemente comedida.

— Espero que sim. — Tive sorte. Havia encontrado a primeira brecha.

— Até porque tenho algo para fazer mais tarde. Será que você poderia me dar carona para a casa de uns amigos, quando terminarmos aqui? — pedi descaradamente, encarando-o por todo o tempo.

— Creio que sim — ele respondeu. — Para onde você vai?

— Ipanema. — Ajeitei uma mecha de cabelo atrás das orelhas, ao passo que ele confirmou, e me deu mais um sorriso sutil.

Enfim começamos o estudo. Bento explicou-me com a mesma desenvoltura das aulas de matemática o processo de formação de orbitais eletrônicos híbridos, e todos os conceitos referentes às tais nuvens eletrônicas ao redor dos átomos.

Algumas horas depois, já cansada de tantas nuvens tetraédricas e até octaedros, passei a resolver alguns dos últimos exercícios, enquanto ele trabalhava na correção do que parecia ser um capítulo da monografia de um de seus alunos.

Esperei o momento correto para, fingindo cansaço, apoiar minha cabeça em meu braço, de forma desprendida. Espalhei-o pela mesa, arrastando-o um pouco para o lado esquerdo, aguardando até que meu braço roçasse no braço de Bento, coberto por sua camisa social de mangas compridas.

Com a cabeça virada para o lado contrário, mantive o toque, enquanto fingia concentrar-me totalmente na resolução da questão, agindo como se não tivesse percebido o contato.

Para a minha surpresa, ele não se moveu. Sequer se deu ao trabalho de desviar, ou de fingir se surpreender com o movimento. Continuou com o braço onde estava, até que eu mesma não aguentei e levantei o rosto para ele. Ainda mantendo o contato.

— Ainda bem que mudou de postura — falou ele, dissimulado como de praxe. Vi algo estranho cintilar em seus olhos escuros. — Prejudicaria sua coluna desse jeito — comentou com falsa inocência.

Não sabia como lidar com aquilo. De alguma forma, era como se ele tivesse previsto o que eu faria... Como se esperasse por isso.

De súbito, afastei meu braço esquerdo, mais uma vez confusa. O que deveria fazer agora?

Talvez fosse hora de ser ainda mais descarada.

Assim, finalizei os exercícios, e aguardei pela correção dele, ambos jogando o mesmo jogo de falsidade. Fingindo que nada diferente ocorria ali, quando eu sabia que ambos dividíamos uma tensão tão palpável que poderia ser quebrada ao meio.

Bento elogiou meu desempenho mais uma vez, e eu fiz perguntas casuais sobre a monografia que ele corrigia. Levei o café para a cozinha, e busquei minha bolsa para irmos embora, enquanto lhe contei o caminho para a casa de Marcos.

Desci com meu professor particular para a garagem do prédio, onde ele tivera licença para parar o carro. Sentia-me irrequieta, mas segurava-me ao máximo para não demonstrar minha inquietação.

Entramos em um modelo não muito recente de um Citroën preto, diferente dos carros chamativos e suntuosos de meu tio. Confesso que preferi o de Bento.

Assim que ele manobrou para sair da garagem, e as portas eletrônicas se abriram para sair na rua em que eu morava no Jardim Botânico, aspirei fundo o aroma entorpecente daquele carro. Tinha um cheiro marcante por sua discrição. O cheiro dele. Almiscarado, sutil... Agradável. Até demais.

Passei a olhar a paisagem da rua em que morei durante toda a minha vida, enquanto ele ligou o aparelho de som do carro. Logo pude ouvir uma música inusitada, que parecia iniciar “Für Elise”, mas parava assim que eram tocadas as últimas notas iniciais, dando espaço para uma melodia de cordas. Interessada, olhei de esguelha para o mostrador:

“Ennio Morricone & Elisa Toffoli”

Reconheci a língua cantada na canção que começara.

“Ancora qui. Ancora tu...” Bento subitamente desligou o cd, calando a cantora, e ligou no rádio, que dava as últimas notícias.

Diferentemente das canções italianas que eu conhecia, aquela não era exagerada, pecando pela grandiosidade. Não. Aquela transmitia uma ideia de emoção contida... Reprimida com esforço, tamanha sua intensidade.

— Ei! — exclamei sincera, surpreendendo-me eu mesma com minha reclamação. Bento deu uma risada, o primeiro gesto que lhe pareceu honesto da noite. Percebi-me encarando seu sorriso.

— Não vai me dizer agora que gosta de música italiana — duvidou meu professor.

— Não conheço absolutamente nada do gênero — admiti, mas o encarei em desafio. — Por quê? Não poderia gostar?

— Imagino que não seja o tipo de música que alguém da sua idade aprecia — disse. — Mas se quer ouvir... — Bento ligou o cd novamente, que retomou o ponto onde parou.

O trânsito estava livre, surpreendente para àquela hora da noite de uma sexta-feira. Não demoraríamos muito para chegar a Ipanema.

A cantora continuou, sua voz lânguida, sofrida:

“Ora però io so chi sei. Chi sempre... Sarai. E quando mi vedrai, ricorderai...”

A vocalista entoou quase agourenta, e eu senti um calafrio ao compreender, chocada, o significado daquelas palavras.

— Sabe falar italiano, Cecília? — perguntou meu professor em um tom displicente, olhando em frente. Parecia evitar me encarar.

Olhei para o painel dianteiro do carro. A ironia daquela música não me passara batida, e engoli em seco por isso.

— Ainda aqui, ainda você — respondi, quase lúgubre. Bento não me olhou, mas vi que suas mãos se retesaram ao volante.

— Agora, porém, eu sei quem você é... — continuei, como se minha nova tarefa fosse traduzir a música.

— ...Quem você sempre será — acresci — e quando me ver... Vai se lembrar — finalizei. Encarei aquele homem, com curiosidade e confusão crescentes dentro de mim. Meu coração se acelerara, e aquilo tudo me parecia atingir-me com um peso insustentável.

O peso da realidade.

Ele não poderia ter previsto aquele momento. Não passara de uma coincidência inoportuna. Estranhamente inconveniente.

— Liberatti não é mesmo só um sobrenome seu — Bento comentou, esforçando-se em sua dissimulação para elogiar minha compreensão da língua italiana. Eu podia ver o quanto aquele momento o afligira também.

— Não. Como você pode ver muito bem — atestei, sem amarras, sem censura.

Bento acabara de parar em um sinal. Quando me olhou, tive certeza de que entendera minha insinuação.

Encarou-me devagar, e me perguntei até onde ele me via e até onde ele enxergava o fantasma de minha mãe.

Como na música.

Encaramo-nos até que o sinal novamente abrisse, e uma buzina soasse atrás de nós. Levemente estupefato, Bento voltou a atenção ao volante, e não olhou-me mais uma vez nos olhos até chegarmos na frente da casa de Marcos.

Ele parou na calçada, próximo a entrada do prédio. Marcos Salles vivia em uma rua sem saída, em um prédio baixo, antigo, de apartamentos grandes. Não havia nenhum carro ali além do de meu professor, e nossas únicas testemunhas eram as luzes dos postes acima de nós, e das janelas abertas dos moradores.

— Boa noite, Cecília. Espero que se divirta — falou, já parecendo recuperado daquele instante inenarrável.

— Eu vou. — Sorri com pretenso desprendimento. Aproximei-me dele para me despedir, que moveu-se para beijar uma de minhas bochechas em um cumprimento cortês.

Mas eu movimentei meu rosto de forma diversa.

Guiei meus lábios próximos aos dele, quase os alcançando, tocando sua pele com lentidão sôfrega e proposital. Senti em minha boca os aguilhões de sua barba aparada quase rente a sua pele.

Neste instante, tive de conter um impulso quase incontrolável de mover meus lábios para ainda mais perto, o que verdadeiramente me assustou.

Demorei para me afastar. Demorei, na verdade, para voltar a raciocinar.

Não tinha muita consciência do que acontecia à minha volta, não ao que não se relacionava ao cheiro de Bento, o calor que emanava de sua pele, sua boca... E seus olhos que eu finalmente consegui encarar novamente.

Afastei-me lentamente, e o observei.

Ele não teve reação.

Não até que eu abrisse a porta do carro e me movesse para fora.

Logo senti uma de suas mãos se fechar em volta do meu braço com uma firmeza que me amedrontou. Olhei-o, surpresa, pensando se eu não teria ido longe demais, parando estaticamente.

Bento arrefeceu o toque, mas o manteve.

— Tome cuidado — orientou-me. Não consegui reconhecer se suplicava ou se me dava uma ordem.

— Na hora de voltar para casa — acrescentou, e eu instintivamente saltei para fora do carro. Sua expressão retornara ao típico disfarce afável, enquanto ele me sorriu em despedida e fechou ele próprio a porta do carro.

Fiquei um tempo paralisada, encarando o veículo que cruzava a esquina da rua e sumia para além da minha vista.

Ele está certo. Concordei em pensamento.

Não esperava lidar com tudo o que ocorrera naquela noite. Esperando surpreendê-lo, surpreendi a mim mesma.

Surpreendi a ambos.

Eu deveria mesmo tomar cuidado.

Notas finais
Aguardo as opiniões de vocês! o/ Lá em cima tem o link para a música Ancora Qui, que é simplesmente sensacional. Ouçam, vão gostar com certeza!