Amor Fantasma
1 Amor Fantasma
Disclaimer: Essa história e seus personagens me pertencem e não devem ser utilizados em outros locais sem a minha autorização.
Músicas que me deram inspiração: Ghost Love Score e Forever Yours, compostas por Tuomas Holopainen e interpretadas por Tarja Turunen.
Imagens utilizadas na capa: Tarja Turunen e Tuomas Holopainen.
Amor Fantasma
Você sabe o que é o amor fantasma? É um amor cuja mão toca seu peito e cujos dedos envolvem seu coração, segurando-o e cortando-o com beijos mortais. Durante Eras, você é capaz de sentir seus batimentos sob os lábios que beijam o órgão que controla sua vida e então, com um toque repentino e gelado, o amor fantasma joga seu coração no lago mais gelado que pode existir: o lago da solidão.
Diga-me, você é forte o suficiente para sobreviver ao amor fantasma?
Diga-me, pois eu não fui. O amor fantasma me envolveu e me controlou com seu frio abraço. Mesmo agora, enquanto caminho lentamente por este vasto e solitário jardim, sinto meu amor fantasma ao meu lado, caminhando comigo, sua vazia presença assombrando meus pensamentos.
Dou um passo à frente e meu pé afunda na neve, fazendo-me perder o equilíbrio e cair sobre a superfície gelada. Levanto-me e sinto uma fina dor em meus braços descobertos. Olho para minha pele e vejo as trilhas de sangue que se formam, correndo desde meus pulsos até meus cotovelos. Minha queda fez com que as pedras, escondidas sob o tapete branco, tocassem-me e marcassem-me da mesma maneira que meu amor fantasma fez tanto tempo atrás.
Ajoelho-me e abraço a mim mesmo, o vento soprando e beijando meu rosto suavemente. Fecho meus olhos por um segundo e é como se meu amor fantasma me abraçasse e tentasse me proteger do frio e da dor. Abro os olhos decido a afastar as sensações e fico de pé, voltando a andar de forma cambaleante.
Enquanto caminho, observo o belo jardim que envolve meu lar. A brancura da neve se estende até o horizonte, manchada apenas pelo vermelho vivo das rosas. Nem mesmo o verde das árvores pode ser visto, pois permanece encoberto pelo abraço da neve. Esse jardim é como meu corpo, um quadro vazio marcado com sangue.
Enfim chego a minha casa, no centro do jardim. Toco a superfície talhada da porta e giro a maçaneta, abrindo-a. É como abrir um portal para o reino do caos. Em meus ataques de raiva, espalho tudo o que vejo pela frente. Não há luz e eu prefiro que seja assim, desde que fui capturado pelo amor fantasma tenho preferido a escuridão à luz.
Ando pela sala, meus pés descalços sentindo o toque frio e duro do chão ou o toque macio e molhado das tintas e papéis esparramados. Próximo à janela, meu objetivo se mantém, imóvel. Aproximo-me e o toco, sentindo a aspereza da tela branca. Sento-me no banco de madeira colocado em frente à tela e observo o pano branco que aguarda ser pintado.
Não demora e ouço o som dos passos leves de minha musa. Meu amor fantasma sorri para mim, caminhando pela sala, tocando com os dedos longos as imagens talhadas ao redor da lareira. Aguardo enquanto meu amor fantasma se aproxima e me entrega meu pincel e minha paleta. Aceito os objetos e sinto o toque frio e distante da mão de minha musa em minha face. Com um sorriso, meu amor fantasma se afasta, caminhando até uma cadeira e nela se sentando.
Não demoro a começar a pintar a imagem que já pintei mil vezes: o rosto de meu amor fantasma. Os cabelos longos, ondulados e negros, emoldurando a face pálida e cujas pontas tocam levemente o colo coberto pelo tecido branco do longo vestido. O rosto fino, as bochechas rosadas, os lábios cheios e vermelhos, tão vermelhos quanto às rosas do jardim ou o sangue que ainda escorre dos cortes em meus braços, e os belos e brilhantes olhos. Olhos de íris pintadas de um tom tão claro de azul e tão profundas que me lembram do lago que há no jardim. O lago...
Olho para a tela, a face de meu amor fantasma quase pronta. Desvio meu olhar para a minha musa, sentada na cadeira e olhando-me de forma serena. Levanto-me, deixo o pincel e paleta sobre o banco onde estava sentado e caminho até meu amor fantasma. Ajoelho-me e ergo minha mão com a intenção de tocar a face bela, mas assim que meus dedos alcançam a pele pálida, por ela passam. Nunca consegui tocar meu amor fantasma.
Recolho minha mão e abaixo meu rosto, mas minha face é levantada suavemente pelos dedos de minha musa. Fecho os olhos ao ver o rosto de meu amor fantasma se aproximar. Logo, sinto o toque dos lábios macios sobre os meus, um toque leve e distante, como se aquela que me toca fosse inatingível.
Volto a abrir os olhos ao sentir o toque se afastar. As íris azuis de meu amor fantasma brilham e novamente lembro-me do lago. Afasto-me e levanto-me. Caminho em direção à porta, mas volto-me por um segundo para olhar mais uma vez para meu amor fantasma, só que ela não está mais ali.
Não dou importância ao sumiço de minha musa, algo que é comum e saio de casa, voltando a caminhar sobre a neve em direção ao lago que é a cópia dos olhos de meu amor fantasma.
Não demoro a alcançar o lugar que desejo. Observo o lago por alguns segundos. A água completamente cristalina e as rosas que tomam todo o contorno e a superfície do lago como se o abraçassem. Passo pelas rosas, os espinhos ameaçando a arranhar a minha pele e as macias pétalas curando os possíveis machucados, e entro no lago. Assim que meu pé toca a água, sinto um arrepio correr por meu corpo. O gelo da água parece penetrar em minha pele e congelar meu interior.
Não me incomodo com a sensação e continuo a caminhar pela escada de pedra que ajuda a entrar no lago. A cada passo que dou, mais a água gelada envolve meu corpo, complicando minha respiração. Paro quando a água atinge meus ombros. Respiro fundo e mergulho.
Sob a água, os caules das rosas parecem correntes que impedem a saída de alguém, é como se o lago fosse uma espécie de prisão gelada e se recusasse a libertar aqueles que caem em seu abraço. Sigo a trilha das rosas com o olhar. Os caules penetram a água e continuam, formando um intricado quebra cabeças de rosas que domina as paredes submersas do lago.
Desvio meu olhar para o fundo do lago, onde parecer haver uma grande placa de vidro. Nado até a placa e a toco. Apesar da escuridão, consigo ver através do vidro e percebo que o que toco é uma espécie de túmulo transparente, enterrado em meio à água gelada e as rosas vermelhas. Envolvido pelo vidro, está o corpo de uma jovem mulher de pele pálida, cabelos negros e cuja face eu reconheço imediatamente. Meu amor fantasma.
Soco o vidro várias vezes e a cada soco que desfiro, uma voz grita em minha mente, cada vez mais alto. Não! Pare! Com um último soco, consigo quebrar o vidro, minha pele sendo marcada por profundos cortes. Estico minha mão machucada e toco a face morta. A mesma face que pintei e admirei tantas vezes...
De repente, sinto duas mãos agarrarem meus ombros e puxarem-me para cima, afastando-me do corpo morto e enterrado no fundo do lado. Tento me desvencilhar das mãos que me seguram, mas não consigo. Quando me dou conta, estou de volta à superfície, meu corpo colocado sobre a neve. Viro meu rosto para trás e vejo o rosto que toquei no lago. Meu amor fantasma sorri para mim, um sorriso triste.
Sinto um toque gelado sobre meu peito, mas o frio é logo substituído pela dor. Abaixo meu rosto e vejo os dedos longos de meu amor fantasma atravessarem minha pele. Um grito de dor deixa meus lábios.
Sinto os dedos de meu amor fantasma quebrarem minha caixa torácica e agarrarem meu coração. Com a mão livre, meu amor fantasma segura minha mão e a leva até o peito. Assisto meus dedos afundarem no peito de meu amor fantasma e envolverem o coração que já não bate mais.
Meu coração é o seu coração. Esse pensamento invade minha mente com força tal que faz com que meus músculos se retesem e um novo grito escape por entre meus lábios. O olhar de meu amor fantasma se dirige para a mão que segura meu coração, dentro de meu corpo. Sigo o olhar e vejo os dedos longos retirarem meu coração, assisto ao órgão que controla minha vida bater na mão de meu amor fantasma.
Minha vida é a sua vida. Com a mão que segura meu pulso, meu amor fantasma faz com que eu retire seu próprio coração de seu corpo, colocando-o lado a lado com meu próprio coração.
E minha morte é a sua morte. Meu amor fantasma aperta meu coração, fazendo-o sangrar e desmanchar em sua mão. A dor que sinto me faz gritar o mais alto que posso e, por reflexo, aperto o coração de meu amor fantasma em minha mão. Sinto o sangue de meu amor fantasma escorrer por entre meus dedos. Rapidamente, perco os sentidos.
Abro meus olhos e fito o céu branco de inverno. Ao meu redor, sinto a água gelada do lago. Lembro-me do que aconteceu entre mim e meu amor fantasma e pergunto-me como permaneço vivo. Senhor, foi a Morte que por mim se apaixonou? Penso, voltando a fechar os olhos. Sinto um vazio em meu peito. Espalmo minha mão sobre o lugar onde meu coração deveria estar e ao invés de me perguntar sobre meu coração, pergunto-me sobre o coração de meu amor fantasma.
Um coração que já não bate. Sinto lágrimas quentes escorrerem por meu rosto e uma dor aguda se espalhar por meu corpo. Sinto falta de meu amor fantasma. O amor que durante tanto tempo me assombrou em silêncio e que me mostrou que pertencemos um ao outro.
Um fantasma. Não importa se meu amor é um fantasma. Com o tempo, eu também me tornei um fantasma. Assim que tenho esse pensamento, sinto dois braços envolverem meu corpo, puxando-me para o interior do lago. Abro meus olhos e observo as rosas se afastarem cada vez mais. Sinto quando atinjo o fundo do lago, um corpo me abraçando.
À minha frente, cacos de vidro, que estavam espalhados pela água, começam a se juntar, formando uma placa, que reconheci como o tampa de um túmulo. Viro meu rosto para o lado e vejo o rosto adormecido de meu amor fantasma. Fecho meus olhos e retribuo o abraço de meu amado fantasma. Finalmente, eu entendi. Meu fantasma pertence a mim e eu pertenço a ele.
Senhor, eu entrego minha vida ao meu amor fantasma.
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