Amor Faminto

24 Capítulo 23: Fica


LYDIA

Lydia não estava chateada, não culpava ninguém. Todas as pessoas presentes na sala a olhavam, no entanto, com um reflexo de culpa, lamento. Ela odiava. Não queria, de maneira alguma, que a olhassem com pena. Lydia estava apenas calma, como quando recebemos uma notícia má e não sabemos como reagir, esse tipo de calma. O tipo de calma antes da tempestade.

"Vamos agora falar com o Alfie." Robert disse-lhe.

"Ok." Ela assentiu.

"Estás bem?" Alexander aproximou-se, com cautela.

"Estou ótima." Jones tentou sorrir, "Eu vou com vocês."

"Oh, está bem." Alycia balançou a cabeça.

Todos se encaminharam para o edifício gigante que era a PIP, Lydia havia lá estado antes, quando se aventurou numa pesquisa sobre a família Mathews. Pelo menos, agora ela sabia o que tinha acontecido durante os cem anos que, na sua pasta, não eram mencionados.

"O Alfie está à vossa espera." A Sra. Miller, a mesma vampira que a havia recebido na sua visita anterior, indicou-lhes o caminho.

Robert abriu, com uma delicadeza exagerada, a porta que quase passava despercebida no meio de tantos quadros. Alguns, provavelmente, valeriam milhões, ou todos. Lydia foi a última a entrar, Candice e Alexis, também membros do Conselho Azul, olharam-na e sorriram-lhe.

"Podem sentar-se." Alfie falou pela primeira vez.

Todos tomaram os seus lugares, em volta da grande mesa, com um tampo de vidro, e Alexander rapidamente puxou a ruiva para o seu lado. Ela limitou-se a olhar os líderes.

"Por quanto tempo tiveram o vampiro preso?" Alfie perguntou, com um ligeiro tom de acusação a sobressair.

"Tempo suficiente para a minha chegada." Robert respondeu-lhe.

"Hm, o acordo seria entregarem-no a nós, uma vez que o líder do Conselho Vermelho não estava presente." O outro olhou os Mathews, "Eu pensava que estávamos a trabalhar em conjunto."

"E estamos." O pai de Alec assentiu.

"Bem, agora, o vampiro está perdido e fomos notificados, uma semana depois, de que uma guerra está a caminho." Alexis cuspiu, "Quem vocês pensam que são?"

"Têm de entender, são o nosso povo." Robert recordou, "Fariam o mesmo pelo vosso."

"Eu pensava que todos eram o nosso povo." Alfie estreitou os olhos.

"Por favor," Rich revirou os olhos, "todos aqui sabemos que isso não é assim tão linear."

"Sim," O seu irmão, Theo, interveio, "já salvaram a vossa pele no passado e fazem-nos agora também. Nós fazemos o mesmo."

"Nós somos demasiado misericordiosos." Candice ergueu a cabeça.

"Acredito que esta não foi a razão pela qual convocamos esta reunião." Andrea tossiu.

"Não, não foi." Robert concordou, "Precisamos de trabalhar juntos, eu levantei a proteção sobre os vampiros que ameaçam esta cidade, Alfie."

O líder do Conselhos Azul olhou de relance para as raparigas que se encontram ao seu lado, elas, por sua vez, balançaram a cabeça de forma negativa, em sincronia. Então, o olhar de Alfie pousou na pessoa que se encontrava na outra ponta da mesa de vidro.

"Lydia Jones, a tua vida encontra-se em perigo. A nossa prioridade é defender as vidas humanas ameaçadas, e isso inclui a tua." Ele disse-lhe, "Creio que teremos de cumprir o que conversámos, agora que o vampiro está de novo à solta."

"Não." Lydia recusou-se.

Lily, bem ciente da conversa que ambos haviam tido, uma vez que a ruiva havia tocado no assunto numa das suas viagens de carro, olhou a rapariga com preocupação.

"Não é necessário, nós temos tomado bem conta dela." A loira interveio.

Alexander olhou todos à sua volta confuso, e não era o único, os seus pais e os seus irmãos encontravam-se na mesma forma. Sem qualquer conhecimento do que o líder estava a falar.

"O que se passa?" Alycia levantou-se, de forma protetora.

"O que quer dizer com o que conversámos?" Alec também se inclinou.

"Bem," Alfie também se levantou, "Eu e a Lydia conversámos sobre o que deveria ser feito com ela, para garantir a sua total e efetiva segurança."

Alexander olhou a Jones, e percebeu que ela já o olhava. Os olhos verdes pediam-lhe desculpa, o seu coração estava a mil só de imaginar o que ele iria pensar ao descobrir que ela lhe havia omitido o assunto da conversa, na verdade, havia mentido.

"O quê?" Ryan puxou a cadeira para trás, o ranger fez com que todos o olhassem.

"Bem, a única forma de ela estar realmente segura é ela ser marcada por um vampiro, certo?"

Lydia levantou-se, apontou o dedo ao líder do Conselho Azul e recusou-se mais uma vez a ser atribuída a um vampiro qualquer. Os olhos de Alfie tornaram-se frios e ele cerrou os dentes.

"Tu estás sujeita às decisões do Conselho Azul, Lydia Jones. Não tens uma escolha." Ele recordou-a.

"Eu consigo proteger-me a mim mesma!" Lydia gritou-lhe.

"Nota-se, estás metida com o vampiro mais problemática da história. O que tu sabes sobre sobreviver..." Alexis proferiu, com um tom ácido.

"Eu ainda estou viva, certo?" A ruiva engoliu.

"Por quanto tempo?" Alfie cruzou os braços, "Por quanto tempo até o Alexander decidir que-."

Robert bateu com o punho na mesa de vidro e a mesma desfez-se em pedaços. Lydia afastou-se, num movimento rápido, e procurou recuperar o seu equilíbrio. Arregalou os olhos quando encarou o líder do Conselho Vermelho, assim como todos os outros presentes.

"Chega!" Ele gritou, "Este é o meu povo, as minhas regras, o meu território!"

"É aí que te enganas, Robb." Alfie suspirou, "Nada aqui é teu, é tudo nosso."

"Tu não ameaças a minha gente e tu, certamente, não decides atribuir humanos aos meus vampiros, não sozinho!" Robert aproximou-se, "Isto não é nenhuma brincadeira!"

"Estás certo, eu não brinco com assuntos que implicam a vida do nosso povo." O outro assentiu, "É por isso que a Lydia tem de estar fora do alcance dos vampiros."

"Por alguma razão é uma escolha voluntária." Theodore lembrou, "Se a Lydia não o quer, não o será."

Alexia aproximou-se do seu líder, sussurrou-lhe alguma coisa. Não impediria os vampiros presentes de ouviram, mas Lydia quis acreditar que respeitariam a privacidade do Conselho Azul. Quando a rapariga se afastou, Alfie olhou o líder do Conselho Vermelho nos olhos.

"Muito bem, encontrem-me uma melhor solução e eu mudo de ideias." Ele disse-lhes, "É melhor ser uma muito boa. Eu sou difícil de convencer."

Com isso, Alfie volte-lhes costas e as duas raparigas seguiram-no, deixaram os cacos de vidro para trás. Lydia olhou Alexander, esperava poder ter uma hipótese de se explicar. Ele seguiu a sua família para fora da sala. Lydia seguiu-os também, algum tempo depois. Só quando o Sol os abrigou é que Alec se voltou para a olhar.

"Desculpa." Ela apressou-se a dizer.

"Não tens de pedir desculpa, eu deveria saber." Ele baixou a cabeça.

"Eu não te queria preocupar e tu já estavas tão obcecado com aquilo da lista e do marcar que eu achei que isso só te iria afastar mais." Lydia confessou, "Eu fui egoísta, eu sei."

"Não," Alec olhou-a, "tu não poderias ser egoísta. Tu és a pessoa mais altruísta que eu conheço."

"Não quando se trata de ti, Alexander." Jones suspirou, "Quando se trata de ti, eu sou a pessoa mais imprudente de sempre. E eu lamento por isso."

"Vens, Alec?"

O rapaz à sua frente voltou-lhe costas e olhou a sua irmã à beira da estrada, balançou a cabeça. Alycia atravessou a estrada e desapareceu entre a folhagem verde do outro lado. Só então, ele se voltou novamente para Lydia.

"Vou levar-te a casa."

Alexander começou a andar, deixou-a para trás. Lydia levou alguns segundos a tomar consciência de que era suposto segui-lo. Foram naquela mesma ordem todo o caminho até à casinha amarela. Quando ele parou à entrada da propriedade, ela também o fez.

"Diz-me que não estás chateado." Suplicou-lhe.

"Não estou, prometo." Alec tentou sorrir-lhe, mas não sucedeu.

Lydia aproximou-se, com alguma hesitação. Envolveu-lhe a cintura com os seus braços, como havia feito tantas outras vezes, e esperou que ele lhe embaraçasse os cabelos vermelhos como costumava fazer. Ela ouviu-o fungar, e só então sentiu as suas mãos lhe acariciarem os cachos.

"Sei que estás com medo, mas eu vou tentar resolver tudo." Alec murmurou-lhe.

"Não estou com medo." Jones disse-lhe, "Eu não sinto nada, na verdade."

"Para de fingir, ok?" Ele afastou-se e agarrou-lhe a face, "Para de fingir que não estás magoada, cansada e assustada, nem triste e chateada, ok? Eu sei que tu não és de ferro. Eu não preciso que tu sejas de ferro."

"Ok." Lydia assentiu, e então continuou, "Eu estou chateada. E assustada, sim."

"Ok." Mathews acariciou-lhe a bochecha, "Podes contar-me sempre, Lydia."

"Eu não quero preocupar-te." Ela confessou.

"Tu podes dizer-me. Tu podes sempre vir ter comigo e dizer-me." Ele olhou-a, parecia estar em sofrimento quando o disse.

"Eu não quero ser um peso na tua vida, se eu me afogar... não vou permitir que venhas comigo, Alexander." Lydia explicou.

Alec olhou-a como se ela tivesse acabado de dizer a coisa mais estúpida à face da terra, olhava-a como se ela não tivesse razão nenhuma no que estava a dizer. Sem sentido. E isso fê-la sentir-se assim mesmo, sem sentido.

"Tu não fazes ideia, Lydia Jones." Ele murmurou.

"O quê?" Ela inclinou a cabeça, e olhou-o com ternura.

"Não há nada neste mundo que eu não faça por ti."

O pequeno sorriso que Lydia antes carregava, esmoreceu. Ela arregalou os olhos, delicadamente, como se ainda estivesse a analisar as palavras proferidas pelo rapaz à sua frente. Aquilo era estranho vindo dele, mas soava-lhe muito como amor.

"Fazes tudo por mim?" Ela repetiu, para ter a certeza.

"Tudo." Alec assentiu.

"Então, não me deixes."

"Porque haveria de te deixar, Lydia?" Ele olhou-a, confuso.

"Eu não sei, apenas... fica." Jones pediu-lhe.

Lydia estava tão recordada do dia em que o seu pai havia deixado tanto a sua mãe quanto ela, que quando Alec a beijou, ela não se mexeu, não sabia se era real.

Quando ele se foi embora, ela entrou em casa, ainda adormecida pelas palavras dele. Fechou a porta e deixou-se escorregar por ela, abraçou os seus joelhos e finalmente deixou as lágrimas caírem. Não iria chorar na frente de Alec, nunca mais.

ALEXANDER

Faziam exatamente duas horas que ele havia deixado Lydia em casa, o que significava que estava sentado no sofá da sua sala de estar há cerca desse mesmo tempo. Não lhe doía nada, o que já era normal, mas sentia-se desconfortável por estar sentado há tanto tempo. Ou talvez fosse apenas o assunto da conversa entre a sua família que o deixava incomodado.

"Não! Não podemos deixá-lo!" Lily exaltou-se.

"Não há outra solução." Thome lamentou.

"Tem de haver, pai." Ryan tomou o lado da sua irmã, "Não vamos deixar aquele humano idiota entregar a Lydia a um vampiro qualquer! Quem sabe ele ainda é pior que o Ethan!"

"Então, dêem-nos uma ideia melhor!" Alycia levantou-se, "Só vos vejo reclamar e resmungar, mas nada de soluções!"

"Então e tu?!" Mark cuspiu-lhe, "A culpa disto é tua! Tu é que quiseste levá-lo para fora da nossa casa e olha o que isso deu!"

Alycia estava prestes a gritar algo de volta quando a sua mãe se levantou-se e impôs algum respeito. Somos se encolheram e limitaram-se a deixar as coisas insultuosas que queriam dizer na sua cabeça.
Alexander manteve a sua cabeça baixa o tempo todo, não tinha nenhuma solução e todas aquelas ditas pelos seus irmãos, ou eram demasiado drásticas ou incluíam Alec e a palavra marcar. Ele não sujeitaria Lydia a isso.

"Bem, eu vou apanhar ar." Ele levantou-se.

"Alec, nós estamos a dar o nosso melhor e-."

"Eu sei, pai." O rapaz assentiu, "Eu sei."

Passou pela família e abriu a porta de vidro, um vento frio envolveu-o imediatamente, e a chuva foi empurrada contra o seu rosto. Saíu para fora e bateu com a porta. O tempo mínimo que levou a chegar à vedação foi o suficiente para encharcar o seu cabelo escuro, mas não se importou. Só queria silenciar as ideias idiotas apresentadas na sala de estar, logo atrás de si, e o barulho da chuva ajudava.

Claro que Alec não queria que Lydia fosse entregue a um vampiro qualquer, queria que ela fosse dele. E só dele. Mas ainda não se sentia pronto para levar essa ideia para a frente, não sabia se alguma vez estaria. Limitá-la. Queria que Lydia fosse livre para escolher se queria estar com ele, e o facto de ela o querer agora não implicava que ela o quisesse daqui a vinte anos. As pessoas mudam e os sentimentos também. O problema central não era exatamente o facto de Alec não estar pronto, era ele não se sentir merecedor. Ela era o sol e ele a lua, ele só brilhava por causa dela e tudo o que ele via era uma estrela que brilhava sozinha, ela não precisava dele. Limitá-la era ser egoísta.

"Tu ama-la."

Alec fechou os olhos com força, tentou ignorar a voz melodiosa de Lily que, entretanto, se aproximou, também, da vedação. Ela estava ao seu lado e olhava-o.

"Eu nunca te direi para não a amares." Disse-lhe.

Alec, então, finalmente, olhou a sua irmã. Não lhe disse nada, apenas a olhou. A loira assentiu, não precisou de ouvi-lo, ela sabia.

"O que vais fazer?" Lily perguntou.

"Eu sei lá." Ele suspirou, "É suposto eu escolher? Quero dizer, ou deixou-a ser de outro ou faço-a minha, é isso?"

"Talvez, Alec." A loira pressionou os seus lábios numa longa linha.

"O que é suposto eu fazer, Lily?" Alexander olhou-a, com desespero.

"Isso é algo que tu tens de descobrir." Ela disse-lhe, "Quando o momento chegar, em que tu tens de escolher entre o coração e a cabeça, o que vais decidir?"

"Eu não sei. Eu não sei nada." Ele balançou a cabeça.

"Eu posso dizer-te uma coisa, mano." Lily aproximou-se, e tocou-lhe no braço, "Podes seguir o teu coração, mas, por favor, leva a tua cabeça contigo desta vez. A Lydia pode não ser a Evelyn, mas tu ainda és o Alec."

"O que isso é suposto querer dizer?" O rapaz olhou-a, confuso.

"Quer dizer que... tu, às vezes, és imprudente." A loira recordou-o.

"Não. Não quando o assunto é a Lydia." Alexander argumentou.

"Ainda é amor, como quando era com a Evelyn." Lily tentou fazê-lo perceber.

"Não, estás errada." Ele negou, "É muito diferente, na verdade. Evelyn não era inocente, a Lydia é. E eu vou fazer de tudo para garantir que ela o continua a ser."

Lily baixou a cabeça, não tinha mais palavras. Alec voltou a olhar a paisagem chuvosa, os seus músculos relaxavam conforme a chuva lhes caía em cima. Era, de certa forma, relaxante.