Amor Faminto

12 Capítulo 11: Domingo A Domingo


A água quente caia sobre os ombros de Lydia, então escorria-lhe pelas costas. Os seus músculos relaxaram. Os seus olhos estavam fechados, os seus braços caídos ao lado do seu corpo. Apenas estava concentrada na pequena voz de Lily. A loira percorria-lhe o corpo com a esponja, arrancava-lhe todo o sangue preso à pele. E pelos seus lábios fugia uma pequena melodia. Lydia não conhecia, mas era agradável.

"Pronto." Lily sussurrou. "Está tudo."

Lydia abriu os olhos pela primeira vez e fechou a torneira. Agarrou a toalha que a pequena Mathews lhe estendeu e saiu do duche. Enrolou-se e olhou-se ao espelho.

"A PIP foi buscar os corpos?"

"Não te preocupes com isso." A loira disse-lhe e abriu a porta. "Vou buscar-te umas roupas."

Lily bateu com a porta e Lydia continuou a encarar o seu reflexo. O seu cabelo vermelho estava encharcado, então enxugou-se rapidamente. Quando acabou, a porta voltou a abrir-se.

"Espero que te sirvam." Lily sorriu-lhe.

"Obrigada." A ruiva agarrou as peças. "Melhor do que as minhas estão de certeza."

A loira riu. "Tu e o meu irmão têm mais em comum do que eu pensava."

Lydia ignorou-a e vestiu-se rapidamente. Quando estava aconchegada, voltou a olhar-se ao espelho. Lily aproximou-se, pegou a pequena escova em cima do balcão e escovou os longos cabelos vermelhos.

"Lamento, Lyds."

Jones encolheu os ombros delicadamente.

Lily enxugou-lhe o cabelo, e domou-o numa trança perfeita. Sem cabelos soltos e rebeldes.

"Prontinha."

A loira agarrou Lydia pelos ombros, obrigou-a a olha-la. Os olhos verdes estavam vermelhos e Lily limpou-lhe uma lágrima do rosto, com carinho.

"Ei, nós não vamos deixar nada te acontecer." Ela prometeu.

"E os outros?" A voz da Lydia estava trêmula. "Porquê que ele me deixou viver?"

"Eu não sei, meu amor."

Soluços escaparam-lhe da garganta e, rapidamente, Lily abraçou-a. As lágrimas molharam a camisa escura da loira, mas nenhuma delas se moveu.

No andar de baixo, Alexander estava, pacientemente, à espera que a sua mãe terminasse a chamada.

"Sim, eu entendo." Andrea olhou Alec de relance. "Adeus."

"Lamento, filho. Nós-."

"Eu sei, pai." Ele suspirou longamente. "Eu entendo."

"Gostava que houvesse outra alternativa." Andrea sentou-se. "Uma melhor. Mas não há."

"Nós estamos a fazer o melhor que conseguimos." O seu pai admitiu.

"Eu estou bem." Alec olhou-os. "A sério que estou."

"Quando é que eles vêm?"

Os três desviaram os seus olhos azuis para Wes, encostado à umbreira da entrada da sala. Braços cruzados, e uma expressão séria.

"Este fim-de-semana." A sua mãe respondeu.

"Quem vem?" Mark apareceu por trás do seu irmão.

"O Richard, o Robert e" Tom engoliu em seco. "a Alycia."

"Porquê que ela vem?" Wes exaltou-se.

"Ela é um membro do Conselho." Andrea lembrou. "A Alycia-."

"Nós já sabemos." Alexander parou a sua mãe com rudeza.

"Meninos," O seu pai olhou-os. "por favor. Chega desse assunto."

"O Conselho Azul também vai enviar os seus membros." A mãe avisou-os.

"Quem?" Wes franziu a testa.

"Eu não sei." Thome deu um encolher de ombros indiferente.

"Bem, mas chega deste assunto." Andrea levantou-se.

"Sério?" Mark bufou. "Porque parece que estamos a passar por tudo outra vez!"

"Exceto," Ryan entrou na sala com um sorriso. "desta vez ninguém vai ficar para trás."

Alec percebeu que o seu irmão lhe sorria, e então sentiu-se relaxar. Sorriu-lhe de volta, e percebeu que a única forma de vencerem este vampiro era como uma família.
Pena que todos aqueles anos atrás, Alexander não tivesse chegado à mesma conclusão.

Após o banho e todas as lágrimas, Lydia desceu até ao jardim. Estava, desesperadamente, a precisar de algum ar fresco.

"Sim, mãe. Estou com a Octavia."

"Tens a certeza? Não me mintas, Lydia." Amelia pediu-lhe. "Por favor."

"Não estou." Ela quase riu. "Para de te preocupar tanto comigo. Eu já sou crescida."

"Vais ser sempre a minha bebé."

"Eu sei." Lydia sorriu para o nada. "Bem, tenho de ir. Amo-te."

"Também te amo, bebé." Amelia despediu-se.

E então a chamada terminou.

Sentiu alguém se aproximar, sabia quem era então descartou a necessidade de se voltar. Alec encostou-se à vedação e parou para olha-la.

"Não me faças essa pergunta." Ela pediu.

"Não ia." Ele disse-lhe. "Mas isso não implica que não me possas dizer na mesma."

Lydia deixou a sua cabeça cair sobre os seus braços, suspirou. Sabia que Alec não conseguia evitar, algumas vezes perguntava-se se todo o intrometer era porque realmente se preocupava ou apenas por curiosidade.

"Lydia, eu sei que deve ser muito para uma noite. Deves estar-."

"Muito para uma noite?!" Jones exaltou-se. "Eu acordei no meio de um banho de sangue! Fui mordida, outra vez! E a única coisa que eu consigo pensar é como é que eu tive o direito de viver e eles não!"

Alec deixou-se olhá-la.

Ela percebeu que ele se rendeu e parou com os gritos. Ele não tinha culpa, na verdade. Lydia estava ali, em frente ao rapaz que a salvou, que correu para a buscar a meio da noite, que a segurou contra o seu peito até os seus soluços cessarem. E tudo o que ela estava a fazer era gritar.

"Tudo bem." Alexander assentiu. "Podes gritar."

"Não quero gritar contigo." Jones desviou o olhar.

"Mas podes. Não faz mal." Ele disse-lhe. "Eu entendo, Lydia."

"Tu és a última pessoa com quem eu quero gritar."

Quando ela deu por si, dois braços fortes fecharam-se a sua volta. Quentes e protetores. Ele havia-a puxado para um abraço. Um abraço apertado.

"Desculpa, Lyds. Desculpa." Murmurou-lhe. "Desculpa."

Jones afastou-se, o suficiente para poder encarar-lhe os olhos azuis.

"Beija-me, então."

"Tu devias ir descansar." Alec evitou olhar-lhe os lábios. "Tu precisas de ir descansar."

"Não," Lydia acariciou-lhe a face. "Eu preciso que tu me beijes."

"Lydia, não." Ele tentou afastar-se.

"Porque não, Alexander?" Ela envolveu-lhe os cabelos pretos, puxou-o para si com o braço que lhe envolvia a cintura. "Eu sei que tu me queres beijar."

"Não posso."

"Para." Roçou o seu nariz no dele. "Não precisas de resistir. Eu quero isto."

Alexander levantou a cabeça, tentou afastar-se do cheiro forte emanando das veias pulsantes de Jones, da tentação que eram os seus lábios. Ela beijou-lhe o pescoço, delicadamente, e sentiu o seu corpo estremecer.

"Para," Ele pediu-lhe. "Lydia."

Finalmente, Alec olhou as suas esmeraldas verdes.

"Diz-me que não me queres beijar, diz-me." Lydia sussurrou. "Olha-me nos olhos e diz-me."

"Lydia," Ele agarrou-lhe a face, com a mão direita. "Eu não posso."

"Ok." Desviou o olhar.

"Não é que eu não queira, eu-."

"Então, o que te está a parar?" Lydia perguntou-lhe confusa.

"Eu. Eu estou a parar-me." Alec disse-lhe. "Os Conselhos-."

"Que se lixem os Conselhos." Ela bufou. "Por favor, não transformes tudo num problema!"

Os dedos frios de Lydia traçaram-lhe os lábios entreabertos e os seus narizes encontraram-se. As suas respirações descontrolaram-se.

Então, Alec beijou-a.

Os seus lábios pareciam conhecer-se há séculos. Nada que tinham feito na vida interessava naquele momento, era como se todas as escolhas alguma vez feitas por eles tinham sido para os levar àquele exato momento. E de repente, de um momento para o outro, todas aquelas estúpidas frases sobre o amor, que Lydia tanto condenava, faziam todo o sentido. É fantástico e faz-te louco, mas é um bom tipo de louco. É o tipo de louco que te faz viver, que te faz querer viver.

Ambos se separaram, sem fôlego, testas coladas. Mas ambos tinham um sorriso no rosto.

"Eu não sou forte o suficiente para te resistir, Lydia Jones."

Ela riu-se.

"Por mais que eu tente, o dia todo, todos os dias." Alec murmurou-lhe. "Nunca serei."

Lydia entendia. Afinal, tudo nele parecia provocá-la, convidá-la, atraí-la.

Quando o Alexander voltou para a mansão na manhã seguinte, depois de deixar a Lydia em casa, ele ainda tinha aquele sorriso idiota na cara. Ainda estava meio dormente pelo beijo da noite anterior. Não se sentia assim fazia algum tempo.

"Oh, oh."

Alec levantou o olhar e encarou o seu irmão com uma sobrancelha arqueada.

"Eu conheço esse sorriso." Ryan apontou. "Tu estás tão caidinho pela Lydia!"

"Para." Ele repreendeu. "Não é assim."

"Então?" O seu irmão atirou-se para o sofá. "Conta-me."

"Ela é-" Alec procurou as palavras. "especial."

"Então tu estás caidinho por ela." O outro riu-se.

"Não-,"

"Alec, não faz mal." Ryan olhou-o. "Sabes, tu mereces encontrar alguém. Eu não estava a falar a sério da outra vez e-."

"Eu sei." Alec sorriu-lhe.

Ambos desviaram o olhar para a televisão, The Vampire Diaries estava no ar. O episódio em que finalmente a Elena e o Damon se beijam e isso trouxe memórias a Alec. Mas desta vez não eram memórias do século passado embebidas em dor. Eram boas.

"O Conselho Vermelho obrigou-me a marcar a Iris."

Alec olhou o seu irmão, surpreso com as palavras. Ryan não gostava de falar da Iris, muito menos com ele.

"Eu queria que ela tivesse uma vida humana feliz." Ele continuou. "Eu marquei-a, mas não queria transformá-la. A Iris insistiu, mas eu não conseguia. E se ela não aguentasse a transformação? E se ela morresse? Eu pensei em todas as hipóteses..."

"Eu entendo." Alexander disse-lhe. "Tu estavas a tentar protegê-la."

"Se eu a tivesse transformado, ela poderia estar viva." Ryan percebeu. "Eu devia tê-lo feito."

"Não, Ryan." O outro engoliu em seco. "Se não fosse eu, a Iris não tinha morrido e vocês tinham vivido o vosso pequeno infinito, felizes."

"Tu estavas a tentar proteger a mulher que amavas."

"Amor." Alec riu forçosamente. "Eu traí a minha família por ela e no fim..."

"Tu fizeste a coisa certa. Ela tinha de ser parada." Ryan assegurou. "Tu salvaste-nos a todos."

"Ainda assim," Ele fungou. "a Iris continua morta."

"Sacrifícios têm de ser feitos."

"Como é que tu consegues dizer isso?" Alec olhou-o sem acreditar. "Eu matei-a."

"Eu sei," Ryan suspirou. "mas também mataste a Evelyn."

Sim. Ele lembrava-se, de mata-la. Ele lembrava-se de chorar a sua morte, e de lançar as suas cinzas ao rio. Alec não o fizera por ela, fizera-lo por si mesmo.

LYDIA

Lydia sonhou com o beijo. Na verdade, ela sonhou com o beijo no despertar da madrugada. Durante a noite, ela ouvira os gritos daquelas quatro pessoas que morreram ao seu lado, que apodreceram ao seu lado. Ela sonhou com o vampiro, e com quem ele seria.

"Lydia!"

"Desculpa." Ela sorriu para Mark. "Estava a pensar no teste de Biologia."

"Correu bem?" Ele perguntou, atencioso.

"Oh, é só segunda-feira." Lydia disse-lhe. "Eu estou a pensar no plano de estudo."

"Oh," Mark sorriu. "De certeza que vais ter uma boa nota."

Ambos prosseguiram pelo corredor, juntos.
A conversa fluiu novamente, sem menção a vampiros. A mortes. Eram apenas dois adolescentes normais, a conviverem no hall da escola. Pelo menos, era isso que todos viam. També, o resto dos alunos pareciam não saber o que tinha ocorrido e isso levou Lydia a imaginar que talvez fosse porque eles, de facto, não sabiam. Os Conselhos eram bons a encobrir discrepâncias e incidentes.

"O Ryan trocou-me pela Octavia," Mark comentou. "outra vez."

"Percebo." Jones revirou os olhos. "Eu também fui trocada, outra vez."

Mathews riu, e ela imitou-o. Então, a expressão dele tornou-se séria e Lydia olhou-o, confusa.

"Sabes que amanhã vêm cá membros de ambos os Conselhos?"

"Por causa do que aconteceu?" Jones perguntou.

"Sim." Mark assentiu.

Ambos se encararam em silêncio. Lydia engoliu em seco e mordeu o lábio. O rapaz olhou-a preocupado.

"O que se passa?"

Eles despertaram com a voz de Alexander. Ele estava a olha-los com a testa franzida e procurou uma resposta em Mark.

"Amanhã," Ele respondeu. "os Conselhos."

"Hm."

"Eles vêm?" Lydia olhou Alec. "É verdade?"

"Sim, mas não tens de te preocupar." Ele acalmou-a. "Eles só vêm tomar conta do vampiro, e então tu estás livre de nós."

A ruiva balançou a cabeça, e largou uma risada irónica.

Alexander Mathews tinha o dom de a irritar, de a desestabilizar. Era tão fácil odiá-lo, e ao mesmo tempo gostar dele. Era uma confusão na sua cabeça, ela queria beija-lo e ao mesmo tempo dar-lhe um estalo.

"Bem, eu vou para a aula." Mark despediu-se, e deixou a tensão para trás.

"O que foi?" Alec perguntou-lhe.

Mais uma vez, ela deu um riso sarcástico.

Como é que ele, uma das pessoas mais observadoras que Lydia já havia conhecido, não conseguia perceber que ela não se queria livrar deles. Não dele. Ela tinha-lhe implorado um beijo e, ainda assim, ele continuava a empurra-la para longe.

"Lydia," Alexander chamou a sua atenção. "do que te estás a rir?"

"Não vamos mais ser-" Jones hesitou. "amigos? Assim que o vampiro desaparecer, tu também desapareces, é isso?"

"Ouve," Ele percebeu. "Não foi isso que eu quis dizer. Era uma forma de dizer, eu-."

"Bem, fica a saber que vais ter de me aturar por uns bons tempos." Ela cruzou os braços.

"Hm, percebi." Mathews sorriu-lhe. "Vamos ver se aguentas."

"Há alturas em que eu realmente te odeio." Lydia balançou a cabeça. "És impossível."

"Qual era a piada se não fosse assim?" Alec provocou-a.

"Tu és sempre assim tão irritante, não é?" Ela riu. "Deus."

"Só de Domingo a Domingo."

Ambos riram.

Prosseguiram o corredor para a aula de Álgebra, sem mãos dadas, sem olhares marotos. Apenas risos embaralhados na felicidade do momento. Porque se deve aproveitar quando a felicidade aparece, ela tende a desaparecer muitas vezes e nunca se sabe quando volta.