Amor Faminto

32 Capítulo 31: Adeus


CAPÍTULO 31

Ainda não eram dez da manhã quando Alexander abandonou a casa amarela, havia beijado os suaves lábios de Lydia e isso tinha sido o seu adeus. Esperava que aquela fosse a sua provação de herói, porque deixá-la havia sido, sem dúvida, a coisa mais difícil que já fizera em todos os seus sete séculos de existência. Apressou-se a chegar à mansão, não queria estar por perto quando a rapariga dos cabelos vermelhos acordasse, não queria ver o sofrimento pelo qual era responsável, mais uma vez.

Lydia acordou desnorteada, deu pela falta de Alec assim que despertou, e, rapidamente, se dirigiu para o andar de baixo. Amelia estava na cozinha, a preparar o pequeno almoço.

"Mãe, viste o Alexander?"

"Não, querida. Porquê?" A sua mãe olhou-a, com um sorriso.

"Ele, hm, passou cá a noite." Lydia respondeu-lhe.

Voltou para o seu quarto, vestiu-se, lavou os dentes. Quando se preparou para ir buscar o seu casaco, reparou no pequeno cartão em cima da sua mesa de cabeceira. Um sorriso abriu-se na sua cara. Tomou-o na sua mão, já sem as ligaduras que antes envolviam os cortes, e desdobrou-o.

Tinha apenas uma pequena frase: Desculpa. Esquece-me, Lydia Jones.

Lydia correu para o seu telemóvel, em cima da secretária a alguns metros de si. Ligou, sem demoras, para Alexander. Esperou, e esperou, pacientemente. Manteve a pequena chama de esperança, no seu peito, acesa.

Ao fim de três tentativas, Lydia desligou o telemóvel assim que lágrimas começaram a ameaçar cair, mesmo com a sua cabeça inclinada para trás para mantê-las escondidas. Ela deixou o bilhete, ainda na sua mão, cair na madeira da secretária. A dor começou no seu estômago, depois alastrou-se para o seu peito.

Lydia suspirou, "Ele foi-se..."

Jones não perdeu tempo, agarrou no casaco que havia ido buscar, em primeiro lugar, e correu para a porta da rua. Não respondeu aos chamamentos preocupados da sua mãe, apenas entrou no carro e arrancou. Não sabia dizer como não havia tido um acidente, as suas mãos tremiam no volante e a água nos seus olhos embaciavam-lhe a vista.

Quando entrou na estrada de terra batida, o único caminho que levava à mansão dos Mathews, deu de frente com um carro. Ambos travaram, bruscamente. Os olhos verdes de Lydia prenderam-se aos do condutor, conheceria aqueles olhos azuis em qualquer lugar.

Lydia bateu com a porta do carro, quando saiu, esperou que Alexander saísse do lugar seguro, onde se encolhia. Ela estava irritada, chateada. Afinal, é sempre mais fácil estar-se zangado com a pessoa do que lhe dizer que estamos magoados.

"Tu és um covarde." Foi a primeira coisa que ela lhe disse.

Lily saiu, logo a seguir, do carro preto. Preveu o que estava a acontecer, e sentiu-se pior por saber que estava certa.

Alexander não sabia o que dizer, estava mudo. Estava arrependido, sem dúvida, deveria ter empacotado as suas coisas mais cedo, mas queria adiar a sua própria escolha. E, por isso, ia pagar por ela.

"Tu vais-te embora." Ela acusou, novamente.

"Tu não devias ter vindo, Lydia." Alec desviou o olhar.

"Tu estás a desistir de nós." Jones sentiu os seus olhos arderem.

"É a coisa certa a fazer."

Lydia lembrou-se de antes, quando Alexander a tentava expulsar com todas as suas forças. E era, exatamente, isso que ele estava a fazer naquele momento. A escolher por ela, outra vez. E isso deixava-a furiosa.

"Cala-te!!" Lydia cuspiu-lhe, "Eu tinha muitas razões para desistir de ti! Mas eu escolhi ficar! Tu és a porra de um vampiro!!"

A forma como ela o disse foi o que destruiu Alec. O olhar de sofrimento e desilusão. As suas mãos trêmulas. Tudo o que ele queria evitar ao deixá-la sozinha naquela cama.

"Diz-me! Dá-me uma boa razão, Alexander, por favor!" Ela suplicou-lhe, "O que eu fiz?"

"Não, não. Não és tu. Tu não me fizeste nada a não ser bem, Lydia."

"Então, eu curei-te. Mas tu quebraste-me." A respiração dela tornou-se pesada, "Eu estou a salvar-te, mas tu estás a destruir-me."

Alexander queria argumentar, mas como podia? Ela tinha colocado em palavras o que ele nunca conseguiu. Ele sabia a verdade naquelas palavras, mas ouvi-las, vindas da boca dela, partiu-lhe o coração. Mas ali estava, sem mentiras, sem disfarces. Não havia uma melhor explicação no mundo.

"Eu não me importo," Lydia murmurou, uma lágrima caiu-lhe, "fica."

"Lydia-,"

"Eu amo-te, Alexander."

Os olhos azuis de Mathews arregalaram-se, ligeiramente. A sua boca secou, os seus olhos inundaram-se. Queria abraçá-la, dizer-lhe que a amava também. Dizer aquelas palavras podia ser um bom começo, mas para eles, Alec temia que fosse o fim.

"E-Eu vou-me embora." Ele disse, coma voz a falhar-lhe.

A última gota de esperança havia sido drenada do corpo de Lydia com a ignorância de Alec perante o seu amor. O seu orgulho já se tinha ido também, a sua dignidade. Era apenas um grande vazio, sem fim. Talvez tudo o que lhe restava era raiva. Raiva e lágrimas.

"Vai para dentro do carro, Lily. Nós vamos embora." Alexander disse para a sua irmã, sem desviar o olhar do chão.

A loira olhou uma última vez para a rapariga dos cabelos vermelhos esvoaçantes e disse o seu próprio adeus, um silencioso sorriso, e apressou-se a entrar no carro. Mas Alec não entrou.

"Quem me dera nunca te ter conhecido." A Lydia começou a chorar.

Alexander sentiu uma enorme vontade de chorar, também, com o impacto das palavras dela, mas lutou contra as lágrimas, de maneira alguma mostraria a Lydia que aquilo não era o que ele queria. Ela tinha todo o direito de estar com raiva.

"Não haveria qualquer razão para isto, eu não te amaria. Não haveria lágrimas ou sofrimento." O olhar de Jones estava a transbordar de ódio, "Tu destruíste-me! Só me trouxeste miséria e dor! Tu és o porquê de eu estar esta confusão!"

Aquele sentimento que se tem no estômago, quando o nosso coração se parte, é como se todas as borboletas que eles os dois haviam coletado até aquele preciso momento tivessem a come-lo por dentro, a odiá-lo também.

Alexander sabia que, se ela soubesse que ele se ia embora, ia odiá-lo, mas nunca tomou tempo para imaginar as palavras que Lydia lhe diria. Sabia que era sua culpa, que ela estava bem feliz com o seu estatuto de popular na escola, com a sua melhor amiga Octavia, e Alec havia a trazido para o seu mundo, horrível e cheio de escuridão. Mas ele amava-a, será que ela não sabia? perguntava-se. Alexander perguntava-se se Lydia não sabia que o facto de ele a amar era exatamente a razão para ele a estar a deixar?

Lydia caiu de joelhos, as suas mãos ficaram cobertas de terra. Lily quase desapertou o cinto e correu até à rapariga dos cabelos vermelhos, mas parou-se.

"Sabes o que é o pior, Alexander?" Ela levantou o olhar até o conseguir encarar, "Eu vou continuar o resto da minha vida a amar-te, mesmo que tu não me ames."

Alexander desviou o olhar, queria, acima de tudo, abraçar a Lydia e dizer-lhe que lamentava, que a amava e que ela podia ser uma confusão, mas ainda era, sem qualquer dúvida, uma confusão linda. Afinal, ele era uma confusão também e isso não a impediu de o amar. Mas não foi isso que Alec fez, porque, por muito que queramos, o amor, às vezes, não é suficiente.

"Adeus, Lydia Jones."

É o último olhar que é o pior. Quando ambos estão a tentar memorizar as feições do outro, porque sabem que é a última vez que se vão ver. Vendo assim, eles são mais sortudos que outros casais, que são arrancados um do outro sem dizerem adeus. Mas quando Alec lhe virou as costas, e caminhou para o carro, Lydia não conseguiu não pensar que preferia morrer sem aviso, do que esperar a sua execução.

E ele entrou no carro, então, enquanto ouvia os soluços sofredores. Arrancou, sem dizer uma palavra a Lily. Estava longe e, ainda assim, ouviu o grito de Lydia. O seu coração partiu-se pela milésima vez desde que a conhecera, corações partem-se, acontece. É verdade. Alexander achava que era melhor morrer quando eles se partem, mas, infelizmente, ele estava bem vivo. Pelo menos o mais vivo que um vampiro pode estar.

Lydia havia prometido a si mesma, há muito tempo, que não iria chorar por qualquer rapaz. Mas essa promessa foi quebrada naquela estrada de terra batida e na madrugada daquela noite, quando estava deitada na sua cama, enrolada no cheiro de Alexander, a soluçar e em busca de ar. Ele estava em todo o lado, havia pedido a Deus para a levar. Depois lembrou-se, que não acreditava em Deus.

"Lydia, querida." Amelia entrou na escuridão, e só então acendeu a luz, "Como estás?"

As mãos de Jones estavam frias, ignorou a sua mãe e tentou aquecê-las debaixo dos lençóis. Os seus olhos verdes estavam focados no pequeno cartão que Alec lhe havia deixado antes de deixar a casa amarela. Desculpa. Esquece-me, Lydia Jones. No fundo, sabia que muitas noites passadas em claro estavam por vir e aquela era só uma delas.

"O Alexander deixou-me." Lydia controlou os seus soluços, finalmente, "Eu apenas não fui suficiente para o fazer ficar."

O coração da sua mãe apertou-se em dor, ela tomou o lugar ao pé da sua filha. Sabia que aquilo iria acontecer, Thome Mathews havia ido ao seu encontro, havia-lhe contado que estavam de partida e que gostava de lhe deixar um presente de despedida. Sentia pena pela sua menina, acima de tudo, talvez por conhecer aquela dor. É verdade, aquela dor Amelia conhecia, estava familiarizada, era uma amiga sua de longa data.

Tentou acalmar Lydia com carícias nas mãos frias, que ela havia tirado de debaixo da colcha.

"Não foi tua culpa, querida." Amelia disse, "Ele foi-se porque ele precisou de ir, meu amor."

"Desculpa. É isto que sentiste quando o pai te deixou?" A rapariga dos cabelos vermelhos soou desesperada, "É horrível, dói tanto, mãe. Lamento."

"Oh, Lydia." A sua mãe beijou-lhe os cachos.

"Eu não quero estar aqui." Lydia chorou, "Eu não sinto a necessidade de estar viva. Não resta ninguém que me ame. A Octavia está morta e ele-."

"Eu amo-te!" Amelia parou-a, "Eu sou tua mãe, Lydia. Eu vou sempre amar-te mais do que tudo neste mundo."

Lydia havia adormecido com a sua mãe, mas depois dela, assim que o calmante fez efeito. Acordou na manhã seguinte com poucas memórias da noite anterior. Os seus olhos ainda estavam vermelhos e inchados, o seu cabelo despenteado. Encontrou o seu telemóvel ao seu lado, com uma mensagem começada, mas não enviada, para Alexander, como uma súplica por ajuda. Ele havia-a deixado. E no fundo, Lydia ainda esperava que ele fosse voltar.

Sentia-se dormente e inútil, não sabia quem era naquele momento. O silêncio era pesado, não entendia. Lydia havia acordado naquela manhã e podia jurar que nada tinha mudado desde a noite passada. A dor continuava lá, exigindo ser sentida e quem era Lydia Jones para a ignorar.

"Queres chá?" Amelia perguntou à rapariga dos cabelos vermelhos sentado no sofá, a encarar o nada, "Lydia?"

"Não." Disse, sem se mover.

Não muitos minutos depois, a campainha soou. Os olhos verdes arregalaram-se, levantou-se num movimento repentino. Amelia não teve tempo de correr para a porta, mas conseguiu distinguir o olhar de esperança na sua filha.

O sorriso largo de Lydia apagou-se quando abriu a porta.

"Tu-?" Ela franziu a testa.

Amelia aproximou-se, espreitou-lhe por cima da cabeça. A sua expressão transformou-se imediatamente, ficou séria.

"Lydia, estás tão crescida." O homem sorriu, "Lembraste de mim, abelhinha?"

Lydia cerrou os dentes, e manteve todos os insultos para si, "Pai."

"Então, lembraste." Hank Jones soou feliz.

Infelizmente, sim.

"Oh, Amelia. Tu continuas tão linda, os anos não passaram por ti." Elogiou a sua mulher.

"Não passaram por ti, também." A mãe de Lydia devolveu, com um pequeno e escondido sorriso que não passou despercebido.

Amelia tinha razão, a rapariga dos cabelos vermelhos percebeu. O seu pai continuava o mesmo de há x anos. Com a sua barba por fazer, o cabelo por escovar e os olhos do mesmo tom de x. Ela podia jurar que não se tinha passado um único dia, mas tinha. E Lydia não podia ignorar que havia crescido sem um pai.

"Não me vão dar as boas-vindas a casa?" Hank olhou entre as duas mulheres da sua vida, com um olhar saudoso.

Certamente, aquele seria um longo Verão. Um coração partido, um pai de volta e uma melhor amiga a sete palmos do chão, Lydia tinha um Verão doloroso pela frente. E a coisa não estava bonita, naquele momento, a rapariga dos cabelos vermelhos não tinha a certeza se iria chegar ao final do Verão. Quem a poderia culpar?

Afinal finais são difíceis, mas nada nunca acaba realmente, não é mesmo?