Amor Faminto
4 Capítulo 3: Octavia
Notas iniciais
“Estás a ouvir-me, Lydia?”
A rapariga dos cabelos vermelhos voltou-se para a sua melhor amiga com um bocejo.
“Desculpa O, não dormi nada de jeito.” Ela murmurou.
“Eu sei, estás horrível.” Octavia afirmou. “Mas não te esqueças que ainda temos álgebra.”
“Eu sei.” Lydia suspirou.
Jones percebeu quando a atenção de Octavia se dispersou para uma outra pessoa. Ryan estava no campo, o treino de Lacrosse tinha terminado, e ele estava a sorrir para a sua melhor amiga, com aquele tipo de sorriso que atrai a sua presa e nunca falha, esse tipo de sorriso.
“Bem, o amor chama-me.” Octavia levantou-se.
Lydia olhou-a chocada. “Já estamos a chamar isto de amor, sério?”
“É uma forma de dizer, não te preocupes, Lyds. Eu estou bem.” A Cooper sorriu-lhe. “Ah e eu vou faltar a Álgebra, desculpa.”
“Espera, O-.”
Mas era demasiado tarde, Octavia já estava a descer a bancada, longe demais para ouvir a Lydia. Esta estava apenas a tentar ajudar a sua melhor amiga, mas ela parecia fazer a tarefa muito mais complicada, afinal quando alguém não quer ajuda não há muito que se possa fazer.
No entanto, Lydia sentou-se e abriu o caderno rapidamente quando chegou à aula de álgebra, não queria ficar a remoer no assunto. E aquela matéria era complexa e ela não queria perder nada.
“Alguém sabe onde anda a Senhorita Cooper?” A Sra. Williams olhou a turma.
A rapariga de cabelos vermelhos suspirou. “Ela não estava a sentir-se bem e foi para casa.”
“Oh, ok. Então, vamos começar!”
Lydia não se sentia bem a mentir por Octavia, mas não havia outra opção, as suas notas não eram brilhantes e faltar não ia ajudar na decisão dos professores. As palavras do Sr. Styles estavam bem presentes na sua cabeça, mas a ruiva não conseguia evitar, ajudar estava no seu sangue.
“O sistema linear na forma material é-.” E a Sra. Williams escreveu algo no quadro. “Consideremos então a matriz aumentada e o consequente método de eliminação de Gauss. E assim, chegamos aqui.”
Todos olhavam o sistema como um burro olha para um palácio. Lydia às vezes não percebia como é que era amiga de pessoas tão desinteressadas, mas rapidamente se lembrava que eles eram boas pessoas. Pelo menos a maior parte do tempo.
“Alguma dúvida?” A professora perguntou com um sorriso.
“Sim! Ah, tudo.” E Kevin riu.
“Tu és um idiota.” Lydia acusou.
“Senhorita Jones!” A Sra. Williams repreendeu.
“Porquê que ele pode ser um idiota, mas eu não posso evidenciar tal?”
“Quem é que tu pensas que és? Tenho a certeza que já saíste com metade dos idiotas desta escola!” Kevin devolveu.
“Oh, era suposto sentir-me ofendida?” A rapariga colocou a mão no seu peito. “A única coisa que me ofende aqui é a tua cara, Tran.”
“Parem!” A Sra. Williams interveio. “Ou se calam os dois ou eu vou ter de vos mandar para a rua.”
Lydia afundou na cadeira com os braços cruzados. Kevin também se calou, e voltou a agarrar no lápis para copiar o sistema do quadro, muito provavelmente. Com a sua visão periférica, a rapariga dos cabelos vermelhos conseguiu perceber o olhar de Alec na sua direção.
Mathews era difícil de ler, mas ele estava certamente a julgá-la.
Ao contrário de Lydia, Alec agradeceu por Álgebra ser a última aula do dia. Ele arrumou as suas coisas calmamente, afinal não tinha pressa, Lily só o viria buscar dali a pelo menos cinco minutos. Ela chegava sempre atrasada.
“Octavia? Estás bem?”
Alexander deparou-se com a rapariga dos cabelos vermelhos ao telemóvel, mesmo à saída da sala. A sua cara expressava preocupação e os seus olhos verdes aflição. Então, Alec focou-se no que se passava do outro lado da linha.
Era Octavia.
“Sim! Não te preocupes, Lyds.” E riu.
“Como quiseres.” Lydia encolheu os ombros e desligou.
A rapariga abraçou os seus livros com mais força e prosseguiu, com Alec a segui-la. Ela parou no seu cacifo e ele aproveitou, logo encostou-se.
“O que queres?”
Jones não esperou que ele respondesse e apenas continuou a desfilar pelo corredor, sabia que Alec a seguiria.
“Amanhã é dia da Sopa dos Pobres, certo?” Ele provocou.
“Não sei do que estás a falar.” Lydia encolheu os ombros.
“E a Octavia?”
A ruiva parou, voltou-se para o olhar.
“O que tem?”
“Ela, claramente, não está doente.” Alec acusou.
“Isso, claramente, não é da tua conta.” Lyds devolveu.
“Sabes, um último conselho: é importante fazer amigos que são mais do que companheiros de bebedeira, festa e fumar. Precisas de amigos com quem possas chorar, amigos que acreditam em quem tu és.”
“Onde estão os teus amigos, Alexander?” Lydia fingiu olhar à volta. “Não vejo ninguém. Nem a tua família, os teus irmãos. Tu não me conheces, por isso fica fora dos meus assuntos e eu fico fora dos teus, entendido?”
Alec engoliu em seco. “Entendido, Senhorita Jones.”
E então, Lydia seguiu o seu caminho, com o cabelo vermelho a voar com os movimentos rápidos. E Alec ficou para trás, com um sentimento estranho no peito, algo que não havia sentido em séculos. Nem ele conseguiu perceber o que era, mas sentia-se dominado por ele.
Lydia sentiu-se culpada primeiro, remoeu nisso todo o caminho para casa. Assim que passou a porta da entrada, deixou para lá. Alexander não valia a pena.
“Mãe?”
“Aqui!” A voz veio da cozinha.
Lydia pousou a mala num canto da mesa, uma vez que todo o resto da cozinha estava coberto por um pó branco, assim como Amelia.
“O que estás a fazer?” A ruiva franziu as sobrancelhas.
“Bolos. Sabes, para levares amanhã para a Sopa dos Pobres.” Ela sorriu. “Pensei que irias gostar.”
“Sim, é uma ótima ideia, mãe!” Lydia sorriu e beijou a cara suja da sua mãe. “Mas podias ter esperado para eu te ajudar.”
“Oh, não dá trabalho nenhum.”
Amelia passou a mão na bochecha rosada de Lydia, e deixou um trajeto de farinha. A pequena largou uma risada com o gesto.
“Pareces preocupada, tudo bem, querida?”
Jones então sentou-se na cadeira de madeira, suspirando longamente.
“É a Octavia e-.” Lydia hesitou.
“E o quê, Lydia?” A sua mãe incentivou.
“É o Alexander Mathews. A família de vampiros, sabes, ele e os irmãos.” Ela começou.
“Oh, sim.” Amelia piscou-lhe o olho, então. “Ele é giro?”
“Mãe! Não é dessa maneira!” Lydia negou. “Acredita, além de ser um vampiro, ele é a pessoa mais irritante que eu já conheci. Eu odeio-o.”
“Hm, ódio. Isso parece-me o começo de uma história de amor, não de uma inimizade.”
Jones levantou a sua sobrancelha de forma inquisitória.
“Desculpa, Lyds. Estou viciada em The Vampire Diaries.” Amelia confessou.
Lydia riu, e deixou a sua cabeça tombar para trás. A sua mãe voltou-se para ao fogão, também rindo. E era ali que Jones se sentia bem, com a sua mãe a rir de algo ridículo, mas ao mesmo tempo tão simples. Esta era a sua vida e Lydia não a queria de nenhuma outra maneira.
Ao contrário dela, Alexander sentia o desejo de ter uma vida diferente. Tirar uns erros aqui, outros ali. Mudar o seu passado. Mas isso é muito para pedir, e não é como se ele tivesse algo para dar em troca.
“Vá lá, Alec. Eu conheço-te!”
“Lily-.” Ele avisou.
“Eu prometo que paro se me contares.” Lily sorriu calorosamente.
Alec suspirou. A sua irmã era a pessoa mais chegada que ele tinha, claro os seus irmãos eram divertidos nos fim-de-semanas quando iam para as traseiras jogar Lacrosse e os seus pais eram muito fixes quando o deixavam tocar guitarra dentro de casa. Mas fora todas essas exceções, Lily era uma das únicas pessoas para quem Alec realmente se revelava.
“É esta rapariga, Lydia Jones.” Ele riu só de pensar. “Ela é a pessoa mais irritante que eu alguma vez conheci. Sério, ela consegue ser a pessoa mais superficial à face da terra e cinco minutos depois a pessoa mais vulnerável.”
“Há alguma coisa aí?”
Toda a cor do rosto de Alec foi drenada. Ele tinha a certeza que parecia um fantasma naquele momento, o seu coração parecia estar a ser esmagado de tão apertado que estava. E doía.
“Lily, não-.”
“Alec, para. Tu não podes recusar-te a seguir em frente. Tu-.”
“Eu estou a seguir em frente!” Ele exaltou-se. “Porque achas que estou aqui?!”
“Não, não estás. Tu continuas preso naquele dia.” Lily lembrou-o. “Não podes ficar lá preso para o resto da eternidade. Já se passaram cem anos, Alec. Tens o resto da eternidade à tua frente.”
Alec fechou os olhos por uns minutos, deixando-se embebedar nas memórias. Demorou um pouco a responder.
“Não importa. Eu não gosto daquela rapariga, na verdade eu odeio-a. Isso nunca vai mudar.”
“Hm, nunca para um vampiro é muito tempo, Alexander. Ninguém sabe isso melhor do que tu.”
Alec, claramente, não estava muito contento com a sua eternidade. Mas é como dizem, o que uns não querem outros desejam, e é a verdade. Lydia, no entanto, não era uma dessas pessoas, era achava que viver já era suficientemente difícil durante noventa anos, não queria prolongar qualquer sofrimento que estivesse à sua frente.
Lydia já estava de pijama, pronta para apagar as luzes, quando o seu telemóvel tocou. Ela encontrou-o em cima da secretária, era Octavia.
Lydia rolou os olhos. “Sim?”
“Lyds, oh meu deus.”
“O, está tudo bem?” Ela preocupou-se.
“Não, não, não.”
E então Jones começou a ouvir um choro do outro lado do telemóvel.
“Octavia! O que aconteceu?” E nada. “Octavia! Responde!”
“Estou a ir para tua casa, ou a tentar. Eu- Eu estou a vê-lo!” Ela gritou. “Ele está em todo o lado! Ajuda-me, Lydia!! Oh meu deus!”
“Onde é que tu estás, O?!”
“Eu estou a ir para aí, Lydia! Mas- mas dói-me, AH!”
Lydia vestiu o casaco rapidamente e sem largar o telemóvel correu pelas escadas, e então saiu para a rua com desespero estampado nos seus olhos verdes.
“Lydia!”
Jones olhou para o outro lado da rua, era Octavia. Ela cambaleava enquanto saía do meio dos arbustos, e Lydia correu na sua direção. Não estava nem um pouco preocupada com a possibilidade de um carro lhe passar por cima.
“Octavia!” E então abraçou-a.
“Lyds, por favor.” O suplicou.
A rapariga dos cabelos vermelhos afastou-se para olhar a sua melhor amiga. Percebeu o sangue escorrendo do seu pescoço, cobria a ferida, quase impossível de detetar no escuro da noite.
“Meu deus, o que te aconteceu?”
“Eu não sei, eu não sei. Mas-.”
E então os olhos escuros de Octavia pousaram em algo atrás da pequena figura de Lydia.
“O que foi?” Jones voltou-se preocupada. “O que estás a ver, Octavia?”
“É ele.” Cooper apontou.
“Não, não está ali ninguém.”
“Sim está! Ele está aqui por minha causa!” Octavia entrou em pânico. “Oh meu deus!”
Quando a morena tentou fugir, acabou por perder forças devido provavelmente às dores provenientes do ferimento no pescoço. Lydia agarrou-a, mas com o peso da sua melhor amiga, acabou por cair de joelhos na terra, com Octavia nos braços.
“Vou chamar a ambulância, Octavia.”
“Não, não, Lyds. Os meus pais não podem saber, ok? Não, não.” Ela implorou.
Lydia mordeu o lábio. De algum modo, ela tinha a certeza que O estava drogada, o que explicava as alucinações. Então, afastou o cabelo escuro de Octavia para longe do ferimento, numa tentativa de ter uma visão mais clara do que poderia estar por detrás do sangue, e foi aí que percebeu as formas evidentes à volta do escorrimento.
Era uma mordida.
“Oh, Octavia, no que te meteste?”
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