Amor Faminto
22 Capítulo 21: Guerra
Véspera de Natal
LYDIA
Nos retratos de família todos parecem muito felizes. Invencíveis, certo? Apenas olhem um pouco mais perto e podemos vê-la estremecer. Parecem despidos de segredos, mas não confiam em ninguém. Todos os seres, humanos ou vampiros, caminham por aí com uma certa tristeza, sofrimento. Podem, certamente, não a mostrar, mas está lá. Só temos de olhar mais perto. No Natal é quando o fingimento atinge o seu auge, não é permitido ser-se triste no Natal. Nos outros dias é normal, uma vez ou outra, mas não no Natal. Todas as famílias a competir para ver quem aguenta mais tempo a sorrir, sem fraquejar.
A verdade: a sua família havia fraquejado fazia muito tempo.
"Lyds."
A ruiva voltou a pousar a moldura da família Mathews na estante e voltou-se. Era Lily, olhava-a com um sorriso aconchegador, na medida certa.
"Vamos jantar?"
"Vamos, sim." Lydia assentiu e seguiu-a.
Estavam já todos sentados à mesa e, não se surpreendeu, quando percebeu que os únicos lugares vazios eram entre Alycia e Mark e, depois, entre Alec e a sua mãe. Claro, ela sentou-se entre o vampiro e Amelia.
Quando Andrea acabou de os servir, a mesa estava em silêncio. Nenhuma palavra foi proferida durante todo o jantar, exceto entre os irmãos Mathews que pareciam crianças de tão entusiasmados que estavam. Parecia que não tinham um Natal assim fazia algumas décadas.
"Bem," Tom levantou-se com um copo na mão, "acho que devemos agradecer por esta família incrível que conseguimos, e dar, claro, as boas-vindas à Amelia e Lydia."
"Um brinde!" Andrea entusiasmou-se.
Então, todos se levantaram e brindaram com os copos cheios de champanhe. Lydia olhou o rapaz ao seu lado e, para sua surpresa, ele já a olhava. Era um olhar repleto de carinho, mas também medo. Felicidade, mas também preocupação.
Então beberam. Continuaram a olhar-se logo após baixarem os copos. Não quebraram o contacto mesmo depois de se sentarem. Então, ele sorriu e isso tranquilizou-a.
"Quem está pronto para uma maratona de Twilight?" Lily propôs.
"Twilight?" Ryan resmungou.
"Deves estar a brincar!" Wes afundou-se na cadeira.
"Ok e que tal a Melodia do Adeus?" Alycia arqueou as sobrancelhas.
"Ok, vamos ao Twilight!" Mark rapidamente se levantou.
Todos riram, incluindo os adultos.
Quando os amantes da televisão se levantaram, a mesa parecia vazia.
"Não é estranho... ver Twilight quando..."
"Somos vampiros?" Tom completou Amelia com um sorriso, "Os meus filhos nunca foram normais, nem mesmo quando humanos, porque seriam agora?"
Lydia riu com a afirmação, e sentiu a aproximação de Alec logo a seguir.
"Achas-me estranho?" Ele sussurrou-lhe.
"Hm, sempre." Jones devolveu-lhe, ainda com as costas voltadas.
"Porquê?" Alec afastou-se, aparentemente magoado pelas palavras.
Então, Lydia voltou-se e riu, "Tu és um vampiro, para começar."
"Ei, não me julgues pelo meu interesse em... sangue." Ele disse-lhe.
Ambos riram, sem desviar o olhar.
"Seria muito mau se fugíssemos daqui?" Ela acariciou-lhe a mão.
"Para onde queres ir?" Alec sorriu-lhe.
"Não importa, desde que esteja contigo."
"Isso soou muito lamechas." Ele riu-se.
"Eu sei." Lydia assentiu, e baixou a cabeça.
"Bem," Alexander olhou os presentes, "nós vamos apanhar ar."
"Vão, vão." Andrea enxotou-os.
Os adultos continuaram a conversa animada, e Lydia levantou-se. A sua mão foi imediatamente agarrada por Mathews. Ela seguiu-o para a rua, deixaram a mansão para trás. Estava frio, mas era um bom tipo de frio. Era aconchegante.
"Sabes," Lydia falou, enquanto caminhavam, "tenho pena do Ethan."
Ela sentiu-o ficar tenso com as suas palavras. As suas mãos soltaram-se, não percebeu muito bem quem largou quem.
"Não devias." Alec disse-lhe.
"Mas sinto e não consigo evitar." Ela encolheu-se, "Ele está fechado naquela cave enquanto estamos ali a celebrar o Natal. Isso não é justo."
"Justo? Também não é justo ele ter-te feito sofrer ou é?!" A voz de Mathews elevou-se, "Como podes sentir pena de alguém que te causou tanto mal?"
Lydia olhava-o confusa, não estava assustada com a gritaria, nem chateada. Apenas questionava o porquê de toda aquela alteração de humor.
"O que se passa?" Perguntou.
"Nada." Ele suspirou, e então aproximou-se, "Lamento, Lydia."
Alexander parecia estar em sofrimento, ele parecia estar sempre em sofrimento. Todos os dias. Eram poucas as vezes em que parecia realmente feliz. Na verdade, Jones achava que ele não sabia o que fazer com a felicidade, talvez o deixasse desconfortável. Ou talvez ele simplesmente não sabia o que fazer com algo bom.
"Não, eu peço desculpa." Lydia encostou a cabeça no peito dele, "Tens razão."
"Não, eu gosto disso em ti." Ele confessou, "Gosto de como sempre vês o lado bom das coisas, não importa o quanto seja difícil. Viste algo bom em mim, mesmo quando eu já havia desistido."
Ela levantou a cabeça e ele estava a olha-la. Não pôde deixar de pensar que com olhos como aqueles, que poderiam retratar as profundezas do mar. Olhos que a conseguem fazer estremecer, sem frio. Com esses olhos, ele conseguia fazê-la sentir tudo. E ela não achava que isso era mau exceto que o problema sobre sentir tudo é que, muitas vezes, pode parecer-se com amor.
"O que é isto?" Lydia sussurrou-lhe.
"O quê?" Alec franziu a testa.
"Nós." Ela mordeu o lábio inferior, "Isto que nós temos."
"Eu não sei, Lydia." Confessou, "Mas faz sentido, não faz?"
"Todo o sentido." Jones assentiu, "Não acho que nada em toda a minha vida tenha feito tanto sentido quanto isto."
Alec beijou-a de leve, e então voltou a olhá-la apenas. Oh, e se a tristeza fosse beleza, era ele.
"Há coisas sobre ti que eu ainda não sei, mas eu vi as partes mais íntimas e eu acho que não faz mal." Alexander murmurou-lhe. "Acho que é suficiente."
"Sim, é." Ela afirmou.
E então foi a vez dela de pressionar os seus lábios contra os dele. Quando se separaram, ele entrelaçou a sua mão na dela, e envolveu-lhe a cintura com a outra. Balançou os seus corpos, estavam a dançar. Lydia fechou os olhos e deixou-se levar.
"Feliz Natal, Lydia Jones." Alec soprou-lhe ao ouvido.
"Feliz Natal, Alexander Mathews."
Talvez seja amor, pensou Lydia, ou talvez não seja. Mas isso não muda o facto de que ela não queria fazer joguinhos. Ela só queria estar com ele. Mas não fazia ideia do porquê. Ou, na verdade, o que estar com ele realmente significava. Tudo que sabia era que, apesar de tudo, era nele que pensava. Com ele que se importava. E se aquilo não era amor, podia muito bem ser.
Dia seguinte
Natal
ALEXANDER
As Jones tinham dormido num dos muitos quartos de hóspedes. E claro que tanto Lydia quanto Alec só tinha voltado para a mansão muito depois das duas da manhã. Era difícil perceber qual deles era pior influência, mas provavelmente ele. Só podia ser ele.
"Bom dia, maninho." Ryan estendeu-lhe uma caneca.
Agradeceu-lhe e bebeu, deliciou-se com o sangue. Quando pousou o recipiente em cima da bancada, os olhos do seu irmão estavam presos em si.
"O que foi?" Arqueou as sobrancelhas.
"A Lily contou-me." Ele confessou.
Alec revirou os olhos, "Ela nunca consegue ficar calada."
"Meu, temos de contar aos pais." Ryan preocupou-se.
"O Ethan estava provavelmente só a tentar salvar a sua própria pele." Ele encolheu os ombros.
"Ou não." O seu irmão devolveu, "Que mais a perder ele tem?"
"A vida dele." Alexander lembrou-o.
"Ele estava desesperado." Lily surgiu na cozinha, "Nós ambos vimos."
"Ele passou metade da sua existência a tentar sobreviver e é o que está a fazer agora. Só isso." Ele explicou-lhes.
"Não, tu próprio o disseste, Alec." A loira baixou a sua voz, "A guerra está aí."
Alexander baixou a cabeça. E só a voltou a levantar quando sentiu a presença de outras duas pessoas na sala, eram os seus pais. Tinham os braços cruzados e uma expressão preocupada no rosto.
"Mãe, pai." Ryan saudou.
"Precisamos de falar." Tom avisou. "Agora."
"Agora não é a melhor altura." Alec levantou-se, "Temos visitas e-."
"O que se passa?" Era Lydia, desceu as escadas com cuidado, "Está tudo bem?"
"Tudo ótimo." Lily sorriu-lhe.
A sua mãe olhou-o, era um olhar diferente do comum: queres esconder-lhe isto, Alexander?, dizia-lhe. Ele perguntou-se a mesma coisa e antes que conseguisse chegar a uma resposta, Amelia juntou-se à sua filha, com um olhar confuso.
"Temos de falar." Andrea disse.
"Mãe-."
"Não." A sua mãe parou-o, "Na sala."
E os seus pais foram-se.
Sabia que não precisava de chamar os outros, eles estavam provavelmente a ouvir em qualquer parte da casa, mas demasiado preguiçosos para irem espreitar.
Lydia aproximou-se do grupo dos Mathews deixados para trás, e dirigiu-se a Alexander.
"O que está a acontecer?" Ela perguntou, preocupada.
"Lamento, Lydia." Alec baixou a cabeça, não conseguiu olhá-la.
"Ei." Jones agarrou-lhe a mão, "Não importa. Sempre, certo?"
Ele levantou o olhar, surpreso, "Sim, sempre."
"Vamos." Lily chamou-os.
E todos seguiram o mesmo caminho que a Sra. e Sr. Mathews tinham seguido há pouco tempo e, quando entraram na sala, já estava lá o resto da família. Todos se sentaram.
"O que têm para nos dizer?" Tom olhou os três que tinha encontrado mais cedo.
Os irmãos olharam-se entre eles. E então Lily olhou os seus pais.
"Falamos com o Ethan, foi estranho ele ser apanhado assim..." Ela começou, "E ele disse que-."
"Mais estão a caminho. Ele não estava sozinho." Alec continuou.
"O quê?!" Wes levantou-se, alarmado.
Os restantes limitaram-se a olhá-lo perplexos, com medo talvez. Pensavam que trancar Ethan na cave ia resolver todos os problemas, mas não. Um problema nunca vem sozinho, deviam saber.
"O que isso significa?" Lydia atreveu-se a perguntar.
"A guerra está a chegar." Ryan disse.
O silêncio preencheu sala. E Alec conhecia aquela frase célebre que todos diziam quando ele tinha apenas cinco anos, mas que nunca esqueceu: todo o silêncio tem um motivo e um nome. E este também, morte e guerra. Nada mais.
"Temos de o tirar daqui!" Alycia levantou-se, "Se ele estava com quer que seja que está a caminho, eles podem rastreá-lo!"
"Eles vão-nos encontrar de qualquer maneira, maninha." Mark lembrou-a.
"Sim, mas não tem de ser hoje." Ela devolveu.
Poucos minutos depois, Ethan foi arrastado para fora da mansão pelo único membro do Conselho presente. Lily conhecia muitos lugares escondidos na cidade, bons esconderijos, boas fortalezas. Theodore e Richard estariam de volta no dia seguinte e então fariam o que tinham a fazer e os Mathews tinham menos um problema para lidar.
Alycia bateu com a porta e colocou o cadeado, trancou-o. Voltou-se e aproximou-se do seu irmão que olhava a bonita paisagem.
"Estamos condenados, não é mesmo?" Alycia disse-lhe.
"Espero que não." Ele suspirou.
"Eu vou fazer tudo o que posso para garantir que a Lydia sai disto viva." Ela prometeu-lhe.
"Obrigada, mana." Alec deu um sorriso torto.
"Eu devo-te uma." Alycia lembrou.
E voltaram a olhar para o sol no seu auge.
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