Amor Faminto

13 Capítulo 12: Ódio


ALEXANDER

Por alguma estranha razão, o Conselho exigia que se apresentassem com roupa adequada à ocasião. Então, todos estavam prontos para desfilar na passerelle vermelha. O que era estúpido, eles é que se vinham apresentar ao território dos Mathews. Deviam ser recebidos de pijama até, pensou Alexander.

"Thome, Andrea," Robert, o líder do Conselho Vermelho, cumprimentou formalmente.

Aos outros limitou-se a acenar com a cabeça de forma educada. A Alycia e o Richard seguiram-no, entraram em casa e tomaram as três poltronas que os seus pais tinham colocado em fila propositadamente. Era a primeira vez que colocavam os olhos em Alycia, fazia cem anos que não a viam. Ela continuava igual, pelo menos o seu cabelo continuava escuro e os seus olhos azuis.

"Onde está a rapariga?" A Alycia olhou à volta.

Os Mathews tomaram os seus lugares e só então Alec a olhou.

"Ela não vem."

"Ela devia estar aqui. Queremos conhecê-la, dar-lhe as boas vindas-."

"Boas vindas?" Ryan interveio.

"Meninos." Tom repreendeu-os e então olhou para Robert. "Lamento pelo comportamento dos meus filhos."

"Não há mal. A Alycia estava a exceder-se."

"A rapariga está a salvo." Andrea mentiu.

"Hm, está mesmo?" Robert recostou-se e entrelaçou as suas mãos. "Muito bem."

"Nós vamos tomar conta do assunto." Richard avisou.

"O quê?!" Mark exaltou-se. "Isto é o nosso território!"

Robert ignorou-o. "Eu vou voltar para a capital e vou enviar o Theodore, o irmão do Richard. Eu tenho outros assuntos para atender."

"Entendemos." Tom assentiu. "Receber-vos-emos com todo o gosto."

"Não esperávamos outra coisa." O outro sorriu-lhe e então inclinou-se. "Claro que este é o vosso território e poderão auxilia-los. Trabalho em equipa."

"Sim, não queremos cometer os mesmos erros do passado." Richard olhou Alec de relance. "Certo?"

Alexander sentiu o aperto de Lily no seu braço intensificar-se e apenas sorriu para o homem. Então, Robert levantou-se e os seus pais imitaram-no. Despediram-se.

Rapidamente, foram deixados a sós com Alycia e Richard. A rapariga sorriu largamente e aproximou-se dos Mathews.

"Eu conheço-vos." Ela avisou. "Não querem que a rapariga seja integrada na comunidade vermelha, não é mesmo?"

"Nós somos todos uma comunidade."

"Claro." Alycia sorriu para Lily. "Claro que sim."

Richard riu, mas foi o único. Exceto ela, que tinha um sorriso largo na face. Como sempre.

"Hm," Ela cheirou o ar. "lar doce lar."

E então, ela seguiu o outro para fora da casa. Todos se voltaram para Alec.

"Sei o que estão a pensar, mas ela não vem cá." Alexander disse-lhes. "Nem pensar."

"Não acho que tenhamos uma escolha." Tom avisou. "Eles não vão parar."

"Odeio-a." Mark rosnou.

"Mark!" Andrea repreendeu. "Não digas isso."

"É a verdade." Ele devolveu e olhou os irmãos. "Todos nós a odiamos."

"Isso não é verdade!" Lily interveio.

"Claro que é verdade, mana." Ryan balançou a cabeça então, "E mesmo que não seja, devia ser."

Enquanto os Mathews estavam a discutir em casa, Lydia estava a esforçar-se para acompanhar o trabalho que lhe chegava às mãos, na Sopa dos Pobres. Assim que conseguiu um intervalo, pediu licença e foi até à esplanada, onde Octavia a esperava.

"Sabes que isto não é um café, certo?"

Lydia segurava a bandeja com a sua mão direita e a outra segurava firmemente a sua cintura.

"Bem, eu preciso da tua ajuda com Biologia. E tu estás aqui. Depois temos de ir juntas para a assembleia, de qualquer maneira." O explicou. "E é isso."

"Hm," A outra sorriu-lhe. "Já percebeste a Lei de Mendel?"

"Ah, princípio da herança ou lei da segregação independente, posteriormente chamada segunda lei de Mendel." Octavia explicou. "Os fatores para duas ou mais características segregam-se no híbrido, distribuindo-se independentemente para as gametas, onde se combinam ao acaso."

"Nada mau, Cooper." Lydia assentiu. "Nada mau."

"Aprendi com a melhor." Piscou-lhe.

Assim, Lydia abandonou a sua melhor amiga e voltou a servir as refeições. O almoço era sempre agitado, quando uns acabavam, outros preparavam para se sentar.

Quando finalmente acabou, eram 15h. Jones estava exausta, mas valia a pena todas as vezes; o seu cabelo estava num coque mal-arrumado e, por causa do suor, o penso no seu pescoço estava a fazer-lhe uma desconfortável comichão.

"Finalmente." Lydia afundou na cadeira. "Só quero dormir."

"Tu és uma boa pessoa" O disse-lhe com um sorriso. "e eu estou orgulhosa."

"Obrigada, O." A outra agarrou-lhe a mão carinhosamente. "Isso significa muito."

"Lyds," A morena inclinou-se. "O que é isso?"

Lydia percebeu que Octavia estava a olhar para o seu recém ferimento no pescoço, coberto por uma bandagem branca gigante. Era difícil passar despercebido.

"Oh, nada."

"Nada?!" A outra exclamou. "Foste atacada outra vez por aquele vampiro?!"

"Octavia, eu estou bem." Jones assegurou.

Cooper olhou a sua melhor amiga, podia ter passado anos ao lado de uma rapariga que usou uma máscara, isso ela sabia. Mas conhecia as mentiras de Lydia.

Jones recusava-se a contar-lhe sobre a chacina. Se o Conselho contasse, isso era outro caso. Agora, ela não queria alarmar a sua melhor amiga, mesmo que tivesse de mentir.

"Eu vou entender," Octavia tentou." se me disseres que pedes ao Alec para-"

Lydia largou uma risada. "O quê?"

Ela estava ciente de que soava louca. Mas, naquele momento, era exatamente como ela se sentia. Louca. Estava a dar em louca ao pensar o que se estaria a passar na mansão dos Mathews naquele preciso momento, o que o Conselho Vermelho estaria a fazer.

"O quê?" A outra franziu a testa. "Eu peço ao Ryan de vez em quando, eles são semi-vampiros, o que significa que a mordida dá-nos prazer. Acredita é delirante."

Lydia mexeu-se desconfortável no banco, queria deixar aquele tópico morrer ali. Mas, claro, Octavia nunca foi uma rapariga delicada.

"Mas vá conta-me como está o teu príncipe não encantado?" O comentou. "O Alexander, sabes. O rapaz por quem estás caidinha."

"Para," Lydia suplicou. "eu não estou caidinha por ele."

"Não me consegues enganar." A morena sorriu-lhe provadora. "O meu instinto nunca falha."

"Há uma primeira vez para tudo."

"Hm, hm." Octavia devolveu.

"Ele irrita-me." Lydia confessou. "Eu não sei explicar, eu quero odiá-lo, eu tento. Quero dizer, é possível querer estar com alguém e não querer estar com alguém?"

Cooper largou uma gargalhada divertida.

"Uou, isto soava muito menos confuso na minha cabeça." Ela suspirou. "Não faz sentido."

"Faz com seres humanos, querida." O respondeu, com um pequeno sorriso. "E tu és humana."

Lydia tombou a cabeça para trás, e deixou-se lembrar.

"Nós beijámo-nos." Ela não a olhou. "Eu pedi-lhe."

"Eu sabia!" Octavia saltou na cadeira. "Como é que foi? Ele beija bem?!"

"Shh," Lydia inclinou-se rapidamente. "Foi tudo na... amizade."

"O quê?" A outra olhou-a perplexa. "Estás a brincar comigo."

"Bem, nós não falámos sobre isso, sabes." Jones mexeu-se desconfortável.

"Não, não, não." O parou-a. "Se ele te beijou é porque claramente não quer ser só teu amigo."

"Tu não o conheces." Lydia balançou a cabeça. "Deus, nem eu o conheço."

"Ele parece complicado." Octavia cruzou os braços. "Bem, na verdade, todos os Mathews são."

"Vampiros." Jones revirou os olhos.

Sim, os Mathews são sinónimo de problemas. Mas quando é que isso alguma vez parou qualquer uma delas? Não seria agora a primeira vez, certo.

Quando Jason fechou a porta da frente, ambas as raparigas se levantaram. Ele ofereceu-se para lhes dar boleia para a assembleia e nenhuma delas queria ir a pé, por isso, aceitaram. Estava pouca gente na entrada, mas quando entraram, foram recebidos por uma multidão de humanos. O espaço não era muito grande e os humanos eram muitos.

"Muito boa tarde, meus caros." Era Alfie, o líder do Conselho Azul. "Sentem-se, por favor."

O homem tinha pouco mais do que trinta anos, mas aparentava ser muito mais velho. O trabalho não devia ser fácil, isso ela admitia. Lydia sentou-se entre Jason e Octavia numa fila do meio, conseguiu ver a sua mãe na primeira fileira. Duas raparigas subiram a escadaria e colocaram-se ao lado do líder, pareciam ter mais ou menos vinte anos.

"Estamos aqui hoje reunidos contra um inimigo comum. Robert, o líder do Conselho Vermelho, já se reuniu esta manhã com a família Mathews. Muito solidários em ajudar-nos com este perigo. Há um vampiro selvagem na nossa cidade. E devemos combatê-lo."

Depois do grande discurso de abertura, Lydia sabia o que se seguiria. Homenagem aos mortos, seguida dum longo incentivo à proteção comunitária. Recolher obrigatório, todas as medidas preventivas. Eram necessárias. E então, uma breve frase sobre a importância da procriação entre vampiros e humanos. No final da assembleia, todos se apressaram a sair.

"Lydia Jones."

A rapariga dos cabelos vermelhos voltou-se e deparou-se com uma das raparigas que antes se encontrava ao lado de Alfie, que, entretanto, se aproximou das duas, também.

"Podemos falar?" Ele sorriu-lhe com simpatia.

Jones olhou os seus amigos de relance e eles olharam-na preocupados. A sua mãe surgiu ao seu lado, também confusa com a situação.

"Posso saber o que se passa, Alfie?" Amelia perguntou.

"A tua filha. A Lydia está com alguns problemas com o vampiro." Ele explicou.

"O quê? Lydia?" Ela olhou a sua filha.

Lydia engoliu em seco e baixou a cabeça.

"Ela foi atacada duas vezes. Ameaçada uma vez. O vampiro já esteve em tua casa, Amelia." O líder contou-lhe.

A sua mãe arregalou os olhos, perplexa com preocupação. Tentou aproximar-se da sua filha, mas a rapariga, que se havia aproximado, rapidamente, agarrou o pulso da rapariga dos cabelos vermelhos e puxou-a.

"Vamos, Lydia. É rápido." Prometeu.

"Nós vamos assegurar que nada lhe acontece. Queremos que ela fique segura, Amelia." Alfie disse-lhe, com um pequeno sorriso.

"Ela é a minha filha..." Amelia fungou. "A minha menina..."

"Eu sei e é por isso que eu estou aqui." Ele agarrou a mão da mulher, com carinho. "Estimo a nossa amizade e, por isso, a vida da tua menina."

E, assim, Alfie voltou costas à sua mãe. Passou pelas duas raparigas, Lydia ainda tinha o seu pulso envolvido pela mão quente da rapariga, que a puxou para seguir o líder. Deixou Amelia para trás. Não se lembrava de querer o colo da sua mãe há muito tempo.

Já era de noite, quando Alexander percorreu as estradas para se encontrar com a rapariga, por quem todos diziam ele ser estar a apaixonar.Lydia estava sentada na escadaria, as suas mãos envolviam o seu telemóvel. E Alec teve a visão perfeita da sua solidão, a luz da lua refletia sobre os seus cabelos vermelhos e, embora ele achasse impossível, ela estava ainda mais bonita do que ele se lembrava.

Então, ele lembrou-se dos Conselhos. E da Alycia.

"Ei." Ele cumprimentou.

Ela levantou a cabeça, parecia preocupada.

"Está tudo bem." Ele assegurou.

"O que eles disseram?" Lydia levantou-se.

"Eles uh" Alec aproximou-se. "Vão ficar cá por um tempo. Montar um plano para apanhá-lo."

"Ah, isso eu sei." Ela confessou.

"Como?" Ele franziu a testa.

"O Alfie quis falar comigo depois da Assembleia. A sós." Lydia olhou para as suas mãos, "Ele disse-me que eles iam deixar cá três representantes e o Conselho Vermelho ia fazer o mesmo."

"Ele só te disse isso?" Alec olhou-a com atenção.

Jones levantou o olhar, "E que iam tratar do assunto rapidamente."

Alexander assentiu. Conseguia perceber que ela estava a ocultar alguma coisa, certamente o líder do Conselhos Azul não a chamaria à parte apenas para dizer aquilo que poderia ter dito a todos. Mas ele preferiu deixar para lá.

"Esperemos que sim." Ele disse-lhe. "Podes deixar de ter medo, depois. Podes viver."

"Eu não tenho medo."

"Oh, Lydia." Mathews inclinou a cabeça. "Não faz mal. Tu és-."

"humana." Jones assentiu e engoliu em seco. "Eu sei."

"Não era isso que eu ia dizer." Ele parou-a.

"Eu sou humana. E esperam que eu sinta medo," Lydia começou. "assim como esperavam que eu não me desse com vocês porque são vampiros. Assim como tu esperaste que eu tivesse medo de ti. Mas eu não sou assim, eu-."

"Eu sei, Jones." Ele agarrou-lhe a cara. "Tu és especial. Eu sei, sempre soube. Desde o momento em que eu, a pessoa mais reservada que podes conhecer, te quis descobrir."

A mão gentil de Alec acarinhou-lhe a face e os seus lábios depositaram um beijo na sua testa. Jones fechou os olhos, por uns momentos, e deixou-se ir com o carinho. E ele aproveitou, afastou-se.

"Tu és tu. Tão..." Alexander hesitou. "inocente."

Ele viu os olhos verdes se transformarem. A pequena figura à sua frente, procurou aproximar-se, mas Mathews recuou mais uma vez.

"Alexande." Jones tentou.

"E quem sou eu para mudar isso?"

Alexander viu a expressão de Lydia mudar, ela estava confusa, mas acima de tudo magoada. Ele sentiu-se a pior pessoa à face da terra e embora não fosse a primeira vez que se sentira assim, era sem dúvida uma das piores. Deus, Alec preocupava-se mais com Lydia do que com os seus próprios sentimentos. Ele quis desistir. Que se lixassem os Conselhos e os vampiros, Mathews queria agarra-la e sussurrar-lhe o quanto a queria beijar. Mas não podia.

Ela iria agradecer-lhe, um dia.

"O que estás a fazer?" A pequena voz da rapariga dos cabelos vermelhos chamou-o. "Para."

"Precisamos que vás à mansão amanhã. O Conselho Vermelho quer te conhecer." Alec disse-lhe. "Adeus, Lydia."

"Não! Para, Alexander!" Lydia gritou-lhe. "Sei o que estás a fazer. Sei que estás com medo do que os Conselhos possam fazer connosco. Mas eu aguento, ok?"

"Tu não entendes." Ele sussurrou.

"Então diz-me!" Pediu-lhe. "Dá-me uma boa razão. E eu deixo-te ir."

"Isto não é uma negociação, Lydia." Alec disse-lhe, rude. "Eu sou um vampiro e tal como disseste és humana. E se achaste que podia haver alguma coisa aqui, entre nós, enganas-te."

Lydia abriu a boca para dizer algo, mas fechou-a imediatamente.

E por alguns momentos, a ideia de que ela estava a desistir dele, fê-lo querer retirar tudo o que havia dito. Mas sabia que não podia, o Conselho Vermelho estava de olho na sua família e não só no vampiro como Robert os fez acreditar.

E estava de olho em Lydia.

Alec não iria permitir que Jones se limitasse a ser uma experiência de procriação para ninguém, não para os seus irmãos e certamente não para ele. Ela era mais do que isso.

"Ok." Foi tudo o que ela conseguiu dizer.

Alexander esperou que ela lhe levantasse a voz para se defender, mas ela não fez nada daquilo. Tudo o que fez foi olhar para o chão. Mathews não aguentava vê-la assim e, então, começou a ir-se embora, a deixá-la sozinha. Uns momentos depois, entretanto, ouviu quando ela começou a andar, também. Alec já estava a sair da propriedade quando ouviu a pequena voz de Lydia.

"Obrigada por vires até aqui."

Alec gemeu quando ela disse aquilo. Mesmo depois de a ter maltratado e dito as coisas mais odiosas, ela conseguiu arranjar uma razão para lhe agradecer.

Assim que Lydia entrou em casa, Amelia baixou o volume da televisão e olhou a sua filha. Imediatamente, percebeu que algo estava errado.

"Lydia, querida." A sua mãe saudou-a do sofá. "Está tudo bem?"

A pequena suspirou e afundou-se nos cobertores, enroscou-se em Amelia e fechou os olhos. Finalmente podia ter o colo que desejou todo o dia.

"Ei, o que o Alfie te disse?"

"Que o mais seguro para mim seria ser marcada por um vampiro." Contou-lhe, "Ele disse aquilo como se me quisesse vender, foi horrível."

"O que tu achas?" Amelia suspirou.

"Eu não quero que ele fique comigo apenas porque tem de o fazer." Jones então lamentou, "E eu não acho que ele queira."

"Porque dizes isso?" A sua mãe perguntou indignada.

"Sou tão estúpida." Lydia murmurou. "Devia ter-me limitado a odiá-lo."

"O que ele te fez, meu amor?" Amelia preocupou-se.

Lydia pensou e pensou. E não se lembrava, o que Alexander lhe tinha feito? Dito-lhe a dura verdade? Sim. Ela é humana, ela é diferente. E tentou ignorar isso por todo este tempo, mas talvez tenha chegado a hora de enfrentar o verdadeiro problema.

"Eu e ele somos de mundos diferentes." Jones acabou por dizer.

"Mas é isso que os Conselhos querem mudar," Amelia começou. "sermos todos uma comunidade unificada."

"Eu só quero sentir raiva dele." Lydia rosnou. "Eu odeio os Conselhos e eu odeio-o a ele."

Ódio.

Na verdade, Lydia só pensava em como queria obrigar Alec a abraçá-la, como havia feito todas aquelas noites atrás, enquanto ela lhe sussurrava tudo o que sentia por ele mesmo que ela mesma não soubesse.