Amor Do Presente Ou Do Passado?
14 Encontros
Jin não deu muita importância se Elesis estava com ódio dele ou não, ele deu as costas e voltou para o caminho do estabelecimento que antes havia entrando.
— O senhor quererá leva-la agora? – Perguntou uma senhora, entregando ao ruivo uma sacola.
— Sim, mas para não levantar alguma suspeita, traga-me algo apetitoso para degustar. Assim não sairei daqui sem ter feito algo.
— O de sempre? – Indagou a senhora, já esperando uma resposta positiva.
Jin assentiu. Dava a entender que não era a primeira vez que Jin entrara naquele lugar. Um novo mistério estava surgindo. O que tinha na sacola? O ruivo olhava a sua volta, não queria transparecer nervosismo, mas era fato que estava ansioso com algo. Ele também não desgrudava os olhos de Elesis, mesmo a jovem estando em uma distância considerável, ele ainda a observava.
— Aconteceu? – Perguntou a senhora, segurando um prato com uma porção de camarão, Jin levou um susto, pois estava distraído.
— Do que estais falando? – Ele desviou seu olhar de Elesis para a senhora que o abordara.
— A transferência dos séculos.
Jin a olhou um tanto intrigado, sabendo que aquele comentário não era para ser dito em público.
— Pedi para que não falasse sobre isso.
— Perdoe-me, mas não tornar-se-á o novo monarca, caso esta não seja a jovem do Futuro. – Disse a senhora, com uma voz rouca e cansada, pondo o prato em cima da mesa.
Ela olhou para Elesis e depois para Jin, o ruivo sorria.
— Para a minha felicidade, logo, logo serei rei. Se a outra Elesis ainda estivesse aqui, isso não seria possível, mas com essa transferência de séculos, posso muito bem manipular essa nova Elesis.
— Um ótimo plano... Mas sei que não pensou nisso tudo sozinho.
— Tive a sua ajuda. – O ruivo fez questão de enfatizar a frase, para deixar claro que se acontecesse alguma coisa, se ele fosse descoberto, a parcela de culpa não seria só dele.
— Não só a minha ajuda, meu jovem, há outra pessoa também, sabeis disso... Eu só fui uma mera senhora que apareceu para a duquesa para tirar um pouco de sangue da ruiva. Nada mais. – A senhora não permitiu que Jin dissesse mais alguma coisa, saiu dali e foi atender um senhor que parecia bêbado, que acabara de entrar no estabelecimento.
— Essa espelunca ainda é frequentada por pessoas desse nível... – Desaprovou Jin, levantando-se e pegando um camarão do prato e colocando em sua boca – Pelo menos a comida continua apetitosa, é uma lástima não pode deliciar-me desse prato.
O ruivo colocou uma quantidade monetária maior que o custo da porção de camarão em cima da mesa, talvez fosse o pagamento da sacola que recebeu da senhora. Ao sair do estabelecimento, começou a procurar pela ruiva, pois havia perdido a jovem de vista.
— Aonde ela foi? – Jin começou a ficar preocupado – Temos que voltar juntos para a mansão!
Elesis caminhava pela pequena cidade, havia se distraído com as crianças que brincavam na rua, perto de seus pais que vendiam objetos em alfândegas. Poucas mulheres eram vistas na rua, as que eram vistas andavam de braços dados com rapazes, mostrando que eram comprometidas. Era estranho para Elesis, já que em seu século não se via muito isso, ainda mais a vestimenta. As mulheres com vestidos absurdamente detalhados, luvas, algumas usavam sombrinha, tinham postura e sempre com um olhar enigmático, com discretos sorrisos quando conversavam com seu companheiro, que não ficava atrás na elegância, usando cartola e paletó.
— Tudo é tão diferente... Parece que estou sonhando... – A ruiva olhou para uma loja e viu um vestido simples, porém bem charmoso – Se eu fosse como a Lire ou a Arme, com certeza compraria, é tão modesto e majestoso... Mas não combina comigo.
— Uma dama não deve ficar falando sozinha. – Disse um menino, como um sussurro no ouvido da ruiva.
— Ah! – Gritou assustada – Quem é você, criatura? – Indagou Elesis, que ainda não havia olhado para a pessoa ao seu lado.
— Perdoe-me a minha indelicadeza, lady. – O rapaz pegou gentilmente a mão de Elesis e a beijou.
Assim que a ruiva viu quem era, fez um escândalo.
— RYAN! – A jovem o abraçou – Nunca imaginei ficar tão feliz ao vê-lo, não que você não me faça feliz, mas... – Ela desfez o abraço e olhou para o denominado Ryan – Estou tão...
— Feliz? – Antecipou-se o rapaz – Eu já entendi, mas não sei o porquê de estar feliz em me ver, já que nunca nos vimos antes.
— Não começa! Primeiro eu me encontro num século totalmente distinto do meu, os meus professores são outras pessoas, um é meu parente, de fato ele é o meu parente, mas não convivemos juntos e o outro é o meu mordomo. Ainda não tive contato com as minhas melhores amigas, que são chamadas de criadas, o Jin é um cínico, mesquinho, egoísta e um completo idiota. Ainda não vi o Ronan e você não se lembra de mim?
Ryan se assustou com o desabafo da ruiva que parecia nem ter respirado para falar tanto, deu um passo para trás e reparou novamente na feição de Elesis.
— Eu não lhe conheço... Mas acho que já a vi... – Ryan parou um pouco, parecia se lembrar de alguma coisa – Isso! És a louca que Ronan salvaste.
— O quê? – Elesis ficou pasma ao ouvir aquilo – Eu não sou louca! – A ruiva o encarou e depois prosseguiu – O Ronan já se tornou médico? Já que ele me salvou. Pensei que ainda estava fazendo estágio no hospital...
— Não... Nada disso, ele não é doutor, ele é um lorde... Bem, isso não vem ao caso. És a jovem que caíste do cavalo cujo nome não me recordo no momento. É estranho lembrar-se de Ronan e de mim, pois estava desacordada no dia do seu acidente.
— Eu me acidentei numa batida de carro... Não de um cavalo, até porque não sei cavalgar.
— De fato... Para dominar um Puro-Sangue é necessário ter muita experiência, mas até que parecias saber montar nele sim, deve ter caído porque o animal se assustou com algo.
— Do que está falando? Tá parecendo maluco, Ryan. – Criticou Elesis.
— Eu também não sei muito do que estais falando... Só sei que a conheço e já ouvi falar desse tal de Jin. Se eu não me engano, foi ele que brigou com o Ronan. Os dois não se deram bem desde a primeira vez que se viram, e vossa pessoa estava no meio disso tudo. Vós realmente trazeis muita confusão.
— Eu?! – Elesis reagiu como se tivesse ficado ofendida com o que Ryan dissera – Não me lembro desse momento. Ronan e Jin sempre me pareceram grandes amigos. Mas agora o Jin está muito idiota, então deve ser por isso que brigaram. Mas... Falando no Ronan... Onde ele está? – Elesis olhou a sua volta.
Percebeu que muita gente a olhava, talvez fosse por causa de sua roupa ou do seu jeito de se comportar em praça pública.
— Acho melhor comprar uma roupa mais adequada para vestir-se. – Aconselhou Ryan, percebendo os olhares.
— Nossa! Essa sociedade critica até a roupa que usamos. Aqui a separação entre pobre e rico é assim?
— Nobreza e plebeus. – Corrigiu Ryan.
— Enfim! Entre nobreza e povo, a diferença também é feita através da vestimenta? Além do pagamento de impostos...
— Claro, se usais cartola e terno, ou paletó, és considerado um nobre. O povo, casualmente, veste-se notoriamente mais simples. — O rapaz de uma pausa — Vós falais como uma republicana... Um tanto moderna... – Ryan ficou pensativo, mas Elesis nem se tocou muito no que o menino realmente quis dizer.
— Nossa! Mudou muito, hein Ryan? Você não fala assim no meu tempo.
— No vosso tempo? – Ele voltou a olha-la.
— Sim, o tempo da internet, do celular, da tecnologia em geral. – Elesis suspirou, parecia sentir falta desses instrumentos – Do wi-fi... Sempre nos falávamos por mensagens... Tão prático.
— Do que estais falando? – Ryan parecia confuso – Bem que o Ronan te chamaste de louca, falais coisas sem sentido. – Riu discretamente.
— Não sou louca, vocês que são atrasados na tecnologia.
— Essa tal tecnologia deve ser muito importante para a vossa vida, já que sentis falta dela.
— E como é importante... – A voz da ruiva já tinha um pouco de tristeza – Viver sem internet deve ser horrível, né?
— Eu não sei dizer, nunca tive contato com ela.
Elesis se espantou de primeira, mas depois percebeu que já não estava em seu tempo e nem falava com os amigos que conhecia. Talvez fossem até as mesmas pessoas, mas as personalidades e pensamentos eram totalmente diferentes.
— Bem... Tenho que ir, pois encontrar-me-ei com o Ronan, foi um prazer revê-la e saber que estais bem. – Ryan ia saindo, quando Elesis o segurou pelo colarinho.
— Espera! Eu vou junto com você.
— Ér... – Ryan a olhou dos pés a cabeça – Ainda acho melhor comprares uma roupa melhor do que esta que vestes.
— Chato. – Elesis deu as costas e começou a andar em direção a loja – Espera... Não tenho dinheiro. – Parou.
Voltou na direção de Ryan e o puxou para ir junto.
— Não tenho dinheiro, então pague para mim, depois eu te devolvo o dinheiro.
— Por que eu pagaria algo para uma estranha? – Ryan parou de andar, forçando-se a ficar parado e não ser puxado pela ruiva.
— Eu não sou estranha, sou sua amiga! – Disse indignada.
— Não é... Eu só a vi uma única vez.
— Nesse século, sim, mas no meu já nos conhecemos há anos.
— Deve estar me confundindo com outra pessoa. – Disse Ryan, dando as costas para Elesis.
— Ei! – A ruiva o chamou, mas ele não ouviu ou fingiu não ter ouvido. Ela pensou em chamar mais uma vez, mas percebeu que novamente olhares iam a sua direção e era um incômodo aquilo.
Jin havia começo a procurar pela ruiva, estava ficando com raiva de si por tê-la perdido de vista e com raiva dela por ter saído de perto.
— Péssimo momento para explorar a cidade, Elesis, péssimo momento! – Resmungava o ruivo para si mesmo.
Jin forçou a vista e avistou uma ruiva entrando numa loja de roupa.
— É a Elesis, finalmente teve senso do ridículo e foi comprar uma roupa. – O ruivo começou a caminhar até a loja, mas parou no caminho – Mas ela não tem como pagar...
Jin arregalou os olhos só de imaginar do que Elesis seria capaz, começou a correr até a loja, entrou na mesma ofegante e, todas as mulheres que ali se encontravam, o olharam assustadas. Elesis estava no caixa, conversando com o vendedor.
— Olha só, meu futuro marido leu meus pensamentos. – A ruiva sorriu – Eu estava encomendando meu vestido, ia sair para me encontrar com você, digo... Para me encontrar com a vossa pessoa, para lhe avisar e eu voltar para busca-lo, mas como você... — Elesis respirou — Vós... Vós viestes até aqui, pode adiantar o trabalho, né? – Elesis parou ao lado de Jin, forçando um sorriso e pensando em como era difícil conjugar o pronome "vós".
— Estais fazendo uma encenação? – Sussurrou o ruivo, sorrindo para que ninguém percebesse.
— Entre no personagem e pague logo esse vestido. – Disse Elesis, no mesmo tom, voltando depois a falar com o vendedor – Irei vesti-lo agora, é só dar o preço para ele e tudo será resolvido de imediato.
Jin olhou para Elesis.
— Vesti-lo-ei, seria o correto.
— Calado.
— Só estou entrando no personagem. — Sorriu o ruivo.
— Tudo certo, então. – Disse o vendedor, pegando uma notinha a anotando o valor, logo em seguida entregando a Jin.
— Isso tudo num pedaço de pano? Ao menos é importado? – Indagou o ruivo, coçando a cabeça – “Ela fez isso de propósito, eu tenho certeza...” – Pensou, enquanto tirava a quantia da carteira.
Elesis saiu do provador e estava deslumbrante, comprara o vestido que vira antes na vitrine. Jin não se importou muito, mas as moças que estavam na loja comentaram.
— Odeio vestido, mas até que esse é muito bonito... – Comentou, ao se aproximar de Jin.
— Deveria ter comprado um mais em conta, mademoiselle.
— Não reclame, amorzinho. – Disse Elesis, ironicamente e enfatizando o “amorzinho”, só para irritar o ruivo – Se quer fingir ser meu futuro marido, finja direito. – Deu as costas e saiu da loja.
Jin sentiu o sangue ferver, mas não perdeu a “pose” de nobre e cortês, saiu da loja com postura, ajeitando o terno que vestia. Estava indignado, mas mantinha o sangue frio.
— “Não será fácil manipular essa ruivinha como eu pensei... Mas também não será impossível”.— Pensou o ruivo, olhando Elesis, que estava de costas.
Todos que passavam a olhavam. Alguns olhares de admiração, por parte dos rapazes, outros de inveja de algumas moças. Algumas senhoras comentavam o quão bela a ruiva estava naquele vestido.
— Adora chamar atenção, não é? – Indagou Jin, aproximando-se de Elesis.
— Estou me adaptando a este século, não era isso que queria desde o começo? – A ruiva respondeu com outra pergunta, irritando Jin.
— Elesis, não deverias falar assim comi-- – O ruivo foi interrompido.
— RONAN! – Elesis avistou um jovem de cabelo azul caminhando com Ryan, o rapaz com quem conversara e dera um grito estrondoso.
— Hey! – Jin tentou impedir Elesis de correr até o tal Ronan, mas não teve sucesso na tentativa de segura-la – Droga!
— RONAN! – Elesis gritou mais uma vez, na esperança que o menino a escutasse.
Mas era pouco provável de isso acontecer, já que ele estava do outro lado da rua, um tanto distante da ruiva.
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