Amor Cumplice
20 Despedida
Notas iniciais
De manhã para minha surpresa ele ainda estava lá, e já eram 8:40, meu celular tinha 15 ligações perdidas, sendo duas do Dante, uma da funerária e o resto da Jessica.
Bufei e liguei na funerária, eles queriam confirmar o horário do velório, depois liguei para o Dante, que só queria encher o saco e saber que horas passava para me buscar, eu falei para ele que ia sozinha. Depois liguei para a Jessica e ela começou a me xingar e falar que eu era uma péssima amiga já que não tinha contado para ela sobre minha avó, e que ela só ficou sabendo porque ligou para o Dante para perguntar sobre o trabalho, dei risada e expliquei que ela não me deu tempo de falar sobre nada, ela me chamou de inútil e disse que estaria no enterro e para que eu não me atrasasse, o que ela disse que era um dos meus charmes com os garotos, mas não funcionavam com aquele tipo de assunto, ela desligou em seguida para que eu não pudesse contestá-la.
Tomás ainda estava dormindo, aproveitei para tomar banho e me trocar. Pus um vestido preto, básico e salto alto, minha vó iria gostar de saber que eu fui ao velório dela como uma moça de família.
– Nossa, você está indo a um velório ou a uma festa? – Tomás levantou e me abraçou por trás. Ele tinha um cheiro gostoso, meio caseiro, que dá aquela preguiça boa.
– Se você acha que esse é o look para ir a uma festa está bem desatualizado. – Coloquei uma tiara prata, uma gargantilha e um par de brincos, todos presentes da minha avó.
– Eu não acho que uma garota precise estar extravagante para parecer bonita, simplicidade também conquista.
– Profundo isso, mas agora eu tenho que ir, vou deixar uma cópia da chave com você, para não ti apresar.
– Isso significa que eu não vou poder ir com você?
– Pode, mas achei que você não queria, se não já estaria de pé.
– Sua cama me dá sono, acho que é seu cheiro. – Ele beijou meu pescoço depois cheirou meu cabelo e eu fiquei vermelha.
– Vamos rápido que eu não posso me atrasar.
– Sim senhora! – Ele bateu uma continência e foi para o banheiro. Enquanto isso eu fui até o quarto da minha avó e peguei um pouco de dinheiro embaixo do piso falso. Coloquei dentro de uma bolsinha e a coloquei dentro da minha mochila. Depois fui para a cozinha, peguei pão de forma e requeijão e um copo que coloquei suco e comecei a comer. Dante não demorou muito, chegou na cozinha vestido com sua calça jeans e uma camiseta preta que ele não estava usando no dia anterior e sua jaqueta por cima.
– Diga que essa camiseta não é minha.
– Ok, ela não é sua, só achei dentro do seu guarda roupa
.
– Ela é pijama.
– Para você, para mim ela é usável, além do que eu não vou a um velório com a camiseta amarrotada e suja de ontem.
– Está bem, mas só dessa vez. – Terminei meu pão e meu suco. Tomás tentava não rir do meu nervosismo com ele, eu o encarava de volta, eu ficava muito alterada perto dele e ele sabia. – Se vai comer, faça rápido que eu já estou atrasada. Ele pegou o copo e quase o encheu de suco, tomou quase tudo em um gole, colocou o copo dentro da pia e parou na entrada da cozinha.
– Você não disse que estava com pressa, então vamos. – Ele sorriu e eu virei os olhos, peguei a mochila de cima da bancada, sai da cozinha com ele me seguindo, olhei a sala para ver se não esquecia nada, não encontrei nada de especial, abri a porta e indiquei para Tomás sair, ele mal saiu e eu fechei a porta e tranquei, no elevador fiquei tentando fazer meu cabelo ficar descente, mas não deu muito certo.
– Você está linda, se quer saber... – Ele comentou quando saímos. Eu sorri sem ele perceber.
– Obrigada – Respondi e ambos paramos no ponto de ônibus que havia do lado do prédio. O tempo estava agradável, mais quente do que os dias anteriores, o que era o certo para aquela época. O ônibus demorou cerca de meia hora para passar, o que me deixou bem nervosa, estava começando a pensar que chegaria atrasada, a viagem demorava mais 25 minutos se tivéssemos sorte, o que aconteceu, desci do ônibus correndo, pelo menos era o que eu tentava fazer, mas aquele sapato de salto não deixava, acho que eu só o tinha usado duas vezes, então não tinha muita habilidade em andar com ele.
Quando chegamos no cemitério, Dante e Jéssica estavam lá, com umas duas amigas da minha avó, que eu tinha chamado nos esperavam na recepção.
– Até que enfim você chegou – Jéssica reclamou.
– Cheguei na hora, vocês que estão adiantados – Respondi olhando o relógio que marcava dez horas. Jéssica me analisou e me puxou para o banheiro.
– Você parece que acabou de correr a maratona. – Ela tirou de dentro da bolsa
uma escova e penteou meu cabelo, deixando ele menos armado e bem bonito. Sem parar de me xingar a cada duas palavras. Depois me fez lavar o rosto e passou uma maquiagem bem leve em mim – Agora sim sua vó ficaria orgulhosa de você.
– Sim, ela saberia que você que fez tudo, mas ficaria feliz. – Saímos do banheiro e voltamos para a recepção, lá um dos funcionários da funerária já nos esperava e fomos com ele até onde minha avó seria enterrada.
Quando já estávamos bem perto, eu parei. Não conseguia respirar, minhas pernas estavam bambas e um rio descia pelo meu rosto. Dante parou ao meu lado e pôs a mão em volta da minha cintura.
– Vamos lá, você consegue. – Ele falou baixinho, eu tentei continuar andando, mas eu não podia fazer aquilo, enfiei a cabeça no ombro do Dante e chorei mais ainda. Jéssica pegou minha outra mão e apertou suavemente. Nós ficamos ali parados, nós três, como nos velhos tempos, tempos que não voltariam jamais.
Voltamos a andar, quando vimos que esperavam por nós. A cerimônia foi rápida, as amigas da minha avó fizeram um breve discurso, depois Jéssica, Dante e por fim eu, não consegui falar muito já que não parava de chorar. Então eles começaram a baixar o caixão, acho que essa foi a pior parte, nunca chorei tanto na minha vida, aquilo tudo doía de mais, mesmo assim resolvi ficar até que eles terminassem tudo, até que terminassem de recolocar toda a terra.
Depois Jéssica e eu arrumamos as flores na frente da lápide, que não era muito grande. E começamos a voltar, andávamos alinhado e devagar, Jéssica segurava minha mão e Dante passava a mão em volta dos meus ombros, Tomás andava do lado da Jéssica de cabeça baixa e quieto.
No portão do cemitério Tomás me chamou:
– Tenho que ir, tiveram um imprevisto e vão precisar de mim, mas qualquer coisa você me liga – Ele levantou meu rosto e me beijou ternamente. – Até mais.
– Até – Respondi num sussurro, minha voz não queria sair.
Ele pegou o primeiro ônibus que passou, enquanto eu, Dante e Jéssica ficamos sentados no banco do ponto resolvendo para onde iríamos.
"Engasguei com as minhas lágrimas hoje
Por que eu não consigo começar a falar..."
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