Amor Cigano
12 Três é Demais!
Notas iniciais
O inferno era apenas um lugar ou uma situação? Oliver ponderou em silêncio, enquanto deslizava uma compressa de gelo sobre o próprio queixo que começava a ficar devidamente inchado. Qualquer homem em seu lugar sentir-se-ia humilhado por ter sido derrubado e atingido por sua irmã mais nova na frente duma reduzida plateia — e talvez, mais tarde, quem sabe, ele pudesse experimentar esse sentimento.
No entanto, por hora, ele conseguia sentir somente uma letárgica preocupação. O que Thea fazia em Lian Yu? Pior, o que ela fazia em Lian Yu com Roy Harper?
— Quando a ensinei como socar alguém, definitivamente não tinha você em mente. — Divertido, John Diggle falou, parando na frente de seu patrão e analisando o "estrago" mais de perto.
Após alguns segundos, julgou que tinha feito um ótimo trabalho com Thea, se a nova coloração no rosto de Oliver significava algo.
— Com certeza ela me tinha em mente. — Disparou Oliver.
Conhecia muito bem a irmã que tinha.
— Ah, vamos lá, sua irmã não pode ser tão ruim assim... — Rene que até então estava em silêncio na cozinha, assistindo o interlúdio entre segurança e patrão, decidiu se pronunciar sobre o acontecimento de mais cedo.
Para ele, Thea Queen parecia bastante inofensiva...Mesmo após a mesma provar que tinha bons punhos ao acertar o irmão. Existia a remota possibilidade de seu golpe ter sido apenas um golpe de sorte, daria o benefício da dúvida à baixinha.
Oliver lançou um olhar irônico na direção do capataz.
— Você fala isso porque não foi o único a levar o soco. — Respondeu em tom seco.
Não importava a opinião alheia, ele conhecia a irmã com a palma de sua mão. Estava na cara que Thea estava atrás de seu sangue, agora lhe restava apenas descobrir o porquê.
— Ela está com raiva porque você saiu de Star City sem se despedir.
De repente surgiu Roy Harper na cozinha, mastigando uma maça e como estivesse na sua própria casa. Era claro o quão confortável ele já se encontrava na fazenda.
Oliver franziu o cenho para o rapaz.
Era certo que quando Thea apresentou o namorado à família, alguns anos atrás, Oliver o detestou imediatamente. E não só porque um cara estava namorando sua irmãzinha, e sim porque Roy Harper era tudo que um irmão mais velho deveria temer num cunhado em potencial.
Bonito, charmoso, arrogante...O sonho de qualquer garota ingênua fascinada por romances adulto.
Repentinamente, Oliver sentiu ânsia de chutar o traseiro do safado.
— Era só ela me ligar que saberia meu paradeiro fácil, fácil... — O empresário resmungou.
Roy sorriu, ao detectar certa irritação no tom de Oliver. Adorava irritar uma certa Queen, mas tinha que confessar, irritar Oliver Queen era muito mais engraçado. Algo em ver o bilionário certinho, sisudo e aparentemente gentil, perder a calma o fazia extremamente feliz.
As pessoas diziam que Oliver era um playboy regenerado, mas Roy...Ele não acreditava nisso. Em partes, é claro.
— Ou você poderia ter ligado comunicando seu paradeiro. — Roy apontou, sem temor algum ao próprio pescoço.
Oliver por sua vez, começou a bater o pé no chão, num sinal claro de impaciência. Roy segurou o sorriso satisfeito ao notar a atitude do Queen.
— A interessada em saber o meu paradeiro, era ela, não eu. — Retrucou Oliver, seco.
Roy deu de ombros.
— Ambos eram os interessados. — Disse ele, ignorando os olhares de aviso que o fiel guarda-costas do cunhado lhe enviava. — Pois eu duvido muito que você não tenha passado dias e dias se lamuriando pelos cantos, imaginando o motivo de não ter recebido uma ligação sequer de Thea ou Moira.
Oliver deu graças a Deus por não ter uma arma no momento, ou iria fazer um belo uso dela. Mais enervante que as provocações deliberadas de Roy, era saber que o mesmo estava correto.
Era fato que ele passara noites e mais noites questionando o motivo o qual nem Thea ou Moira o ligavam para perguntar onde ele estava, ou quem sabe, perguntar se ainda estava respirando. Mas Roy não precisava saber.
— Roy, você sabe que posso te matar e enterrar aqui em Lian Yu, que jamais alguém de Star City irá te encontrar nesse fim de mundo, né? — Disse num tom afável, mas a ameaça velada estava ali.
— Okay rapazes, acho que já foi o suficiente. — Diggle resolveu cortar a troca de farpas gratuita.
Não estava preocupado exatamente com uma possível briga de punhos entre Roy e Oliver — sabia que eles jamais chegariam a tanto -, e sim com Rene quem estava quieto assistindo todo o interlúdio.
Assistir Oliver Queen pela primeira vez, irritado, causava esse exato efeito nas pessoas.
— Não sabia que ele podia se irritar assim... — Rene murmurou sob o fôlego, ainda observando a incógnita de homem que era Oliver Queen.
O cara sempre parecia tão...centrado e no controle das próprias emoções mesmo em momentos de confusão total — e tiveram muitos destes momentos desde que ele pisara ali -, que ficava difícil crer que afinal, ele poderia sim muito bem perder toda sua pompa.
— Ele é reprimido.
Rene se sobressaltou ao ouvir Roy cochichar ao pé do seu ouvido isso. Confuso, o capataz encarou o recém-chegado e pode notar os lábios do mesmo tremulando, reprimindo uma risada.
Ele franziu o cenho, incerto se o homem falara a sério ou estava apenas tirando sarro com a cara do cunhado.
— Onde está a minha irmã? — Oliver perguntou de repente, completamente alheio ao que se passava entre Roy e Rene.
Com um suspiro sôfrego, Diggle resolveu dar as boas novas que fariam o patrão ter um mini ataque cardíaco:
— Está com Felicity.
— O que? Com Felicity? Fazendo o que? — Oliver perguntou, com um olhar de pânico no rosto.
Se Rene não soubesse como Felicity era, até julgaria a reação do Queen, mas já que a conhecia muito bem...
Diggle fez uma careta. Odiava ser o relator de más notícias...
— Felicity está deixando Thea conhecer toda a fazenda. — Disse por fim.
Oliver piscava furiosamente.
— Você está dizendo que...
Incapaz de formular o pensamento, Oliver largou rapidamente o gelo que segurava e disparou para fora da cozinha, deixando um Roy Harper completamente impressionado, para trás.
— Olha, ele até que não é tão reprimido quanto eu pensava... — Murmurou ele antes de seguir o rastro do cunhado.
Felicity's Pov
Olhando atentamente Thea Queen, começava a pesar os prós e contras em ter ela aqui conosco na fazenda. Era fato que ela poderia ser uma aliada em potencial, como também poderia não ser. Eu precisava avaliar bem essa nova jogadora em campo.
— E esse vai ser o quarto que você irá dividir com Curtis e Felicity. — Barry abriu a porta do meu quarto para Thea que olhou tudo atentamente.
Bem, ela parecia bastante perspicaz...
— É seguro? — Ela interrogou, voltando a encarar Barry de uma maneira bastante atenta.
Tanto eu quanto Barry franzimos o cenho diante essa pergunta.
— Até onde eu saiba, nenhum animal irá te atacar enquanto as janelas se mantiverem fechadas durante a noite.
— Não estou preocupada com os animais.
Demoraram exatos vinte segundos para eu e Barry compreender o que ela estava querendo dizer.
— Felicity é completamente inofensiva! — Ele gritou, saltando em minha defesa. E eu como se para reforçar, balancei a cabeça efusivamente.
— Sim! Sou incapaz de machucar até uma formiga!
Claro, se a formiga não se chamasse Curtis Holt ou Rene Ramirez....ai já era outra história!
Thea começou a rir, enquanto balançava a cabeça negativamente.
— Não quis dizer que estou preocupada com você. — Apontou para Curtis passando correndo pelo corredor tentando conter um Akio cheio de açúcar no sangue. — Estou preocupada com ele!
Bom, como eu julguei, ela era bastante perspicaz...
Compreendendo finalmente a quem ela se referia, Barry soltou um "Ahhh" ao mesmo tempo em que minha mente começava a trabalhar numa maneira de refurtar aquela ideia de que Curtis era perigoso — mesmo que fosse a verdade nua, crua e extremamente azeda.
— Curtis não te fará nada. — Falei, cruzando os dedos nas minhas costas.
Prometer que Curtis não aprontaria nada com ela, era o mesmo que dizer que a lava de um vulcão não te queimaria.
Thea me encarou e eu pude ver nos seus olhos a desconfiança.
— Espero que não, ou ele terá problemas. — Prometeu séria, fazendo-me engolir em seco imaginando que tipos de problemas ela poderia dar a Curtis.
Não estava afim de enterrar um corpo, mesmo que às vezes o Curtis merecesse um tiro no meio daquela sua cabeça oca.
Notoriamente desconfortável com o rumo da conversa, Barry limpou a garganta, chamando nossa atenção.
— Irei dividir meu quarto com o seu namorado, se não for problema para você.
Thea sorriu despreocupadamente, não parecendo nenhum pouco a jovem moça que minutos atrás jogou o próprio irmão no chão com os punhos ou que deixou uma ameaça de morte no ar.
— Oh, claro que não será problema algum! Na realidade, muito obrigada por nos recepcionar na sua casa assim tão de repente!
Ao menos ela era educada...
Barry também sorriu.
— A fazenda é grande, por isso não precisa agradecer. Além disso, eu gosto muitíssimo de receber novas visitas.
Isso era verdade. Barry sempre adorou receber qualquer visitante na fazenda, assim como o falecido Henry que ficava bastante feliz quando algum andarilho batia à sua porta. Ou melhor dizendo, à sua porteira.
— Realmente, você tem que gostar muitíssimo de receber visitantes para abrigar o meu irmão... — Ela murmurou, fazendo uma careta.
Se não fosse por uma sombra pairando bem atrás de Thea, eu teria rido alto com a sua declaração.
— Thea, eu acho que seria melho-
Barry que percebeu a presença de Oliver bem atrás da irmã, tentou alertá-la mas a baixinha estava tão empenhada em fazer a caveira do Queen, que nem deu ideia ao meu amigão.
—...Porque eu sei o quão insuportável e inútil ele pode ser. — Continuou ela, interrompendo as frustradas tentativas de Barry. — Oh, sem contar que ele é um ditadorzinho! Adora dar ordens e... — Ela parou de repente, piscando os olhos. Lentamente, ela virou para trás e deu de cara com Oliver, que começava a exibir uma expressão mortal.
Dei um passo para trás, não desejando estar na pele da Queen.
— Há quanto tempo você estava aqui ouvindo tudo? — Balbuciou e Oliver suspirou pelas narinas.
— O suficiente. — Respondeu secamente e foi a vez de Thea dar um passo atrás.
Oliver de fato parecia tenebroso irritado.
— Bem, eu pediria desculpas se estivesse mentindo! — Repentinamente a Queen mais nova estufou o peito com coragem — Mas como não estou, não pedirei.
— Mamãe sabe que você está aqui?
Eita, agora pegou pesado!
Visivelmente desconfortável, Thea fugiu do olhar do irmão e olhou diretamente para Roy, parado bem atrás de Oliver. Ironicamente o garoto parecia querer se camuflar atrás do cunhado.
— Roy Harper, por que você não está defendendo a sua namorada? — Thea acusou com o dedo em riste.
Roy soltou uma risadinha, mas continuou a manter distância.
— Sou inteligente o suficiente para não me meter numa briga entre irmãos.
Notei quando Diggle balançou a cabeça discretamente — ou não tão assim, já que EU notei -, em sinal de aprovação para a resposta de Roy.
Thea por outro lado, não pareceu gostar nada, nada da resposta do namorado.
— Espero que você seja inteligente o suficiente também para se manter longe de mim!
Ual, esses Queen's gostavam de pegar pesado ein!
Detectando treta ao vivo, alternei meu olhar em direção a Roy, na expectativa de o ver chutando o pau da barraca. Mas como nada na minha vida são flores — e sim cactos! -, ele sequer piscou com a ameaça da Queen mais nova.
Não sei se ele tinha gelo nas veias ou essa situação era tão rotineira que ele sequer se abalava mais.
— É rotineira. — Diggle piscou para mim e só ai percebi que falei meu último pensamento em voz alta. Com sorte, ninguém além do guarda-costas pareceu prestar atenção na minha gafe.
Ótimo, menos um mico na minha coleção.
Sem esperar por uma réplica do namorado ou do irmão, Thea abriu a porta do quarto que passaríamos a compartilhar daqui pra frente e a bateu bem nos nossos rostos, sem nem dó nem piedade.
Fiquei boquiaberta com a atitude. Ok, talvez a Queen mais nova não fosse lá muito educada...
Droga!
Com um sorriso enfeitado no rosto, encarei cada homem no recinto, antes de propor:
— E aí, alguém quer um cafezinho?
Não custava nada tentar tampar o sol com a peneira né?!
Incrível, mas ninguém pareceu atraído com a minha oferta de paz — com exceção de Barry e Roy, que aparentemente, eram feitos do mesmo material.
(...)
— Sabe, com esse tanto de gente aqui em Lian Yu, é capaz de conseguirmos ajudar na organização do festival rapidinho! — Barry dizia entusiasmado, enquanto me ajudava a preparar a janta daquela manada de gente hospedada na fazenda.
Assenti com a cabeça, em acordo. Mais mãos ao trabalho seria ótimo, sem contar que a presença de mais pessoas animariam e muito o festival! Sempre os familiares dos antigos moradores de Lian Yu que decidiram se mudar para longe, decidiam voltar para uma visita rápida, justamente nessa época do ano para se juntar ao familiares e também para participar da folia. Logo a diversão e paquera eram garantidas.
No entanto, eu desconfiava que esse ano o festival teria uma dose muito mais alta de diversão já que contaria com a presença de Oliver e toda a sua turma.
— Sim, essa edição do festival tem tudo para ser sucesso ainda maior que os anos anteriores. — Falei extremamente alegre, não me preocupando nenhum pouco em camuflar minhas verdadeiras intenções.
Consciente para onde minha mente estava indo, Barry me lançou um olhar recriminador.
— Felicity, você não resolveu ser somente amiga de Oliver?
Ai, será que todo mundo vai jogar isso na minha cara agora?
Revirei os olhos.
— Barry, é claro que essa foi mais uma estratégia da minha parte! Você não achou mesmo que eu iria desistir do meu homem, né?
Pelo seu ar perturbado, ao me fitar, achou sim.
— Felicity, não seria melhor se...
Nem o deixei terminar a frase.
— Barry, ele é o homem da minha vida, Nyssa disse!
Me fitou compassivo.
— Será que ela não quis dizer outr-
— Não! — O interrompi voraz, sentindo um súbito aperto no peito à ideia de que talvez, ou Nyssa estivera todo esse tempo errada ou eu interpretara tudo de maneira diferente — Ele é o meu destino, eu sei. Vai muito além do que Nyssa falou, é mais como um...sentimento.
Nunca saberia se ele entendeu ou não o que eu quis dizer, pôs após as minhas palavras, mamãe entrou na toda pela porta da cozinha. Infelizmente com ela estava uma companhia bem pior que Pata...
Peguei rapidinho minha colher de pau.
— O que esse traste tá fazendo aqui? — Perguntei para mamãe, apontando minha arma na direção de Slade.
Como sempre bancando o sem noção, Slade começou a rir, não ligando para minha áurea suicida que começava a crescer mais e mais.
— Vim jantar. — Disse ele risonho — Que foi? NÃO POSSO MAIS? — Gritou a última parte, demonstrando que além de sem noção, continuava com os seus tiques ridículos.
— Claro que você pode jantar, almoçar, lanchar, fazer o que for. — Intensifiquei meu aperto ao redor da colher, me segurando para não avançar no maluco. — Mas isso na sua casa, não aqui! Aliás, ninguém sequer te convidou!
Fingindo não ter me ouvido, o sacana puxou uma cadeira e se sentou.
— Sua mãe ME convidou. — Me comunicou com a maior insolência, após se acomodar propriamente.
— E desde quando ela tem o dire-
— Felicity! — Barry me interrompeu com uma expressão nada boa. Seu rosto já começava a ficar vermelho pimenta, portanto, optei por fazer minha melhor expressão de sonsa.
— Que foi? Não ia falar nada demais...
— Você não ia falar é de menos. — Slade retrucou debochado e eu juro, que quase, mas quase mesmo, aquela colher de pau voou SEM QUERER QUERENDO em sua cabeça.
Infeliz!
Enfezada, resolvi ignorar completamente a existência de qualquer ser naquela cozinha além a de Barry — que infelizmente, em menos de dois minutos, me traiu e foi compactuar com o inimigo numa conversa pra lá de animada -, e voltei a preparar o rango do povo, mas já com uma vingança em mente.
Até o final da noite, Slade aprenderia a não mexer comigo.
(...)
Com um sorriso pra lá de forçado, comecei arrumar a mesa enquanto ignorava firmemente o olhar insistente de Slade nas minhas costas. O encosto precisava urgentemente tomar um chá de semancol!
Um pouquinho nervosa — tá, devo admitir -, por ter sido deixada sozinha com o inimigo, olhei em direção à porta da cozinha, ansiosa para a chegada de Barry e mamãe com os outros. Ok, ok, também estava nervosa com a execução do meu plano de vingança.
Talvez eu tivesse exagerado...um pouquinho.
— Uh-hum, você está com a mesma expressão usada quando foi pega colocando ovos podres nas MINHAS botas.
Merda!
Surpresa com a observação de Slade, quase deixei a travessa com comida cair.
— E ainda a gatinha está assustada... — Debochou, acariciando sua barba imaginária. — Ah, Felicity...Você SÓ PODE estar aprontando!
Revirei os olhos, tentando disfarçar meu coração disparado. Aquele encosto literalmente tinha um sexto sentido pra tudo que é treta, era um absurdo! Com certeza tinha parte com o diabo.
— Não sei sobre o que você está falando. — Banquei a loira dissimulada, esperando que ele largasse o osso fácil.
Mas obviamente, isso não aconteceu.
— Garota, eu te vi crescendo. — O encosto continuou insistindo no assunto — Te conheço com a PALMA da MINHA MÃO. — Como se pra dar mais ênfase, ele exibiu sua mão enorme de serial killer.
Era por essas e outras que estava querendo dar pra trás com esse meu plano maluco de última hora. Vai que o doido descobria tudo e usava aquela mesma mão para me estrangular? Era jovem demais para morrer!
Mas como a merda já estava feita....Era melhor eu arquitetar uma saída estratégica!
— Nossa, vou ao banheiro rapi-
— MINHA LOIRA, CHEGUEEEEEEI PRO RANGO! — Akio anunciou, interrompendo minha saída estratégica.
É, deixa pra lá.
Em questão de segundos, a cozinha inteira lotou com a presença dos nossos ilustres convidados. Derrotada, servi o prato do povo e o de Slade deixei por último — com o próprio me analisando descaradamente, o que só prestava para me deixar a ponto de correr para o refúgio mais próximo.
— Ai Barbie Pobre, não acredito nisso! — Curtis gritou de repente, fazendo eu tomar um susto tão grande que só por um pouquinho não atravessei a parede da cozinha. Felizmente, notei que não fui a única tomar um susto.
Diggle parecia prestes a sacar sua arma...O que seria perfeito. Sério. Eu realmente não ligaria se ele desse um tiro bem na testa de Curtis. E de bônus na de Slade também.
— O que foi agora Curtis? — Questionei, já sabendo que merda vinha mais a frente.
A cozinha ficou num silêncio geral, aguardando a próxima bomba do sem vergonha.
Consciente de estar sendo o centro das atenções, Curtis soltou uma risadinha tosca, antes de falar:
— Nossa esse silêncio todo foi pra mim? — Botou a mão rente a boca e novamente, soltou uma risadinha tosca, enviando olhares safados para TODOS os HOMENS à mesa. — Ai rachas não precisavam dessa cerimônia toda não! O que eu queria dizer pra Barbie Pobre é que como eu estou em fase de crescimento... — Ah não, eu não estava ouvindo isso. —...preciso me alimentar muito bem. — Desviou o olhar para o meu rosto. Agora sua expressão não era nenhum pouco amistosa. — Cê tá querendo me matar de fome, é mulher? Eu tô aqui com o bucho todo murcho e tu coloca SÓ isso pra euzinha comer? — O cara de pau apontou para o prato dele. Franzi o cenho, analisando a situação. Pra ser honesta o prato dele continha a mesma quantidade que todos os outros. — É um absurdo!
Absurdo mesmo seria quando eu enfiasse o bico da minha bota na cara dele. Estreitei os olhos e registrei o exato momento em que Oliver lançou uma expressão bastante zombeteira na direção de Curtis. Provavelmente o meu Garanhão estava pensando o quão fresco o Sem Noção era.
Respirando fundo, decidi colocar Curtis em seu devido lugar.
— Olha só se-
— Pode ficar com a minha refeição, eu não tô com muita fome.
Hein?
Atônita, fitei Slade oferecendo o seu prato na maior tranquilidade para Curtis, que já começava a quicar na cadeira em expectativa — suspeitava que seu estado de êxtase não era devido à comida oferecida...Sem dúvidas, na mente do Aloprado já deveria estar passando vários flashes do seu casamento com Slade.
Estremeci só de imaginar a cena!
— Ahn, você quer me dar é bofe? — Curtis sorriu sugestivo para Sladeloki, que ao invés de se intimidar ou se ofender, se limitou a apenas retribuir o sacana com um sorrisinho arrogante que era sua marca registrada.
— É claro. — Confirmou afável, despejando metade de sua comida no prato de Curtis.
Engoli em seco, observando a cena. Era agora ou depois que eu corria?
— Ahhh tio Slade! Se é assim, eu também quero um pouco da sua comida! — Akio se remexeu na cadeira, com zero noção do perigo que estava correndo.
Após um rápido debate interno, onde a diabinha Felicity e a anjinha Felicity ficavam disputando minha atenção, resolvi dar ouvidos à minha anja interior e sem cerimônia alguma meti o chute por baixo da mesa na canela de Akio, o lançando um olhar de "Cale a boca ou morra".
Felizmente, o pirralho sacou o recado na hora. Mas não sem antes querer abrir o bocão para chorar — o que eu resolvi rapidinho com um outro olhar ameaçador. Desculpa conselho tutelar!
Alheio ao que estava prestes a ocorrer, Curtis abriu a boca feliz da vida, engolindo uma porção generosa da comida.
Comecei a contar mentalmente os segundos até a bomba explodir.
— Nossa, eu realmente preciso ir até ao ban-
Minha tentativa sutil de sair de cena foi interrompida novamente por ninguém mais, ninguém menos que Thea Queen, que decidiu que esse era o momento PERFEITO para elogiar minhas habilidades culinárias:
— Nossa Felicity, você fez tudo isso sozinha? — Perguntou, saboreando a comida. Em outras circunstâncias, eu estaria feliz com o seu apreço aos meus dotes culinários, mas já que agora eu estava tentando mais do que nunca fugir das vistas de Slade... — Está tudo ótimo! O sabor é total-
— CARALHO! — Curtis cuspiu toda a refeição de volta ao prato.
É, finalmente a bomba havia estourado.
Atônitos, todos — com exceção da minha pessoa, que sabia muito bem o motivo do desespero do Aloprado -, encaravam Curtis que mais parecia um boneco de posto se mexendo para todos os lados, enquanto abanava a mão em direção a própria língua que já estava para fora.
Se minha batata já não estivesse assada, torrada, tostada, eu teria rido alto com a sua reação. Era até melhor da qual eu esperava de Slade.
— O que foi Curtis? — Barry se levantou pra acudir a minha vítima. Em contrapartida, Slade apenas me fitava com um olhar que dizia "Rá! Te peguei!". Akio, por outro lado, me fitava com admiração.
Oh ótimo, agora mesmo que o pirralho não sairia do meu pé, droga!
— ESSA FUINHA ANÊMICA TENTOU ME ENVENENAR! — O doido acusou, apontando o dedo na minha direção. Tentei simular minha melhor expressão de inocente.
— Eu? Por que diz isso? Eu seria incapaz de envenenar alguém!
Inabalado, Curtis bateu o pé:
— Envenenar talvez não, mas você colocou pimenta na minha comida de propósito!
Bingo!
Exceto que a comida não era realmente dele e sim de Slade...
Levei uma mão ao peito, fingindo ofensa:
— Você está dizendo que minha comida está apimentada? — Pisquei os olhos e virei para os convidados, disposta a vencer essa discussão. — Pessoal, vocês acham que minha comida está apimentada?
— É claro que não, a comida da Srta. Smoak é adorável. — Thea respondeu e cutucou o namorado. — Não concorda Roy?
— É claro.
Nossa, que dócil. Será que o Queen também era assim?
— Não. — Roy cantarolou alegre. — Ele é reprimido.
MEEEEEEEERDA!
— A única coisa reprimida aqui é o s-
— É claro que não minha querida! — Mamãe interrompeu o Queen de surtar pra cima do cunhado, decidindo também comprar meu lado da briga. Normalmente, qualquer filha se sentiria aliviada com o apoio moral da própria mãe, mas eu comecei a me preocupar. E muito.
Donna tinha a tendência de piorar qualquer situação já ruim.
Comecei a lançar olhares de aviso para ela, torcendo para a mesma compreender o grau do meu desespero.
— Obrigada mamãe, mas que tal vo-
— O problema só pode ser a sua boca, Curtis! — Ela me interrompeu, aparentemente ignorando ou não pescando meus olhares. — Por um acaso você está doente? Febre causa essas coisas...
Extremamente ofegante e segurando um copão de água — cortesia de Barry, sempre muito prestativo -, Curtis enviou um olhar de morte para mamãe.
— Minha boca??? — Rebateu exasperado — Mulher, minha boca é uma das maravilhas do mundo, já me falaram! Se não acredita em mim, vem aqui e come o que a Lombriga Anêmica da sua filha fez!
Ah não...Isso não iria prestar.
Lançado o desafio, Donna caminhou pomposamente até onde o prato de Curtis estava e sem nem pensar duas vezes, pegou uma porção generosa da comida.
Apertei os olhos, esperando o desastre se concluir com chave de ouro.
Muito diferente de Curtis quem teve uma reação imediata e cômica demais para se assistir sem querer soltar algumas risadas ocasionais, a reação de Donna assisti em câmera lenta. Primeiro, o sorriso confiante o qual ela trajava há segundos atrás se esvaneceu como num passe de mágica; Segundo, seus olhos dilataram-se de tal maneira assustadora que por um segundo julguei que ela acabaria sem eles; Terceiro, muito lentamente pontinhos vermelhos começaram a aparecer em sua pele, até todo o rosto adquirir a coloração "Pimenta-da-Morte".
Aguardei pela sua queda — e por consequência, a minha também -, no entanto, Donna simplesmente engoliu todo o conteúdo — vale frisar que os olhos dela se encontravam já marejados — e com um sorriso amuado, encarou Curtis.
— Definitivamente o problema estava com a sua boca. — Ela soltou, tranquila demais para quem deveria estar com a boca em chamas.
Imitando ela, fingi um sorriso tranquilo, ignorando completamente como a situação estava fora de controle há tempos!
— Isso é impossível! — Disparou Curtis, visivelmente irado. — Isso só pode ser um complô!
— Ou você pode simplesmente estar doente como mamãe indicou. — Sugeri, tentando soar o mais casual possível, mas o suor nas minhas costas não mentia!
— Que tal esquecermos tudo isso e comermos em paz? — Disse Barry bruscamente e como não sou besta, aproveitei a chance.
— Barry tem razão. — Concordei — Curtis, irei trocar o seu prato e se você mesmo assim não querer comer, tudo bem.
O cara de pau não apenas quis comer, como também comeu tudinho de lamber os beiços!
A partir de então, tudo seguiu relativamente bem, o tenso mesmo foi ter de aguentar os olhares venenosos que Slade dirigia para mim e explicar porque minha mãe havia se ausentado para ir ao banheiro e nunca mais voltado...
(...)
— Essa é uma péssima ideia.
— Essa é uma ótima ideia. — Rene retrucou com um sorriso matreiro e foi aí que eu tive a completa certeza: Essa definitivamente era uma péssima ideia.
— Ah, qual é Felicity! — Roy, o namorado de Thea, já chegou cheio nas intimidades, colocando um braço ao redor do meu ombro. Ele tinha no rosto aquele tipo de sorriso perigoso que faziam os pais se preocuparem com as suas filhinhas. — Um pouco de diversão nunca é demais...A menos que vocês detestem isso por aqui.
Franzi o cenho, sabendo o que Roy estava tentando fazer.
— Não é que detestamos diversão, só detestamos humilhação pública... — Murmurei, ainda profundamente cética com aquela ideia estúpida de última hora.
— Concordo com Felicity, essa ideia é péssima.
Oliver chegou de repente, nos surpreendendo. Ou ao menos surpreendendo somente eu e Rene, já que Roy continuou sossegado com o braço ao redor do meu ombro. Não sabia se ele era dado demais ou desajustado.
Ele abriu um sorriso lento de diversão para Oliver.
— Você só fala isso porque é reprimido. — Roy virou para mim — Você não é reprimida né, Felicity?
Mas que diabos...
— Roy Harper, deixe Felicity em paz! — Feito uma Amazona (bem pequena, aliás) Thea surgiu puxando a orelha do namorado e consequentemente, tirando-o da minha aba. — Se ela não quer brincar, ela não quer brincar e acabou! — Sem perder o gás, ela soltou Roy para fitar o irmão. — Menos você, Oliver. Você não tem escolha, irá brincar sim!
Ual, Thea Queen conseguia ser adoravelmente cruel com aquele rostinho juvenil.
— Desculpe, mas quem é o irmão mais velho aqui mesmo? — Oliver perguntou, aborrecido. E eu dei tudo de mim para não rir alto — era divertido ver Oliver irritado.
Desde o momento em que meus olhos pousaram nele, além de pensar que o mesmo era o homem da minha vida, também pensei o quão inacessível ele podia ser por seu histórico familiar e por sua postura sempre muito estoica. Oliver simplesmente passava uma sensação de "Não me toque, sou perfeito demais para você."
Mas por julgar suas reações ao redor da irmã, ele era mais normal que o esperado.
— Você, mas é o mais burro também. — Thea alfinetou.
Notei os punhos cerrados do Garanhão. Certamente, lidar com uma irmã com língua ferina igual Thea, lhe custava alguns neurônios torrados pelo ódio.
— Thea, minha paciência tem limite. — Disse ele — E aposto que a de mamãe também...Que com certeza não faz ideia de onde você esteja nesse exato momento. — Acrescentou em tom despreocupado. — Na realidade, estou impressionado por não ter visto nenhuma equipe de SWAT aparecendo atrás de você.
Thea engoliu em seco. Oliver atingira uma artéria.
— Oras, mas é claro que ela não mandará ninguém atrás de mim! — Ela ainda tentou blefar, soltando uma risadinha nervosa. — Mamãe pensa que viajei com Roy para visitar nosso tio Anatoly.
Os olhos de Oliver cresceram.
— Mais um ótimo motivo para ela mandar a SWAT atrás de você! — Gritou exasperado — Anatoly é louco!
— Ei, nosso tio não é louco...Só gosta de aproveitar a vida ao máximo. — Thea tentou defender o suposto tio maluco e eu como uma ótima ouvinte, continuei prestando atenção no assunto familiar.
Estava sendo bastante interessante saber mais sobre os Queens sem nem sequer mover um dedo para isso.
— Ele está aproveitando tanto a vida ao máximo que logo mais estará aproveitando ela dentro duma cova.
Thea fez uma careta, mas não negou as palavras de Oliver — o que me deixou mais curiosa ainda pra saber do babado. Oliver falara com tanta convicção, que parecia até que o tio era algum mafioso...Tive que rir com o pensamento.
Infelizmente, após o meu riso, os irmãos notaram que estavam lavando roupa suja na frente de pessoas "parcialmente" desconhecidas. Senti meu rosto esquentar e Rene, só pra fingir que não estava prestando atenção em nada, começou a assobiar olhando para o céu estrelado.
Antes que eu pudesse abrir a boca para insultar Rene, um cotoco de gente que atendia por Akio Yamashiro, surgiu a todo vapor na nossa frente.
— O pirralho, o que você acha que tá fazendo acordado uma hora dessas? — Questionei, fula da vida. Tatsu havia escolhido um péssimo dia para ajudar Joe West com seus animais. Péssimo!
— Tô aqui pra participar da brincadeira. — Respondeu sem expressão, o que foi suficiente para me fazer contar mentalmente de um até dez.
Essa criança realmente mataria todos os meus neurônios antes do tempo.
— A brincadeira não chegou até à creche, Polly Pocket asiática. — Curtis retorquiu todo carinhoso.
— VOCÊ ME CHAMOU DE QUE?! — O pirralho se revoltou.
Consciente que uma próxima briga estouraria, sabiamente optei por manter silêncio. Eu que não me envolveria nas picuinhas de Curtis e Akio! Ambos sabiam se cuidar muito bem — o que é meio assustador considerando que Akio é uma criança, mas como Slade falara uma vez, anos atrás: Akio não era uma criança comum.
— De Polly Pocket asiática. — Curtis repetiu serenamente.
Akio rosnou.
— Você vai ver só o Polly Pocket asiática!
Tudo aconteceu tão rápido que ninguém conseguiu avisar Curtis para proteger a própria canela. Em segundos o Suicida Purpurinado já estava pulando com um só pé, enquanto gritava de dor.
— Ele adora chutar a canela alheia. — Rene informou para Oliver, Thea e Roy que assistiam a cena embasbacados. — Por isso, ando sempre com joelheiras quando esse pirralho está ao redor.
Como só para comprovar, Rene subiu um pouco as calças e mostrou sua joelheira.
— Ual, bonita joelheira — Roy elogiou, inspecionando de perto a artilharia do outro maluco. —, onde você comprou? Quero uma igual!
Ah meu Deus...
— Eu vou embora. — Oliver declarou de saco cheio. Mas antes que fosse possível dele fazer sua saída estratégica, Thea colocou uma mão no seu braço, o impedindo.
— Nananinanão, você não irá a lugar algum! — Ela exclamou — A brincadeira perderia o total sentido sem você.
Thea Queen estava definitivamente presente para ferrar com Oliver.
E ele sabia disso, por julgar sua expressão sinistra.
— GENTE, TEM COMO VOCÊS SEGURAREM ESSE FILHOTE DE DEMÔNIO?!
Estávamos tão concentrados assistindo o interlúdio entre irmãos, que havíamos até nos esquecido do drama entre Akio e Curtis.
Sem perder tempo, Rene tomou o controle da situação e puxou o pirralho para longe do Suicida Purpurinado — em outras circunstâncias, com certeza Rene incentivaria Akio a perseguir e torturar Curtis, mas como o malandro tava doido para uma humilhação gratuita...Cuidou da situação rapidinho, traidor!
— Ok, ok. Não percamos mais tempo! — Slade bateu as mãos, animado. — Comecemos logo esse jogo.
— Então a criança vai mesmo participar? — Roy quis saber, olhando quase que com pena para Akio, que simplesmente lhe respondeu mostrando os dentes.
Akio definitivamente iria participar desse jogo.
— Sim, não se preocupe, o pirralho sabe se cuidar. — Slade disse rápido, claramente louco para assistir o circo pegar fogo. Sem aviso prévio, a aberração apontou para Thea e gritou, iniciando o jogo:
— FAÇA-ME RIR OU MORRA!
Eu prefiro a morte...
Inabalável, Thea retirou do bolso de sua calça seu celular, um sorriso enfeitava o seu rosto. Franzi o cenho, ela iria optar por algum vídeo de comédia? Isso seria trapaça...
— Não se preocupem, o que vou mostrar pra vocês não é trapaça. — Ela murmurou de repente, como se tivesse lido os meus pensamentos. Não muito tempo depois, ela virou a tela do celular para nós...E a visão que tive me fez resfolegar, antes de tentar conter a risada alta que retumbava no céu da minha boca.
Já os outros integrantes do grupo, não tiveram tanto consideração assim.
Slade ria tão alto que eu temia logo mais um trabalhador da fazenda vir conferir o motivo de tamanha risada no meio da noite.
— Hahahaha — Oliver fingia rir, enquanto tomava o celular da mão de Thea — Muito engraçado, mas agora chega.
— Chega nada, nós ainda nem chegamos no Top 5 fotos horríveis que você tem! — A Queen retrucou toda risonha e eu fiquei impressionada com essa nova informação.
Qual foto de Oliver poderia ser pior além dessa dele vestido de bailarina? Aliás, por que existia uma foto dele vestido de bailarina, com direito a tule, maquiagem e outros acessórios?
— Foi uma aposta com Tommy, ele perdeu. — Roy sanou as minhas dúvidas e imediatamente, senti meu rosto em chamas. Maldita boca grande!
Continuando a brincadeira, Thea gritou apontando para Slade:
— FAÇA-ME RIR OU MORRA!
Ó ótimo, as coisas iriam ficar bem piores agora...
— Essa vai ser fácil... — Slade murmurou com um sorriso maldoso. — Rene, venha aqui, vou precisar da sua ajuda.
Corra, corra, corra! Por que minha mente de repente me enviou esse comando?
Sem precisar sequer de alguma outra explicação ou palavras trocadas em alto bom som, Rene parou na frente de Slade e de um modo bastante afetado, fingiu colocar uma mecha de cabelo atrás da orelha.
Ainda com seu teatrinho, ele exclamou agudamente:
— Vejam pessoal, vejam! Eu sei montar muuuuuito bem em um cavalo! — Filho da puta! — Sou expert nessa área, apenas observem.
Para completar o teatrinho, Rene agachou na frente de Slade, como se fosse inspecionar seu sapato e não fiquei surpresa quando Slade contornou Rene e lhe deu um chute no traseiro, fazendo o mesmo cair de quatro.
A essa altura, Roy e Thea riam, sem ter noção que aquela dupla de retardados haviam acabado de me imitar levando um coice, anos atrás.
Pior. Dia. Da. Minha. Vida. Pior!
— ARRASARAM! — Curtis comemorou a atuação podre — Agora Renezinho, pode continuar nessa posição? Você fica ótimo de quatro.
Foi a vez de todos rirem, sem exceção — até o traidor do Slade estava rindo do pobre Rene.
— Você vai ficar ótimo também quando eu te atropelar com a minha caminhonete. — Rene grunhiu e eu ri mais ainda, consciente que ele só ladrava.
— Que isso, bofe! — Curtis levou uma mão ao coração — Não precisa querer partir pra agressão não, se bem que de vez em quando um tapinha...
— Ok, já chega! — Slade se intrometeu e apontou um dedo na minha direção. — Felicity, FAÇA-ME RIR OU MORRA.
Infeliz.
Pesando as possibilidades de cometer um assassinato, dar às costas para aquela brincadeira inútil ou continuar dançando conforme a música, suspirei e sem pena alguma, encarei o pirralho quando disse:
— Cooper.
Obviamente Akio desembestou a rir feito louco à menção do antigo capataz que pediu demissão por motivos misteriosos.
— Isso não foi justo! — Rene protestou, batendo o pé.
Dei de ombros.
— Akio riu, então foi justo.
Por outro lado, Akio encarava o nada, nitidamente desnorteado por sua queda rápida. Apostava que ele estava passando por alguma crise interna, debatendo se apoiava Rene com seu protesto ou concordava comigo — por eu ser a sortuda moça a quem ele depositava tanto "carinho".
No final, sua paixonite venceu.
E um pouco da sua arrogância infantil também, é claro.
— Legal, qual vai ser o meu desafio? — Perguntou, cruzando os braços e adotando um ar petulante. — Vindo da mente nada criativa de vocês, sei que não será algo muito difícil ou impressionável.
Impressionável mesmo era descobrir que Akio tinha conhecimento dessa palavra.
— Aw, que bonitinho, ele sabe falar direito! — Thea se encantou pelo intelecto recém estreado do pirralho.
Já ele, correu para ficar ao meu lado e disparou:
— Já tenho dona, tira o olho!
Naturalmente, meu rosto esquentou de vergonha diante tanta certeza nas palavras daquele serzinho. Akio um dia conseguiria me levar à cadeia!
— Não ligue para o que ele fala, é uma criança delirante. — Falei rápida, tentando justificar mais a situação para Oliver, do que para Thea.
Não podia deixar que ele pensasse que além de louca, eu era algum tipo de tarada por menores de idade.
Uma expressão de indignação cruzou o rosto do Bambi Apaixonado, mas antes que ele pudesse sequer formular alguma frase, Slade o cortou:
— Felicity, pense numa PUNIÇÃO para o pirralho. Ele riu e regras são regras.
Estreitei os olhos, achando incrível a capacidade de Slade em se entusiasmar com a ideia de uma criança — uma criança anormal, já entrei em acordo com isso -, passar por uma punição.
— No momento, eu não tenho nada em mente. — Declarei, mais uma vez, tendo misericórdia de Akio.
— Ah, mas eu tenho... — Slade retrucou num tom afável e com um brilho malicioso nos olhos.
Oh, droga! Akio definitivamente estava em apuros!
— Ok, pensando melhor, acho que eu tenho sim uma ideia de puniç-
— Ah não, Felicity! — Rene me interrompeu — Deixe Slade decidir isso, ele é o mais criativo entre nós.
Ele queria dizer que Slade era o mais criativo entre nós na arte da tortura, né?
— Verdade, estou em acordo. — Curtis se manifestou no complô também, resolvendo dar uma moral para sua Oncinha e para sua Onçona. — A Barbie do Sertão tem cara de quem vai afrouxar pro lado do Bambi Apaixonado.
O olhei ofendida.
— Não vou afrouxar nada! Só acho que a punição dele deve ser mais branda por conta da idade.
— E como você sabe que minha punição será muito pesada se eu ainda nem falei ela? — Rebateu Slade, com as mãos na cintura. — Na verdade, estava somente pensando em o mandar para o galinheiro onde está Pata, só por ALGUMAS horinhas. — Um sorriso felino enfeitou seu rosto. — Mas já que você parece TÃO preocupada, que tal acompanhar Akio nessa empreitada?
Nem se mil demônios estivessem no meu pé.
Soltei uma risadinha e dei dois tapinhas no ombro do perdedor:
— Akio, boa sorte.
O moleque poderia até ser sem noção, mas coragem ele tinha e foi usando essa mesma coragem que ele foi cumprir sua punição sem olhar para trás nenhuma vez.
— Quem é Pata? — Roy quebrou o silêncio, curioso.
— É melhor que você não saiba. — Recomendou Oliver, sério. — Acredite em mim quando digo isso.
— Quando você diz isso, só atiça mais a nossa curiosidade. — Thea assinalou e eu tive que concordar com ela.
Falar essas palavras era o mesmo que ativar e animar a curiosidade de qualquer um.
Oliver deu de ombros.
— Se está tão curiosa assim, vai lá descobrir quem é pata então, só depois não diga que eu não avisei...
E essas eram as exatas palavras que fazia qualquer curiosidade morrer.
—...lembrarei de comprar um caixão rosa para o seu velório.
Definitivamente morrer.
— Você fala como se essa Pata fosse algum tipo de monstro. — Thea bufou. — Tá achando que eu sou alguma criança para cair nes-
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!
O grito e a visão de Akio vindo disparado no horizonte interrompeu todos os esforços de Thea em desdenhar das palavras do irmão. E para completar o cenário apocalíptico, Pata vinha bem atrás dele numa carreira só, feito uma soldada de lúcifer cujo o único objetivo era causar destruição total a qualquer coisa ou pessoa, à sua frente.
— Eu sabia que essa era uma péssima ideia! — Gemi, antes de preparar minhas varetinhas e picar minha mula, pois não sou besta nem nada!
Com alívio, notei pelo canto dos olhos quando os irmãos Queen também começaram a correr para salvar suas vidas — odiaria ficar viúva antes mesmo de casar. Dispensável dizer que Curtis do jeito escandaloso que é, se juntou aos berros do pirralho e começou um verdadeiro show de horrores, né? Como se não bastasse Pata correndo atrás de nós...
Sem pensar nas consequências, escalei na primeira árvore à minha vista para fugir de Pata — e ironicamente, a árvore era tão alta que praticamente fazia sombra em boa parte do lago onde Profeta (é, aquele mesmo cavalo do diabo que jogou Tommy para cima de Curtis e Sara) adorava passar seu tempo livre.
— Meu Deus, a Barbie Pobre sabe escalar uma árvore também! — Ouvi Curtis exclamar horrorizado, como se minha habilidade recém-descoberta o colocasse em algum perigo.
Ignorei completamente e fui até o galho mais alto. Pata jamais conseguiria me pegar viva, jamais!!!
— Felicity por que você tá rindo igual uma...idiota? — Rene perguntou atrás de mim e só ai notei que me deixei levar demais com essa ideia de que Pata jamais me pegaria viva.
Estava soltando minha risada diabólica perto do Queen, merda!
Com raiva, olhei pra baixo e chutei com força Rene na cabeça. Ele não precisava ter me ofendido...ou levantado a questão, quando todos pareciam ocupados demais tentando salvar a própria bunda.
E também chutei porque é sempre muito bom agredir Rene.
— Cala a boca! — Chutei de novo e ele, dessa vez, quase agarrou o meu pé. Mais um pouco e seria jogada para fora da árvore, maldito!
— Será que vocês vão continuar discutindo mesmo nessa situação? — Meu Queen resmungou, nos alcançando.
Pisquei os olhos, impressionada.
Não fazia ideia que Oliver conseguiria escalar uma árvore tão rápido, já que a irmã dele não estava se saindo muito bem nessa tarefa...
— Tem como alguém me ajudar a subir nessa maldita árvore?
Falando nela...
Imperturbável, Oliver fitou a irmã, deu de ombros e voltou a subir, deixando-a boquiaberta.
Num é que o Garanhão era vingativo? Incrível!
— ROY HARPER SE VOCÊ NÃO DESCER DAÍ AGORA E ME AJUDAR, EU IREI TRANSFORMAR A SUA VIDA NUM COMPLETO INFERNO! — Thea ameaçou e Roy, que já estava nos alcançando, soltou um suspiro sôfrego e voltou para ajudar a pequena Queen.
Ri com a atitude do malandro. Tava na cara quem tinha as bolas nesse relacionamento.
— Ela só pode ser adotada. — Resmungou Oliver, mal humorado. E novamente, soltei uma risada gostosa. Era tão engraçado ver sua expressão concentrada ao mesmo tempo que faltava soltar fogo pelos ouvidos!
Ainda irritado, ele trocou um rápido olhar comigo, para logo em seguida revirar os olhos. Provavelmente estava pensando que eu era uma idiota.
— AIMEUDEUSALGUEMEAJUDA!!!!
Quase me desequilibrei do galho ao ouvir o berro desesperado de Akio. Olhando para baixo, notei o pentelho correndo praticamente em volta da árvore enquanto Pata estava em seu encalço. Slade também estava naquela correria, só não sabia se ele estava tentando fugir de Pata ou tentando salvar Akio, ou sei lá o quê.
— Eles estão correndo em círculos. — Oliver murmurou, ao finalmente encontrar um galho firme e se sentar nele.
Eu que não sou besta, dei o meu jeito e sentei do lado dele, observando a cena.
— AIMEUDEUSELAVAIMECOMER!!!!!! — Akio agora mexia os braços de um lado para o outro, apavorado. — ELA VAI ME COMER!!!!
— EU FALO PRO GAROTO FICAR SÓ ALGUNS MINUTOS COM A GALINHA E ELE ME SOLTA ELA! — Bradou Slade furioso, aparentemente desistindo de salvar Akio e escalando o mais rapidamente possível na árvore.
Franzi o cenho com a sua atitude. Me parecia extremamente injusto deixar Akio sozinho para sofrer com Pata, portanto...
Quando Slade chegou no galho onde eu e MEU GARANHÃO estávamos, fiz o que qualquer pessoa JUSTA faria diante essa situação caótica:
— TRÊS É DEMAIS! — E chutei Slade com toda força para fora da árvore.
— FELICITY, SUA-
Ele não completou a frase já que caiu feito merda dentro do lago.
Bem, eu disse que até o final dessa noite Slade aprenderia a não mexer comigo...
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