—Elise!

Paro imediatamente, os lábios roçando nos de Noah. O mau-humor instaura-se na minha alma e ombros gritando obscenidades a seja lá quem tenha acabado de nos interromper. Noah busca meu rosto até levemente tocar meu pescoço. Junto as sobrancelhas, voltando a atenção para ele de novo.

—Quer que eu saia?

Seu hálito roça minha bochecha. Quero tanto beijá-lo que quase materializo a vontade, ignorando o intruso. Deslizo o dedo pela bochecha dele e inspiro o seu cheiro, marcando-o com fogo, amenizando a dor e o desespero de tocá-lo borbulhando dentro de mim. Contra a vontade, afasto-me dele, deixando apenas minha mão com Noah.

—Pode ficar se quiser.

O sorriso no canto dos lábios dele nunca me foi tão charmoso. Viro-me na direção da fonte de voz. Engulo o seco, desviando o olhar do rosto de Samir. Ao questionar-me o que ele estaria fazendo ali, lembro do saxofone em meu quarto. Respiro fundo e solto-me completamente de Noah.

—Fica aqui, tá?

Noah assente, confuso. Fico de pé, aproximando-me de Samir no extremo do pátio, as mãos nos bolsos da calça jeans. Novamente, estranho suas vestimentas casuais, o cabelo recém cortado e a barba rala o apresentando como mais velho do que realmente é. Paro na sua frente, os braços travados na lateral do corpo.

—Me chamou.

—É — ele passa os olhos de Noah e os desvia — Preciso do...

—Saxofone. Eu sei.

Tiro a chave do meu quarto do bolso. Estendo-a na frente dele e logo Samir, confuso, a pega.

—Pode ir buscar. — cruzo os braços sobre o peito — Dessa forma não passamos tempo juntos. Quando terminar deixe a chave com a menina que mora na direita. Ela é bem gentil.

Samir passa a atenção de sua mão para Noah e enfim, chega ao meu rosto. Não vejo a mesma expressão de raiva como da última vez.

—Parece que conseguiu ficar com ele.

Não olho Noah.

—Algo assim.

—Meus parabéns.

—É.

—Está com cara de cansada.

—Só não venho dormindo bem.

O ar se torna pesado e desconfortável. Quase imploro para ele se virar e ir embora de uma vez. Como tudo ficou assim? Esse constrangimento, essa tensão. Parece que estou desarmando uma bomba ás cegas que vai explodir a faculdade inteira.

—Bom... Eu... Acho melhor ir logo — aponto na direção de onde vim, pretendendo enfiar-me debaixo dos braços de Noah.

—Você não me ligou.

Junto as sobrancelhas.

—Você me disse para não ligar — minha atenção vai para o rosto dele.

Noto, aos poucos, alguns fatores. A bolsa roxa debaixo dos olhos, os lábios secos, o olhar com uma metade distraída e a outra cansada. Ele está magoado. Minha vez de ficar confusa e logo a raiva toma parte fazendo-me trincar os dentes. Ele está magoado? Depois de tudo o que me disse, depois de sumir da minha vida?

—Não achei que fosse seguir isso tão á risca.

—Iria atender se eu tivesse ligado?

Samir me avalia.

—Iria.

—Então por que não foi você quem me ligou?

Vejo-o passando a mão pela nuca. Suspira, olha o céu e depois se volta a mim.

—Você teria atendido?

—Teria.

Olhamos nos olhos um do outro pela primeira vez. Sinto saudade, é o que quero dizer. Ele foi importante na minha vida, mas depois do que aconteceu não sei se conseguiria vê-lo da mesma maneira sem ter um quê de desconfiança de talvez acontecer outra vez. Samir assente, quebrando a atenção ao desviá-la para Noah outra vez.

—Ele não já te magoou demais?

Arrumo a postura, respirando fundo.

—Magoou — relaxo os braços — Ele só não sabe ainda. Vou deixar claro depois.

—Várias vezes, não foi?

—Por que quer saber?

—Pode me perdoar?

Respiro fundo.

—Já te perdoei faz tempo. Só não imaginava que iria me querer por perto.

—Nem eu.

Samir encara o chão e depois me olha novamente.

—Posso ir te ver na competição amanhã?

Sorrio, quase rindo da situação. Como pode eu ter ficado meses sofrendo por Noah, arrependida do que fiz com Samir e logo no mesmo dia ambas as situações se resolvem por si mesmas? Encaro o céu, quase revoltada com a ironia. Era só isso? Só desistir e esperar? Ou apenas ter paciência? Não sei dizer ao certo. Mas sustentei tudo até agora por algum motivo.

—Sabe que eu e você...?

—Nunca vamos ficar juntos — Samir assente. — Não quero você dessa forma. Nem entendia que não queria dessa forma. Quero que continue comigo, não romanticamente.

—Quer dizer uma amiga?

Samir coça a nuca.

—Basicamente.

Assinto, pondo as mãos nos quadris.

—Posso fazer isso.

Samir aproxima-se lentamente. Quieta, deixo-o me abraçar. Demoro alguns segundos até corresponder seu afeto, matando uma saudade que vinha silenciosa em meu coração, distraído por Noah a tanto tempo. Ele se afasta, segura meu rosto e beija minha testa.

—Você é um inferno de pessoa, sabia?

—Você também.

—Senti sua falta.

Passo os braços ao redor da cintura dele.

—Eu senti mais.

—Deveria ter me ligado.

—Você devia ter ligado.

Samir separa nós dois. Funga e dá um peteleco na minha testa.

—Tem alguém falando com o seu namorado. Melhor ir lá antes que roubem ele de você.

Bufo, quase rindo.

—Noah ainda não é meu namorado.

Samir semicerra os olhos.

—E o que está esperando? Vai logo.

—Ainda tem meu número?

—Essa é uma pergunta idiota. Claro que sim.

Ele se vira, partindo por um corredor estreito na direção da saída Sul do campus. Sinto-me aliviada, de certa forma. Um peso saí de minhas costas e viro-me pronta para voltar imediatamente de onde paramos. Estranho a presença da figura felina sentada do outro lado de um Noah confuso, as sobrancelhas tensas.

Aproximo-me devagar reconhecendo quem estava ao lado dele.

—Cai fora Lion, pelo amor de Deus.

—Russel disse que você vai ter que conversar com ele amanhã, ás 2 da tarde.

—Veio aqui pra me falar isso?

Lion faz bico e cutuca Noah.

—Vai. Pergunta pra ela.

Ele engole o seco, abre a boca uma ou duas vezes antes de suspirar. Passa a mão pelo rosto e em seguida fala.

—Quem te chamou?

—Samir — olho acusadoramente para Lion — O que ainda está fazendo aqui? Sai logo.

—Como quiser — ele estende as mãos ao alto e arrasta-se pelo banco para longe Noah até ficar de pé.

Conforme observo Lion se afastar, não noto a mudança de expressão para choque e dor espalmadas no rosto de Noah.

—O que foi? — questiono.

—Ele beijou você?

—O quê? Não!

Noah pressiona os lábios.

—Posso confiar em você?

Dou de ombros.

—É óbvio.

O sorriso dele não é confiante. Seja lá que minhoca Lion enfiou em sua cabeça com certeza não vai sair tão cedo.