Amor Cego
46 Uísques e socos
A pessoa que me põe de pé é muito mais alta que Andrea. Cansada, a visão embaçada e o mundo girando, permito que seja lá quem for me leve. Minha mente está em branco, nada faz sentido e nem precisa fazer. Quero rir a cada passo sobre como meus cadarços estão em X ao invés de estarem em linhas. Encaro os sapatos da pessoa me levando sentindo que de alguma forma me é familiar.
—Ei! — o barman grita por cima da barulheira do bar — O que tá fazendo com a garota?
—Sou amigo dela.
—E quem vai me confirmar isso?
A voz grave me é familiar. Quem diabos? Não sei, me dá dor de cabeça se eu pensar demais. Uma mão se enfia na minha jaqueta e tira minha carteira. Vejo o borrão em forma de carteira passar voando diante dos olhos pousando afetuosamente nas mãos do barman.
—Elise Brown, 19 anos, carteira de Bishop Hill, filha de Catherine Jones e... Bom, nunca ouvi ela falando do pai então devem ter sérios problemas — o bico e o dar de ombros me são semelhantes e meu estômago embrulha.
—Tetsuro?
Os olhos dele param em mim, um meio sorriso travesso no rosto.
—Acordou, bela adormecida? Ou seria bela alcoolatra?
—Quem prometeu que viria buscar ela era uma mulher — O barman parece cruzar os braços no peito — Quem é você?
—O namorado daquela mulher. Pode ligar pra ela se quiser.
—Ele é um gado — aponto para o rosto dele, quase vomitando com a movimentação — Muito gado.
—No ponto pro abate — Tetsuro arruma meu braço ao redor de seus ombros — Tá pesada, hein? Consegue andar?
Meu apoio some. Minhas pernas bambeiam e o chão fica perigosamente perto. Os braços de Tetsuro se envolvem ao meu redor imediatamente, voltando-me para a posição original.
—É, parece que não — passo a ficar atenta da mão dele ao redor da minha cintura — Pode devolver a carteira dela? Tenho a impressão que quando ela ficar sóbria vai me descer o cacete se tiver perdido os cartões de crédito por minha culpa.
Tetsuro se move rápido para pegar o quadrado escuro de volta, jogado pelo barman. Vira-me devagar puxando-me conforme meus passos parecem se firmar no chão. Demora bastante e quero rir de como meus pés parecem ter perdido todos os sentidos possíveis. Arregalo os olhos. E se eu estiver paralisada?
—Que saco, viu —Tetsuro reclama e some do meu lado reaparecendo perto dos meus joelhos.
Não entendo o processo, devido justamente a rapidez ou talvez meu cérebro embriagado. Em menos de segundos Tetsuro já me tem nos braços e me manda passar o braço pelo pescoço dele. Faço uma careta pela aproximação.
—Eu sei que me odeia, mas ajuda um pouquinho e isso acaba daqui a pouco.
—Eu não te odeio.
—Não, né? É bem comum fazer cara de nojo sempre que vê alguém.
—Só não suporto o teu jeito.
—Que jeito?
Bufo e tento me acomodar nos braços dele, porém meu pé bate no copo de alguém assim que Tetsuro arruma o braço embaixo dos meus joelhos. Quase na saída do bar, me admiro ter alguém erguendo uma taça para o alto em comemoração a alguma coisa. Uma mulher furiosa com a maquiagem manchada e uma porção de tranças ergue-se da cadeira em um pulo fuzilando nós dois com o olhar.
—Qual o problema de vocês?
—Ela tá bêbada.
—Eu tô bêbada.
Tetsuro me põe no chão, as sobrancelhas erguidas.
—Fica quietinha, isso vai dar merda.
—O quê? Por que? Não foi de propósito.
—Se acham muito engraçadinhos, não é?
A mulher vira-se para a mesa com um homem passando a mão na sua cintura e outros ao redor, assistindo sustentando animação como se estivessem presenciando uma partida de futebol do seu time favorito. Junto as sobrancelhas até líquido gelado espirrar no meu rosto me fazendo fechar os olhos em reflexo.
—Sério? — Tetsuro limpa seu rosto com a mão — Tá. Acabou?
—Quer mais? Bom, levando em consideração que alguém como vocês — ela nos olha de cima a baixo — Nunca vão ter dinheiro pra comprar algo assim, acho que é caridade dar um pouco.
A mulher pega outro copo, o homem ao seu lado soltando uma risada e pedindo para que pare, contudo, nem de longe parece ser sério.
—Uísque barato — aponto para a mão dela — Minha mãe tem um Royal Salute 21. O gosto é meio doce e apimentado. Talvez você consiga comprar daqui uns dez anos.
—O que merda é um Royal Salute? — ela se vira para o homem ao seu lado.
—Um dos uísques mais caros do mundo, amor.
—O quê? Vai me dizer que essa pirralha tem dinheiro?
—Eu não — estendo as mãos na frente do corpo — Minha mãe. Catherine Jones, sabe? A que foi bilionária aos 27.
—E eu sou a filha perdida do Michael Jackson.
O ódio dela se abate em mim. Vejo a borbulha de raiva e impaciência tomarem conta dela e antes que jogue o copo inteiro, com vidro e líquido, em cima de mim, Tetsuro segura sua mão derrubando o objeto do seu toque. O delicado elemento transparente se estilhaça no chão.
Acontece bem rápido. O homem levanta e acerta um soco em Tetsuro. Irritada pela injustiça, devolvo a ele o favor trincando os dentes e sentindo o corpo mais quente e agitado do que antes. Pareço bem mais sóbria, desviando da mão da mulher e acertando o segundo soco na lateral do queixo do homem, já de pé jogando sua acompanhante para as suas costas.
Ele cai, os outros na mesa levantam. A mão de Tetsuro envolve a minha e ele me puxa para a porta batendo-a atrás de nós. Atrapalho-me com meus pés e nem a mão de Tetsuro serve de prevenção para minha cara indo de encontro ao asfalto. Escuto algo estralar e o líquido quente escorrer do nariz.
—Ai que merda!
Sinto as mãos dele nos meus quadris e o ar passa pelas minhas pernas, o chão desaparecendo. Demoro a notar que estou no ombro de Tetsuro, ele correndo e um bando de marmanjos atrás de nós, um dele com o rosto manchado de sangue. Foi ele quem eu acertei? Quero rir e meu estômago revira.
—Tetsuro...
—Agora não! Ocupado correndo pra salvar nossa pele!
—Não é nada demais, eu só acho que eu vou...
A bile sobe á garganta e inesperadamente o líquido ardente escapa da minha boca batendo parte nas costas de Tetsuro e o resto na pista, o gosto de sangue e o amargo cheiro podre infiltra-se em todos os meus poros me deixando ainda mais enjoada.
—PELO AMOR DE DEUS —Tetsuro solta um gemido — Você me vomitou!
—Eu tentei avisar.
—Deu muito certo!
—Tetsuro.
—De novo?
—Não é isso, é que eles estão de carro agora.
—Eles quem?
Tetsuro para, virando-se para ver o que localizei. Vê apenas o último homem entrando no carro vermelho, a mulher fazendo um gesto obsceno do banco do passageiro. Solto uma risada e ele nos leva apressadamente na direção dos dormitórios antes que liguem o carro.
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