Amor Cego
7 Cozinhando
Notas iniciais
O apartamento é igual ao meu quarto no dormitório. Só há duas diferenças: Tem dois quartos e uma varanda que dá direto ao parque nacional por onde as duas conseguem dar uma boa olhada nas árvores e flores nascendo juntamente da primavera.
Mesmo durante a noite, no momento em que entro, meus olhos ficam presos diretamente na paisagem das luzes da rua iluminando levemente a entrada do parque, alguns pontos luminosos formando um desenho sem nexo abaixo de nós. Segurando o violão no ombro, meu peito momentaneamente deseja que Noah estivesse ali.
Meu rosto queima. Desvio os olhos para a mobília simples de segunda mão. Os pufes no lugar do sofá, a televisão velha, carpete vermelho estranho e papel de parede em preto e branco quase psicodélico. Com certeza pode fazer minha dor de cabeça voltar. Duas portas levando ao quarto das duas, uma parede dividindo a cozinha da sala e uma mesinha de jantar redonda para quatro pessoas no canto do cômodo com o fogão e geladeira.
—O que eu faço? — pergunto olhando para os lados, insegura.
—Hum... — Charlie faz a cozinha parecer minúscula podendo encostar no teto com tranquilidade se quiser— O quanto você sabe cozinhar?
Travo, encarando-a.
—O suficiente pra sobreviver.
Charlie ri do comentário.
—Que tal ficar tocando alguma coisa? Me deixe escutar o que tem.
—Mas eu queria agradecer por...
—Você já pagou tudo, Elise. E pra falar a verdade, prefiro cozinhar eu mesma.
Coço a nuca.
—Então o que gosta de escutar?
Charlie movimenta-se já pegando material de dentro do armário.
—Já escutou Daugther?
—A banda?
—Qualquer coisa naquela onda é ótimo pra mim.
Sorrio. Gosto de praticar o piano com Flaws, uma das músicas da banda. Tomo a liberdade de sentar-me na mesinha. Tiro a capa do violão e confiro se as cordas estão bem afinadas. Dedilho alguns acordes, conferindo o som limpo e perfeito.
Posiciono o primeiro acorde, sentindo a pressão do aço contra a ponta dos meus dedos já magoados do violino. Uso a unha do polegar e fecho os olhos, baixando o rosto na direção do som, perfeitamente concentrada. Os primeiros acordes saem límpidos.
Suavidade, tranquilidade, o mesmo da música, arrumando o som de acordo com o produzido pelo violão. Sinto meu coração batendo, normalizando-se a melodia e seguindo-a cego. Quero continuar tocando e mesmo quando a música acaba eu mesma componho sua continuação, aproveitando o então caminho que meus próprios dedos abrem seguindo o som.
Deixo minhas emoções tomarem conta. Sinto minha expressão modificando, tentando acompanhar a turbulência dentro de mim. Quero tantas coisas que nem imaginava antes, desejo ser melhor, conseguir mais, ter a admiração de pessoas as quais sequer conheço. Ao mesmo tempo, o medo fica esgueirando sobre todas as minhas notas, vergonha e pavor misturando-se tentando fazer com que eu me afaste do que não consigo ainda. Tudo evaporando a cada nota.
Termino sem notar meus dedos pairando centímetros distante das cordas do violão. Ergo o olhar para Charlie. Ela está impressionada, segurando uma colher de madeira na mão e vestindo um avental cor de rosa de frente para o fogão.
—Você... É muito boa.
Relaxo a expressão. Por alguns segundos meu coração bateu temeroso em reprovação a tanta liberdade.
—Acho que esqueci alguma coisa — Charlie se volta para a panela — Seja lá o que fez, é muito forte pra quem escuta.
Massageio a ponta dos dedos.
—É ainda melhor no piano — brinco.
Charlie dá de ombros.
—Vai acabar me fazendo chorar então.
Pressiono as cordas novamente, de certa forma aliviada por expressar tanto por meio do violão. Na noite anterior havia mais uma sensação de dever com o violino do que de prazer de verdade. Preciso trabalhar nisso.
—Ah, minha colega de quarto me mandou mensagem dizendo que vai trazer o irmão e o namorado. Tem problemas?
—Não, nenhum.
Tirando o fato de que provavelmente vou ficar um pouco mais quieta. Não sei me comunicar coerentemente quando o número de pessoas no cômodo passa de 3. Pressiono as cordas novamente, relaxando com Old Pine de Ben Howard. Preciso manter um pouco da atenção na mudança de acorde, mas de resto o ambiente fica tão mais leve que até me sinto confortável novamente.
Apesar de exigir um pouco mais de habilidade, gosto da melodia da música. Movimento um pouco a cabeça, seguindo levemente como o instrumento pede. Não me incomodo com o som da porta abrindo, é apenas um ruído na parte de trás da minha cabeça. Prolongo os acordes iniciais, testando minha habilidade.
—Que cheiro bom! — a voz alta feminina vem da direita, a moça passando pela entrada da cozinha até o fogão.
A pele é belíssima em cor de chocolate, como a de Summer. Corpo esguio, ombros largos, coxas torneadas, cabelo crespo amarrados no rabo de cavalo volumoso. Suas roupas destacam os olhos verdes e o sorriso pegando uma parte significativa do seu rosto. Não paro de tocar, ainda vendo a situação.
—Não me diz que é aquele risoto estranho que faz com aipo?
—Aipo é muito bom pra saúde.
—O cheiro é ridículo para uma propaganda enganosa dessas.
Os olhos verdes param em mim.
—A donzela que Charlie salvou — paro de tocar — Andrea Morretti. E você?
—Elise.
—A muda!
Encolho os ombros, chocada ao ver Tetsuro atravessando a porta da cozinha. Meu coração falha uma batida, mesmo momentaneamente preparado para a segunda figura atrás dele. Noah atravessa com segurança o cômodo, quase com passos decorados. Apoia-se na soleira da porta, escutando.
—Charlie achou outro animalzinho de rua? — Tetsuro questiona.
Abro a boca. Nada. Fecho novamente. Me sinto nervosa. O ambiente de leve tornou-se hostil de uma maneira a qual não me habituei. Quero sair ás pressas, passar pelos dois homens na porta e correr de volta para casa. Nervosamente coloco o violão dentro da capa, erguendo-me pronta para empurrar se for preciso.
—Como pode ser tão babaca? — ouço Noah resmungar.
Ele passa por Tetsuro caminhando calmo até alcançar a cadeira na minha frente. Senta-se tranquilo, apoiando as costas no móvel.
—Brown, como veio parar na casa da minha irmã?
Ele continua usando os óculos escuros. Dá uma certa ilusão de que pode ver como me comporto. Não me deixa confortável. Muito menos os olhos avaliadores de Tetsuro ou os curiosos de Andrea. Quase peço socorro para Charlie pelo olhar.
—Muito bem, seu bando de babacas. Voltem pra sala! Xô! Se não forem ajudar caiam fora.
Seguro o violão perto, quase como um escudo. Fico indecisa sobre acertá-lo na cabeça de Tetsuro. Não me sinto nem minimamente confortável com alguém como ele por perto. Parece saber de cada um dos meus pecados só em me ver mover os olhos. Andrea belisca algo da panela e faz careta. Sai apressada agarrando a mão de Tetsuro, quebrando a encarada fixa dele.
—Noah, você também.
Ele ignora Charlie.
—Você também toca violão?
Meus dedos estão trêmulos.
—Sim — forço a palavra a sair da minha boca.
—Pode tocar de novo?
Pisco.
—Quer... Ouvir?
—Por que outro motivo te pediria pra tocar?
—Ei — Charlie interrompe, irritada — Se for ser babaca com a visita cai fora da cozinha.
Noah pragueja.
—Esse é o meu jeito, Charlie.
—E essa é a minha casa. Adivinha de quem é a vantagem?
Ele solta um muxoxo. Noah levanta. Quero pedir que fique, mas concordo com Charlie. Silenciosa, observo os movimentos dele conforme se direciona para a sala onde Tetsuro e Andrea se sentam juntos, agarrados até. O cabelo, os ombros, as mãos. Não posso evitar olhar suas mãos em dedos longos e delgados alcançando apoio para poder se orientar pela casa.
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