Amor Cego
48 Confissão
Notas iniciais
Ainda estou bêbada? Não venho pensando muito as minhas ações e meu nariz ainda não dói tanto quanto eu esperava. Será se arranhei o rosto também?
Penso em ficar de pé para alcançar o shampoo do outro lado do banheiro mas tenho medo de escorregar e bater a cabeça em algum local. Faço um bico antes de abrir a boca.
—Noah?
—Tô aqui.
Um silencio, conforme decido se realmente peço ou não. E se ele se recusar e ficar o constrangimento eterno de não ter compartilhado o shampoo?
—Pode me ajudar?
—Preciso tampar os olhos?
—Acho que não, né.
Ele empurra a porta, entrando no espaço minúsculo.
—Te ajudo como?
—O shampoo. Em cima da pia, bem na sua direita. Achei que escorregaria se tentasse pegar.
—Provável.
Noah se vira para sua direita primeiro encontrando a pia e em seguida passando as mãos até localizar os dois frascos.
—São masculinos. Tem problema?
—Shampoo é shampoo.
Ele se aproxima devagar. Passos meticulosos. Primeiro o pé na sua frente e logo em seguida o corpo, tentando não esbarrar em algo. Bate o pé suavemente na banheira e se abaixa, perigosamente perto. Movo-me com descrição para o canto do local.
—Quer que eu lave o seu cabelo?
Posso recusá-lo. Posso mandar que saia imediatamente, que me sinto envergonhada, mas isso seria mentira. Não quero recusá-lo. Venho perdendo-o de meu peito faz um bom tempo. Qual o problema de aproveitar a sensação agora?
—Quero.
—Chega pra cá, então.
O olho. Está de bermuda moletom e camiseta preta avessada. Cabelo desarrumado preso atrás da orelha e expressão limpa de emoções. Fico de costas para ele.
—Tem muito ou pouco cabelo?
—Intermediário.
Olho para ele por cima do ombro. Vejo Noah sentar na beira da banheira, as costas meramente apoiadas na parede com as pernas para o outro lado. Ele deixa um dos frascos no chão e põe uma quantidade na mão antes de repetir o processo com o outro. Seguro –a e a pouso no topo da minha cabeça.
Noah passa o produto de suas mãos ao meu cabelo e em seguida começa a massagear o couro cabeludo, os dedos se infiltrando pelos fios. Quase pego no sono. Ele pressiona levemente e começa um conjunto de movimentos circulares indo devagar do topo para as extremidades do meu cabelo. Primeiro se foca no couro e depois passa para o resto do cabelo. Relaxo nas mãos dele e mal percebo que deito parcialmente a cabeça em sua perna.
—Você disse que não bebia.
Seu tom não é questionador. Nem julga. Ele só quer entender.
—Eu sei.
—Tem alguma coisa errada?
—Tem.
Parte da minha consciência já está de volta e temo levemente que se foi Tetsuro que me buscou no bar e Andrea estava no quarto dos dois, possa significar uma coisa: Noah escutou o que eu disse. Respiro fundo e arrumo a postura, as mãos dele ainda no meu cabelo.
—Quer falar sobre?
—Meu pai me deixou por uma nova família — relembro — Perdi Samir por não conseguir me apaixonar por ele.
—Você... Ele... O quê?
—Samir gosta de mim, mas eu não consegui gostar dele. —continuo parada, ainda de costas para ele.
—Por que?
—Por causa de você.
Silencio. Demora ainda alguns minutos e a água já começa a ficar fria. Toco seu pulso levemente.
—Pode terminar? Vou acabar congelando.
—Ah, claro. Desculpe.
—Tudo bem — fico quietinha conforme ele enxágua com a extensão da torneira — Não precisa me responder, também. O que eu sinto sou só eu. Não deveria te influenciar.
—Influencia. Claro que...
Ele para. Deve estar tentando arrumar as palavras certas. Noah passa o segundo produto e enxagua. Ele sai e termino meu banho ficando enrolada na toalha que Noah me deixa, o equilíbrio melhor, mas ainda afetado. Saio do banheiro estranhando a demora de Andrea e Tetsuro. Localizo minhas roupas e a caixinha de primeiros socorros pousada em cima da cama de Noah, uma sacola perto de ambos.
—Acho que os dois já vieram aqui.
—Andrea e Tetsuro?
—É. Minhas coisas estão na sua cama. Vai ter que colocar um curativo no meu nariz.
—Boa ideia deixar isso para o cego fazer.
Ponho minhas roupas rapidamente me questionando se não deveria voltar para o meu apartamento. Seco o cabelo o máximo que consigo e fico pensando que se ela e Tetsuro nos deixaram a sós deve ser para resolver essa situação de uma vez por todas. Chega de enrolação.
—Suas roupas estão molhadas — pontuo sentando na cama e abrindo a sacola com o remédio para ressaca — Eu trocaria antes de pegar um resfriado.
—Ah... Ok. Não olha, beleza?
—Não vou.
Noah se localiza no quarto. Direciona-se até sua cômoda. Assisto, em silêncio, ele tirar a blusa jogando-a em cima da cama. Analiso cada centímetro de pele alva que ele esconde, cada sinal, cada linha direcionando-se para cima ou para baixo. Troca o short rapidamente por uma calça moletom, a camiseta por uma de mangas longas.
—Está com frio?
—É. Tô tremendo um pouco.
Passo meus olhos por ele, de cima a baixo, um corpo tão em formado que fica difícil acreditar que não seja do tipo que gosta de fazer exercícios. Tomo o remédio que Tetsuro trouxe mastigando as pastilhas esverdeadas com gosto de menta junto e ajudo Noah a jogar suas roupas no cesto. Leva alguns minutos, mas finalmente sentamos de frente um ao outro, em sua cama, ele passando a pomada anti-inflamatória pelo meu rosto e eu quietamente o observando.
—Por que se meteu em uma briga? — Noah faz uma careta — Podia ter se machucado bem mais.
—Isso não foi da briga. Eu bati o rosto no asfalto quando o Tetsuro me apressou.
O olho direito de Noah estremece.
—Eu mato o Tetsuro.
—Ele não é tão mal. Quando uma maluca ia derramar mais uísque em mim ele me protegeu.
—Foi? Então ninguém brigou hoje.
—Ah, briguei sim. Soquei o namorado dela quando bateu no Tetsuro.
—Você defendeu ele?
—Acho que sim.
—O Tetsuro?
—Isso.
Noah ergue as sobrancelhas.
—Sempre me surpreende.
—Isso é bom?
—Não é ruim.
Noah termina o trabalho no meu nariz. Quando acho que vai se afastar ele procura minhas mãos até encontrar a direita.
—O que tá fazendo?
—Não dói?
—Não?
—Mesmo depois de socar alguém?
—Ah. Só tá vermelha. Não é problema.
Noah se levanta. Vejo-o andar até o banheiro e voltar com um gel estranho. Põe um pouco na mão e passa nos nós dos meus dedos.
—Por que tá fazendo isso?
—Eu tenho que ter uma razão?
—Preciso de uma. Ou eu posso interpretar mal.
—Não gosto quando se machuca — ele argumenta, as sobrancelhas juntas — Se soubesse que se afastaria de mim depois daquela noite nunca teria concordo em cantar.
—Não me afastei por isso.
—Me explique, então.
—É tão difícil assim de aceitar?
—Você... Eu sei que é bonita. É talentosa, rica. Por que diabos ia se apaixonar por alguém como eu?
—Alguém como você?
—Um cego. Eu nunca vou ser capaz de dizer o quanto eu te acho linda ou o quanto eu prefiro você ás outras por simplesmente não saber.
—E como sabe que eu sou bonita?
—Eu toquei seu rosto e o que esculpi dele muitas vezes pra não te ter queimada na minha memória.
Solto uma risadinha, impaciente.
—Eu disse que a sua cegueira não te tornava quem era — relembro — Quando a gente conversou na aula do Russel a primeira vez, lembra?
—É, mas...
—Eu tava errada. Ser cego te fez como agora e eu me apaixonei por isso. Tudo o que te compõe. Sei que vai mudar, que sei jeito vai mudar, a aparência, a voz e mesmo assim eu não... Me importo. Gosto de você da mesma forma.
Noah estremece. Ele junta as sobrancelhas, confuso.
—Não entendo.
Separo minha mão das dele.
—Vou fazer mais claro então — pressiono os lábios — Posso?
—Elise...
Levo ambas as mãos até o seu rosto. Não faço nada bruscamente, espero que se acostume com meu toque antes de me inclinar na sua direção. Suspiro próximo aos seus lábios, um aviso terno da minha aproximação. Vejo ele tencionar levemente ao toque. Canso de esperar tanto. Fecho os olhos, a boca encostando na de Noah.
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