O jantar com os Sprouses se passa tranquilamente, a irmã mais velha de Louis chega do trabalho e recebe-me com o mesmo afeto e calor do resto da sua família. Todos na mesa comem e bebem tranquilamente, conversando sobre as tarefas do dia a dia, estresses momentâneos e notícias ouvidas das bocas de outras pessoas.

Louis está ansiosa. Quer saber mais. Ela foi quem presenciou o momento exato do meu recluso casulo imaginário estabelecendo ao meu redor formado pela música de Noah. Logo antes de começar a falar de tudo sua mãe nos chamou para o jantar. Ela é uma das primeiras a terminar e me apressa com o olhar para fazer o mesmo.

***

Deitada na sua cama, ergo o tronco para olhar Louis. O queixo apoiado em uma mão, as pernas cruzadas, a outra mão ao redor do corpo, analisando toda a história que lhe contei.

—Bom, pelo menos superou sua paixonite.

—Não era paixonite! Não entendeu? Aquilo era doentio! Eu era... Obcecada pelo Noah.

—Ah. Pelo menos percebeu a tempo, né?

—Você é uma cabeça de vento — deito novamente — Olha... Eu realmente acho que não sou mais obcecada por ele. Não tem toda aquela necessidade de possessão. Não sei o que é.

—Paixonite?

Bufo.

—No começo eu só queria que ele me notasse — começo — Queria tanto poder ser reconhecida por ele. Escutar ele cantar de novo.

—E depois cavalgar na direção do por do sol.

Jogo seu travesseiro nela.

—O Noah... Ele não é o que eu esperava, mas ele é gentil. Muito gentil. Sofreu o suficiente.

Sinto a mão de Louis no meu tornozelo.

—O que sente perto dele?

Junto as sobrancelhas, encarando o teto. Avalio minhas recentes emoções, desde o momento em que penso ter deixado de trata-lo como alguém que deveria ser perfeito ao meu padrão.

—Meu coração fica em paz — pouso a mão no peito — Ele me passa a sensação de casa. Conforto. Noah... Me faz rir e meu tempo com ele sempre é tão... Feliz.

— E o que aconteceu quando viu a tal da Kya vagabunda?

—Louis.

—Desculpe, costume.

—Ela... É muito bonita. Noah parece gostar dela. Dói, mas eu... Quero que ele seja feliz.

Louis assente e engasga a risada. Ergo o tronco, avaliando-a.

—O que foi?

—Você ama ele, Elise. —ela dá de ombros — Nega tanto pra si mesma. Queria mesmo que eu falasse? Tá mais do que na cara. Ele abriu seu coração, te fez se importar com os outros ao seu redor e você ficou tão doce que quase me dá cárie.

—Eu não sou doce.

Louis ergue uma sobrancelha acusadora.

—É verdade.

—Sei. Olha, Elise — ela se aproxima e toca minha mão — Não era obsessão antes. Era só um crush muito demorado. Obsessão seria se você começasse a seguir ele, procurar mais informações, usasse o dinheiro da sua mãe pra tirar fotos indecentes dele...

—Como você é promíscua.

—Só ideias, querida. Você não era obcecada com ele, sai dessa. Você se iludiu, só isso. E depois do que parece ter sido um processo bem demorado deixou de ficar concentrada na ideia que tinha dele pra aceitar quem ele é.

Junto as sobrancelhas, negando com a cabeça.

—Eu não amo Noah.

—Tem certeza disso?

Desvio o olhar, a boca seca.

—E você? Como pode afirmar com tanta certeza?

Louis põe as duas mãos nos meus ombros.

—Elise. Você mudou. Pode me dizer um milhão de vezes que mudou por si mesma e o objetivo pode até ser esse, mas o impulso foi ele. Noah te fez sentir as outras pessoas ao seu redor. Te fez mais atenciosa. Se alguém te faz bem e ainda te provoca a ideia de se tornar uma pessoa melhor, como pode dizer que não é amor?

Encolho os ombros.

—Por que... Não parece ser isso. Não pode ser só admiração?

—E como deveria parecer? Tem algum padrão a se seguir?

—Eu não sei! Deveria ficar desesperada por não ter ele e sofrer como o diabo?

—Isso aí é coisa de Hollywood.

Coço a nuca, confusa e temerosa pela profundidade da ideia de “amor” representar pra mim. Até onde sei a única pessoa que amo seria minha mãe.

—E como é isso? — olho Louis — O amor de verdade?

Ela deita-se de barriga para cima tocando seu estômago em um meio sorriso, as pernas balançando fora da cama, o olhar perdido.

—Você sente — aponta o coração — Parece que te transborda. Não tem certo ou errado. Para alguns significa proteger, pra outros significa aceitar. O que acha que significa?

Junto as sobrancelhas.

—Eu não sei.

—Tá. Você me ama, não é?

Continuo confusa pela sua associação. Trinco os dentes, avaliando-me. Se minha mãe precisasse, claro que sairia correndo da capital em busca de ajuda-la. Da mesma forma com Yuri, então certamente faria isso a Louis. Ela está do meu lado faz muito tempo, muito mais do que outra pessoa suportaria.

—Sim.

Louis sorri.

—Faria tudo ao seu alcance pra me ajudar, não é? E ajudar até ela também — vejo-a afagar a barriga.

—É.

Ela respira fundo, o cabelo castanho claro encaracolando de forma a deixa-la com uma aparência tão mais jovem do que já é. E temo tanto por ela quanto pela criança. Não quero ver nenhuma das duas partes sofrendo, tenho o impulso de ajuda-las. Isso não é empatia? Pressiono o meio da testa. Talvez não seja. Não me ponho no lugar de Louis, eu a vejo como uma pessoa exterior e mesmo assim quero cuidar dela.

—Elise. O que vai fazer agora?

—Como assim?

—Já sabe que o ama. Vai fazer algo a respeito?

Coço a nuca. A ideia ainda me parece tão absurda. Imaginava ter algo profundo guardado por ele, mas não tão intenso dessa forma. Ao fechar os olhos e pensar em amor só consigo lembrar do retratado nos filmes românticos: orgulhosos, chorosos e cheios de dramaticidade. Alguém morrendo ou se separando no final. Um amor que precisa ficar perto, precisa ter um compromisso, ser recíproco. Não me vejo com nada disso.

Só... Quero garantir que estou lá quando precisar.

—Nada — respondo deitando pela segunda vez — Não vou fazer nada. Noah gosta de outra pessoa e tudo bem.

Pego o celular carregando ao meu lado e pressiono o botão de ligar, lembrando Samir.

—Nada mesmo? — Louis bufa — Bobona.

—Bom... Mais ou menos — confesso — Vou pelo menos ter um encontro.

—COM O NOAH?

—Não grita, Louis.

—Ah, é, desculpe.

O aparelho liga e respiro fundo.

—Acho que deveria te contar sobre esse outro cara.