Amor Cego

36 Amadurecer


Encaro o reflexo no espelho. Meus traços parecem bem mais relaxados apesar do trabalho ser um tanto cansativo e a rotina me deixar moída todas as noites. Passo a mão pelo cabelo, deslizando os dedos pelo comprimento passando dos seios. Cresceu bastante. Sinto que meu emocional fez o mesmo.

Minhas olheiras diminuíram. Minha pele está mesmo mais bronzeada e ganhei um pouco mais de carne devido me cobrar uma alimentação melhor já que não quero desmaiar como ocorreu ao conhecer Charlie. Falta menos de duas semanas para a prova de Russel e o concurso municipal será no dia seguinte. Já deve passar das sete da manhã e acabo de voltar de uma corrida ofegante e cheia de conversa com Charlie e Andrea. Infelizmente, o assunto era mais voltado a aproximação de Kya e Noah.

Pego a tesoura em cima da pia. Penteio o cabelo deixando-o o mais liso possível. Ponho a lâmina na altura do queixo. Relaxo e corto. Faço o mesmo com a mecha seguinte e a outra e mais outra. Termino o corte rápido e tiro o excesso de cabelo dos ombros experimentando colocar atrás da orelha.

Fico fisicamente semelhante a como era antes. Porém, meus olhos parecem amadurecidos. Sorrio, satisfeita comigo mesma. Venho interagindo pouco com os companheiros de faculdade justamente por causa do trabalho consumir tanto do tempo que tinha livre. Agora, quem mais encontro é Samir, o pianista insiste em algumas vezes me buscar no café e deixar na porta do dormitório. Beija minha bochecha e sai até o carro estacionado abaixo na rua.

Limpo a sujeira deixada pelo cabelo. Andrea e Charlie acabaram se tornando companhias mais do que agradáveis. A mais alta sempre é mais quieta e compreensiva, a segunda mais traiçoeira e sorridente. Agradeço pelo tempo com ela se diferir bastante com o tempo passado com o namorado dela. Tetsuro é um pé no saco, de verdade. Após o dia que dei o violão de presente a Noah e o avisei sobre minha indisponibilidade, essa praga em forma de homem insiste em aparecer na porta das salas quase todos os dias, a não ser as terças, quando vejo Noah na aula de Russel e o próprio me entrega um copo de café acompanhado de rosquinhas.

Nas aulas aprendendo um pouquinho de cada instrumento passo a ele o básico que consigo absorver. Nosso plano era fazê-lo aprender pelo menos o violão e o piano até o dia do sorteio em que Russel diria qual instrumento os alunos iriam utilizar para a prova, duas semanas antes do acontecimento, ou seja, hoje. Mesmo estando significantemente longe dele, posso ver seu esforço em tentar aproximação. Me perturba e agrada, porém não a continuo.

Tomo um banho rápido e gelado, coloco uma camisa e calça comuns me encarando no espelho. Fiquei maravilhosa, me impressiono de estar tão bonita em plena terça. Pego a mochila com a roupa do trabalho e meu caderno e sigo para o campus. Sento-me na cadeira ao fundo, ao lado de Noah já em seu lugar de costume.

—Ei — cumprimento — Cabelo solto? Fica legal desse jeito.

Ele ergue um sorriso, estendendo o café e o pacote de rosquinhas na direção errada. Estranho. Pego ambos de suas mãos notando o estado friento de seus dedos. Bate a perna freneticamente no chão, a bengala entre a esquerda e a direita.

—Noah? Tá nervoso?

—É... Um pouco.

—Quer me falar a razão?

—Eu... Sei que é idiotice me sentir dessa forma por causa de uma disciplina — ele vira o corpo na minha direção, sem saber ao certo onde posicionar a cabeça — Mas eu me esforcei dessa vez e não quero fazer você se arrepender de passar tanto tempo me ensinando.

Junto as sobrancelhas. Meu peito dói por vê-lo ansioso. Lutando contra minha racionalidade, levo minha mão até a sua pousada no joelho esquerdo. Hesito antes de tocá-lo, temendo que ele acabe evitando o conforto. A mão dele está mesmo muito fria. Diferente do costume de antes, Noah não salta ou paralisa ao meu toque. Assim que sente minha mão ele vira sua palma para cima e captura meus dedos.

—É uma... Questão de ponto de vista — quase ofego, forçando-me a desviar o olhar — Se você se esforça em algo é normal que se sinta nervoso com um teste.

—Não acha bobagem?

—Nem um pouco.

Noah sorri levemente e sua outra mão cobre a minha. Olho ele conforme desenha círculos nas costas do membro entre as dele.

—Elise.

—Hum?

—Nunca me recompensou pelo sumiço.

Bufo. Noto como ele tenta mudar de assunto para melhorar o nervosismo. Russel inicia a aula passando algumas instruções e nós dois começamos a conversar baixo alheios aos nossos arredores.

—Amanhã eu te levo em um lugar — ofereço.

—E o seu trabalho?

—É pra lá que vou te levar, na verdade.

—... Okay? Mas... Por que?

—Vai saber quando eu te mostrar.

—A propósito... Que horas seu turno termina?

—22:00. Por que?

—Eu... É... Quando tem dia de folga?

—Terças.

—Hoje?

—Isso.

Vejo suas bochechas avermelharem.

—Pode me ajudar com os acordes da minha música?

Avalio-o. Tento entender a razão de sua vergonha, entretanto não encontro nenhuma plausível se não o desconforto gerado pela leve distância que impus entre nós dois.

—No violão?

—É.

Passo a mão livre pelo rosto, sem saber ao certo como devo responder sem ser evasiva ou infantil.

—Kya não...?

—Eu só mostrei a música pra você. E pro Tetsuro, mas ele não conta — os dedos dele me apertam.

Ignoro as borboletas em meu estômago pontuando que não sou especial a ele, é apenas uma tentativa de restabelecer a amizade vinda dele após algum tempo de separação quase total.

—Se for assim... Tudo bem.

—Obrigado.

—Tudo...

—Brown! — escuto a voz de Russel — Fica com saxofone.

Arregalo os olhos. Encaro o professor, riscando algo na prancheta sem se incomodar em ter acabado de me reprovar em sua matéria quase instantaneamente. Saxofone? Nunca nem cheguei perto de instrumentos de sopro! Sabia da necessidade de ter pulmões resistentes e exatamente por essa razão nunca os levei em consideração. Apoio a cabeça no encosto da cadeira, olhando o teto e xingando meu azar.

—Parker. Piano.

Um conjunto de reclamações. Claro que todos queriam esse instrumento, justamente por ser o favorito do professor. Já penso na mão de Noah distanciando-se da minha, porém ela continua onde está, me segurando no lugar.

—Eu... Posso te ajudar — fala — Sei bem pouco de saxofone.

Sorrio.

—O aprendiz vira o mestre.

Ele sorri também, mas sei que estou completamente ferrada com a prova. Nunca levei em consideração os instrumentos de sopro e passo a me arrepender amargamente disso. Não sei como vou aprender o básico dele em menos de duas semanas sem acabar destruída emocional e fisicamente.