Amor Autista
8 Capítulo 8 - Confiança
Notas iniciais
***Capítulo OITO***
Já tinha se passado algumas horas desde que a família Cullen havia chegado em Forks, mas precisamente em sua antiga casa. Tudo já estava em seu devido lugar e limpo, mas uma coisa estava fora de lugar. Apenas uma coisa. Seu filho, Edward ele ainda se encontrava dentro de seu fiel amigo particular. O armário.
Carlisle deu algumas batidas na porta a meia hora atrás, mas nem sinal de resposta soou de lá de dentro. Ele tinha medo de que seu filho estivesse regredindo mais uma vez e estava tentando não entrar em pânico novamente.
Esme por sua vez, se trancou no quarto e chorou. Chorou por se sentir um nada, por sentir-se uma mãe inútil. Enquanto Rosalie estava na sala junto do pai assistindo a algum desenho que o pai não conseguia identificar, pois ele via apenas a tela da televisão acessa e nada mais, sua preocupação para com seu filho o impedia de ver qualquer coisa que estivesse a sua frente.
Mas Esme, respirou fundo quando a voz de seu marido soou dentro de sua cabeça — Tudo vai ficar bem, meu amor. Vamos deixá-lo matar a saudade. Quem sabe ele não está precisando desse tempinho com o seu armário. Essas palavras soaram uma, duas, três vezes em sua mente e ela começou a respirar com alivia, acreditando que talvez era disso que seu filho estava precisando. Matar a saudades daquele móvel.
Levantou-se de sua cama onde se encontrava com algumas lágrimas não contidas nos olhos e foi-se recompor para sair dali e ao passar pelo móvel, parou e suas palavras vieram a mente — Espero que você esteja certo. É insuportável ver o nosso filho assim. Me sinto como uma fracassada. Um suspiro alto fez-se soar, Esme não sabia o que fazer para que seu filho não regressasse. Caso isso acontecesse, ela não sabia o que seria de si, muito menos de sua família.
Esme encostou a palma de suas mãos na porta do armário delicadamente, como se fosse de cristal e a qualquer toque mais pesado pudesse quebrá-lo. Depois das mãos foi a lateral de seu rosto na esperança de ouvir algum som vindo de dentro, mas infelizmente ou felizmente, ela não ouviu absolutamente nada, mas sua preocupação não mudou, nem a sua, nem a de seu marido que mesmo de longe, observou-a a cada movimento feito por ela.
Carlisle tinha a preocupação de que seu filho pudesse ter mais uma recaída e de que dessa vez, não pudesse superar. Sabia ele de que se isso acontecesse, Esme cairia junto com Edward e ele não iria suportar ver tanta dor e tristeza nos olhos de sua mulher e sucumbiria também.
Esme saiu Dalí e foi em direção a cozinha com o coração na mão. Carlisle pediu para que sua pequena Rose ficasse quietinha brincando no carpete da sala enquanto ia na cozinha tomar um copo de água, mas na verdade, Carlisle estava indo ver como estava sua mulher. Entre os dois era uma regra e ela poderia nunca, jamais ser quebrada por nenhum dos dois. Se um desmoronar, o outro tem que ter força suficiente para os dois e ajudar o que cair e se reerguer. Mas Carlisle não estava 100% certo disso, como todos sabem, regras foram feitas para ser quebradas...
Quando entrou na cozinha, sua mulher estava colocando uma chaleira no fogo, estava preparando um chá de camomila, se sentia muito nervosa e ela sabia que tinha de ficar calma urgentemente, não apenas por si própria, mas também para sua família.
– Você está bem? – perguntou seu marido.
– Você acha que eu estou bem. – respondeu ironicamente.
– Não. Eu sei que você não está nada bem, assim como eu também não estou.
Esme sentiu o medo soar na voz de seu esposo porque era isso que ela estava sentindo também e se sentiu culpada com as palavras duras que dirigiu ao seu marido.
– Desculpe-me pelo o que eu disse. – Carlisle chegou mais perto dela abraçando-a e beijando o topo de sua cabeça.
– Eu sei exatamente o que você está sentindo, minha querida. Não se desculpe.
A água do chá já estava fervendo, Esme depositou duas xícaras em cima do balcão e depositou a água quente nelas, colocando logo em seguida dois saches de camomila, um em cada xícara. Todo esse processo foi feito no mais absoluto silencio. Ao tomar o primeiro gole de chá, Esme ficou pensativa e quando levou a mão pela segunda vez á boca, parou no meio do caminho, abaixando-a, respirando profundamente antes de se virar para o seu marido.
– Você não acha que ele já está á tempos demais dentro daquele armário? – perguntou com os olhos rasos d’água, mas o que ela queria mesmo dizer era: não vai fazer nada? Vai deixar nosso menino naquele maldito armário velho?
Carlisle não sabia o que fazer, sentia-se de pés e mãos atadas nesse momento. Por mais que venha sendo forte, ele não era o homem de ferro que suportava tudo sem direito a reclamar, mas era seu filho ali. E por ele, ele deveria ser não só o homem de ferro como o super man sem direito a criptonita. Carlisle é o herói que, seu filho precisa.
O silencio foi quebrado por Esme, que perguntou onde estava Rosalie, Carlisle disse que a tinha pedido que ficasse quietinha brincando, mas por mais que Rosalie seja uma criança bem diferenciada de muitas da sua idade, o recinto estava quieto demais.
A passos largos, Carlisle não encontrou sua pequena onde havia pedido que ficasse brincando e correu para a porta de entrada da sala por que sua filha poderia ter saído. Mas ela não estava no quintal, Carlisle deu a volta na casa e nem sinal de Rosalie por ali e então voltou correndo para dentro de casa entrando pela porta da cozinha. Passou por sua mulher que ainda se encontrava do mesmo jeito, sentada e agora tomando o seu chá frio, quase congelando e rumou em direção as outros cômodos da casa. Carlisle não queria preocupar sua mulher. Ela já tinha preocupações demais.
Ao andar apressado no corredor, ele conseguiu ouvir risos infantis, vindo de dentro do armário. Seu coração disparou rapidamente, parecia que estava correndo uma maratona de 26 km. O alívio foi tão grande, que Carlisle desabou no chão. Alivio por sua filha não ter saído de casa, alivio por estar junto de seu filho, alivio por ouvir as risadas dos dois, alivio... Alivio por sentir o amor que seu filho autista tem para com sua irmã e vice versa.
Esme ao avistar seu marido no chão com a cabeça encostado na parede respirando profundamente, assustou-se e foi até ele ficando a sua altura. Com um toque firme no ombro dele perguntou, mas não foi preciso obter resposta, pois uma das portas do armário foi aberta e uma pequenina cabeleira loira surgiu de trás dela. Era Rosalie que saia de lá toda sorridente e se jogou no colo de seu pai chamando-o para voltarem a brincar. Esme ainda continuava sem entender o que acabou de acontecer.
Foi tirada do seu devaneio pelo barulho rangedor da porta do armário, era Edward que colocava sua pequena cabeça para fora.
– Mãe, posso te fazer um pedido?
Esme olhou atentamente para o seu filho e com um simples aceno de cabeça, concedendo-lhe a falar.
– Posso ficar aqui mais um pouco? Prometo que não irei demorar e assim que a senhora me chamar eu saio daqui.
O pedido de Edward tocou fundo em sua mãe. Ela nunca imaginou que ele poderia fazer um pedido daquele sendo que até pouco tempo aquele armário era o seu refúgio, o lugar onde ele se sentia bem até descobrirem sua doença. Isso mostrava que eles estavam progredindo no tratamento do filho e não – como pensou assim que colocou os pés na casa de Forks – que haviam regredido. Com os olhos emocionados ela concedeu o seu pedido alegremente e saiu voltando para a cozinha animada para fazer um banquete para a família.
Mais tarde naquele dia, gargalhadas eram ouvidas vindo de fora da casa de Forks, que agora se tornou a casa de passeio. Carlisle estava sentado na grama da frente observando seus filhos brincar quando sua esposa apareceu com uma bandeja com copos de limonada. Carlisle pegou o seu agradecido e com um assovio, chamou seus filhos que vieram correndo até seus pais. Cada um pegou o seu copo e Edward bebeu sua limonada de uma vez, sem parar para degustar ou respirar em uma golada e outra.
Após refrescarem-se com uma deliciosa limonada feita pela mamãe, Edward e Rosalie voltaram a brincar de pega-pega no quintal da frente sob os olhos atentos dos pais. Apesar de não ter 1 ano ainda sobre a descoberta do autismo em Edward, seus pais ainda, mesmo que demonstrando todo o apoio para com seu filho, no fundo de seus corações, ambos ainda tinham medo de ele não ser aceito na sociedade quando fosse adulto e quiser traçar seu próprio caminho sem a ajuda de ambos.
Logo depois da descoberta do diagnóstico, Carlisle preocupou-se com outras crianças que tinham o mesmo problema que seu filho e isso o fez ir a procura de uma clinica que ajudava crianças carentes com problemas mentais e Carlisle fazia questão de ajudar uma criança por um ano com o tratamento adequado. Não era o que ele queria, ele queria poder ajudar mais, mas isso o fazia se sentir bem em relação ao que vive.
As crianças brincavam alegremente no jardim quando Carlisle avistou uma amiga de longa data de Esme caminhando.
– Esme, aquela não é a Sue? – Esme olhou na direção que seu marido indicava com o queixo.
– Sim, é ela mesma. – disse levantando-se e indo em direção á amiga que muito não a via. – Sue? — saudou-a quando se aproximou.
Sue estava caminhando de cabeça baixa quando ouviu a voz de Esme e como não estava prestando atenção em nada a sua volta, assustou-se com o chamado olhando para cima rapidamente levando alguns nano segundos para que ela focasse no rosto de Esme que ao reconhecer devolveu-lhe o sorriso que lhe era oferecido.
– Esme, quanto tempo! Não sabia que estava de volta a cidade. Na verdade eu só soube de sua partida alguns dias depois de sua partida silenciosa de Forks. – cutucou a amiga que Esme não reconheceu nessas poucas palavras ditas a ela, mas Esme decidiu deixar para lá.
– Pois é Sue, precisamos mudar de cidade por motivos de saúde, mas estranho que você não tenha ficado sabendo disso logo. A cidade é tão pequena.
– Sim, Forks é minúscula, um ovinho na verdade, mas nem todas as notícias circulam por aí. Principalmente quando... Você sabe! – disse ela maliciosamente.
Esme olhou estranho para sua amiga com esse comentário tentando decifrar o que ela estava insinuando, até que Sue fez um gesto com a cabeça na direção de Carlisle. Esme que não esperava isso de sua então amiga, tentou não acreditar que ela estava mesmo insinuando aquilo que estava pensando. Olhava ela para seu marido que agora jogava um jogo terapêutico de Edward com as crianças, os três estavam se divertindo e Esme observava a concentração de seu filho autista. Ela ficou agraciada ao ver o que seu marido estava fazendo, jogando o tratamento do filho em numa recreação com as crianças e isso a deixou um pouco calma, mas não esquecida da sinuação de Sue de que eles foram embora por causa de uma traição.
– E então? – perguntou Sue tirando Esme de seu devaneio – Com quem foi?
– Quem foi o quê?
– Quem traiu quem? Com certeza sua saída de Forks foi porque você descobriu uma traição de seu marido. Lembro-me bem de você uma vez reclamar comigo que Carlisle não dava a devida atenção para a família.
O ar lhe faltou. Esme sentiu seu corpo tremer, sua alma sair de seu corpo, seus dentes trincaram de raiva pela ousadia da mulher em dizer-lhe isso em voz alta. Enquanto ela estava insinuando, nada poderia fazer, mas ouvir aquelas palavras em voz alta, vindo da mulher a quem ela deu tudo de si, com amizade verdadeira, apoio e força para superar a morte precoce de seus 2 únicos filhos para o tráfico de drogas, Esme sempre esteve ao lado da amiga sempre que ela precisou e ouvir esta blasfêmia dela foi como levar um tapa na cara.
Virando-se para ela e olhando-a nos olhos, disse:
– Não sei por que você pensa que esse seja o motivo de termos ido embora daqui sem dar alardes de que estávamos indo embora. Minha vida, nossa vida, a família da minha família não desrespeita a ninguém e não tenho que sair por ai gritando aos quatro cantos de Forks que estávamos indo embora. Desculpa-me se a decepcionei com isso, mas você me decepcionou muito agora, em saber que você pensou e pensa isso.
“Confesso que eu e meu marido tivemos sim nossas indiferenças conjugais, mas nunca foi por esse motivo. Eu confio em Carlisle e ele em mim. Agora se você tiver com seus ouvidos e mente aberta para ouvir o motivo real de termos ido embora daqui sem um anúncio formal á cidade, eu vou lhe contar.
Está vendo aquelas três pessoas ali? Sim, é minha família – disse ela apontando discretamente para onde seu marido brincava com os filhos no gramado – Está vendo o meu filho? pois bem, é por ele que fomos embora e antes que sua mente pequena pense bobagem, descobrimos que ele tem uma doença incurável e aqui em Forks não teríamos o tratamento adequando que meu filho precisava e precisa.”
Sue estava com os olhos arregalados de surpresa ao ouvir tais palavras que Esme estava falando e se sentindo envergonhada por pensar por todos esses meses que o motivo era outro.
– Meu filho é uma criança autista e acredito que você não saiba o que isso quer dizer ou o que seja isso, mas vou resumir para que sua mente fraca possa entender perfeitamente e não repasse de forma errada. O autismo é um transtorno cerebral e isso não tem cura, e não, ele não é um débil mental como muitos dizem por ai a qualquer pessoa que tenha um problema de cabeça. Meu filho tem acompanhamento com fonoaudiólogos, psicólogos, psiquiatras e fisioterapeutas. Meu filho parece normal por fora, mas por dentro precisa ser trabalhado e para esse trabalho ele precisa de todo esse acompanhamento para que possa crescer bem em uma sociedade com mente minúscula. E agora, se me der licença já fiquei muito tempo longe da minha família jogando conversa fora contigo, mas antes que me vou, aquele jogo que eles estão jogando é um jogo terapêutico.
Esme virou as costas deixando uma Sue atônita e sem cor para trás. Sua voz não se alterou em nenhum momento enquanto conversava com ela e nesse confronto Esme tirou uma grande lição e uma confiança que nunca mais deixaria que fosse abalada por uma recaída caso Edward tivesse. Não importa o que venha a seguir, com o gás que Esme teve e sua confiança ao extremo, seu pequeno autista teria e conseguiria o que quer que fosse. Ela não mediria esforços para ajudá-lo a realizar seus sonhos.
Naquela mesma noite, Esme confidenciou a Carlisle os pensamentos de Sue e isso o irritou, mas conforme a conversa progredia sobre o assunto, ambos chegaram a uma conclusão. Aquela pequena cidade assim como tantas outras mereciam saber o que significava o autismo. E eles tentariam ajuda para que essa voz fosse assoprada para o mundo dos ignorantes.
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