Amor Após a Morte

9 8. Encontro no Cemitério - Jane Parte 1


08. Encontro no cemitério – Jane

Parte 1

Eu estava dormindo tranquilamente quando ouvi a janela de meu quarto ranger.

Acordei abruptamente e vi a sombra negra se aproximar de mim.

Só voltei a respirar quando vi o rosto na luz prateada da lua.

Era ela.

Maríe.

— Você tem que parar de me assustar! – eu sussurro.

— Desculpe.

— O que você está fazendo aqui?

— Nada... Bem... Como você vai me ignorar amanhã o dia inteiro...

Revirei os olhos.

— Você não sabe! – eu falo para ela.

— O que? Me conta!

Sempre curiosa demais.

— Eu encontrei um garoto tão lindo... Meu Deus... Parecia... Sei lá... Não tenho palavras para... – eu parei vendo sua face desmoronar.

— Era o mesmo garoto que eu vi. – não era uma pergunta.

— Não, não era... Eu perguntei se ele conhecia alguma Maríe e ele me disse que não... Ele falou que o amigo dele poderia ter se encontrado com alguma Maríe.

— Como ele era. – ela parecia duvidar.

— Ai, lindo. – ela revirou os olhos – Tinha os olhos azuis, a pele clara, mas corada, o cabelo era loiro...

Dei um suspiro apaixonado.

— Que bom... Realmente não é o mesmo garoto. – sua face agora era radiante.

— Como era o seu garoto? – eu pergunto com uma pontada de curiosidade.

— Sabe... Não tenho palavras... Mas, seus olhos... Eram verde-água... O garoto era perfeito, quase igual ao seu... Só os olhos que mudam... – ela parou e seu rosto ficou... Triste? – Ele não disse nem o nome.

Isso era fácil de se resolver.

— Eu posso perguntar para o Bain amanhã... Quando eu for me encontrar com ele.

— Pelo menos você sabe o nome... A Meu Deus... Você vai se encontrar com ele!

Eu sorri.

— Jane, a perfeitinha vai se encontrar com alguém que nem conhece? Você tá com alguma febre de zumbi? – ironizou ela colocando sua mão na minha testa.

— Eu to... Ansiosa... – eu disse a propósito de nada.

— E devia estar mesmo. – ela me deu um sorriso malicioso – Qual é a roupa que você vai usar... Já sabe?

— Eu escolhi aquela... – antes que eu terminasse, ela já estava se levantando e indo ver minha roupa.

— Tem cumprimento demais.

O que?

— A fala sério... Você vai se encontrar com um gato, pelo menos é o que você me diz, e vai com isto? Parecendo nossa mãe? – ela revirou os olhos.

Eu nada disse.

— De jeito nenhum... Você vai com outro vestido... Um bem mais curto!

Essa era a Maríe que eu conhecia, tão... Rebelde. Bem, não sei se a palavra certa era essa para descrever o que ela era.

— Que tal esse? Não é muito curto, tem o corte bem feito, é azul, algo mais discreto e valoriza você... O que acha?

Minha gêmea era mesmo um gênio...

— É lindo.

— Então estamos de acordo com o seu vestido... Vamos achar uma sandália...

Ela já estava se enfiando no meu closet, jogando as sandálias para fora dele.

— Achei... A prata... Gostou?

Assenti.

— O que seria de você sem mim? – ela perguntou revirando os olhos teatralmente.

Eu não a respondi, já havia ficado um ano sem ela.

— O que foi? – ela perguntou vendo minha expressão.

— Nada. – eu respondi com uma voz chorosa.

— Se não fosse nada você não estaria assim.

— É que, bem, eu fiquei tão... Sozinha.

Ela veio até mim e ficamos abraçadas.

— É melhor você ir, senão...

— Até amanhã, então.

— Espere, você não vai pular a... Janela.

Tarde demais, ela já havia pulado e agora desaparecia na noite.

Voltei para a minha cama, pensando que seria impossível voltar a dormir, mas para minha surpresa dormi rapidamente, ainda mais ansiosa com o encontro de amanhã...

***

Acordei com o sol batendo em minha pele gelada.

Me sentia tão animada que precisaria reforçar minha fachada de “sem alma”e não sair correndo para abraçar todo mundo, tamanha minha animação.

Calma, eu disse a mim mesma.

Me vesti com uma cor sombria, não querendo me vestir de rosa como eu me vestiria se ainda fosse humana.

Desci pela escadaria do castelo, não sabendo se comíamos ou não, já que eu não sentia fome e não via nenhuma mesa posta deduzi que não.

Mas, vi Maríe beliscando uma caixa enquanto eu vasculhava o palácio.

Ela estava com a demoniza, então lhe lancei um olhar de ódio e saí andando, petulantemente.

Aquela coisa sorriu e continuou andando com aquele sorriso idiota estampado naquele rosto idiota e vagabundo.

Não estava com fome e tudo que eu menos queria era ter que me sentar com a demoniza e com Maríe, tendo que encará-la como se eu a odiasse.

Então eu fui para a porta, mas também não queria ir para o cemitério...

Que ótimo... Eu não tinha absolutamente nada para fazer!

Fiquei encarando a parede por alguns instantes, antes de eu me virar e me deparar com o rosto daquela demônia, agora já dava para perceber que ela era uma mulher...

— Curtindo a eternidade? – ela me perguntou, mas ganhou o silêncio como resposta. – Perdeu a língua?

Ainda o silêncio.

— Me responda! – esbravejou ela.

Ainda eu lhe dava o silêncio.

Ela se preparava pra me dar um tapa, mas eu desviei e segurei sua mão, surpresa pela força que tinha.

— Den... Me ajude...

Den me puxou com sua força, mas eu ainda resistia, o que eu mais queria era proporcionar alguma dor naquela coisa.

Ela ficaria com hematomas.

Depois de uns instantes Den conseguiu livrar a demoniza.

— Me solta! – eu disse.

— Cale a boca! – gritou a demoniza, dando-me um tapa na minha cara, como minhas mãos estavam presas, não pudi fazer nada.

— Tranque-a no calabouço.

O que? Não!

— Me solta...

Não adiantou, Den me levou para o maldito e asqueroso calabouço, trancando-me.

O que eu fui fazer?

Eu estragara tudo... Meu encontro com Bain...

Comecei a chorar sem lágrimas.