Amor Após a Morte
25 14. Ódio - Jane
Parte 2
Abri meus olhos.
Eu não estava no beco ou no inferno.
Não sabia onde me encontrava.
— Ela acordou. – ouvi alguém sussurrar.
— Jane, amor? – esta voz eu reconheci. Era Bain.
— Onde estou? – eu perguntei grogue.
— No céu. – a voz que me respondeu não era a de Bain e sim de minha...
— Mãe? Mãe?
— Aqui, querida.
Tentei me levantar, mas braços gentis me empurraram para os travesseiros.
Depois eu pude vê-la.
Seus cabelos loiros – do mesmo tom loiro meu e de Maríe, pelo menos antes de pintarmos – seus olhos castanhos claros, sua pele corada e seu sorriso radiante.
Isabelle Hateway estava bem na minha frente.
— Mamãe! – eu exclamei e me levantei correndo para abraçá-la.
— Oi querida!
E depois eu estava chorando em seus braços.
Aqui, as lágrimas escorriam.
Uma caiu sobre meus lábios.
O gosto era salgado... Um gosto que eu nunca mais sentiria. Pelo menos no inferno.
— Como você está? – ela sussurrou.
— Ah, mamãe... Não estou nada bem! – eu funguei.
— Por quê? O que está havendo? – sua voz celestial era preocupada.
Olhei para Bain.
— Vou deixá-las sós. – antes de sair ele veio e me deu um beijo na bochecha e eu murmurei “obrigada” no seu ouvido.
— Por que você disse que não estava bem? – perguntou ela de novo.
— Tantos motivos.
Ela esperou.
— Bem, o primeiro é: estou morta. O segundo: não posso nem ver Maríe com a mesma frequência. Terceiro: não posso ver meu namorado tanto quanto eu gostaria, como eu via os outros... Quarto...
— Ah, minha querida Jane! – seu sorriso não era mais radiante. – Tudo vai passar. Eu prometo filha... Vamos tirar você e sua irmã daquele inferno.
— Bain já me prometeu isso, mas não acho que ele ou você vão conseguir.
— Jane...
Percebi que estava faltando alguém...
— Cadê o papai?
— Querida, seu pai foi internado e se matou, então ele não vai subir enquanto algumas pendências não forem resolvidas.
— Papai está vagando por ai? – estremeci.
Ela assentiu e me levou para cama.
— É melhor você descansar mais um pouquinho. Vou preparar algo para você comer.Está fraca.
Ela sorriu e saiu pela porta.
Logo em seguida Bain entrou.
— Está feliz?
Dei de ombros.
Era ótimo ter minha mãe por perto, mas ainda assim...
— Jane, meu amor... Você me assustou no mundo humano. – ele fez uma pausa – Pensei que você ia matar realmente aquele cara...
— Eu ia... Se você não tivesse me impedido.
— É errado, Jane, mesmo você estando com raiva. Matar é muito ruim... Você interrompe toda uma encarnação que tem muito a pagar por seus erros...
— Ele tirou minha vida de mim. Ele gosta de matar! – eu estava em pânico pensando em todas as suas vítimas.
— Eu sei... Mas, ele vai pagar por tudo quando seus olhos se fecharem para sempre... Vai pagar nas próximas encarnações... Ele vai pagar! – ele veio até mim e me abraçou.
— Desculpa. – murmurei e afundei mais em seus braços fortes.
Ele riu aliviado.
— Eu te amo. – sussurrei.
— Eu sei. E... Eu também te amo.
Ficamos abraçados até que minha mãe voltou.
— Tome um pouco desta canja... – mamãe pôs uma bandeja na minha frente. O cheiro era delicioso e sem nenhuma hesitação eu a tomei.
Fazia tanto tempo que eu não comia a comida dela...
Ou eu fazia ou eu comprava...
— Mãe... Está deliciosa!
Ela sorriu, um sorriso radiante.
Quando acabei, ela retirou o prato vazio e trouxe um prato com torta de maçã. A famosa torta da mamãe... A torta que eu e Maríe adorávamos.
Devorei o pedaço, sentindo-me completamente satisfeita.
— Estava tudo ótimo, mamãe... Obrigada! – encostei-me a ela.
— Que bom que gostou. – ela estava contente.
— Jane... Você tem que ir agora... Eu te levo. – falou Bain do meu lado.
— Agora... – meu rosto voltou para a tristeza que estava dentro de mim.
— Ah, filha... Sempre quando Bain lhe trouxer, pode me visitar. Ele sabe onde eu moro. – ela sorriu e me abraçou.
— Tudo bem... Vamos. – mais lágrimas caiam por meu rosto.
— Leve isso para você e sua irmã. – mamãe me entregou a torta de maçã em uma mochila pequena e preta.
— Obrigada. – eu a abracei de novo.
Como era boa a sensação de um abraço de mãe... Havia me esquecido dessa sensação quando os abraços, os beijos e todas as caricias foram arrancadas de Maríe e de mim com sua morte.
— Ouça: Seja forte e aguente firme. Não vai ser fácil o que você e sua irmã passarão.
Eu assenti e ela me beijou.
— Tchau filha. – percebi que ela também tinha lágrimas nos olhos.
— Tchau.
Bain me pegou no colo e saiu pela porta. Voando antes mesmo de seu pé tocar o chão.
***
Estava de volta ao inferno.
O portão ainda estava aberto.
Antes de passar por ele, ele já estava se fechando, mas consegui atravessá-lo antes que se trancasse.
— A zumbi pródiga volta para o inferno. – demoniza me falou.
— É... Eu voltei, mas só por que não tinha outro lugar.
— Menina insolente.
— Se me der licença, vou para meu quarto.
Comecei a passar por ela, mas ela me barrou.
— Você não vai para o quarto. – ela deu um sorriso perverso.
— Vou sim.
— Ah, mas não vai. Den pegue-a.
Aquele maldito vulto veio até mim e me segurou.
Maríe passava pelo pátio...
Senti um surto de alívio... Ela estava bem novamente.
— Ah, Maríe. Por que você não pega a mochila de sua irmã e leva para o quarto dela? – demoniza falou.
Maríe veio até mim com os olhos assustados e pegou a mochila.
Ela já sabia o que era.
Pude ver em seu rosto.
— Depois eu explico. – sussurrei e acompanhei a demoniza para aonde ela estava me levando.
***
Ela me levou a uma sala toda vermelha, sem janelas e só com um móvel. Um sofá de couro.
— Vai fazer o que comigo? – lhe perguntei.
Ganhei o silêncio como resposta.
Ela estava pegando alguma coisa que eu não pude ver o que era, mas o som que fazia era agourento.
Depois ela se virou para mim e pude ver o que ela segurava.
Era a faca. A mesma faca com que eu havia sido morta.
— Como sua irmãzinha, você vai me pagar por tudo. Só que com uma dor maior.
Então ela subiu a faca e a desceu em meu peito. Ela havia feito do mesmo jeito que os assassinos.
— Fui eu quem mandou matá-la. Fiz a mente deles. – ela riu e desceu a faca novamente em meu peito. – Ah, também fiz a sua mente para que fossem escalar e fiz a mente de Maríe para que ela deixasse a corda com você...
Com mais uma facada eu estava de volta ao beco.
Revivia a minha morte e dor que eu sentira.
Ouvi novamente os risos de meus assassinos.
A cada facada, eu ficava mais fraca e me entregava ao instinto de fechar os olhos.
Fechar os olhos para sempre.
***
Quando ela percebeu o que eu ia fazer, ela parou e limpou a faca.
— Gostou da dor de reviver sua morte, minha querida?
— Víbora...
Comecei a me levantar.
— Já consegue andar? – ela estava surpresa.
Sai da sala e fui subir para meu quarto.
Meus ferimentos não foram piores dos que os de Maríe... Eles já estavam se curando e não sangravam mais.
Cheguei ao meu quarto com nostalgia... Queria tanto estar com mamãe.
Deitei em minha cama e me entreguei à dor.
***
Amanheceu.
Levantei-me, mesmo estando completamente dolorida.
Parecia que doía mais hoje.
Mesmo assim, me obriguei a levantar e ir tomar um banho.
Quando acabei fui me vestir.
A dor me tirava o fôlego, mas eu não ia dar o gostinho de vitória para aquela ordinária.
Peguei a primeira roupa que vi.
Uma calça jeans, uma camiseta branca e um all star de cano baixo preto.
Prendi meu cabelo em um coque com uma piranha e desci.
Demoniza me olhou e, de certo modo se orgulhou de mim.
Dei um sorriso e fui para o jardim.
Maríe estava lá, completamente assustada.
— Maríe, você não vai acreditar...
Ela tomou um susto e, assim que me viu veio correndo me abraçar.
— Ai... Ainda dói.
— Que bonito... As duas irmãs abraçadas!
Nos viramos abruptamente e nos deparamos com...
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