Amor Após a Morte
24 14. Ódio - Jane
Parte 1
Passei vários dias longe de Maríe.
Eu ficara assustada quando fora vê-la, ela estava totalmente pálida, de cama e, não podia se mexer.
Eu tinha ódio daquela demônia, ela não tinha o direito de machucá-la! E... Também tinha ódio de mim por não ter ficado com ela, de não ter podido salvá-la.
O ódio me consumia com suas labaredas. Era impossível não senti-lo.
Até Bain o sentiu.
— Não é sua culpa. – ele tentava me dizer, mas eu balançava a cabeça negativamente.
— É sim. Tudo é minha culpa. Tudo. – eu queria poder gritar e chorar.
— Não.
Eu me virei para olhá-lo e ele viu as chamas nos meus olhos.
— Não fique com ódio. Só lhe fará mal. – ele disse desviando o olhar e se retraindo.
— É. Impossível. Não. Sentir. – pronunciei cada palavra lentamente em um sussurro.
— Tem que se esforçar. Só por mais algum tempo. – ele parou – Daqui a pouco eu te levarei para o Cé...
— Não tem nenhum jeito de você me levar para seu mundo divino. Acho que mereço estar aqui.
— Não, Jane, não. Vamos lá... Cadê a Jane que eu tanto amo?
— A Jane que você tanto ama é esta que está na sua frente. – respondi. – Só que os sentimentos dela estão mudados.
— Jane... – ele me observou, tentando fazer com que eu mergulhasse no azul profundo de seus olhos. Mas, não deu certo. Não desta vez.
— Por favor. – sua voz era quase um gemido.
— O que?
— Volte ser a minha Jane.
Suspirei.
Seus braços me apertaram contra seu peito e eu respirei o delicioso perfume de sua pele.
Aos poucos eu deixei que ele me envolvesse cada vez mais, até que o ódio desapareceu e só me restou amor.
Ele também pode perceber isso e puxou minha boca para a sua.
Meus lábios eram tensos e os deles eram compreensíveis e calmos.
Pude perceber que ele abria os olhos e me olhava intensamente.
Não abri os meus, só o continuei beijando até que estava completamente aquecida e me desvencilhei de seus braços.
Sua mão acariciava meu rosto e ar minhas estavam em sua nuca.
Inclinei-me mais para ele. Tudo o que eu queria era poder me sentir em paz. E ele me proporcionava paz.
Suspirei.
— Pose dizer a Nate o que aconteceu? Maríe vai pirar se ele pensar que ela deu bolo nele esses dias todos. – eu disse enquanto o beijava.
— Claro.
Continuei o beijando e, desta vez era ele que se inclinava mais sobre mim.
— Melhor eu ir agora. – eu disse rapidamente.
Seus olhos eram confusos.
— Por quê?
— Se a demoniza me pega... Quem vai ficar com a estaca presa no coração sou eu. – eu disse e Bain estremeceu.
— Te vejo amanhã?
— Não. – eu estava evitando fugir do castelo, após saber sobre Maríe. Nem a visitava mais.
— Não pode sentir medo. – ele disse – Ela não vai nos pegar.
— Te vejo daqui dois dias, o.k?
— Jane...
— Tchau.
Sai e corri para a porta do palácio.
Bain também correu e conseguiu me alcançar.
— Jane não fuja.
— Bain... Acho que realmente não entende, não é? Se ela me pegar eu nunca mais vou te ver.
— Mas...
— Mas, nada.– eu disse. Minha voz era fria.
— Oh, Jane. – ele estremeceu novamente.
— Até dois dias.
Me virei e parti.
Eu realmente era uma covarde.
Não ficava mais com meu namorado, não conversava mais com Maríe...
Não era mais a perfeitinha que não tinha medo de nada.
Uma voz me distraiu.
— Da onde está vindo? – perguntou a voz nebulosa da demoniza.
— Do cemitério... Fui visitar o túmulo da minha mãe. – rapidamente eu inventei uma desculpa. – Ela teve um fim melhor do que o meu.
— Tenho grandes planos para você e sua irmã.
— E cais são? Diga-me! Eu quero saber. – eu a desafiei.
— Na hora certa...
— Não tem hora certa! – gritei.
— Olha como fala comigo, acho que já sabe o que aconteceu com sua querida irmã.
— Não fala da Maríe! Não quero saber! – eu gritava, a cada palavra meu coração se enchia de mágoa e raiva.
— Devia...
— Cala a sua boca! To farta de você... Sua ordinária! – gritei – Víbora. Você estragou toda a minha vida sua desgraçada. Estragou também minha morte. Eu de odeio! Vou conseguir um jeito de te matar... Você verá.
Eu estava louca. Estava possuída por um ódio tão grande que me tirava do sério.
— Cuidado com o que diz sua ingrata.
Sua mão voou para meu rosto, mas eu me desviei e dei-lhe um soco na barriga.
Ela perdeu completamente o ar e eu corri.
Não sabia para aonde ia. Eu apenas corri.
Vultos agora vinham atrás de mim, então apressei o passo.
Tinha um portão... Percebi que era o portão para o mundo humano.
Corri e passei por ele sem hesitar.
Agora estava livre.
Pelo menos livre até a minha volta.
***
Passei horas me divertindo em meu antigo mundo.
Fui ao cinema e de lá fui para a balada.
Como antigamente Maríe e eu fazíamos.
Eu estava tentada a ficar.
Queria ficar. Mas, sabia que não podia.
Maríe estava lá... Bain estava lá.
Tomei mais um gole de minha bebida e sai da boate.
Não tinha pressa nenhuma de voltar, então eu fui até o lugar que eu pensara que nunca mais ia ver.
Minha casa.
Agora ela estava vazia, apenas um jornal se encontrava largado no chão.
A manchete dizia:
Morre Jane Christine Hateway, vítima de um esfaqueamento em um beco enquanto voltava da casa de sua tia.
Saí correndo de lá.
Fazia e sem vida. Essa não era minha casa. A casa que eu passara tantos momentos bons com minha irmã. A casa em que eu dei meu primeiro beijo na varanda. A casa...
Decidi para onde eu ia.
Para o beco. Outro lugar que eu pensei que nunca mais veria.
Fui exatamente para o lugar de minha morte.
A chuva lavara toda e qualquer mancha de meu sangue.
Escorreguei pela mesma parede que eu havia escorregado no dia em que eu morrera.
Fiquei lá por um tempo imensurável, lembrando de todos os momentos agoniantes pelos quais eu passara. Fiquei lá até que os vi.
Meus assassinos.
Eles sorriam e esperavam encontrar outra vítima.
Fiquei de pé e fui até eles.
Seus sorrisos se esvaíram quando me viram.
— Você está... Morta! – disse o líder do grupinho.
— Sim, eu estou. Estou graças a vocês. – eu sorri – Lembram? Quando vocês tiraram todo o sangue que tinha dentro de mim?
O dono do grupo procurava a faca que tinha me matado.
Ele me ameaçava com ela.
Revirei os olhos e a tirei da mão dele.
— Demônio... – ele sussurrou.
— Sim. Graças a você e seus amigos, eu me tornei uma morta-viva. Não descansei em paz.
Eu brincava com a faca em minhas mãos enquanto falava.
— Talvez esteja na hora de eu revidar, certo? – seus olhos se arregalaram.
Fiz exatamente como ele havia feito.
Levantei a faca no alto e a desci. Mas, quando estava a um milímetro de sua pele, alguém me segurou por trás.
— Jane, não! – gritou Bain. – Não pode!
— Eu quero matá-lo. Olha no que ele me transformou. – eu disse com ódio.
— Está na hora de perdoá-los. Jane largue a faca. – sua voz ela persuasiva.
Eu demorei alguns instantes, mas depois a larguei.
A faca caiu aos meus pés.
Os meus assassinos fugiram gritando por ajuda.
Minha respiração ficou ofegante.
— Jane... Venha cá... – Bain me puxou para o calor de seus braços.
— Não é justo... – eu sussurrei em seus braços.
Ele tentava me acalmar.
Eu estava chorando agora. Chorando sem lágrimas.
— Por que não me deixou matá-lo?
— Porque é errado. – ele beijou minha testa – E... Porque você não é uma assassina.
Eu estava caindo. Podia sentir.
Assim que cai no chão ouvi alguém sussurrar meu nome.
Eu fechei os olhos e me entreguei a esta voz.
***
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