Amor Após a Morte
7 06. Cemitério – Jane
06. Cemitério – Jane
— Você me assustou! – eu falei ainda sem fôlego.
— Desculpe. – me disse Maríe.
— O que você tá fazendo aqui? – eu pergunto.
— Er... Bem... É uma longa história. – ela falou parecendo constrangida.
Olhei para ela... Ela estava encharcada por causa da chuva assim como eu, com o cabelo cheio de folhas, de camisola, com o all star desamarrado e com a boca sangrando.
— O que, infernos, aconteceu com você? – eu perguntei horrorizada.
— Quer mesmo saber? – eu apenas fiquei olhando. – Bem, eu pulei da janela, persegui um garoto, que Meu Deus era lindo, você tinha que ver.
Mas, eu parei em “pulei da janela”. Ela era louca? Podia ter... Bem, não morrido, mas se machucado.
— Pulou da janela?
— Arrã... Para perseguir um garoto perfeito, totalmente lindo...
Persegui? Sim, ela era louca.
— Por isso que eu me encontro nesse estado... E você o que faz aqui? A gêmea perfeitinha fugiu? – ela me encarou.
— Sim, eu fugi... Vim... Refletir...
— Em um cemitério? – ela me olhava como se eu fosse a louca da história.
— Sim, em um cemitério... Sabe, pelo menos eu não estava perseguindo alguém!
Maríe revirou os olhos.
— Ele era perfeito. – ela deu de ombros.
Dessa vez quem revirou os olhos fui eu.
Após um segundo seu olhar perdeu a petulância e ficou triste.
— O que foi?
— Como foi seu... Seu... – ela não conseguia terminar a frase.
— Meu ritual?
Ela apenas assentiu.
— Bem, eu fiquei em uma sala escura, com velas e incensos. – eu fiz uma pausa longa e respirei fundo, depois de uns instantes continuei — Um demônio ou uma demônia... Sei lá se era homem ou mulher aquela coisa... Enfim, aquele demônio vagabundo pegou uma adaga, perfurou o chacra do meu coração, que como você sabe, ou deveria saber, é o ponto do amor, da compaixão e do seu eu interior, e continuando, recitou palavras de ódio para tirar minha alma.
Seu olhar se arregalou.
— Mas, lógico que eu não ia deixar você me conhece, então eu pensei em todos os momentos bons que passamos e no amor que sentia por você... –minha voz agora estava trêmula – E... Consegui ficar com minha alma...
Abaixei a cabeça e Maríe veio me abraçar... Ficamos abraçadas por alguns instantes e depois eu me desvencilhei dela e a encarei.
— Mas a...
— Demoniza. – ela me disse o nome daquela coisa asquerosa.
— Mas a demoniza não pode saber que eu ainda tenho uma alma... Então... Não vamos poder ficar juntas na frente dela. Teremos que fingir que estamos de mal, que nem daquelas vezes que nós brigávamos e papai e mamãe nos separava, lembra?
Ela fez que sim com a cabeça.
Comecei a ouvir passos decididos e eu então fingi que discutia com Maríe.
— A culpada disso tudo é você... Só você! Isso não é justo... Não queria estar aqui... Mas não... Não... – eu me interrompi, parecendo verdadeiramente frustrada... Quase que a minha fachada cai quando Maríe abaixa a cabeça, claramente chateada, como se ela fosse mesmo culpada.
— Calma queridas... – ouvi a voz da demoniza. – Vocês fugiram do palácio, né? Fiquei preocupada. – a voz dela demonstrava um falso afeto.
Eu dei um suspiro e revirei os olhos.
Maríe começou com a sua fachada também.
— Eu não fugi coisa nenhuma, eu posso sair daquele palácio a hora que eu quiser...
— Não pode não querida... – sua voz agora era de uma mãe ranzinza.
— Com licença... Acho que eu já posso me retirar. – eu disse.
— Claro que sim...
Eu me virei antes de ela terminar.
— Aonde vai?
— Vou andar por ai... Pensar... – eu respondi.
— Tudo bem, vou lhe conceder o benefício da dúvida, mas se você aprontar...
Eu não escutei o final, já estava correndo, me distanciando da li.
O meu cabelo ia para trás por causa do vento. A chuva ainda não parara, então eu ainda estava encharcada.
Eu corria rapidamente, querendo que o palácio sumisse da minha vista, que tudo o que eu passei nas últimas horas não tivesse acontecido.
Eu queria que não houvesse sido real, mas foi e não há nada que eu possa fazer para mudar.
Eu continuei correndo por entre os túmulos, até que eu vi algo... Algo que me seguia.
Parei por apenas um instante e depois recomecei a correr mais depressa.
Era só isso que me faltava, que a demoniza tivesse mandado um daqueles capangas me seguir.
Eu estava com raiva agora, ora, não merecia um pouco de confiança? Tudo bem, eu havia fugido do palácio, mas ainda sim...
— Por favor, pare... Não consigo mais correr. – falou a voz que estava me seguindo, me surpreendi, esperava que a voz fosse sombria e sussurrada, mas não, era uma voz... Humana, uma voz humana masculino.
Parei de correr e me virei para quem estava me seguindo.
Quase tive um ataque cardíaco quando o vi... O garoto era lindo.
Tinha a pele branca, porém corada, era o tipo atlético, seu cabelo era loiro e seus olhos eram de um azul profundo.
Será que era o mesmo garoto que Maríe havia visto?
Ela não me dera nenhuma descrição dele...
— Oi... Meu nome é Bain... E os eu? – ele me perguntou.
— Jane...
— Você está bem Jane? Parecia meio desesperada. – seus olhos me fitavam, se eu pudesse corar, coraria.
— Estou... – não terminei, não tinha palavras para como eu estava agora.
— Desculpe a sinceridade, mas, você não parece nada bem... Você está muito pálida.
— Lógico que estou... Estou morta.
— Quer dizer que você saiu de dentro de um dos túmulos? – ironizou ele.
— Não... Quer dizer que morri, mas continuo respirando, quando eu devia estar descansando em paz.
— Hum... Acho que eu entendi.
— Tenho que ir... Se me dá licença.
Comecei a andar.
— Espere, como eu posso encontrá-la?
— Venha aqui amanhã no mesmo horário... E você me encontrara. – o que eu estava fazendo? Marcando um encontro com alguém desconhecido? Bem eu mesma. Uma garota de 16 anos que se apaixonava pelo rapaz mais lindo.
— Eu virei...
Eu me preparava para correr, mas parei.
— Você conhece alguma Maríe? – perguntei pensando que podia ser o mesmo garoto, ai nós teríamos mais um problema.
— Não, mas talvez meu amigo conheça. Ele está aqui também.
Bem pelo menos não era o mesmo garoto.
— Ok, então... Até amanhã Bain.
— Até.
Com essa eu sai correndo com um sorriso espalhando pelo meu rosto.
Meu primeiro encontro com este garoto seria em um cemitério... Nada melhor para quem morreu, como eu.
Voei de volta para o palácio e escalei a parede de pedra até meu quarto que ficava no 4º andar.
Lá eu fiquei olhando pela janela, vendo o maravilhoso garoto desaparecer por entre os túmulos, indo em direção a porta.
Quando ele desapareceu totalmente me virei e fui tomar outro banho.
Agora eu cheirava a rosas.
Depois do banho fui arrumar minha roupa para amanhã... Estava um pouco cedo, mas eu estava muito empolgada.
Deitei em minha cama macia me lembrando das feições do garoto, o garoto mais perfeito do mundo, do meu mundo.
Talvez este fosse o meu destino.
Morrer e descobrir o amor após a morte.
Quando dei por mim estava dormindo, minha respiração desacelerando e, sonhando com o belo garoto...
O cemitério me traria sorte?
Eu esperava que sim...
Bem, eu descobriria amanhã, quando nos encontrássemos...
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