Amor Amigo

35 Capítulo 35 – Felicidade Rompida


A fraca luz do início da manhã chagava de mansinho infiltrando-se através da porta da sacada aberta, iluminando o cômodo, trazendo seu frescor matinal junto à brisa que soprava.

Aconchegada ao peito do marido, Rosalie se remexeu, incomodada com a claridade, sentindo os cobertores deslizar sobre seu corpo nu. Ela gemeu baixinho revelando-se preguiçosa. Colou seu corpo um pouco mais ao dele, e o abraçou.

Ainda de olhos fechados, Emmett permitiu que um sorriso surgisse em seus lábios, enquanto seus braços rodearam o corpo dela forçando ainda mais o abraço.

– Te amo... – ele sussurrou sem abrir os olhos.

Ainda bastante sonolenta Rosalie beijou o peito dele e permaneceu em silêncio. Emmett bocejou ao encostar a cabeça nos cabelos dela. Os minutos se passaram e nenhum dos dois parecia ter interesse em levantar. Mas Rosalie estava ciente de que Noah entraria pela porta, cheio de energia, a qualquer momento. Contudo, decidira aproveitar mais alguns minutos de sono antes da ferinha levantar e ter que se arrumar para levá-lo a casa dos avós antes de ir para a faculdade.

Os minutos que ela esperava que durasse, passaram num piscar de olhos. Então ambos levantaram e tomaram banho juntos. Usando apenas um roupão de banho branco, Rosalie deixou Emmett se vestindo e foi preparar a mamadeira do filho.

Pelo o horário, já era para Noah está pulando na cama deles. Mesmo achando estranho, ela decidiu preparar mamadeira antes de ir vê-lo.

Ao passar pela sala de jantar suspirou cansada ao ver seu material da faculdade espalhado sobre a mesa desde a noite anterior. Decidiu que os recolheria assim que estivesse pronta para sair.

Minutos depois, ela voltava da cozinha com a mamadeira pronta em uma das mãos. Entrou no quarto de Noah, ao lado do seu. Um sorriso orgulhoso chegou aos seus lábios ao vê-lo dormir de barriguinha pra cima, com os bracinhos e pernas esparramados. A chupeta ao lado do travesseirinho. O travesseiro com perfume da mãe, de um lado, e Felpudo, seu ursinho de pelúcia, do outro.

Ao se aproximar da cabeceira da cama, desligou o abajur. As estrelas que refletiam no teto desapareceram no mesmo instante. Abriu as cortinas permitindo a luz do dia entrar através do vidro da janela.

Sentou-se na beirada da cama, na metade onde a pequena grade de proteção não alcançava. Colocou o bico da mamadeira na boquinha de Noah e automaticamente a mãozinha dele encostou ao objeto, seus lábios passam a se mover à medida que sugava o alimento. Ele ergueu uma perninha se espreguiçando, Rosalie aproveitou e segurou para dar um beijo. Tomou susto ao perceber que ele estava quente demais. Imediatamente levou a mão à testa do filho, afastando alguns fios de cabelo, para sentir melhor a temperatura. Não teve dúvidas, seu bebê estava com febre novamente.

Lhe aterrorizava a hipótese de que Noah pudesse estar doente. Esperou que ele terminasse de tomar a mamadeira e o pegou no colo. Estava tão quente e as têmporas úmidas de suor. Ele gemeu enquanto abraçava o pescoço da mãe, encostando a cabeça ao ombro dela. Rosalie não soube ao certo se ele gemeu de preguiça ou porque pudesse estar sentindo algum tipo de dor.

Saiu do quarto levando Noah encolhidinho em seus braços, e a mamadeira vazia em uma das mãos. No corredor, ela encontrou Emmett já vestido para sair.

– O que foi? – ele pediu assim que notou a expressão preocupada no rosto dela.

– Ele está com febre outra vez – respondeu, angustiada.

Dividindo a mesma preocupação, Emmett chegou mais perto e com uma mão afagou as costas do filho. Passou a mão no rostinho dele e desceu até o pescoço, avaliando a temperatura.

– Outra vez... – lamentou com um suspiro, não gostando nem um pouco. – Me dá ele aqui amor – ele pediu já retirando Noah dos braços da mãe. Ela deixou que ele fosse com o pai. Noah não reclamou, apenas fez o mesmo que havia feito com ela, agarrou-se ao pescoço dele e gemeu.

Ainda segurando a mamadeira, Rosalie foi para a sala de estar onde pegou o telefone e discou o número do pediatra. Emmett estava sempre a rondando com o filho nos braços.

Depois de falar com o pediatra e explicar o que estava acontecendo, virou-se para Emmett e avisou que precisavam levá-lo ao hospital. Antes de dispensar o telefone, realizou uma breve ligação para Esme, que pediu que a deixasse informada.

Rosalie chegou a sugerir que Emmett fosse para a faculdade, que ela cuidaria de Noah, mas ele se recusou alegando que não deixaria os dois irem sozinhos ao hospital de jeito nenhum. Que também precisava saber o que estava causando a febre em seu filho. Iria levá-los e ficaria até que ele fosse examinado. A faculdade era importante, contudo a saúde de seu filho vem sempre em primeiro lugar. Diante disso, Rosalie não pode contestar.

Emmett mandou que ela fosse e vestir que ele cuidaria do filho. Por mais de uma vez Noah pediu pela mãe, e ele lhe explicou que ela viria logo. Ele deu um banho, sugerido pelo médico, e o vestiu com uma roupa confortável.

Rosalie entrou no quarto do filho a tempo de lhe pentear os cabelos, mas ele chorou levando as duas mãozinhas a cabeça. Foi somente aí que desconfiou que ele poderia estar com a cabeça doendo. Apavorada com a primeira coisa que lhe veio em mente, mexeu a cabecinha dele para ver se ele conseguia curvar o pescoço, não houve problemas. Ela suspirou aliviada.

Pegou o filho no colo e saiu do quarto sendo seguida de perto por Emmett, que levava a bolsa com as coisas dela. No hall, ele agarrou as chaves do apartamento e a do carro. Abriu a porta e chegou para o lado permitindo que Rosalie saísse primeiro.

Foi no trajeto até o hospital que Rosalie entrou em pânico, quando Noah vomitou todo o leite que havia tomado. Como estava sentada no banco de trás ao lado da cadeirinha do filho, lhe deu ajuda imediatamente. Preocupado, Emmett parrou o carro no acostamento e os olhou.

Movida pelo desespero de ter o filho vomitando em seus braços, Rosalie gritou com o marido, exigindo que ele ligasse o carro e corresse até o hospital. Ele obedeceu sem pensar duas vezes.

Por causa do da crise de vômito, Noah ficou com medo e começou a chorar. Mesmo com os braços e as mãos sujas de vômito, Rosalie o retirou da cadeirinha levando-o para seu colo, lhe dando um pouco de acalanto para que ele deixasse de sentir medo. Ele chorou mais um pouco e logo se calou. Ela pegou a toalhinha dele e usou para limpar o rostinho. Limpou também, mesmo que parcialmente, seus braços e mãos. Vez ou outra Emmett os olhava pelo espelho retrovisor, dirigindo agoniado, ansioso para chegar ao hospital.

Ele viu a esposa começar a chorar abraçada ao filho e aquilo apertou seu coração.

[...]

Minutos depois, no hospital.

Depois de ter sido examinado previamente pelo pediatra Naoh recebeu a medicação para febre e enjoo. O médico não quis dar nenhum diagnostico até que o submetesse a exames mais precisos. E, para surpresa e espanto dos pais, ele passou por uma série de exames extremamente difíceis para qualquer criança.

Depois de muito chorar, Rosalie estava com os olhos vermelhos e inchados. Lhe perturbou muito ter que presenciar Noah chorar durante todos os exames que foi submetido, dentre eles: eletroencefalograma, tomografia computadorizada, ressonância magnética.

Estava apavorada, não sabia o que os esperava. Morria de medo só de pensar.

Sentada na beirada da cama, Rosalie afagava os cabelos do filho enquanto ele dormia induzido pelo o efeito dos remédios para enjoos. Emmett estava de pé encostado à parede próximo a porta. As mãos nos bolsos, semblante triste, encarando o chão.

Esme tinha chegado ao hospital há alguns minutos. Retirou-se do quarto apenas para ir a cantina buscar um café para os dois, depois de ficar sabendo que nenhum deles havia comido nada aquela manhã.

– Emm... – a voz de Rosalie quebrou o silêncio monótono daquele quarto de hospital. Sua voz soando rouca e angustiada.

No mesmo instante que ouvira a voz, Emmett ergueu a cabeça e olhou para ela, e a encontrou novamente com os olhos cheios de lágrimas.

– Estou com medo... – ela confessou.

Ouvi-la confessar o que ele também sentia, só serviu para deixá-lo ainda mais angustiado. Ele retirou as mãos do bolso e esfregou na calça, tendo certeza de estar suando frio.

Rosalie prosseguiu com seu relato amedrontado.

– Eles não iriam pedir todos aqueles exames caso não desconfiassem de algo grave... – ela soluçou, sentindo um nó se formar na garganta.

Emmett atravessou o quarto, destruindo a distância entre ambos com um abraço forte e reconfortante. Rosalie escondeu o rosto no peito largo. Ele lhe beijou o topo da cabeça e disse que tudo ficaria bem. Que eram apenas exames, nada para se preocupar ainda.

Enquanto eles lutavam contra o medo que estavam sentindo, Esme voltou trazendo dois copos de café e os entregou a cada um. Já passava da hora do almoço e eles sequer haviam tomado café da manhã. Ambos bebericaram o liquido quente sem muita vontade, até que uma enfermeira entrou no quarto atraindo a atenção.

– O Dr. Damien os espera na sala dele com os resultados dos exames do filho de vocês – avisou. – Poderiam vir comigo, por favor?!

Emmett, que já estava de pé deixou seu copo de café sobre a bancada, encostada a parede. Rosalie, que até então estava sentada ao lado de Noah, ficou de pé estendendo um olhar comprido na direção do filho sem querer deixá-lo.

Notando a hesitação dela, Emmett lhe segurou as mãos e retirou o copo de café, deixando-o ao lado do que antes fora o seu.

– Ele não vai ficar sozinho amor – disse ele –, Esme vai ficar aqui até voltarmos.

Esme se aproximou, tocando levemente o ombro de Rosalie.

– Vá tranquila, filha. Estarei bem aqui, o tempo todo. Ele vai ficar bem.

Mesmo não querendo ter que deixá-lo, Rosalie acabou cedendo. Suspirou longa e pesadamente, e então assentiu com um maneio de cabeça. Beijou a própria palma da mão e encostou ao bracinho de Noah.

– Por favor – insistiu a enfermeira indicando a porta com a mão.

Eles a acompanharam até a porta, antes de deixar o quarto Rosalie olhou para Esme depois para Noah, na cama. De mãos dadas com Emmett seguiram a enfermeira pelos corredores gélidos e angustiantes. Vez por outra, encontravam alguém; ora uma criança chorando nos braços da mãe, ora apenas uma enfermeira. Tudo no ambiente contribuía para apertar ainda mais seu coração.

Parados em frente à sala do médico, a enfermeira bateu na porta antes de entrar. Ela abriu a porta aos poucos revelando o médico – um homem de cabelos grisalhos, na faixa dos quarenta anos – de pé próximo à mesa analisando um envelope.

– Então, quais são os resultados – pediu Emmett, tomando a frente.

O médico fez sinal para que eles sentassem.

– Sentem-se, por favor.

Rosalie notou que sobre a mesa, além dos objetos e a placa com o nome do médico, havia também um porta-retratos com a fotografia de uma mulher muito bonita ao lado de duas crianças, de oito e dez anos de idade, dois meninos. Por alguma razão aquela fotografia lhe deixou ainda mais angustiada. Ela apertou a mão de Emmett, desviando o olhar da foto, a espera que o médico falasse.

O médico então sentou de frente para eles. Mexeu no computador brevemente e então sua mão serpenteou sobre o envelope ao lado do teclado, por fim falou.

– Sei que é muito difícil o que irei falar para vocês. Lamento muito, mas os resultados não são animadores...

Rosalie sentiu o coração falhar uma batida e o peito gelar. O corpo reagindo com pânico à nova informação. Emmett respirou fundo, apertando a mão de Rosalie a sua. O coração começando a bater em um ritmo fora do normal.

– O que os exames revelaram? – ele pediu, forçando o nó que se formava na garganta.

– Encontramos um tumor... um meduloblastoma. Esse é o tipo mais comum de PNET –Tumor neuroectodermal – que cresce no cerebelo, a parte do encéfalo responsável pela manutenção do equilíbrio e pelo controle do tônus muscular e dos movimentos voluntários. Corresponde de 15% a 20% de todos os tumores cerebrais em crianças. Afeta mais meninos do que meninas, 30% ocorrem em jovens adultos. São tumores que podem se desenvolver rapidamente, espalhando-se para outras partes do Sistema Nervoso pelo líquido cefalorraquidiano (LCR). De acordo com os exames feitos, é um meduloblastoma agressivo. Vocês precisam estar preparados... Esse tipo de tumor cresce relativamente rápido. É provável que retorne após a cirurgia, mesmo que completamente removido. Pode também apresentar metástase em outras regiões. Não podem ser tratados apenas cirurgicamente, são necessários os tratamentos radioterápicos e quimioterápicos para evitar a recidiva.

Rosalie fechou os olhos enquanto ouvia o médico. Naquele momento, teve a impressão de que o mundo estava em câmera lenta. Desabando como em um filme, assustador. A dor que chegou ao seu coração foi semelhante a punhal lhe rasgando a carne. Dilacerando seu coração de mãe em mil pedaços.

Os olhos de Emmett se encheram de lágrimas, enquanto o mundo parecia não fazer sentido algum. Ele cerrou os lábios em uma linha reta, prendendo o choro que ameaçou surgir. Não queria parecer fraco diante a esposa abalada. Engoliu o nó que se formou na garganta, porque sabia que a partir dali seria o alicerce para Rosalie.

– Não! – gritou Rosalie, inesperadamente. – Não. Não pode ser verdade – seu peito tremeu com os espasmos causados pelo choro forte. – O meu bebê não pode estar tão dente assim. Ele sempre foi tão cheio de vida, tão travesso. Ele não pode ter um tumor – as lágrimas rolavam em seu rosto sem reservas. – Você está enganado. Esses exames – ela apontou para os exames sobre a mesa do médico – estão equivocados. Me recuso a acreditar nisso. Não, não, não... – ela negava, reforçando com a cabeça. E então virou para Emmett com súplica no olhar. – Diz pra mim que é mentira, amor. Por favor – ela soluçou forte –, diz que tudo isso é um pesadelo, que vou acordar a qualquer momento e meu bebezinho vai estar, correndo, brincando feliz como sempre esteve.

Emmett não conseguiu falar. Sabia que iria chorar se abrisse a boca. E foi inevitável, uma lágrima apressada rolou em seu rosto sem que pudesse fazer nada.

Rosalie o agarrou pela camisa, os nós de seus dedos ficando esbranquiçados.

– Diz pra mim, Emmett. Não fique calado. Por favor, diz alguma coisa... Amor, diz que é mentira. – suplicou.

Ele estava afundando na dor de ambos sem conseguir dizer o que ela queria e precisava ouvir. Não podia lhe dar o alívio que implorava, porque já não estava em suas mãos. Porque o que ela pedia não era sua verdade. Naquele momento, fez a única coisa que poderia fazer a abraçou.

Sua única verdade, nunca os abandonaria.

O casal, emocionalmente abalado, chorou o diagnóstico do filhinho. A criança que tanto desejaram e que tanto amavam desde que era apenas uma sementinha.

Um flass back desde a gestação complicada, cada desenvolvimento até os dias atuais, invadiu a mente do casal. Todas as alegrias e angustias. A ansiedade pela espera em conhecê-lo. Cada palavra, cada aprendizado.

Sucumbindo na dor emocional, Rosalie acabou desmaiando nos braços do marido. Foi levada a um quarto onde foi submetida a exames clínicos. Ela voltou a si ainda bastante nervosa, por isso o médico optou por sedá-la por algumas horas.

Durante esse tempo, Emmett esteve no quarto onde o filho estava hospitalizado e relatou a Esme, tudo, da mesma forma que o médico havia lhe dito, sobre o diagnostico de Noah. Como já era de se esperar, lágrimas fizeram parte da conversa novamente.

Enquanto Rosalie esteve sedada, os dois foram à capela e fizeram uma oração silente. Depositaram em Deus toda a esperança e fé que sentiam.

[...]

Horas mais tarde, depois de absorver a notícia devastadora, o casal conversou novamente com o médico. Dessa vez, acompanhados por Esme e Carlisle, que chegara logo depois. O tema da conversa foi o tratamento e as chances de cura.

Rosalie tornou a chorar nos braços do marido, porém, como ainda restavam vestígios dos sedativos em seu sangue, parecia menos propensa a uma nova crise.

O casal saiu do consultório ciente de que tempos de trevas, angustia e dor se aproximava. Uma batalha se iniciaria. Seu anjinho, o filho tão amado, enfrentaria uma batalha pela vida... E tudo o que tinham como garantia, era a fé.

Voltando ao quarto onde Noah estava eles o encontraram sentadinho na cama, brincando com Alice, que tinha ido com Carlisle e levado alguns brinquedos. Não foi nenhum dos favoritos de Noah, porque esses estavam no apartamento e nenhum deles tinha voltado lá até então.

Ao vê-lo ali sentadinho, com o acesso no braço, o rostinho pálido, uma amostra do quanto o dia havia sido doloroso, Rosalie entrou no quarto apressada indo direto para o lado dele. O pegou no colo abraçando-o e cobrindo-o de beijos enquanto as memorias do dia horrível sondavam sua mente. Diante disso, as lágrimas reincidiram.

– Mamãe... – murmurou Noah, preocupado, inclinando o rostinho para olhá-la –, pulque você cholano? – ele estendeu a mãozinha cujo braço estava livre e pegou com o polegar uma lágrima no rosto da mãe.

Como se as palavras do filho libertasse a válvula de escape, Rosalie chorou ainda mais.

– Mamãe...? – pediu Noah a ponto de chorar vendo-a chorando daquele jeito.

– Mamãe está triste amor... – sussurrou Rosalie, com os lábios próximos aos cabelos de dele, suas lágrimas molhando a cabecinha loura. Noah tentou abraçá-la, mas não conseguiu, uma vez que estava preso no abraço desesperado dela. Então, demonstrou com palavras o que sentia.

– Não chole mamãe, eu te amo. Se você chola eu sinto vontade de cholá também. Mamãezinha linda, não chole.

Rosalie o apertou ainda mais naquele abraço angustiante e sofrido, enquanto beijava seu pescocinho. Entre um beijo e outro ela repetia:

– Te amo. Te amo. Te amo, minha vida. Nós vamos lutar juntos e vamos vencer essa coisa... – um soluço forte a fez tremer no final da frase.

– Uma luta de supé-helói?! Mas, mamãe, você não toxe a minha capa – comentou Noah, inocente a respeito da batalha que se iniciava.

Rosalie desfez o abraço e passou as mãos no rostinho dele, lhe beijando a pontinha do nariz enquanto as lágrimas caiam.

– Você vai ser o super-herói da mamãe com ou sem a capa – ela sussurrou ciente de que por trás daquela frase havia mais do que uma brincadeira. Inocente, Noah lhe sorriu. Ela tornou a beijar a pontinha do nariz dele. – Te amo, meu príncipe.

[...]

Horas mais tarde, Noah foi submetido a mais um exame. Foi mais um momento de choro e angustia para a família. Depois disso, foi transferido para a ala de oncologia pediátrica do hospital, no terceiro andar, para dar início ao tratamento.

Os médicos tinham pressa quanto à cirurgia. Como o meduloblastoma era do nível agressivo, eles entendiam que não podia perder tempo. E, naquela mesma noite, discutiram a respeito com equipe.

Rosalie tentou ser confiante, contudo, toda sua força e coragem pareciam não ser o bastante. Assim que viu outras crianças sofrendo, com tipos de câncer diferentes, porém, que levavam a mesma dor e sofrimento, quis sair dali correndo levando seu filho para longe daquilo.

Mas como fugir de algo que não estava especificamente naquela ala, mas sim dentro do corpo de seu filho. Um mal que se desenvolvia a partir dele mesmo.

Com esse pensamento, ela o apertou em seus braços novamente. Como se o gesto de carinho fosse poupá-lo de tamanho sofrimento. Voltou a chorar copiosamente depois de ter visto um garotinho, de cinco anos, sem nenhum fio de cabelo na cabeça, sendo levado pela mãe em uma cadeira de rodas.

Não queria estar ali. Não queria que seu filho passasse por aquilo. Deus sabia que não queria...

Tão logo foi instalado no novo leito, Noah recebeu a nova medicação na veia e adormeceu rapidamente. Já era noite, ele estava exausto depois de ter passado por tantos exames em um só dia. E pensar que tudo isso era apenas o começo.

Um pouco antes, Esme tinha ido com Alice ao apartamento deles buscar algumas coisas como: roupas, produtos de higiene pessoal, o travesseiro de Noah e seu bichinho de pelúcia favorito, Felpudo.

E quando o horário de visitas chegou ao fim, todos eles foram embora. Rosalie voltou a ter uma crise de choro, dizendo que não suportaria ficar sozinha, não na primeira noite.

Com apoio do médico Emmett fez um pedido a existente social, alegando que a esposa desmoronaria se tivesse que ficar sozinha naquela noite. Que, por favor, o deixasse ficar com ela e o filho. Seu pedido foi concedido.

Durante a madrugada Noah voltou a ter febre e vomitou mais de uma vez. Teve dor de cabeça, também. A jovem mãe, em desespero, condenava a doença que afligia seu filhinho. Chegando a blasfemar que não acreditava em um Deus que permitia uma criança sofrer dessa maneira.

Mais de uma vez precisou ser amparada pelo marido. Tinha razão quando disse que não poderia ficar sem ele. Nem naquela noite, nem em qualquer outra...

[...]

Dois dias depois, Noah foi submetido à cirurgia para retirada do tumor. As várias sessões de quimioterapia e radioterapia passaram a fazer parte da rotina daquela criança, lhe causando sofrimento e dor.

Um mês depois, ele já não era mais a mesma criança. Estava mais magro, pálido como cera, e os bracinhos sempre roxos. Seus cabelinhos louros começavam a cair.

Quando viu a primeira mecha dos cabelos do filho cair em suas mãos, enquanto lhe penteava os cabelos, Rosalie ficou aos prantos e foi buscar amparo nos braços do marido.

Após cada sessão de quimioterapia Naoh passava mal. Vomitava muito e chorava, ora nos braços do pai, ora nos braços da mãe, ora nos braços dos avós.

O casal se viu obrigado a fechar a matricula na faculdade por tempo indeterminado. Com a doença do filho eles não faziam mais nada além de estar sempre no hospital, angustiados e com medo.

Noah agora estava sempre quietinho, enjoado por causa dos remédios fortes, ou chorando, fosse de dor ou impaciência de estar no hospital.

Há poucos dias ele voltou a ter dores de cabeça que foram se tornando cada vez mais fortes. Insuportáveis até mesmo para um adulto. Em muitas ocasiões, chegava a gritar em meio ao choro, pedindo que a mamãe fizesse parar.

Assim como o filho adoecera, os pais, emocionalmente, adoeceram também.

Mesmo fragmentados na dor jamais saíram de seu lado. Suportando todas as crises juntos. Buscando e implorando a Deus que amenizasse e tivesse piedade daquele anjinho.

Sofriam junto ao filho, mas, ainda assim, faziam de tudo para vê-lo sorrir. Mesmo que fosse em uma simples brincadeira, na própria cama do hospital, ou quando o levavam para assistir o teatrinho realizado pelos Doutores da Alegria.

Em momento algum Rosalie encontrou motivos para se queixar do marido. Ele era mais que seu braço direito. Ele era a força que a mantinha de pé.

Frequentemente Noah recebia a visita dos amigos e da família. Mas, seu vinculo maior sempre foram os pais. Com frequência ele pedia para voltar pra casa, e Rosalie, ferida, lhe pedia perdão por não poder realizar seu desejo.

Deus era testemunha do quanto ansiava que esse dia chegasse, para poder vê-lo correndo, brincando de ser um super-herói como gostava. Em sua inocência, o super-herói que podia vencer qualquer coisa.