Amor Amigo

36 Capítulo 36 – Vidas Alteradas


Meses depois...

Foram sete meses de muita dor e sofrimento. Luta e, acima de tudo, fé. No total, foram realizadas quatro cirurgias e muitas sessões de quimioterapia e radioterapia.

A família se encheu de esperanças quando, com uma melhora considerável no quadro clinico, Noah pode voltar para casa. Retornaria ao hospital somente nos dias de sessões quimioterápicas.

Em casa foi recebido pela família e amigos com uma festinha de recepção calorosa, com tema super-herói assim como ele gostava.

Infelizmente, em um curto espaço de tempo, a doença traiçoeira voltou e dessa vez pior do que antes. Noah precisou ser internado novamente. Dois dias após a internação, ele sofreu uma parada cardíaca, horas mais tarde, por volta das cinco da manhã, veio a óbito tendo a mãe ao lado.

Rosalie entrou em estado de catatonia. Não chorou, não fez escândalo. Não reagiu. Agarrada ao filho, ela ficou presa em um mundo paralelo. Parte sua havia partido com Noah outra parte havia ficado presa na dor.

Os médicos retiraram a criança dos braços dela e logo depois a psicóloga do hospital entrou em cena, mas não conseguiu nenhum avanço. Emmett, no entanto, chorou feito uma criança, destruído, quebrado, sufocado com tamanha dor. Assim como a esposa, recebeu apoio psicológico imediatamente.

A vida parecia ter parado em ponto desconhecido, uma encruzilhada onde nenhum deles sabia que caminho seguir.

Seu bebezinho, o filho tão amado, lutou dia a após dia, mas a batalha infelizmente foi perdida... Noah se foi deixando muita dor nos corações daqueles que o amavam.

[...]

Há dois meses Rosalie vinha desistindo de seguir em frente. Mesmo recebendo ajuda psicológica, não reagia. Não sabia conviver com a dor. Era extremamente difícil. Sofrido demais acordar todos os dias e não ter mais seu bebê correndo pela casa, espalhando seus brinquedos, chamando-a de mamãe, ou pelo papai. Nem tê-lo em seu colo em determinados períodos do dia, quando sentia saudade de seus carinhos.

Desde a morte de Noah, a família e amigos estavam em luto. Buscando ocupasse ao máximo com trabalhos ou estudos. Contudo, nada era o bastante.

O casal que sofrera na infância, mesmo contra todas as possibilidades, chegou conhecer a felicidade verdadeira no inicio da juventude. Hoje, infelizmente, encontram-se enclausurados na própria dor.

Rosalie sofria a perda irreparável do filho, Emmett sofria a perda dos dois. Desde aquele fatídico dia ela deixara de ser sua companheira para se isolar presa na própria mente.

Com apoio da família, Emmett havia se afastado, temporariamente, do emprego para se dedicar exclusivamente a esposa que estava em um estado avançado de depressão.

Nos primeiros dias ela esteve sempre no quarto de Noah, aninhada na caminha dele, abraçada ao travesseirinho tentando aplacar a dor da saudade. O ursinho de pelúcia que ele adorava, Felpudo, foi sepultado junto com ele. Rosalie não foi ao cemitério no dia do sepultamento, estava no hospital, encolhida em uma cama, sofrendo em silêncio. Negando o acontecido.

Emmett, não tendo escolha, a deixara aos cuidados dos psicólogos, e foi sepultar o filho. Colocou Felpudo do lado de Noah enquanto lágrimas molhavam seu rosto. Disse-lhe para não sentir medo, porque iria encontrar a vovó e o vovô, pais de Rosalie.

Como Rosalie se recusava a deixar o apartamento, seguindo orientação da psicóloga, Emmett trancou o quarto do filho com todas as coisas dele lá dentro, até que ela estivesse pronta para aceitar e se despedir. Tudo isso visando amenizar o sofrimento. Porém, o travesseirinho ele não teve coragem de lhe tirar. Ainda tinha o cheirinho de Noah, e, até mesmo ele, podia sentir e amenizar a saudade quando o pegava.

A cadeirinha foi retirada do carro por Esme, porque Emmett não teve coragem. Para ele aquilo era como expulsar o próprio filho de suas vidas. No dia em que Esme fez isso ele não quis nem chegar perto do carro.

Rosalie estava sempre trancada no quarto, embaixo dos lençóis, depressiva, desleixada com a própria aparência. Raramente se alimentava, e isso somente quando alguém conseguia fazê-la comer. Perdeu muito peso. Seus olhos estavam sempre com bolsas escuras lhe dando o ar cansado, fazendo-a parecer mais velha. A cada dia suas feições se aproximavam daquilo que as pessoas chamariam de cadavéricas. O olhar sempre vazio. O coração e a alma destruídos.

Emmett, assim como ela, também perdera peso. Estava sempre triste e solitário. Mas, por causa dela se manteve de pé. Contudo, estava cansado, desesperado, esgotado. Buscava em todos os lugares apoio e uma maneira de tirá-la da prisão mental onde havia se abrigado. Enclausurada, recusando-se a viver.

[...]

Era um dia frio e nublado em Nova Orleans. Esme e Alice tinham acabado de deixar o apartamento. O almoço havia ficado pronto, apenas esperando que eles decidissem comer.

Minutos depois, Emmett tentava comer um pouco, mesmo que a comida parecesse não ter sabor algum, quando de repente ouviu o barulho de porcelana sendo quebrada. Levou alguns segundos para registrar que aquilo representava perigo, não para ele, mas sim para Rosalie.

Em um ato desesperado soltou o garfo sobre a mesa. O objeto deslizou sobre a superfície lisa e caiu do outro lado da cozinha, causando um pequeno barulho.

Ele correu para o quarto esbarrando nos móveis, derrubando alguns pelo caminho. O coração pulsando forte. O desespero crescendo dentro de si. Quando sua mão alcançou à maçaneta a porta foi aberta num rompante, no instante em que seus olhos perceberam a cama vazia, o coração falhou uma batida.

Sentindo o desespero crescer dentro de si, Emmett cruzou o quarto às pressas indo para o banheiro, desesperado, pedindo a Deus para encontrá-la bem. Como a porta do banheiro estava aberta, ele saltou para dentro. Parou, aterrorizado, por apenas um nanosegundo, o suficiente apenas para sua mente registrar o que seus olhos viam. Infelizmente, mais uma cena que ficaria guardada em sua mente, mesmo não querendo, para o resto de sua vida. Se é que fosse viver por muitos anos, ele pensou, considerando o rumo que tomava sua vida.

Ali, no piso frio do banheiro, para atormentar seu sono pelo resto da vida, estava sua esposa caída no chão. Ela usava uma camisa sua, cujo ele mesmo havia vestido nela depois de lhe dar banho. Rosalie estava ensanguentada, os pulsos estavam cortados. Ao lado de seu corpo estava um pedaço de porcelana, que antes fora parte de um jogo de lavabo, sujo pelo seu sangue.

– Rose! – ele gritou, apavorado, com todo o ar que lhe chegava aos pulmões.

No minuto seguinte, estava ajoelhado ao lado dela, tremendo, sem saber o que fazer com as mãos. Ora lhe tocava o rosto pálido e sofrido, ora lhe afagava os braços. Sua mente parecia não funcionar direito, e então, finalmente, ele encostou os dedos na jugular dela para sentir a pulsação.

– Amor, por favor, não desista... – ele suplicou, com os olhos cheios de lágrimas, que logo rolaram pelo seu rosto perdendo-se na camada de barba que há tempos não tirava. – Não desista de mim... Não desista de nós.

Como ela ainda respirava, ele correu para o quarto e agarrou, no impulso, o telefone da base sujando-o com o sangue dela que estavam em suas mãos.

Após chamar a emergência, atirou o telefone sobre a cama e voltou correndo para o banheiro. Novamente ajoelhado ao lado dela, tentou como pode estancar o sangue nos pulsos feridos. Sentou-se no chão sujo de sangue e a trouxe para perto de seu peito. Chorou abraçado a ela, até que a ambulância chegou.

Rosalie foi levada às pressas ao hospital. Teve os pulsos suturados e permaneceu internada. Sedada, permaneceu inconsciente até o dia seguinte.

Quando foi avisada do que Rosalie fizera, Esme teve uma crise nervosa, a segunda desde a morte de Noah, ambas levando-a a necessidade de tomar calmantes. Alice, mais uma vez, voltou a chorar encolhida em um canto tendo o irmão Edward ao lado, perdido em seus próprios pensamentos, com os olhos cheios de lágrimas. Carlisle tentando apoiar Emmett em sua dor que parecia não ter fim.

Agora, a família havia acabado de deixar o hospital, o horário de visitas havia chegado ao fim. Mas Rosalie, no entanto, permanecia dormindo sob o efeito de sedativos.

Cerca de uma hora depois. Emmett estava sentado em uma cadeira, ao lado da cama, perdido em seus pensamentos, afagando a mão pálida como cera, os pulsos enfaixados, quando enfim percebeu ela abrir os olhos devagar. Piscar algumas vezes, para somente então focar o olhar.

Emmett suspirou observando-a mexer os olhos, cansada. Um leve sorriso ameaçou chegar aos seus lábios, porém, não passou disso.

– Que bom que acordou meu amor... – ele murmurou esperançoso. Mas sua esperança foi arruinada quando ela, depois de meses, começou a falar.

– Porque não me deixou morrer?...

Aquilo soou para Emmett como um golpe de uma adaga afiada lhe rasgando o que restava de um coração já em pedaços. Era uma punição atroz para com ele.

Com um nó na garganta, disse a maior verdade de todas.

– Porque eu te amo – sua voz, no entanto, soou furiosa. Ele afastou a mão que acariciava a dela e ficou de pé ao lado da cama, empurrando a cadeira para trás com o corpo.

Rosalie, com a expressão doentia, de olhos fundos, virou o rosto para o lado encarando o vazio. Indiferente às palavras sofridas ditas pelo marido.

Contudo, Emmett já sabia, pelas palavras do psicólogo, que um suicida nunca deseja por um fim a vida, mas sim a todo o sofrimento.

E sua dor, quem se importava com ela, ele se perguntava frequentemente, vendo a mulher amada definhar entregando-se a depressão.

Magoado, movido pela raiva repentina, esbravejou quase que aos gritos.

– Queria mesmo que te deixasse sangrar até a morte – ele soluçou, embora não percebesse. – Sinto muito em te decepcionar então – ela continuou encarando o vazio para além da parede branca. – Olha pra mim! – exigiu rispidamente. Mesmo assim, ela não reagiu. – Estou mandando olhar pra mim – tornou a repetir segurando-a pelos ombros, seus olhos queimando de raiva. Nada novamente. – Se vai mesmo desistir de viver tenha consciência de que eu também irei – foi somente então que algo dentro dela pareceu emergir. E então o olhou. Ele prosseguiu com seu desabafo desesperado. – Acha que não sofro pela morte de meu filho? Que é apenas um sofrimento seu? Não Rosalie, não é. Eu não sei o que fazer... estou destruído. Ainda assim, tento seguir em frente por você. Cada pensamento, cada segundo do meu dia são para vocês. Estou morrendo aos poucos vendo o rumo que nossas vidas tomaram. Tento ser forte por você – ele passou as mãos no rosto com certa força, afastando as lágrimas –, só que não consigo lutar contra isso. Esteja ciente de que quando você partir, não ficarei um só dia sem você. Não passarei anos de minha vida sofrendo a perda do meu filho e da minha esposa. Quero estar onde vocês estiverem...

– Emmett... – ela murmurou. Sua boca estava seca e a garganta áspera. A voz rouca por culpa do longo período em que ficou sem uso.

No auge do desespero, cheio de saudade de ouvir aquela voz, ele debruçou-se sobre ela abraçando-a forte.

– Eu não vou ficar sem você também, eu não vou... – ele sussurrou com a voz falha, próximo ao pescoço dela, enquanto a abraçava. – Eu não vou... Não vou. Não posso. Não consigo.

Comovida com o desespero do marido, ela ergueu os braços lentamente como se o gesto fosse extremamente dolorido. Devagar passou os braços em volta das costas dele, que tremiam com espasmos causados pelo soluço.

– Não consigo amor... me perdoa – sussurrou ela em resposta.

Apertando-a em seu abraço, ele clamou.

– Consegue... Você tem que reagir. Seja forte, meu amor.

– Dói muito – sussurrou ela, a garganta arranhando. – Meu coração está ferido. Não consigo...

– Eu sei que dói... – murmurou ele. – Acredite em mim, eu sei.

– Está doendo... – ela repetiu, dessa vez com um soluço. E pela primeira vez desde a morte de Noah, ela estava chorando, chorando como nunca antes havia chorado. Soluços fortes e tremores acometeram a jovem sofrida, enquanto o coração expulsava parte de toda a dor que vinha a sufocando.

Emmett sentiu uma pequena faísca de esperança enquanto o corpo frágil tremia com soluços sob o seu.

– Isso amor, chora – ele surrou ao pé do ouvido e lhe beijou os cabelos. – Chora tudo o que tem para chorar. Chore até que todas as lágrimas cessem. Isso vai te fazer bem. Vai te aliviar a alma.

– Dói, dói demais... – ela confessava aos prantos.

– Eu sei... – ele sussurrou contra os fios dourados dos cabelos dela.

Aquele momento, de lágrimas e lamento, perdurou por minutos, horas talvez. Rosalie conseguiu reagir à dor deixando que as lágrimas viessem à tona. Talvez, apenas talvez, começando aceitar que precisava continuar vivendo, mesmo com tamanha dor e ausência. Começava a perceber que, submersa na própria dor, não percebera que o marido também estava sofrendo, pelos dois.

[...]

Dois dias depois, Rosalie recebeu alta e seu primeiro desejo foi de visitar a lápide do filho. Emmett sabia que aquele era um passo importante e essencial na recuperação dela, a aceitação. Um grande passo na luta contra a dor e a saudade que a ausência de Noah lhes causava.

Depois de falar pelo telefone com a família, eles saíram do hospital de mãos dadas. Ela, com os pulsos enfaixados e o coração ferido. Ele, lutando para não perder a esperança de poder fazê-la sentir vontade de voltar a viver.

No fundo, Emmett sabia que, dali em diante, jamais voltaria ser o jovem casal de antes. Suas vidas haviam sido transformadas. Alteradas.

Jamais voltariam ser completamente felizes. Porém, lutariam, ou tentariam sobreviver com a dor.

Ambos perderam os pais ainda muito cedo, cresceram com o mesmo tipo de dor. Um sabia o que o outro estava sentindo sem mesmo precisar falar. Agora compartilhavam a angustiante e dor de perder um filho. Dois corações unidos pelo destino, soterrados no mesmo sofrimento.

No estacionamento do hospital, eles pararam de frente ao carro. Emmett desativou o alarme e, antes de abrir a porta para ela entrar, segurou os cotovelos dela, deslizando as mãos suavemente até alcançar os pulsos feridos e enfaixados. Sem forçá-los, os beijou suavemente. E quando seus olhos se ergueram, deparam com os dela cheios de lágrimas outra vez. Ele ergueu a cabeça e, ainda com as mãos nos pulsos feridos, lhe beijou a testa.

– Eu te amo – sussurrou. – Estamos juntos nisso. Sempre e para sempre, até o fim. Fique comigo. Não desista...

– Apenas por você... – ela sussurrou em resposta, a voz soando como um lamento.

Emmett suspirou, esgotado física e emocionalmente. Podia imaginar como a esposa se sentia. Abriu a porta da picape e a ajudou entrar, lhe estendendo a mão.

Pouco tempo depois, eles paravam em frente a uma floricultura. Emmett desceu do carro. Rosalie não quis descer, mas lhe disse que flores comprar; botões de rosas brancas. Apenas alguns segundos, ele retornou ao carro entregando o buquê a ela, que, com olhos tristes, aspirou o perfume demoradamente antes de repousá-los no colo. Emmett lhe afagou os cabelos, como que dizendo que estava ali, pra ela, e por ela.

Em pouco tempo o carro seguia rumo ao cemitério da cidade.

Reparando nas pessoas que passavam nas ruas e calçadas, pensavam quão injusta a vida era; lhes fizera experimentar a felicidade plena e depois lhes tirara de volta. Assim é a vida; uns riem enquanto outros choram. Uns tem tanto, outros quase nada. Uns lhes sobram amor, outros jamais experimentaram. No entanto, viver ainda era a melhor opção.

Cerca de vinte minutos depois, Emmett estacionou em frente ao cemitério. Não disse nada, nem olhou para Rosalie por um longo espaço de tempo. Seu coração estava doendo, sofria em silêncio para poupar a esposa de mais danos emocionais. Queria parecer forte, mas Deus sabia o quanto lhe doía.

De repente o silêncio mórbido foi interrompido pela voz arrastada e sofrida de Rosalie.

– Eu não vou conseguir. Não vou...

Foi somente então que ele conseguiu olhar para ela. A mão que estava ao volante, lentamente cortou o curto espaço entre eles e segurou a dela. Imediatamente notou que estava gelada e suava frio.

– Você não está sozinha – ele sussurrou –, eu estou e estarei sempre com você.

Rosalie negou com um maneio de cabeça. – Não me obrigue a fazer isso, Emm – sua voz foi cortada por um soluço que antecedeu o choro. – Pensei que fosse conseguir, mas agora vejo que não...

Emmett apertou a mão dela a sua, e ergueu a altura dos lábios beijando-lhe os dedos.

– Precisamos fazer isso juntos, Rose.

– Não – ela negou novamente –, eu não vou aguentar, me leva daqui... – suas mãos tremiam e o peito arfava pesadamente.

Emmett sentiu os olhos arderem acumulando lágrimas que não pode evitar. Sua garganta se fechando em um nó, como se a respiração parasse na garganta. Ele afastou a outra mão do volante e, em um abraço angustiado, a trouxe para mais perto. Sentiu o corpo dela tremer e a apertou firme entre seus braços.

Foram cerca de dez minutos de recusa e choro dentro do carro. Ela acabou aceitando e juntos saíram do veículo. Emmett atravessou em frente ao capô e segurou a mão dela ao se aproximar. Juntos caminharam pela calçada e logo cruzaram os portões de ferro alto. Ele soltou a mão dela e passou o braço em volta de seus ombros.

Era um dia ensolarado, o céu estava limpo, mas nem mesmo isso parecia motivador. Por mais que os raios de sol cintilassem na imensidão do céu azul, jamais alcançariam a escuridão que se instalara na alma, aprisionada na dor.

A brisa leve soprava as folhas da vegetação ao redor. Em alguns dos carvalhos velhos e retorcidos, um pássaro gracejou. E quando enfim alcançaram as primeiras fileiras de lapides brancas, que os levariam até onde estava a de Noah, Rosalie se afastou bruscamente de Emmett, girando o corpo na direção contraria, a mesma por onde tinha vindo.

Movido pelo instinto, e a rapidez com que ela mudou de opinião, ele não pode fazer nada que não fosse segurá-la pelos ombros. Foi automático, não lhe restou tempo nem mesmo para pensar. Ela lutou para se libertar, muito provavelmente marcas roxas surgiriam no dia seguinte, mas acabou desistindo.

Ferido, confuso, perdido. Esses eram os sentimentos que atingiam aquele homem. Não tendo motivos para reagir à força do emocional abalado, ele acabou desmoronando. As lágrimas vieram acompanhadas por soluços fortes, quando juntos tombaram de joelhos na grama verde. Sentaram-se nela, e ali, entre várias lápides, de pessoas desconhecidas, choraram abraçados à dor que parecia não ter fim.

Emmett tentara protegê-la do sofrimento por anos desde que a conhecera, mas falhara miseravelmente.

Pouco a pouco, em meio a soluços e palpitação, conseguiram recobrar o controle. Inesperadamente Rosalie foi a primeira a ficar de pé. Respirou fundo após uma fungada, passou a mão no rosto inclinando o pescoço para trás, como se o gesto fosse manter as lágrimas longe. Emmett segurou sua mão recomeçando a andar. A cada passo a diante ficavam mais perto da triste realidade.

E foi em frente à lápide de Noah que eles se ajoelharam. Pela primeira vez Rosalie estava diante dela. As mãos pálidas, de pulsos feridos, trabalharam substituindo as flores secas pelos botões de rosas brancas.

– Acha que, onde quer que esteja, está feliz?... – ela pediu, com a voz fraca, surpreendendo o marido.

– Sim... – afirmou ele, com certa de dificuldade.

– Como pode ter certeza?

– Porque seus pais e minha mãe estão cuidando dele agora. E, quer saber o que acho?! – sussurrou, beijando de leve a orelha dela.

– O que? – pediu ela enquanto sua mão trêmula acariciava o nome de Noah junto à data de seu nascimento e a de morte. E ali o epitáfio que dizia:

O pequeno anjo que na terra pouco tempo ficou à vida de seus pais muito amor acrescentou. Corações feridos aqui ficaram com sua partida. Mas dentro deles restara a esperança de se reencontrarem um dia.

Emmett então respondeu:

– Acho que eles o amam da mesma forma que amaram você...

Uma centelha de paz lhe tocou o coração. A mão que antes acariciava os dizeres na lápide foi erguida para tocar o rosto de Emmett. Ela lhe afagou o rosto sobre a camada de barda. E ele lhe sussurrou.

– Amor, por favor, não se deixe sofrer pelo medo e a incerteza. Nosso bebê não está sozinho, nem com medo. Nem no escuro...

A imagem de Emmett ficou turva, ela o estava olhando através de lágrimas.

– Acha que algum dia deixará de doer tanto? – pediu, sufocada.

– Não posso afirmar. Porém, independente do que acontecer no futuro, sempre estarei te amando. E lutarei para fazê-la feliz...

– Ele não está com medo? – ela insistiu.

– Não. Ele não está.

– Vai sempre me garantir isso? – pediu com um soluço.

– Irei sempre dizer a verdade na qual eu acredito.

– Eu nunca mais vou ter outro filho... – ela deixou a frase se perder no ar.

E então Emmett sentou na grama, recostando-se a lápide trouxe Rosalie para perto de seu corpo.

– Ele está com meus pais, sua mãe e o Felpudo?... – disse ela enquanto lágrimas rolavam em seu rosto pálido.

– Uhumm... – murmurou ele ao lhe beijar o topo da cabeça.

– Sim, ele está – disse para si mesma, tentando se convencer. Um suspiro cansado escapou entre seus lábios, e então ela ergueu a cabeça olhando para o céu azul. Sua mão direita se erguendo no ar, como se tentasse absorver na pele os raios de sol, que há tempos não sentia lhe tocar.

Emmett concordou com um maneio de cabeça, em silêncio, seguiu com os olhos o movimento que a mão dela fazia no ar.

As horas se passaram. O crepúsculo deu boas-vindas colorindo o céu de um tom laranja com nuances em violeta. O casal permaneceu ali, observando o céu em silêncio, reconfortando um ao outro, lutando para sobreviver com a dor.

E quando começou realmente a ficar escuro eles ficaram de pé e começaram a refazer o caminho de volta, abraçados. Sofrendo...

Um jovem casal. Dois corações fragmentados em busca de consolo.

Vidas para sempre alteradas.

*"Salgueiro chorão com lágrima escorrendo

Por quê você chora e fica gemendo

Será porque ele lhe deixou um dia

Será porque ficar aqui não mais podia”

“Salgueiro chorão pare de chorar

Há algo que poderá lhe consolar

Acha que a morte para sempre os separou

Mas em seu coração para sempre ficou..."

Fim

Notas finais
*Fragmento do poema Salgueiro Chorão, por Vada Sultenfuss; meu primeiro amor.
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