Gerard sentiu uma coisa estranha ainda de olhos fechados. Era como se tivesse sendo tocado por Frank, ele podia sentir sua presença, o seu carinho. Tão rápido quanto veio o perfume passou, e junto com ele aquela presença que tanto agradara Gerard.
— Se você pudesse ver... A falta que me faz! Eu te amo tanto, e agora não poderemos ficar juntos... – Gerard pensou em voz alta.


Algum tempo passou, sem que Gerard esquecesse a melhor coisa que te aconteceu na vida, Frank. E o modo como fora tirado dele. O remorso o destruía por dentro, ele se tornara mais fechado e frio desde a morte do companheiro.
Ele sempre comprava cravos agora, na esperança de sentir Frank com ele de novo.


Gerard acordara cedo naquele dia, vestiu seu melhor terno pra missa de um ano da morte de Frank, as feridas nunca cicatrizadas dentro dele voltaram a sangrar.
A missa foi linda, ainda sentia muita falta de Frank, e estar naquela missa era como ter que aceitar novamente que seu único amor se foi pra sempre.
Voltou pra casa após a missa, visivelmente abalado, ficou olhando pro nada.

Quando Gerard se deu conta já era noite. Ele não tinha fome, foi se deitar. Fechou os olhos e pensou ate adormecer.
Levantou assustado e olhou em volta. Não era seu quarto, nunca vira aquele lugar antes. Era lindo cheio de flores e um perfume doce, com uma fonte no meio. Parecia ser uma praça, porque alguns bancos cercavam a fonte. E em uma desses bancos, ele viu o que lhe pareceu uma alucinação. Era Frank. Ele se aproximou. Chegou à frente dele, olhando seus olhos que brilhavam com as lágrimas que também estavam presentes nos olhos dele.
— Frank?
— Gerard — Levantou-se abraçando o outro.
— Você "tá" morto! Não pode...
— Você realmente nunca vai acreditar na sobrevivência do espírito né?! — Disse sorrindo.
— Me desculpe... Foi culpa minha! Fui duro com você naquela noite e você saiu nervoso de casa... Foi por isso que o acidente aconteceu...
— Não Ge. ... O acidente aconteceu porque tinha que ser assim, nada poderia mudar o que ia acontecer. Eu quem te devo desculpas. Se eu saí em alta velocidade naquela noite, foi por sentir remorso, culpa. Eu te traí Gerard, eu te amo não pretendia te magoar, eu nem sei por que fiz aquilo. Eu nunca me arrependi de ficar com você, você é a melhor coisa que aconteceu na minha vida.

- Eu também te amo, não sei como consigo continuar vivendo sem você. — Ás lágrimas corriam seu rosto sem que ele pudesse as impedir. — Eu estou sonhando?
— Sim, eu vim em seu sonho. Logo depois da minha morte eu tentei me aproximar. Mas é difícil quando a pessoa não acredita... Agora você tem que ir.
— Eu acredito agora. A gente vai se encontrar novamente?
— Sim, mais não por sonho... Não quero que você viva em um sonho se esquecendo de viver a realidade. Eu sempre estarei do seu lado, em quantas vidas eu viver em todas vou amar você, todas.
Gerard acordou, não se lembrou de seu sonho, mas inconscientemente, o que Frank te disse aquela noite mudou, seu modo de pensar, e agir, o remorso passou mais o amor não. Ele viveu para Frank, nunca se envolveu com outra pessoa. 15 anos depois o cigarro matou Gerard, ele partiu feliz e com seu amor inabalável. Maior que o amor carnal é o amor das almas. E o amor deles se concretizou em outras vidas por diversas vezes, e voltaria a se concretizar, porque um verdadeiro amor, nem a morte, conseguem separar.


Gerard acordou em um quarto, não se lembrava como chegara ali, e não se esforçou muito pra lembrar. As paredes tinham um tom azul celeste claro, com um guarda-roupa ao lado de uma porta, que ele supunha ser o banheiro. E uma grande janela. Agora se lembrava de tudo, da tosse, do sangramento nasal, do câncer de pulmão, e como se tivesse desmaiado, não se lembrava de nada que tinha acontecido depois. Mais ele não achou muito difícil deduzir:
Eu devo ter passado mal por causa do câncer, e desmaiei. Aí me trouxeram pra esse hospital... -disse num sussurro pra si mesmo.
Levantou-se com cuidado, achando que os sintomas voltariam, mais não voltaram. Ele se levantou sem sentir mais nada.
Caminhou até a janela, era o lugar mais lindo que já vira na vida, um jardim com a grama muito verde. E era como se o fim do jardim tocasse o começo do céu. No jardim tinham flores de varias cores e arvores, e pessoas caminhando ou sentadas na grama. Afastou-se da janela ainda sorrindo.

Foi no banheiro e lavou o rosto, e pensou em como a doença o deixara feio. Levantou a cabeça pra se olhar no espelho. Não reconhecia o que via, não era mais aquele homem com os olhos fundos e rosto muito magro. Estava bonito, como antes do câncer tomar conta de seu corpo.
Saiu do banheiro, ainda sem entender o que estava acontecendo, sentou-se na cama.
Nesse mo momento, entrou um senhor no quarto. O homem que aparentava uns 65 anos tinha feição bondosa, e os olhos cor mel, muito grandes e brilhantes.
Ah que bom, vejo que acordou — disse ele com um largo sorriso, indo ao encontro de Gerard.
— O senhor é o médico? Onde eu estou? Em um hospital? — Gerard tinha varias perguntas, e disse as que julgara mais importantes.
O senhor respirou um minuto antes de começar a responder:
— Não sou exatamente um médico, e isso não é exatamente um hospital. — O senhor caminhou até a janela, sendo seguido por Gerard.

- Mas se isto não é um hospital... Eu me lembro... O câncer...?- Gerard parecia não entender, ou parecia não querer entender.
Gerard, há três dias... Você desmaiou, foi levado a um hospital, mais nada puderam fazer por você. O Câncer já tinha tomado todo seu pulmão e você desencarnou. -disse o senhor tranquilamente.
- Eu... Eu... MORRI? -Gerard pareceu assustado.