Amor
3 Um novo portão
Mami abriu os olhos. O teto do seu quarto estava ali, recebendo os primeiros raios de luz do dia. Salvo alguns ruídos que vinham do lado de fora, o ambiente estava em completo silêncio.
Isso fez o coração dela pular.
Ela se virou e pegou o despertador. “Oh não, eu esqueci de ajustar!” Saiu da cama e do quarto com pressa, indo até a cozinha.
Essa era a rotina, ela abria geladeira para ver o que teria que preparar, não somente para o café da manhã, mas para o lanche da escola também. Contudo sua visão estava embaçada, fazendo-a lembrar que havia se esquecido de lavar o rosto. Lavou ali mesmo, na pia da cozinha.
Com tudo mais encaminhado, era hora de acordar Nagisa. Ela abriu a porta do quarto rapidamente e chamou, “Bebe! Acorda! Acorda!”
A menina na cama se virou para porta e pressionou as pálpebras. “Hmmm...”
“Pode parar com esse ‘Hmmmm...’. Estamos atrasadas. Vamos!”
Enquanto Nagisa se arrumava, Mami colocou o café da manhã na mesa e comeu, sem aguardar pela outra.
Logo Nagisa apareceu, já vestida com o uniforme escolar. “Nós não estamos tão atrasada assim. Só teremos que andar mais depressa.”
“Não é o meu caso,” respondeu Mami, “esqueceu que não posso perder o ônibus?”
“Ah é...” Ela se sentou à mesa.
Mami se levantou, “Quando terminar de comer, limpe a mesa. Eu deixei preparado o seu pote na cozinha, se quiser colocar algo a mais, é contigo.”
“Ok.”
Ela correu até o banheiro para escovar os dentes, além de lavar melhor o rosto. Depois foi até o quarto e tirou o pijama, jogando ele na cama, passou desodorante, colocou o primeiro sutiã que encontrou e vestiu o uniforme.
O uniforme do ensino médio da escola Shirome era todo branco, com detalhes bordô, exatamente o oposto do que era usado pelas alunas do ensino fundamental. A única coisa em comum era o laço preto que ficava na gola.
Diferente do uniforme da escola de Mitakihara, Mami precisava amarrar o laço, o que tomava ainda mais do seu precioso tempo, sendo que agora viria a parte mais longa: o cabelo.
Se vendo no espelho da penteadeira, Mami constatou que suas mechas não estavam em seus piores dias, mas mesmo assim precisaria pentear e com cuidado para não danificar as pontas.
“Mami, eu já vou indo!”
A loira se assustou, não daria tempo. “Tchau Bebe! Vai com cuidado!” Ela abandonou o pente e apontou o seu dedo em direção ao cabelo.
... se esquecermos do que nos fazia humanos...
Ela dobrou o dedo. “Akemi-san...” Em seguida deixou a penteadeira para pôr a meia calça. “Eu vou perder o ônibus. Eu vou perder o ônibus...” Com alguns saltos, ela conseguiu colocar. Depois de pegar a mala, ela rapidamente colocou o calçado e saiu, quase esquecendo de trancar a porta.
Não querendo arriscar com o elevador, ela desceu correndo as escadas e continuou nesse ritmo pela rua. A vantagem é que ela podia usar magia para dar um pique extra.
... se esquecermos do que nos fazia humanos...
“Akemi-san, você podia ter falado isso em outra hora?” falando consigo mesma, ela avistou o ponto e o ônibus que estacionava. “Ah!” Ela correu ainda mais, alcançando a fila das pessoas que entravam.
Elas olhavam para ela.
“Desculpe, desculpe...” Mami continuou a pedir acanhadas desculpas dentro do ônibus devido a sua impontualidade. Felizmente, não havia muitas pessoas dentro. Ela encontrou alguns assentos vazios e ali sentou.
Com ônibus em movimento, ela se sentiu mais aliviada, mas ainda havia trabalho a fazer. Ela abriu sua mala e pegou um pequeno kit de maquiagens, usado em emergências.
Enquanto se maquiava, ela se observava em um pequeno espelho. Seu cabelo estava horrível, parecia que ela havia decidido descer do condomínio em uma queda livre. Então algo ainda pior veio em sua mente.
“Eu esqueci o perfume...” Mami escondeu o seu rosto. Aquele seria um péssimo dia.
Sorte que não havia ninguém da escola ali para ver a sua miséria. Aliás, Mami nunca tinha visto alguém da escola pegar aquele ônibus naqueles primeiros dias. Era uma viagem solitária, que dessa vez vinha bem a calhar.
O ônibus parou em um ponto. Mais pessoas subiram, dentre elas uma garota de uniforme.
Aquele seria um péssimo dia.
A garota em questão usava o uniforme bordô do ensino fundamental. Ela era baixinha, pele pálida, com olhos bem azuis. Seu cabelo castanho claro era curto, com uma franja reta, parecia um capacete, com deliberadas pontas duplas.
Mami desejou que aquela garota não a notasse, mas era pedir muito sendo que ela era a única com uniforme ali.
“Oie,” a garota cumprimentou, “posso sentar contigo?”
Mami gesticulou. “Claro...” A garota sentou no outro assento, com duas ficando frente a frente. Mami notou que aquela garota utilizava luvas de cor similar a pele dela.
“Você é a Mami Tomoe, não é?”
Mami recuou com a súbita pergunta. “S-Sim...”
“Desculpe, é que houve boatos de que uma aluna bonita havia se transferido recentemente no ensino médio.” A garota acenou com a cabeça. “E você bate com a descrição.”
“Oh...” Mami passou a mão em seu cabelo solto.
A garota apontou para si mesma. “Eu sou Sasa Yuuki e estarei no ensino médio ano que vem, Tomoe-senpai.”
Mami sorriu de forma educada. “Que bom.”
“Você sempre pega esse ônibus?” indagou Sasa.
A loira ergueu as sobrancelhas, parece que haveria uma conversa. “Sim, mas essa é a primeira vez que vejo você.”
“É porque meus pais é que me estavam dando carona antes.” Sasa desviou o olhar e deu de ombros. “Agora eu sou obrigada a pegar ônibus.”
Mami ficou curiosa com a reação dela, parecia estar decepcionada.
Sasa fez outra pergunta, “Por que escolheu Shirome?”
“Bem, não escolhi,” respondeu Mami, “meus pais tinham planejado esse futuro para mim.”
“Os meus também!” Sasa fez uma careta. “Então estamos no mesmo barco, melhor dizendo, no mesmo ônibus.”
Mami forçou um sorriso. “Pois é...”
Sasa puxou o tecido do seu uniforme. “Que sorte a minha se eu estivesse estudando na escola de Mitakihara.”
Mami se inclinou em direção a ela. “Você sabe que estudei lá?”
“Esses são os boatos.”
Escolas e seus fofoqueiros. Mami voltou a sentar direito em seu assento. “Eu não tenho do que reclamar daquela escola. Se não fosse o fato de não haver ensino médio, eu teria ficado lá.”
“Mesmo se eu tivesse que procurar uma escola de ensino médio, eu jamais escolheria Shirome.” Sasa fez uma cara de nojo.
Mami não disse nada, apenas imaginou o que teria acontecido para aquela garota ter tal opinião.
Sasa olhou para a janela. “Nós estamos próximas da escola, não?”
“Sim.”
A garota apertou o botão de parada do ônibus e puxou o braço da loira. “Vamos!”
“Mas há uma parada de ônibus em frente à escola,” Mami protestou.
“Não! Temos que descer agora!”
Já na calçada, Mami viu o ônibus ir embora. “Por que isso?”
“Isso mostra como você está por fora,” Sasa falou em tom professoral, “não sabe que aquele lugar está cheio de gente rica e poderosa? Você não pode descer de um ônibus na frente delas, a não ser que você queira passar o resto da sua vida em Shirome limpando o chão que elas pisam.”
“Eu fiz isso nos outros dias e não senti nenhuma animosidade.”
Sasa deu uma piscadela e apontou para a loira. “Da mesma forma que você não sabia dos boatos sobre ti.”
Mami ficou mais acuada, ela demorou a dizer, “Mas agora vamos chegar atrasadas.”
“Não se corrermos. Teehee!” Sasa saiu saltitante pela calçada.
Elas realmente estavam perto, pois enquanto Mami corria, ela avistou as construções que compõe Shirome. Suas paredes de rocha exposta faziam com que a escola se parecesse com um castelo. O que reforçava ainda mais essa idéia era os seus grandes portões de madeira por onde entravam as alunas, algumas dentro de carros luxuosos.
Somente quando se matriculou é que Mami descobriu que escola não era apenas para garotas. Havia um espaço separado para garotos, com o seu próprio portão de entrada. Ela considerou que nunca havia ouvido falar devido a existência de escolas de garotos maiores e mais famosas no país.
Elas atravessaram o portão e o estacionamento, alcançando a entrada de um dos prédios.
“É aqui que nós nos separamos, senpai,” disse Sasa, enquanto acenava.
“Uhum, tchau Yuuki-san.”
O ensino médio ficava nos andares superiores e Mami ainda teria que vencer alguns lances de escada. Assim como na parte de fora, os corredores de Shirome tinham uma decoração clássica, com muita madeira e gesso. O ambiente era enclausurado e escuro comparado com a escola de Mitakihara e suas salas de vidro. Até o ar que se respirava era diferente, mais pesado.
O que não era diferente, no entanto, era som do sinal quando tocava.
“Ai! Ai!” Mami andava depressa, se segurando para não correr pelo último corredor antes de chegar na sua sala. As portas tinham uma janela por onde se podia ver o que se passava lá dentro. Os alunos já estavam fazendo a saudação ao professor.
Ao ver as salas de aula, Mami se perguntou se encontraria uma pessoa dentre elas.
E encontrou.
Oriko Mikuni estava de pé, olhando intensamente para ela como se já soubesse que ela passaria ali naquele exato momento.
Mami virou o rosto e continuou andando.
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O professor olhava para a planilha, anunciando para os estudantes, “Os alunos que ficarão encarregados da limpeza da sala são Takuma Kuroki, Nagisa Momoe e Aki Hidaka.”
Sentada em sua carteira, Nagisa ficou surpresa com a coincidência e olhou para o outro lado da sala.
Aki sentava em uma carteira perto da parede, com Takuma bem próximo dele.
“O materiais que vocês precisam foram deixados no corredor,” o professor continuou, “Hidaka-san, Kuroki-san, é a primeira vez que Momoe-san está fazendo isso em nossa escola. Espero que vocês tratem ela com respeito e ensinem o que precisar.”
Nagisa ouviu risadinhas, ela olhou de relance para um grupo de garotas que olhava para ela, cobrindo suas bocas com a mão, cochichando entre si.
“Aos outros alunos, dirijam-se para sala onde haverá a aula de economia doméstica.” O professor pegou o material sobre a sua mesa, enquanto os alunos deixavam suas carteiras.
Com os estudantes saindo da sala, Nagisa guardou lentamente suas coisas na mala e ficou de pé. Ela viu que Aki e Takuma já estavam indo pegar o material de limpeza.
Quando estavam na saída da sala, Takuma falou, “Aki, te vejo depois.”
“Vai ficar fazendo o quê?” o outro garoto perguntou.
Takuma coçou o pescoço. “Sei lá, acho que vou dormir, talvez comprar algo pra beber... ” Então ele sorriu. “Quer que eu traga um pra tu também?”
Nagisa não acreditava no que estava ouvindo. Takuma não iria ajudar?
Aki respondeu, balançando a cabeça, “Não.”
“Beleza.” Takuma espalhou os cabelos loiros do garoto mais baixo antes de ir.
Depois de tentar salvar do que restou do seu penteado, Aki pegou o balde com panos umedecidos e os rodos. Ao voltar para sala, se deparou com Nagisa que não estava nem um pouco feliz.
“Por que deixou ele ir embora?”
“Você queria que eu segurasse ele?” Aki deixou os rodos e começou a torcer um dos panos. “Você pode ir também, eu já fiz isso sozinho, não tem problema.”
“Eu não vou.” Nagisa ficou mais tensa. “Você podia ter dito algo. Ele não é seu amigo?”
Aki parou o que estava fazendo e olhou para ela com surpresa, depois seus olhos ficaram inquietos, como se estivesse procurando algo.
Nagisa ficou assustada. “Hidaka-kun?”
Então Aki respondeu com intensidade, “Sim, ele é meu amigo! Por isso que estou fazendo esse gesto de genuína amizade!”
Mas Nagisa não se convenceu. “Ele está te usando.”
“Você não entende.” A expressão de Aki endureceu e ele virou o rosto. “Você não tem idéia alguma...”
“Há quanto tempo vocês são amigos?” ela perguntou.
“Não... muito tempo.” Aki apertou com força o pano que ele segurava. “Mas não importa! Nós-” Então sentiu uma mão em seu ombro.
“Desculpe.”
“Hã?” Aki ficou sem ação, primeiro porque não entendeu o porquê de Nagisa estar se desculpando e segundo porque ela estava perto demais.
Ela disse em voz suave, “Eu pressionei você, não é? Eu apenas estou preocupada contigo, mas se considera Kuroki-kun seu amigo de verdade, então está tudo bem.”
Aki viu ela ir até o balde e pegar um dos panos.
“É melhor começarmos ou não vamos conseguir terminar,” ela concluiu com um sorriso.
Ainda desnorteado, Aki respondeu, “S-Sim. Vamos começar com as carteiras, eu te mostro como faz.”
“Não precisa.” Nagisa já começou a limpar. “Eu limpo a minha casa, tenho experiência nisso. Eu cuido desse lado e você do outro.”
“Ah... Certo.”
Sem trocar palavras novamente, eles limparam as carteiras. Isso foi rápido, pois a parte mais pesada seria o chão e as vidraças. Nesse caso eles dividiram a tarefa.
Nagisa passava o rodo com pano úmido no chão, olhando para Aki que cuidava das paredes. Considerando que ela havia crescido, Nagisa constatou que ele havia crescido muito mais, pois tinha altura similar a ela. Logo ele a ultrapassaria.
Aki quebrou o silêncio, “Como era a sua antiga escola?”
Nagisa parou de olhar para ele. “Minha antiga escola?”
“É.”
Nagisa pensou um pouco antes de dizer, “Era legal, estranha às vezes.”
“Estranha?” Aki trocava o pano em seu rodo.
Ela se arrependeu de dizer aquela palavra. “Hmmm... Tinha uns rumores estranhos, como um fantasma no banheiro ou coisa assim.”
“Fantasma? Legal.”
Nagisa sorriu.
Aki voltou a passar o rodo nas vidraças. “Você tinha amigos lá?”
O sorriso dela desapareceu. “Tinha.”
“E você mantém contato com eles?”
“Não.” Ela parou. “Eu perdi.”
Aki passava o rodo, para cima e para baixo. “Amigos vem e vão, acho que tudo na vida é assim.”
Nagisa assentiu e voltou a limpar. “É verdade, mas acho que permanece um pouco de cada uma dessas coisas em nós.”
Após terminarem, só faltava o quadro, do qual eles limparam juntos.
“Feito!” Aki pôs as mãos na cintura, satisfeito.
Nagisa olhou no relógio do seu smartphone. “Nossa! Demoramos bastante, logos eles vão voltar. Como você conseguia fazer tudo sozinho?”
Aki coçou a cabeça. “Eu disse que fazia sozinho, não disse que eu conseguia.”
“No fim das contas, eu acho até melhor que Kuroki-kun foi embora,” disse Nagisa enquanto colocava todos os panos no balde.
“Por quê?”
“Não me leve a mal.” Nagisa sorriu, desviando o olhar e puxando alguns fios de seu cabelo. “Mas eu acho que Kuroki-kun iria mais atrapalhar do que ajudar.”
Um leve sorriso lentamente apareceu na face de Aki. “Você está começando a entender...” Ele pegou os rodos. “Vamos, temos que devolver tudo para o almoxarifado, eu mostro caminho.”
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“Saudar!”
Assim como os outros alunos, Mami se inclinou para professor antes de sair.
Aquela era última aula e os corredores logo estavam abarrotados de garotas de uniforme branco querendo voltar para casa. Depois que desciam as escadas, elas se misturavam as garotas de uniforme bordô que tinham o mesmo intento. Uma caótica coreografia.
Para Mami havia outra coisa que competia com a idéia de voltar para casa. Ela não tinha esquecido do olhar da Oriko e temia repetir aquela experiência a qualquer instante.
Quando já estava no estacionamento, chegando ao portão, seu braço foi puxado.
Mami se arrepiou só de pensar em ver quem era, mas a garota que tentava seqüestrá-la era baixinha e usava uniforme bordô.
“Vem rápido ou vamos perder o ônibus!” Sasa exclamou.
Mami estava confusa. “Mas-”
Sasa a interrompeu, “Você ia pegar no ponto de ônibus na frente da escola, não ia?”
A loira não disse mais nada.
Assim que alcançaram um ponto mais distante, o ônibus já estava chegando.
“Tadah!” Sasa fez uma pose. “Missão cumprida!”
Mami arrumou sua saia e seu cabelo, que ficaram desarrumados com a correria.
Elas entram e encontraram um lugar para sentar. Sasa havia notado que Mami estava emburrada e decidiu falar assim que o veículo partiu, “Eu sei o que está pensando, mas você vai me agradecer mais tarde.”
“É difícil de acreditar que é preciso fazer isso,” disse Mami.
“Você teve sorte, muita sorte, Tomoe-senpai.” Sasa deu um sorriso maroto. “Esses são só os primeiros dias, as coisas vão esquentar logo logo, você verá.”
A viagem continuou, até que Sasa apertou o botão de parada.
“Mas não se preocupe.” Ela deu uma piscadela, sorrindo, além de fazer um coração com as mãos. “Sua querida kouhai, Sasa Yuuki, está aqui para te ajudar! Titiritidiiiih!”
Mami apenas assentiu. “Tchau...”
Sasa acenou alegremente e saiu.
Agora sozinha durante o resto do trajeto para casa, Mami refletiu sobre a nova pessoa. Sasa tinha aquela aura alegria que ela sentira em Madoka, mas mais energética do que gentil.
Contudo ela trazia terríveis previsões para sua vida em Shirome. Será que ela podia confiar nela?
Disso tudo Mami só obteve uma certeza, que ela revelou para o seu próprio reflexo na janela, “Eu não viajarei mais sozinha...”
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