Amor
17 Resistência
Aki deixou o apartamento sem se despedir. Sua mente e coração ainda estavam muito ocupados com os eventos da noite anterior. Algumas coisas estavam borradas, como o que aconteceu, outras eram bem claras, como a discussão com a família.
A tristeza ainda estava ali, drenando seus músculos. O chão estava convidativo para cair e não seguir em frente. Contudo, as obrigações e fracassos, antes sem sentido, agora espiralavam para uma pessoa. Alguém esperando isso dele e, por conseguinte, dele mesmo.
Quando abriu o portão, Nagisa não estava lá. Aki parou e olhou a hora, ele não estava atrasado nem adiantado, o ônibus não iria esperar. Ele foi até a parada, esperando encontrar ela.
Não encontrou. Ele seguiu a viagem de ônibus com o coração ainda mais inquieto.
Chegando à escola, ele se segurou para não correr. Estudantes olhavam para ele com mais freqüência do que o de costume, devido aos seus curativos, mas ele não se importava com isso agora.
Um esbarrão. Alguém com mais pressa quase havia atropelado ele. Era um garoto, que ele pôde reconhecer devido ao seu rabo de cavalo preto.
Aki sentiu que algo havia sido deixado em sua mão. Era a chave de fenda. Temendo que alguém mais pudesse notar, ele a colocou rapidamente em seu bolso e seguiu caminho.
Assim que avistou a sala de aula, lhe veio o alívio. No outro lado do vidro, Nagisa estava sentada em sua carteira. Ele entrou, pronto para falar com ela, quando foi interceptado por Ayako batendo palmas.
“Congratulações!”
“Hein?!”
“Você conseguiu! Bem, ele só ganhou uma suspensão...” A garota apontou para Aki. “Mas agora ele vai pensar duas vezes antes de atacar você.”
“Ah... Então foi isso que aconteceu...” Aki olhou de relance para Sanjuro.
O outro garoto semicerrou o olhar e deu um sorrisinho.
Ayako continuou, “Isso pode ser o começo do fim do reinando dele, você precisa capitalizar esse momento e...”
No entanto, Aki não tinha nenhum interesse em continuar ouvindo. Ele se aproximou de sua namorada. “Bom dia... Nagisa.”
A garota ergueu seus olhos laranja com um toque de amarelo.
Ele abriu um sorriso, mas sua respiração acabou por denunciar seu nervosismo.
Aquilo atiçou a curiosidade de Ayako. “Oi? Aconteceu alguma coisa entre vocês?”
Aki e Nagisa olharam para ela, mas sem dizer nada.
“Hmmm... Ok...” Ayako ergueu as mãos e se afastou. “Não está mais aqui quem perguntou.”
Nagisa voltou sua atenção para o garoto. “Eu estava muito cansada e acabei perdendo o ônibus.”
“É, eu pensei nisso...” Aki se sentou. “Eu estou cansado também. Você sabia da suspensão do Takuma?”
“Eu soube hoje com a Ayako-chan.”
“Hmmm...” Aki não ouviu mais nada de sua namorada, ela não parecia contente. A suspensão de Takuma de fato não significava muita coisa. Ele mesmo já havia admitido isso.
Quando professor entrou na sala, os alunos que ainda estavam de pé se sentaram e as fofocas dos últimos acontecimentos se silenciaram, prontos para aula.
Enquanto pegava os livros em sua mala, Aki viu uma garota aparecer e ficar parada na entrada da sala, com alguns papéis em seus braços. Ela era mais velha, tantos os olhos quanto o cabelo comprido eram de cor de mel. O olhar dela era especial, um tanto reconfortante.
O professor também havia percebido a presença e foi até ela. Eles começaram a conversar, com a garota mostrando os papéis para ele.
Aproveitando aquele momento de distração, alguns alunos voltaram a conversar.
Aki olhou para sua namorada para ver se ela estava curiosa. Ela estava, e muito, nem piscava o olho.
A conversa acabou quando o professor assentiu, então a garota sorriu para a turma e ergueu sua voz, “Aki Hidaka e Nagisa Momoe, eu gostaria que viessem comigo.”
Um burburinho se instaurou na sala de aula.
Aki se levantou lentamente, surpreso e sem saber se deveria levar a mala ou não. Ele viu que Nagisa já estava de pé, sem a mala, talvez isso fosse o certo.
“Calma, a aula vai transcorrer normalmente,” anunciou o professor, “quando eles retornarem, eu espero que vocês repassem as suas anotações.”
Aki se sentiu um pouco mais aliviado sabendo que iria retornar. Ele e sua namorada foram até a porta.
“Obrigada pela sua paciência, professor.” A garota então teve a sua atenção voltada para o casal. “Por favor...”
Eles acompanharam ela pelos corredores.
O sinal tocou.
Um desconforto cresceu em Aki, enquanto observava os outros alunos em suas salas de aula, o lugar onde deveria estar naquela hora. “Por que nós fomos chamados?”
“Eu sou Chiyo Noguchi,” a garota respondeu com uma voz mansa, “vocês conhecem Madoka-san, certo? Ela me enviou.”
“Ah... Sim...” Nagisa examinou a mão esquerda da garota, só para ter certeza. Não havia anel algum.
Aki continuou com as perguntas, “Para quê? Para onde estamos indo?”
“É uma boa surpresa,” disse Chiyo, sorrindo, “logo irão descobrir.”
Eles subiram até o quarto andar, onde ficavam as salas dos clubes da escola. No entanto, isso não sanou as dúvidas de Aki, pois naquele horário não haveria atividades por ali.
Eles logo avistaram outro garoto mais velho, guiando alguns estudantes para uma das salas. Ele tinha cabelo curto e liso, quase sem franja, de cor castanho claro assim como os olhos.
“Nakazawa-kun!” Chiyo falou alto, “conseguiu mais alguns?”
“Sim, até que a sala ficou cheia. Ah... Então esse é o garoto.” Nakazawa fez uma careta ao ver os curativos. “Ai... Essa foi feia...”
Aki abaixou a cabeça. “Então vocês sabiam sobre mim.”
Nakazawa coçou a cabeça. “Bem... A escola inteira está sabendo.”
“Acho que já é hora.” Chiyo se curvou para o casal. “Como presidente do clube anti-bullying, eu dou as boas vindas para vocês para a nossa inauguração.”
Nagisa ergueu as sobrancelhas. “Clube anti-bullying?”
Nakazawa colocou as mãos na cintura, orgulhoso. “É, e eu sou o vice!”
“Eu entendo a confusão de vocês, pois não houve anúncios no rádio da escola e nos murais,” Chiyo ficou mais séria, assentindo, “eu decidi que seria melhor assim. Se os alunos soubessem do clube antes da hora, as vítimas poderiam sofrer coerção para não participarem.”
Nakazawa complementou, “Nós montamos uma lista de pessoas que descobrimos que estavam sofrendo bullying. Então como hoje é a inauguração, nós trouxemos eles para cá sem falar muito sobre o que era.”
Ela continuou, “Madoka-san estava ciente do meu trabalho e me contou sobre você e sua namorada.”
Nagisa desviou o olhar. “Ah...”
“Nós sentimos muito por não termos aberto o clube antes.” Chiyo novamente se curvou, seguida por Nakazawa. “O que aconteceu contigo foi lamentável.”
Aki suspirou. “Vocês não devem se desculpar...”
“Por favor, aceite,” Chiyo disse, “hoje você será o nosso convidado especial. Fique conosco.”
Nagisa olhou para ele. “Aki...”
Então o garoto levantou a cabeça e assentiu. “Obrigado.”
Os quatro entraram na sala. Aki pôde contar nos dedos os alunos que estavam ocupando as cadeiras. Meninos e meninas, de idades variadas. Todos eles eram alvos de abusos? Ele pôde identificar na aparência de alguns o possível motivo, um óculos, um cabelo diferente, um pouco mais gordo, porém na maioria ele não tinha idéia do que poderia ser.
Chiyo pediu, “Nakazawa-kun, poderia escrever o nome do clube e a agenda no quadro?”
“Claro!”
Aki e Nagisa continuaram de pé na frente dos estudantes, sem idéia do que fazer. Só restava colocar as mãos atrás e sorrir de leve.
Enquanto Chiyo começou a anunciar, “Bom dia! Eu sou Chiyo Noguchi, presidente do primeiro clube anti-bullying da escola de Mitakihara. Eu já aviso que esse não será nosso horário normal, nós temos dias da semana e horários definidos. É claro que podemos negociar e alterar para o que for melhor para vocês.”
Aki ficou um tanto impressionado. A garota tinha boa dicção e presença.
“Eu já estava há um tempo com a idéia de criar esse clube, pois, assim como vocês, eu também sofri muito com isso.” Ela apontou para o chão. “E foi exatamente nessa escola. Minha família não tinha condições financeiras e eu só consegui me matricular através de uma bolsa de estudos. Era para eu estar feliz, mas então começaram os problemas com os outros colegas, pois eu não tinha coisas que eles tinham. Isso me isolou e virei alvo fácil para agressões. Por sorte a janela de transferência ainda estava aberta e tive a opção de trocar de turma, onde fui muito bem recebida. Alguém de vocês está sofrendo bullying por causa do seu poder aquisitivo?”
Os estudantes permaneceram em silêncio. Eles se entreolharam entre si, alguns balançavam a cabeça.
“Sim, cada caso é muito específico, tanto na forma como começou quanto ao motivo. Pode ser algo fútil e talvez vocês nem tenham idéia do que seria.” Chiyo ficou mais melancólica, abaixando o tom. “Mas a pessoa ou pessoas riem de vocês, não riem? Isso se torna um entretenimento. Força, confiança, controle... Elas se sentem recompensadas e encorajadas a continuar.” Ela balançou a cabeça. “Isso não é bom para a nossa sociedade. A escola é para ensinar, não somente números e textos, mas o convívio entre as pessoas, a compaixão, a solidariedade, a união... Esse é para ser o futuro que almejamos. Vocês não querem que na rua ou no ambiente de trabalho seja que nem é hoje na sala de aula, não é?”
Dessa vez a maioria dos estudantes balançaram a cabeça.
“Mas pior de tudo é que alguns de vocês podem ter aceitado esse papel. Sentimos que será pior lutar, pois sabemos que não vamos vencer e só vai irritá-los mais. Então começamos acreditar que eles têm razão, que há algo muito errado em nós e não temos qualidades. Somos inferiores, menos humanos...”
Nakazawa havia terminado de escrever no quadro e estava bem satisfeito com atenção deles para Chiyo.
Ela enfatizou, “Esse clube é para lembrar: vocês não estão sozinhos. Eu sei que alguns de vocês não queriam incomodar ninguém com os seus problemas, talvez até tenham ouvido isso de suas famílias, mas a obrigação desse lugar é de pedir ajuda.” Ela cerrou o punho. “Nós vamos unir nossas vozes, fazer os adultos que acham que isso é apenas uma brincadeira ouvirem. E se vocês não têm amigos, saiba que irá encontrar gente aqui em comum para pôr um fim nisso.” Ela então se curvou. “Obrigada.”
A sala permaneceu em silêncio, algo que preocupou Aki. Considerando o bom discurso dela, esperava por uma reação, mas talvez fosse o tema sério.
“Quer falar algo, Nakazawa-kun?”
“Pode ser.” Ele tomou o lugar da Chiyo. “Oi pessoal, vocês estão gostando de matar aula?”
Alguns da platéia esboçaram sorrisos.
“Não esperem que seja assim nos próximos encontros.” Ele respirou fundo e passou a mão no cabelo. “Bem, Noguchi-san já disse tudo então só vou contar a minha história. Sou o vice-presidente Toshio Nakazawa e eu não sei ao certo se sofri bullying, mas o que aconteceu comigo fez com que eu tivesse que mudar de escola e perdi muitos amigos... Quem de vocês tem notas ruins?”
Dois garotos sentados próximos à parede ergueram os braços.
Nakazawa apontou para eles. “Ei! Temos gente corajosa aqui, assim como eu.”
Dessa vez, até Chiyo quase riu.
“Minhas eram tão ruins que a minha família me obrigou a sentar nas primeiras carteiras da sala. Eles me disseram que se o professor pudesse prestar mais a atenção em mim, eu faria o mesmo em troca.” Ele abriu os braços e ergueu as sobrancelhas. “E tinha dado certo... os professores davam mais atenção para mim, as notas tavam melhorando... porém um dos professores começou a falar mais comigo, era uma mulher.” Então ele fez uma pausa.
Uma bem dramática e pelas expressões de surpresa dos que estavam presentes deixava claro que eles haviam entendido.
“É, de algum lugar veio um boato de que eu tinha um relacionamento com ela. Espalhou como fogo e não demorou muito para a escola convidar nós dois para sair. Ninguém queria um escândalo e como poderíamos processar uma piada ruim que saiu do controle?” Nakazawa pôs as mãos atrás da cabeça e alongou as costas. “Eu ainda hoje não entendo, por que eu? Tem tantos alunos que sentam na primeira fileira e os professores conversam com eles, talvez façam algo mais. Acho que vocês já fizeram esse tipo de pergunta, né?”
Silêncio.
“Hmmm...” Ele sorriu. “Mas eu tive sorte quando entrei nessa escola. A turma onde eu e Noguchi-san estudamos é muita boa. Todo mundo se dá bem e não temos problemas, exceto com algo que aconteceu ano passado...”
“Você não precisa contar isso.” Chiyo cortou ele.
“É... Isso não tem nada haver com bullying...” Nakazawa esfregou o rosto, mais nervoso. “Era isso que eu tinha pra falar... é... eu não ensaiei nada... então... ah sim!” Ele gesticulou em direção ao Aki para que ele viesse. “Nós temos um convidado especial para a nossa inauguração.”
O sangue do garoto loiro congelou.
Nagisa não era muito diferente, com os seus olhos arregalados.
“Acredito que ele seja um grande exemplo do que nós temos que lidar.” Nakazawa o chamou novamente, “Venha, venha!”
Aki se juntou a ele, ainda olhando para os estudantes, que agora pareciam chateados, seus olhares mais inquisitivos e ameaçadores.
Nakazawa sussurrou, “Não quer falar algo?”
“Ehhhh... Eu não sei se eu...” Aki consultou Nagisa. A garota estava com um olhar atento a ele, mas não estava expressando nada que pudesse dizer o que era certo fazer. Um sorriso, uma careta, um aceno. Qualquer coisa!
Não.
Ele parou de olhar para ela, olhou para si mesmo.
Ela já me disse o que ela quer.
“Eu irei dizer algo...”
“Legal!” Nakazawa deu um tapinha nas costas e se afastou.
Para Aki era como se ele tivesse soltado a sua mão na beirada de um desfiladeiro. Era preciso falar, “O-Oi pessoal... eu sou Aki Hidaka...”
Uma garota de braços cruzados disse, “Não consigo ouvir.”
“D-Desculpe.” Ele engoliu seco e falou mais alto. “Oi Aki Hi... q-quero dizer, sou Aki Hidaka e nós todos temos problemas, né?”
A platéia não reagiu.
Aki puxou o lóbulo de sua orelha, estava quente. Ele podia ouvir o som de seu coração enquanto abaixava a cabeça e o tom de voz. “Cada um de nós... tem problemas...”
Nagisa ficou preocupada com a dificuldade que ele estava tendo.
Chiyo também, fazendo menção que iria intervir.
Mas Aki levantou a cabeça e continuou, “... se compartilharmos nossas histórias, então... então podemos descobrir uma forma de ajudar... é...” Ele juntou suas mãos inquietas. “Eu pelo menos sei como tudo começou no meu caso. Eu... era bastante invisível e não tinha amigos próximos na sala. Eu passei ser notado pelo outros colegas quando eles começaram a crescer mais que eu. Ficou ruim quando descobriram que eu gostava de filmes de terror e monstros.” Sentindo sua garganta irritada, ele engoliu saliva. “É... Eles perguntaram se eu gostava mais disso do que garotas. Nessa época eu não pensava sobre isso, então... bem, eles me tacharam de marica. Uns garotos começaram a ser mais agressivos comigo, com o apoio de outros colegas.” Ele então fez um gesto para os curativos em seu rosto. “E esse é o ponto que eu cheguei depois de alguns anos.”
Um garoto no fundo da sala levantou a mão.
“S-Sim?”
“Você é o menino do vidro?” perguntou ele.
Deixando Aki confuso. “Menino do vidro?”
“É, o que foi jogado através de um painel de vidro ontem.”
“Não...” Uma garota protestou em descrédito. “Não pode ser o menino do vidro, ele está morto!”
Outra garota concordou, “Sim! Caiu um caco de vidro e decapitou ele!”
Aki passou a mão em seu pescoço.
Nakazawa interveio. “Garotas, se isso fosse verdade, teria virado notícia na TV.”
O garoto voltou a insistir, “Você é o menino do vidro, ou não é?”
Hesitante, Aki fez uma careta enquanto respondia, “Hmmm... sim, esses cortes são por causa do vidro, mas eu estava desacordado, então não me lembro de muita coisa.”
“Hah!” O garoto cruzou os braços, orgulhoso. “Eu sabia que era o menino do vidro!”
“Peraí!” Outro estudante ficou boquiaberto. “Você é realmente ele?! Eu pensei que essa história era inventada.”
As garotas olhavam para as reações que surgiam, ainda não acreditando.
Outro riu. “Ahahaha! Por isso que a cara dele tá toda ferrada! A porra do menino do vidro é real!”
As conversas entre os estudantes e as risadas continuaram, enquanto Aki apenas ficava piscando os olhos. Nem Chiyo, Nakazawa e Nagisa tinham alguma idéia de como aquilo podia terminar.
O garoto mais velho dos que estavam sentados declarou, “Massa pra caralho, cara. Eu sempre quis quebrar um desses painéis.”
“Só não usa a cabeça, tá?” respondeu Aki.
Gerando mais uma série de risos.
E Nagisa sorriu, pois Aki riu com eles.
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O dia de aula havia chegado ao fim e para Aki e Nagisa ele fora o mais normal que eles tiveram ultimamente, desconsiderando o clube.
No corredor, Aki voltava a lembrar. “De marica para o menino do vidro, conhecido na escola inteira. Que promoção...”
“Não me é ruim,” respondeu Nagisa, “ao menos não soa tão pejorativo.”
Ele abaixou o olhar, “tenho que concordar que é mais único...”
“O importante é que eu acho que você conseguiu uma boa impressão dos outros membros do clube.”
“Sim...” Apesar de Aki assentir, ele estava preocupado. “Só quero ver como vai ser quanto mais gente souber do clube. Nem imagino o que vai acontecer quando Takuma descobrir que faço parte dele.”
“Ei! Esperem!”
Eles se viraram e reconheceram o garoto que estava correndo. “Nakazawa-senpai?”
Ele alcançou os dois, recuperando o fôlego. “Ufa... Que bom que eu encontrei vocês. Estão indo para a estação?”
“Nós íamos pegar o ônibus,” Aki respondeu.
“Mas podemos tentar hoje,” disse Nagisa, “por que quer saber?”
“Eu estava conversando com a Noguchi-san, ouvimos alguns rumores...” Nakazawa olhou para Aki. “Você conhece o garoto que foi suspenso, certo? Parece que ele quer pegar você na saída da escola.”
Aki estremeceu. “O-O quê?!”
“Não se preocupe.” Ele deu uma piscadela. “Não vou permitir que ele mexa contigo.”
Nagisa não estava convencida. “Você acha que consegue...?”
“Eu não vou estar sozinho.” Nakazawa olhou para trás.
Aki e Nagisa viram mais dois garotos chegarem. Um era mais baixo que Nakazawa e usava óculos, o outro era mais alto e pouco gordo.
“Eles são da minha sala e estão a fim de ajudar!”
“Na verdade...” O garoto ajeitou os seus óculos. “Eu estou indo para estação também, então se eles quiserem me acompanhar...”
“Claro... Claro...” Mais nervoso, Nakazawa sorriu. “E veja que temos um cara grande conosco! Aquele garoto não vai querer chegar nem perto da gente.”
O garoto alto acenou, falando com uma voz lenta e grossa, “Oi...”
“Talvez não...” Aki deu de ombros.
“Então são esses dois.” Outro garoto apareceu, carregando a mala sobre o seu ombro e com a gola do uniforme aberta. Ele não parecia muito feliz. “Ah cara... Por que tá envolvendo a gente com esse negócio de clube anti-bullying? Isso não era só pra a representante de classe parar de encher o teu saco?”
“Não fala assim.” Nakazawa ficou acabrunhado. “E-Eu tô levando isso a sério. Eu sou o vice-presidente!”
O garoto semicerrou o olhar. “Qual é, você tá fazendo isso pra ganhar pontos com a Noguchi-san, tô certo?”
“Para! Eu não tenho interesse nela.”
Nagisa se sentia cada vez mais desconfortável. “Vocês... não precisam se incomodar...”
“Isso não é nada!” Então Nakazawa disse aos outros garotos, um pouco irritado. “Vamos parar com esse drama, a estação não é longe.”
O grupo atravessou os portões da escola e logo alcançaram a rua, com o casal liderando os outros garotos.
Com o número de pessoas na calçada usando uniforme escolar diminuindo, Aki foi ficando mais apreensivo.
Nagisa anunciou. “Estou vendo a estação.”
Mas Aki nem ouviu, de tão concentrado que ele estava com os arredores, temendo em se deparar com a face de Takuma ou algo muito pior.
Havia um garoto no outro lado da rua, que estava os acompanhando. Quando ele se deu conta que havia sido notado, ele ergueu o braço.
Aki parou na hora. “Nós temos que voltar.”
“Hã? O que foi?” Nakazawa perguntou.
Mas não houve tempo para respostas. Mais garotos apareceram, cercando eles e outro grupo muito maior surgiu de uma esquina.
O mais aterrorizante pressentimento de Aki se confirmou ao ver aquela barba ruiva. “H-Hiro...”
Liderando o grupo estava Takuma, de roupas casuais e abrindo os braços, com um sorriso maroto. “Quando me ferraram com uma suspensão, eu pensei que você tivesse parado no hospital, mas parece que a sorte sorriu pra mim...”
Encurralados, o garoto com a gola aberta exasperou, “Droga Nakazawa! Olha a roubada que você nos meteu!”
Era tudo o que Nakazawa não precisava, já estava suando o bastante, mas ele precisava fazer alguma coisa. “E-Ei! Eu sou do clube anti-bullying, parem de incomodar esse garoto...”
“Bullying?!” Takuma ergueu as sobrancelhas e olhou para outros membros, quase rindo. “Eles acham que isso é bullying.”
Alguns garotos definitivamente riram, mas Hiro continuou sério, balançando a cabeça. “Idiotas...”
O garoto de óculos, aproveitando que a sua mala cobria o bolso do seu uniforme, tentou lentamente alcançar seu smartphone com a outra mão.
“EI!” Hiro fez menção de mostrar os anéis metálicos em seus dedos. “Acha que consegue discar antes de eu te pegar?”
O garoto abaixou a cabeça, desistindo.
“Que desperdício de homens...” Hiro olhou para Aki e suas palavras foram duras, “esse não precisa ser o seu futuro! Aki Hidaka, venha conosco...”
Takuma cruzou os braços. “É, ninguém aqui tá querendo problemas. Eu até te perdôo se você voltar pra gente. Vamos ignorar tudo e começar de novo, hein?”
Ouvindo aquilo, a raiva de Nagisa cresceu, dizendo para Aki, “Ele está mentindo!”
O garoto loiro estava tenso, ele baixou a cabeça e pressionou os lábios e finalmente disse, “Ok, eu vou com vocês...”
Nagisa sobressaltou-se.
“Não faça isso!” disse Nakazawa.
Mas Aki não havia terminado. “... sob uma condição.”
“Hã?” Takuma ergueu uma sobrancelha. “Acha que tá em posição para impor condições?”
“Eu não estou falando contigo.”
Surpreso, Takuma olhou para trás.
“Eu quero te ouvir,” disse Hiro.
Aki olhou para ele, trazendo seu punho fechado ao peito. “Eu quero lutar com Takuma. Se eu vencer, eu quero poder decidir se fico ou não na gangue.”
“Aceito.” Hiro assentiu. “Iremos arranjar um lugar para isso.”
“Aki...” E Nagisa não conseguiu dizer mais nada.
Todos estavam em silêncio, tentando compreender aquele acordo.
“Ha... haha.. hahahaha...”
Até que Takuma riu.
“HAHAHAHA! Você bateu a cabeça tão forte assim? Você nunca foi tão retardado!” Com ambas as mãos ele puxou o cabelo para trás. “Filho da puta... Eu quis te ajudar, sério, mas o teu caso não tem cura não. Dessa vez eu não vou te apagar, tu vai sentir dor até não ter mais ar em seus pulmões pra gritar.”
Mesmo diante das ameaças, a expressão de Aki endureceu e ele deu um passo à frente.
Foi o que bastou para que Nagisa o bloqueasse. “Não!”
“Eu quero fazer isso,” disse ele.
Ela pôs as mãos no peito dele. “Mas não tem como...”
“Eu sei, eu irei falhar.” Ele sorriu. “Mas se for por ti...”
Nagisa estava aflita, porém ele estava decidido. Impedi-lo seria traí-lo sem trazer benefício algum, de que outra maneira eles poderiam escapar daquela situação?
O anel com o seu nome escrito com runas lhe trouxe uma idéia. Se ela conseguisse imbuir o corpo de Aki com a sua mágica, poderia mudar o resultado daquela luta.
“Takuma Kuroki.”
Como se tivesse vindo do nada, uma garota conseguiu entrar na roda.
Nakazawa e seus colegas logo a reconheceram. “Akemi-san...”
Homura ignorou a surpresa de todos, inclusive de Nagisa, e se aproximou da pessoa de seu interesse em passos firmes. “Você é Takuma Kuroki, não é?”
Essa garota! Takuma olhou envolta, para os outros membros da gangue, isso fez com que sorrisse confiante. “Então fiquei famoso... O que você quer?”
“Você e esses garotos, saiam enquanto podem,” disse ela em um tom monótono.
Hiro franziu a testa enquanto passava a mão em sua barba.
“Eh?!” Takuma continuou a sorrir. “Que piada é essa?”
Homura permaneceu em silêncio encarando ele.
Estava ficando cada vez mais difícil manter o sorriso. “Você... vai lutar?”
“Se não me deixarem escolha.”
Takuma cerrou os punhos. “Pra tá tão confiante assim você deve ter algo. Artes marciais?”
Homura semicerrou o olhar.
“Eu sabia!” Ele virou a cara, falando para o grupo, “Haha! Pessoal, ela acha que a rua é igual ao dojo.”
A afirmação dele conseguiu fazer alguns garotos sorrirem.
Quando retornou sua atenção para a garota, o que Takuma viu foi uma mala voando direto para sua face. Ele se defendeu, a segurando, e então um chute conectou sua barriga, o jogando para trás. Ele caiu no chão e ali permaneceu.
As faces dos membros da gangue congelaram-se. Olhos arregalados ou boquiabertos ou ambos.
Homura lentamente abaixou sua perna e com uma puxada firme ajeitou sua saia.
Um dos garotos passou da estupefação para raiva e fez menção que iria avançar, mas um braço esticado surgiu para pará-lo.
Era Hiro. “Ninguém ataca.”
Alguns ficaram confusos. “Mas ela nocauteou um dos nossos.”
“Takuma precisava aprender essa lição.” Hiro ergueu o braço e fez um gesto.
Os estudantes viram os garotos começarem a recuar.
Hiro foi andando para trás, dizendo, “Aki, continue esse caminho, é possível se tornar um homem sozinho. Se algum dia precisar de ajuda, nós ainda te aceitamos em nosso grupo.” Ele então olhou para Homura.
A garota mantinha uma pose tensa.
Ele assentiu e se virou.
Quando a gangue ficou fora de vista, Homura foi até onde Takuma estava inconsciente e pegou sua mala, depois se levantou, jogando sua trança para trás. Ela então caminhou, olhando de relance para Nagisa e Aki, em direção a Nakazawa. “O garoto bateu a cabeça no pavimento, as pernas estão rígidas. Chame uma ambulância.”
“C-Claro!” Ele pegou o smartphone.
Homura continuava encarando ele.
“Eu vou... Eu vou dizer que foi uma luta entre gangues.”
A intensidade do olhar dela diminuiu e então ela foi embora.
Depois de passar ao lado dele, o garoto de óculos comentou em um sussurro, “Akemi-san... ela sempre me deu calafrios, agora eu sei por que...”
“Sim, ela é...” Quando Nakazawa olhou para trás, a garota já havia desaparecido. “... única.”
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