Amor À Prova
16 O circo pega fogo
Notas iniciais
I.
May estava sozinha na lanchonete do hospital. Não conseguia manter sua mente tranquila. Mil e uma coisas passavam por sua mente. Sentia-se exausta, mas não queria sair do hospital. Sora poderia ser transferida para o quarto a qualquer momento e não queria estar em outro lugar quando acontecesse. Sabia que precisava de um banho e de um bom descanso. Seu cansaço não era apenas físico, por ter passado a noite em claro sentada em uma cadeira desconfortável, mas também mental, visto que estava preocupada demais com o estado de saúde da amiga.
Além de se preocupar com Sora, a chinesa ainda estava preocupada com a pequena Misaki. Como a bebê nascera prematura e com menos de 2 kg, teria que ficar no hospital por alguns meses até alcançar o peso ideal para receber alta. Kate informara a May que a filha de Sora precisaria muito da mãe nessa etapa da vida. Bebês prematuros precisam de muitos cuidados, e inclusive quando estão na UTin. A médica dissera que os prematuros precisam ter contato com os pais, para que assim possam senti-los e terem mais motivos para continuarem a lutar.
Mas não apenas em Sora e Misaki que May pensava. Ainda havia a preocupação com Yuri. O rapaz tinha o direito de saber sobre o nascimento de sua filha. Pensara em conversar com Layla acerca disso, mas não imaginava como a loira poderia reagir. Não sabia o que havia acontecido entre os dois quando Yuri contara para a noiva sobre Sora, mas com certeza que não havia sido coisa boa, tendo em vista que a jovem atriz nem se quer comentara sobre ligar para o pintor.
No momento em que Sora estava na sala de parto, May tentara ligar para Yuri a fim de avisar sobre o nascimento de sua filha, mas o rapaz não atendera o celular. Provavelmente estava dormindo de tão bêbado. Os homens eram muito previsíveis. Quando algo muito sério e estressante ocorre, eles costumam buscar apoio na bebida. Mas mesmo que não conseguira falar com ele antes, a chinesa precisava tentar novamente. Não conseguiria ficar tranquila se não o avisasse. Ele tinha o direito de saber, e iria saber.
A jovem acrobata pegou o celular e procurou o número de Yuri. Não queria causar discórdia entre Yuri e Layla, mas, infelizmente, ele era o pai da menina. Discou o número, o telefone chamou por quatro vezes, até que alguém do outro lado da linha atendeu.
– Alô? – Yuri estava com a voz rouca. Provavelmente tinha acabado de acordar e devia estar com uma ressaca daquelas.
– Bom dia Yuri. É a May. – dissera a chinesa.
– Bom dia! A que devo a sua ligação? – Ao perceber que era a acrobata do outro lado da linha, o rapaz logo se ajeitou na cama e tentou melhorar a voz. Não queria passar a imagem de irresponsável, apesar de ser exatamente isso que ele era e não era um segredo para ninguém.
– Estou ligando para te avisar que sua filha nasceu. Achei que você tinha o direito de saber. Se quiser vir ao hospital, estamos aqui. – informara May.
– Minha filha nasceu? – o coração de Yuri era só alegria. Não conseguia conter a enorme felicidade em saber que era oficialmente pai. Seu coração estava batendo rápido demais e parecia que sairia de seu peito. Não poderia pensar duas vezes, tinha que ir até o hospital ver como Sora e sua filha estavam. – Já estou indo!
– Ok. – ao terminar de falar, May desligara o telefone. Havia feito a coisa certa. Não sabia o que poderia acontecer com a presença de Yuri ali, mas ele precisava aparecer, afinal era o pai de Misaki, e como Kate dissera, nesse momento crucial a pequena precisava dos pais.
Ao terminar o seu lanche, a chinesa pagou e retirou-se do local. Iria voltar para a sala de espera do hospital e nada a tiraria de lá. Não até Sora ir para um quarto e estar melhor.
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Yuri estaciona o carro no pátio do hospital. Assim que recebera a ligação de May, o rapaz pegara as chaves do carro e correra o mais rápido que pode para chegar o quanto antes no local. Não queria perder nenhum momento com sua filha. Sua. Sabia que havia feito a maior besteira de sua vida, mas não podia esconder a felicidade que sentia por ser pai. Naquele momento, Yuri acreditava que não existia felicidade maior do que a que ele estava sentindo.
Entrou no hospital as pressas. Estava com o terno todo amarrotado por ter dormido com ele. Seus cabelos estavam meio bagunçados, um das golas de sua camisa social estava levantada enquanto a outra estava no devido lugar. Estava com uma dor de cabeça terrível. Deveria ter tomado um banho e se ajeitado, mas não quisera esperar nem mais um minuto para chegar ao hospital.
Ao chegar à sala de espera da recepção, o rapaz encontrou o pessoal do Kaleido Star e quem ele mais queria ver: Layla. Não pensara que a leonina estaria ali depois de tudo o que ele lhe dissera, mas deveria ter imaginado, Sora e Layla eram muito amigas e a loira não ia permitir que um homem atrapalhasse essa amizade. Com toda a certeza, ela ficaria imensamente irritada ao ver o pintor ali. Mas ele tinha que arriscar. Não havia outro lugar que ele queria estar.
Ao se aproximar, Layla estava de costas para ele e ainda não o havia visto. Estava falando com Karlos alguma coisa sobre ele levar ela para casa. O rapaz poderia se esconder e esperar que Layla saísse com o dono do circo para entrar na sala de espera, mas isso mostraria covardia. E o que Yuri não queria mostrar naquele momento era isso. Precisava enfrentar as consequências de seus atos, pelo menos uma vez na sua vida. Agora seria pai, e precisava comportar-se como um. Respirou fundo e aproximou-se dos presentes ali.
– Jovem Yuri! – fora Mia quem o chamou. A roteirista do circo não fazia ideia das coisas que estavam acontecendo entre Layla, Yuri e Sora. Apenas vira o rapaz e chamara por ele.
Quando Layla ouviu o nome de Yuri ser pronunciado, sentiu um calafrio passar por todo o seu corpo. Sabia que ele tinha o direito de estar ali, afinal ele era o pai da criança, mas não queria encontrar com ele. Na verdade, não queria encontrar ele nunca mais. Não sabia como que ele descobrira que Sora estava no hospital, mas com certeza alguém dali havia ligado para ele, mas quem?
– O que você está fazendo aqui? Quem chamou você? – os olhos de Layla pareciam pegar fogo, encarou Yuri com uma cara de ódio. Não queria ele perto de sua amiga. A filha era dele, mas isso não poderia fazer dele pai. Não depois de toda a irresponsabilidade. Não depois de ver todo o sofrimento de Sora e nada fazer para ajudar. Não depois de ter escondido a mentira por toda a gravidez. O que Yuri havia feito para ser considerado pai? Apenas havia depositado seu espermatozoide na jovem, e mais nada. Só de pensar naquilo lhe dava mais raiva.
– Eu chamei! – May pronunciou-se.
A leonina a olhou com muita raiva. Seus olhos queimavam e transmitiam o ódio que sentia pela chinesa. Quem ela pensava que era para ligar para Yuri? Ela não deveria ter feito aquilo. Se fosse para o rapaz aparecer, deveria ter sido Sora a chama-lo, e não aquela acrobata que nada tinha a ver com a história, para começo de conversa.
– Você não tinha o direito de decidir sozinha! – declarou a loira. Todos que estavam ali presentes ficaram assustados com a reação da leonina. Não entendiam o ódio que a moça parecia ter de Yuri e May. O que afinal estava acontecendo ali? Os presentes não faziam ideia.
– Porque não? Eu só fiz o que era certo. Ele tem o direito de estar presente, quer você queira ou não. – debateu a taurina. Não iria deixar que Layla a humilhasse ali perante todos. Apenas havia feito o que considerara certo e não iria voltar atrás na sua decisão e muito menos abaixar a cabeça para Layla.
A leonina apenas ignorou o que May lhe dissera. Não adiantava discutir, sabia que aquela era uma discussão que ela jamais ganharia. A chinesa estava certa. Yuri tinha mais direito do que ela mesma de estar ali. E nada no mundo mudaria esse fato. Mas não podia negar que doera ainda mais ao ver o rapaz ali. Por alguma razão, ainda queria acreditar que tudo que estava acontecendo, e tudo o que o pintor lhe dissera eram apenas parte de um pesadelo. Um pesadelo terrível. Mas infelizmente não era.
– Então faça o seu trabalho direito desta vez, Yuri. – o nome do rapaz saiu quase que cuspido. Sentia muita raiva e mágoa. Era uma leoa ferida e estava cansada de ser machucada por aquele cretino. Não queria mais ficar ali. Não queria mais olhar na cara daquele cafajeste. Precisava sair daquele hospital o mais rápido que podia. Se não saísse iria chorar, e não queria chorar na frente de Yuri. Não queria que ele a visse tão frágil daquele jeito. Não queria dar o gostinho dele ver ela ferida. – Vamos Karlos. – E dirigiu-se em direção a porta do hospital.
Assim que Layla retirou-se do local, Yuri aproximou-se de May e perguntou como estava Sora e a criança. Todos ali conseguiam perceber a tristeza na voz de Yuri. Alguma coisa estava realmente errada. Não fazia sentido a discussão que acabara de acontecer ali. Não entre aqueles dois. Mas não fazia mais sentido ainda a preocupação que Yuri parecia ter com Sora. Não era para Yuri estar preocupado daquele jeito, e sim Leon não? Alguma coisa estava acontecendo ali, e todos os presentes estavam tentando entender o que era.
Ao perceber os olhares de todos para os dois e principalmente para Yuri, May puxou o rapaz para um canto onde ninguém poderia os ouvir. Não queria que eles soubessem desse jeito. Na verdade, não queria que ninguém soubesse, pois não era a chinesa que tinha que contar e sim Sora. Então essa era uma decisão que somente ela poderia tomar. Já fora um pouco longe demais ao chamar Yuri ali sem o consentimento da amiga, apesar de que já imaginava que era isso que a moça iria fazer se pudesse.
May começara a contar tudo para Yuri, desde o momento que encontrara a jovem no aeroporto até a saída de Layla da sala de parto. Sabia que era muita informação para o rapaz absorver, mas não havia outro jeito de lhe contar o que estava acontecendo. Ele precisava saber a real situação de sua filha e da mãe dela, até mesmo porque a criança precisava dele, mais do que qualquer outra pessoa no mundo.
– Misaki? – a primeira coisa que o rapaz conseguira pronunciar fora o nome de sua filha. Sentia-se imensamente triste por tudo o que Sora estava passando, e por não ter estado ali acompanhando o nascimento de sua filha. Yuri era irresponsável demais, e não dera a atenção devida a Sora. Desde o dia que descobrira que a moça estava grávida e havia feito as contas, afastara-se. Sentira medo de dizer em voz alta que aquela criança era dele. Sentira medo de aproximar-se de Sora e lhe ajudar, pois assim estaria admitindo a burrada que havia feito. Mas sabia que desta maneira havia cometido a pior coisa do mundo. Poderia ser considerado o pior ser humano da terra. Era compreensível que Sora tivesse escolhido sozinha o nome de sua filha.
– Esse é o nome dela. – a chinesa dissera mais para si do para o pintor.
– E como elas estão agora? Sora está bem? Ela vai ficar bem? E minha filha, onde está? – a preocupação novamente tomou conta de Yuri. Estava apavorado com a ideia de perder qualquer uma das duas. Não conseguia nem pensar nessa hipótese.
– Sora está fora de perigo, mas ainda está na UTI. Ela precisou receber sangue, visto que perdeu grande quantidade. E a Misaki está na UTin. Ambas estão lutando por suas vidas. Tentando passar por mais essa provação. E eu te chamei, porque acredito que você iria querer estar aqui com ela nesse momento tão difícil. – Realmente a chinesa não estava errada. Yuri poderia ser um cretino e ter sido um covarde, mas ele precisava cuidar das duas para enfim conseguir sua redenção.
– Eu posso ver... minha filha? – Aquelas palavras ainda eram tão novas para ele. Ainda era estranho dize-las.
– Pode sim... Sente-se ali na sala de espera que vou procurar por Kate para informar a ela que você quer ver Misaki. – terminou de falar e retirou-se a procura de alguma enfermeira que pudesse dizer o paradeiro da médica e chama-la.
Yuri voltou para a sala de espera. Estava com a aparência de derrotado. Mesmo que May lhe dissera que Sora e Misaki estavam fora de perigo, ainda não se sentia totalmente animado. Elas ainda estavam passando por mais uma provação. Ambas ainda estavam lutando por suas vidas. Não conseguiu conter um pequeno sorriso ao pensar que as mulheres que importavam para ele ainda queriam viver. Era maravilhosa a sensação de saber que mesmo diante de todas as dificuldades, ainda havia força de viver. Precisava aprender mais com aquelas duas. Precisava ser forte por elas.
II.
Leon estava sem reação. A carta que Sora deixara para que ele lesse havia o deixado sem palavras. Então aquele seria o adeus dos dois? O fim de uma história de amor que nem tivera um início. Não tivera a chance de dizer a Sora que suas lembranças haviam voltado e que se lembrava de praticamente tudo, inclusive do covarde que foi por não admitir que sentira algo muito forte pela japonesa.
Quando soubera do envolvimento da jovem com Yuri sentira que estava perdendo a moça de madeixas arroxeadas, mas agora tinha certeza que havia a perdido. Estava com muita raiva do que Yuri havia feito com si, praticamente a vida inteira. Deixara essa raiva transparecer e se estender a Sora. Ela havia se entregado para Yuri, mas Leon não sabia em qual circunstância e nem tivera a coragem de pergunta-la. Sentira medo de que ela lhe dissesse que amava ele e se entregara por amor.
Não. Sora não amava Yuri. Não poderia. Não depois de ter dito a Leon várias vezes que o amava. Layla também havia dito a ele que Sora o amava muito, e que era para ele cuidar bem dela, pois ela era muito importante para outras pessoas. E não cumprira a missão que lhe fora conferida. Deveria ter perguntado mais, ter entendido os motivos que a levaram a fazer aquilo. Não entendia o porquê de se sentir traído. Quando Sora se envolvera com Yuri, nada ele era da acrobata. Ela não devia explicações para ele e mesmo assim ele a julgara.
Talvez pelo fato de que ele acreditara com todas as suas forças que a filha que Sora carregava no ventre era dele. Mas também não poderia culpa-la. Em momento algum a acrobata dissera que era dele. Ela não respondia quando ele perguntava, mas também não desmentia quando ele ficava empolgado com a gravidez. Como seria aquele ditado mesmo? Quem cala, consente. Mas será que consentia mesmo? O acrobata não fazia ideia do quanto toda aquela história havia afetado a jovem.
Talvez ela não lhe respondera para assim evitar o que havia acontecido na noite passada. Sora dissera que amava Leon e todos falaram que ela ficara ao lado dele durante todo o tempo que ele ficara em coma. Era possível ver em seus olhos o carinho que sentia por Leon e a preocupação com sua saúde. O que foi mesmo que Layla havia dito para Leon? Ela dissera que não havia visto Sora tão feliz desde o dia que realizou a peça Lago dos Cisnes ao lado de Leon. Então, estar com o jovem a fizera feliz, mesmo que por um curto espaço de tempo.
Leon lembrava que nos dias anteriores a noite passada, todas as vezes que ele dizia que iria comprar um apartamento novo, ou chamava aquela criança de sua, via os olhos da jovem encherem de lágrimas. Pensara que aquilo poderia ser de alegria. Em momento algum passou por sua cabeça que ela poderia estar se sentindo culpada por não ter coragem de lhe dizer a verdade nua e crua. E como poderia pensar naquilo? Não tinha como o jovem adivinhar que a moça estava suportando todo aquele fardo.
Ficava a pensar no motivo que levara a jovem a contar para ele que a criança não era dele. Seria porque chegara a um ponto que manter aquela história havia ficado insustentável? Será que fora Yuri quem a obrigara a contar tudo? Será que o cretino estava querendo assumir aquela criança depois de tantos meses deixando-a sozinha? Só sentia mais raiva ainda daquele pintor. Não sabia se conseguiria o perdoar depois de mais essa que ele lhe causara.
O rapaz imaginava aonde Sora poderia estar a uma hora dessas. Estaria ela a quilómetros de distância dele, ou ainda estaria na cidade? Não sabia a resposta. Queria poder ligar para alguém, mas não sabia se alguém iria lhe responder, visto ter ele tratado a jovem tão mal. Era possível que seus amigos tentassem de todas as formas defenderem-na. Se ela quisesse que ele soubesse onde estaria, teria dito na carta, não é?
Precisava tentar. Como sua irmã sempre lhe dizia, “o não nós já temos, nos resta correr atrás de conseguir o sim”. Iria atrás do seu sim. Precisava tentar ligar para alguém e esperar que a pessoa lhe ajudasse saber do paradeiro de Sora. Queria poder vê-la mais uma vez, nem que fosse a última. Precisava dizer a ela que não tinha o direito de julgá-la. Ele não era nada dela, e não devia explicações para ele. E também dizer que se ela nunca mais quisesse olhar para ele, ele entenderia.
A primeira pessoa que veio a sua mente foi May. Até porque não iria ligar para Layla. Se ela já sabia de tudo, era bem possível que nunca lhe dissesse nada sobre Sora, e até mesmo estivesse com tamanha raiva da jovem que não iria querer nem saber onde ela estava. Ela tinha motivos para ter raiva da acrobata. Leon não. Pegou seu celular e discou o número de May e esperou que ela atendesse, porém, a chamada tocou até cair na caixa postal.
Será que May havia visto que era Leon quem estava ligando e não queria o atender? Ou será que ela estaria ocupada e não havia visto o celular? Era uma dúvida que no momento somente ele poderia supor a resposta. Não tinha como saber. Mas ansiava que fosse a segunda opção. Tentou mais duas vezes, porém também restaram infrutíferas. Na quarta vez, ouviu-se a voz da chinesa do outro lado da linha.
– Olá, Leon.
–Olá May. Eu não sei o que a Sora te disse sobre mim – começou. Estava nervoso, nem parecia ele mesmo falando. – Mas eu sinto que preciso conversar com ela e tirar algumas coisas a limpo. Você poderia me dizer para onde que ela foi?
– Ah, Leon. – a voz de May parecia um tanto chorosa. Será que havia acontecido alguma coisa com Sora? – Ela está aqui no hospital Cape Mary. – Antes que May pudesse continuar, o acrobata já tinha desligado o aparelho.
Sora estava no hospital? Alguma coisa havia acontecido com a sua pequena Sora? Não iria se perdoar se algo acontecesse com ela antes que soubesse o que ele sentia. Fora covarde e não contara antes, e a jovem acabou se envolvendo com outro. E agora, novamente Leon não lhe contara e a jovem estava no hospital. “Calma, é possível que ela esteja lá para fazer uns exames devido a gravidez”, tentou se tranquilizar. “Mas porque então, a voz de May pareceria tão chorosa?”. Não adiantava. Precisava ir até o hospital para conseguir manter a mente sã.
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Layla chegara a sua residência. Assim que Karlos parou o carro para deixa-la sair, ela já dispensara o homem. Queria ficar sozinha. Não estava esperando encontrar Yuri novamente. Pelo menos não indo para o hospital. Sentia o corpo mais cansado que o normal, sua cabeça doía e sentia que ia desmaiar. Conseguira chegar à porta de sua casa e tocar a campainha. Suas pernas estavam fracas e seus olhos já começavam a marejar.
Penélope abriu a porta e deparou-se com Layla. Seu estado estava deplorável. A moça quase não se mantinha de pé e lágrimas rolavam de seus olhos. Era uma visão triste ver a leonina daquele jeito. A empregada pôs se logo a ajudar a loira a entrar na casa e levou-a até a sala. Layla sentou-se no sofá e permitiu-se chorar. Um choro alto e sofrido. Soluçava de tanto chorar. Chorava não apenas por ter visto Yuri, mas também por tudo que havia passado com Sora. Sentia-se culpada por ter sentido raiva da amiga, nem que fosse por um pequeno momento. Ela estava tão frágil naquele momento. Tão sozinha. O medo de perder Sora tomou conta de Layla mais uma vez.
Ao mesmo tempo em que a loira sentia-se extremamente triste, também sentia um conforto muito grande. Se não tivesse ido até o hospital e ficado com Sora naquele momento que ela mais precisava, jamais iria se perdoar se ela não tivesse sobrevivido. Toda a angústia que Layla sentira ao ver a dor da amiga estava vindo a tona. Enquanto estava no hospital não poderia mostrar fraqueza. Tinha que ser forte. Mas ali, na sua casa sentia-se segura para mostrar o que realmente sentia. Não precisava esconder seus sentimentos estando ali.
– O que houve minha filha? – a voz vinha de Kevin Hamilton. O pai de Layla estava parado na porta da sala, assustado ao ver a filha chorar muito.
– Papai? – a leonina não pensou duas vezes, correu em direção ao pai e lhe abraçou. Estava cansada de se manter forte. Estava cansada de confortar os outros, queria ser confortada. Queria ser cuidada.
O pai de Layla retribuiu o abraço. Era a primeira vez que via sua filha naquele estado desde a morte de sua esposa. Desde então, a moça sempre se mostrara forte, não mostrava fraquezas e sempre dava a volta por cima. Se alguma vez houvesse chorado por qualquer coisa sequer, nunca havia mostrado a ninguém. E agora ali estava, sua filha, frágil e machucada. O instinto de pai protetor novamente estava ali presente. Queria poder confortá-la e acabar com a vida de qualquer que fosse o infeliz que havia feito a sua filha chorar tanto.
– O que aconteceu? Porque chora tanto? – perguntava para a leonina, mas a mantinha em seus braços. Guiou a filha até o sofá e sentou-se junto a ela.
Não sabia o que contar ao pai. Não sabia o que poderia contar sem que ele saísse dali com fogo nos olhos e fizesse algo que poderia se arrepender para o resto de sua visa. Não queria ver Yuri morto, por incrível que pudesse parecer, mas ainda queria ele tivesse ali. Ainda queria poder um dia olhar pra ele. Ainda amava Yuri com todas as forças, só não queria admitir que o queria de volta. Não queria permitir que Yuri se sentisse que podia fazer qualquer coisa com ela e que ela voltaria se arrastando para ele. Precisava manter o seu orgulho e sua dignidade.
– Uma amiga minha acabara de ter um bebê, e eu fiquei na sala de parto com ela. Mas ocorreu algumas complicações e ela perdeu muito sangue... – começou a se desesperar ao falar aquilo em voz alta. Iria apenas contar o mínimo para o seu pai. Só contaria para o pai o que Yuri a fizera, depois que já houvesse decidido o que fazer com aquele cafajeste. Ou até mesmo depois de esquecê-lo para sempre. Preferia a segunda opção. Não poderia deixar-se levar pelo que sentia pelo pintor, a traição dele não poderia ser perdoada.
– Ah, minha filha! – abraçou a mais forte, permitindo assim que ela chorasse mais. Já imaginava a dor que a filha estava sentindo. Fora quase a mesma dor que sentira quando perdera sua esposa. A dor de perder alguém que ama demais e que quer sempre ao seu lado. – Perder alguém nunca é fácil...
– Ela não morreu pai. Não ainda... – ao dizer as últimas palavras, a jovem agarrou-se mais forte ao pai e chorou baixinho. Não queria pensar na possibilidade de Sora não se salvar. Sabia que Kate havia dito que ela estava fora de perigo, mas que eles não podiam contar vitória ainda, visto que o quadro dela ainda era um pouco preocupante.
Kevin não conseguira disser nada a filha. Era bom saber que a amiga de Layla não havia morrido, ainda havia uma luz de esperança no final do túnel. Ainda poderia dar certo e todo aquele sofrimento poderia virar alegria com a recuperação dela. Como desejara que houvesse acontecido justamente isso com sua esposa. “Ah Laura! Como sinto sua falta. Você saberia exatamente o que disser a nossa filha nesse momento”.
– Desculpe minha filha. Eu não sei como me expressar. Sua mãe era melhor que eu nisso – disse com uma tristeza na voz.
– Ah, papai! Eu amo o senhor!
Os dois permaneceram abraçados ali, ambos se consolando por dores diferentes. Ambos estavam feridos, quebrados por motivos diversos. Nenhum dos dois imaginava que o calor dos braços um do outro poderia ser tão reconfortante, tão seguro. Layla sentia-se segura nos braços do pai e Kevin sentia-se seguro com todo o amor que sua filha tinha por ele. Ela era a sua razão de viver.
Enquanto isso, Penélope observava da porta da sala pai e filha juntos. Era muito gratificante ver aquela cena. Desde a morte de Laura, os dois nunca mais haviam tido momentos juntos... até aquele momento.
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Após tomar seu banho e trocar de roupa, Leon entrou no carro e dirigiu loucamente até o local onde Sora estava. Estacionou seu carro no estacionamento privativo do hospital e entrou no estabelecimento. Sentia um grande peso em cima de si. O que poderia ter acontecido com Sora? Haveria de ser a possibilidade de a criança ter nascido? Mas acreditava que não. Lembrara-se de quando Sora dissera a Leon que o bebê ainda não estava pronto para nascer. Além de que se fosse isso, não haveria motivos para May parecer tão chorosa não é?
Seus pensamentos estavam a mil. Não queria aceitar que alguma coisa pudesse ter acontecido com a japonesa. Não depois de tudo que a jovem passara. Era a garota mais forte que ele já conhecera, depois de sua irmã Sophie. Passara por muitas provações e em todas se mostrara forte e confiante. Mesmo que com muita dificuldade, sempre aceitava os desafios que lhe apresentavam e os resolvia de uma forma impressionante. Não... Com certeza, Sora era mais incrível que sua irmã Sophie.
Perguntou a uma das enfermeiras que estava passando próximo ao local de entrada onde era a sala de espera. Imaginava que era lá que May estaria esperando. Se alguma coisa realmente tivesse acontecido com Sora, não haveria motivo para ela estar em outro lugar. Foi na direção que a mulher lhe informou. Ao se aproximar reparou que todos do Kaleido Star já estavam ali. Ele era o último, a saber, de tudo, como sempre. Já deveria ter se conformado com tal fato, haja vista que quando sofrera o acidente, o dono do circo já o havia substituído por Yuri. Yuri?
Quando avistou o pintor sentado em uma das cadeiras da sala de espera com as mãos no rosto, sentiu a raiva que tinha dentro de si crescer. Como queria acabar com aquele cara. Como ele tinha a cara de pau de estar ali depois de tudo o que fizera? Tudo bem que ele era o pai daquela criança, mas o que ele fizera para a Sora, além de fazê-la sofrer? Aquele cretino iria pagar caro por estar ali.
– O que você está fazendo aqui? – A mesma pergunta que Layla havia feito para Yuri ecoou na sala.
Todos olharam para Leon e puderam ver a raiva que ele sentia. Agora estava na cara que alguma coisa estava acontecendo ali. Primeiro era Layla que estava com muita raiva de Yuri e não o queria ali, agora era Leon que fazia a mesma pergunta para o pisciano. O que Yuri havia aprontado daquela vez? E com certeza era algo sério, pois a raiva que os dois depositaram no Yuri não era pouca. Era perceptível a vontade que o escorpiano tinha de matar o pintor.
Ao ver Leon, Yuri levantou-se da cadeira e o encarou com ressentimento. Não tinha raiva em seus olhos, apenas culpa. Sabia que merecia qualquer coisa que dissessem a ele. Merecia cada palavra proferida. E além de tudo, merecia até mesmo cada soco que sabia que Leon desferiria contra ele.
– Você não me respondeu, verme! O gato comeu a sua língua? – sentia seu corpo tremer de tanta raiva que estava sentindo.
– Eu tenho o direito de estar aqui. E muito mais do que você, penso eu. – Embora sentisse culpa por tudo o que fizera, não deixaria que Leon se divertisse sozinho. Queria também dar uma boa surra nele. Onde ele estava quando Sora entrou em trabalho de parto? Não era na casa dele que ela estava morando? Começou a sentir a raiva tomar conta de si.
– Direito? O que você fez para ter esse direito? Onde você estava durante todo esse tempo? Escondido, provavelmente. É a única coisa que um covarde como você sabe fazer. – era notório o escárnio na voz de Leon.
– Sim. Eu tenho o direito de estar aqui, independente de qualquer coisa. E você? Onde estava quando ela mais precisou de você? Não era com você que ela estava morando? É fácil não é, jogar a culpa em cima de outra pessoa por erros seu? Ah é, havia me esquecido. Você sempre fez isso. E agora, Leon? Quem é o covarde? – provocara Yuri. Era sim um covarde, mas Leon não tinha o direito de lhe dizer tal coisa, não ele que quebrava os braços das parceiras e sempre dizia que elas tinham feito aquilo com elas. Que elas deveriam culpar a falta de talento das mesmas. Vindo dele, aquelas palavras eram inaceitáveis.
Não iria permitir que Yuri continuasse a falar com ele daquela maneira. Não depois de tudo o que ele havia feito com si. Destruíra a sua felicidade no momento que matara a sua irmã. Aparecera com toda aquela petulância e quisera substituir Leon na peça Lago dos Cisnes. Depois engravida a mulher que o escorpiano ama, e acima de tudo, ainda vem lhe falar de covardia? Não deixaria barato.
Leon foi para cima de Yuri e deu-lhe um soco na cara. Sentiu seu corpo todo energizar-se com aquela atitude. Sentia-se rejuvenescido. Quando Yuri voltou a olhar para Leon, este desferiu diversos socos contra o pisciano. Iria acabar com ele ali mesmo. Iria calar aquele cretino. Se ele estava querendo morrer, o escorpiano iria realizar o seu desejo.
Como era de se esperar, Yuri não ficara parado enquanto apanhava. Desviou-se dos socos de Leon e deu-lhe um soco na barriga, fazendo com que este fosse para trás. Não permitiria que Leon saísse vitorioso, não antes de se redimir com Sora. Andou em direção ao Leon e lhe desferiu um soco, este com mais raiva do que o anterior. Era um babaca por falar com o pintor com tamanha petulância. Não sabia com quem ele estava se metendo.
Leon partiu para cima de Yuri e começaram a se atracar. Apenas eram vistos socos voando pelo ar, alguns acertavam o alvo e alguns apenas atingiam o ar. Aquilo estava saindo do controle. Todos que estavam ali na sala de espera, tanto o elenco do Kaleido Star como alguns enfermeiros pararam assustados com o que estavam vendo. Uma faz enfermeiras pegou o telefone e ligou para os seguranças. Não poderia permitir que houvesse uma briga dentro de um hospital.
Alguns minutos depois dois seguranças chegaram. Cada um deles tinha o tamanho de um armário. Cada um pegou um e levaram os dois rapazes para fora do hospital. Se eles queriam se matar, não importava para eles, mas não dentro do hospital. Deveriam ter respeito com as pessoas que estavam ali dentro.
Já lá fora, os dois continuaram a se atracarem. Os socos, chutes só se intensificaram mais. Os rostos de ambos já estavam roxos e com filetes de sangue. Mas nenhum deles daria o braço a torcer. Estavam segurando aquela raiva já a tempos, por motivos diferentes.
– Saia daqui enquanto você tem tempo! – proferiu Leon. As palavras saíram cuspidas.
– Eu não vou sair. Quem tem que sair é você. Você não é nada da Sora e muito menos da Misaki. – rebateu Yuri. Ambos agora estavam apenas se encarando. Observando um ao outro para saber qual seria a próxima ação.
– Eu serei o pai dessa criança. Eu amo aquela mulher. E você, o que tem para oferecer? – gritou Leon.
Nesse momento, todos do elenco do Kaleido Star além de alguns curiosos já iam se aproximando da briga dos dois. Todos tentavam entender o que estava acontecendo. Qual o motivo para os estarem brigando? A criança não era de Leon? Então porque Yuri teria o direito de estar ali?
– Eu sou o pai de Misaki. E você nunca poderá competir com isso. Você pode ficar com a Sora, mas nunca terá a atenção completa da criança. Ela também é minha! Eu sou o pai dela. Consegue entender isso? – ao terminar de falar, sentiu uma enorme dor em seu rosto. A força do soco que lhe atingiu fora tamanha que Yuri caiu no chão.
– Pai é quem cria. É quem cuida. E não quem traz ao mundo. Você foi apenas um peão nessa história toda. Mas quem ficará com a sua glória sou eu! – o olhar de Leon era de puro ódio e desprezo por aquele ser insolente caído na sua frente.
– A escolha não é sua! Babaca! – Foi só terminar de falar tal impropério que Yuri sentiu o chute que Leon dera em sua coluna. Aquele chute fora muito forte e deixara o pisciano no chão, sentindo que o ar estava faltando em seus pulmões.
– Nunca mais dirija a palavra para mim, e muito menos para Sora. Fique longe dela, estou te avisando. – Leon ajeitou-se, limpou o sangue que tinha no rosto. E entrou no hospital como se nada tivesse acontecido. Enquanto isso, todos que estavam assistindo ficaram atônitos com o que acabaram de presenciar. Não sabiam o que falar diante de tal revelação. Eles haviam ouvido certo? Yuri era pai da filha de Sora?
CONTINUA...
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