Among the Shadows
23 Capítulo 23- Sentir falta e sentir culpa
Notas iniciais
POV Daryl
Ela se foi. Virou as costas e caminhou até um carro, e saiu de Alexandria. E eu fiquei todo o maldito tempo parado como a porra de um maricas, sem conseguir me mover, sem agir, sem fazer algo para mudar a merda que estava acontecendo. Tudo o que fiz foi assistir a mulher da minha vida se afastar em um carro qualquer.
O protão se fechou com um baque e então foi como se me acordassem de um transe. Virei-me em direção a casa de Rick. Abri a porta com um brusquidão e passei os olhos pela sala procurando por ele.
—Você sabia- grito cheio de raiva, sem saber ao certo se é de mim mesmo ou dele- Sabia que ela ia embora a ainda a ajudou, cedeu a porra de um carro.
—Daryl- ele ergue as mãos em sinal de rendição, em um pedido mudo por calma- Allyra sabe o que faz. Ela pediu que eu confiasse nela e eu o fiz.
Tento controlar minha respiração e o meu ódio, enquanto aos poucos começo a entender as coisas. Ela pediu confiança e ele lhe deu isso, enquanto eu neguei. Neguei porque estava confuso, estava irado, estava inseguro. E talvez ela leve a porra das minhas palavras a sério e não volte mais.
Depois de conseguir parte de meu controle de volta e entender tudo o qu aconteceu nesses últimos momentos eu me junto ao grupo e seguimos juntos em direção a Hilltop.
Jesus me irrita bastante e passo todo o caminho quieto em um canto. Não tenho o que falar, muito menos o que. Ouço Abraham comentando algo sobre família com Glenn e não consigo imaginar nada do tipo para mim.
(...)
O lugar acaba por ser bem estruturado. Eles tem mantimentos e produzem lanças o que já os deixa em um lugar muito bom. Os muros também parecem ser firmes.
Maggie conversa com o líder, mas as coisas não vão tão bem assim. O cara é um babaca que se acha superior e no direito de falar merdas e exigir limpeza. Jesus argumenta de que as coisas não são assim e que ele vai conversar com o outro, mas mesmo assim acabamos concordando que o melhor é sair.
É o que estamos fazendo quando as coisas ficam interessantes. Estamos todos no pátio quando um grupo chega. Parecem descontrolados, especialmente a mulher, que chora e cambaleia. Um dos caras murmura algumas coisas confusas com “Negan” e “mantimentos” no meio, mas não consigo entender muito bem o que se passa. Pelo menos não até ver o brilho fraco de uma faca.
Movo-me com rapidez e empurro o cara pro chão. Não sou rápido o bastante para evitar que Gregory seja atingido, mas pelo menos evito que morra. Abraham e Rick também se movem contra os outros dois caras que ameaçam se jogar contra mim. A mulher descontrolada atinge Rick na cabeça enquanto o mesmo está ocupado, e Michonne atinge a cabeça dela com força murmurando algo como “ meu homem não sua vadia”. Sorrio de lado e balanço a cabeça.
Depois do incidente Rick e Maggie voltam a tentar negociar. Dessa vez ouvimos a historia inteira sobre o grupo do tal Negan e de como subjugam o povo de Hilltop a fornecer metade dos suprimentos. Parecem ser uns merdas desgraçados. Rick exige metade dos suprimentos para fornecer proteção e depois de um tempo acabamos recebendo um sim para o acordo.
—Você acha mesmo que é uma boa?- pergunto quando estamos todos reunidos em uma varanda discutindo as possibilidades.
—Sim- responde erguendo o olhar do mapa para mim- Só precisamos nos livrar de um grupo e temos munição suficiente para isso. Precisamos dos mantimentos, Daryl.
—Eu sei- resmungo pegando um cigarro no bolso e acendendo. A imagem da Little Monster fazendo uma careta e reclamando do cheiro aparece antes que eu possa evitar, então busco um assunto desesperadamente para me esquecer- o que sabemos sobre o lugar?
—Não muito- responde Glenn- Algumas coisas que um dos caras disse. Eles nos deram umas descrições boas. Acho que seria uma boa o cara que prometeu a cabeça de Gregory ir e distrair por um instante para atacarmos de surpresa.
—Faz sentido, coreano- concordo enquanto raciocino. – precisamos de algo convincente para que não suspeitem antes da hora.
—Sim. Amanhã pela manhã procuraremos algum zumbi parecido com Gregory e cortaremos a cabeça.
—Pode funcionar- admito.
Jesus entra e dá alguns palpites no plano, acompanhado pelo cara que vai conosco para a ceninha.
Pedimos reforço em Alexandria e logo mais alguns atiradores estão conosco, assim como Carol. Rick e Glenn encontram um cara parecido com Gregory e planejamos tudo para a noite.
(...)
Maggie é uma teimosa filha da mãe, então vai conosco mesmo que tenha que ficar no trailer. Carol acompanha-a.
Sinto falta de Allyra, que provavelmente seria minha dupla nessa invasão. Ouço Rick comentar algo sobre como a mira dela também faz falta e fecho ainda mais a expressão. Inferno de mulher que não me sai da cabeça.
Assisto a uma distancia razoável o teatro se desenrolar e então o sinal ser dado. Entro de inicio acompanhado por Rosita e Glenn, no entanto me separo deles em algum momento. Sigo com passos metódicos invadindo quartos e matando os caras. Parece errado, sinto como se fosse, mas sigo em frente.
Depois do que parece uma eternidade de portas encontro Glenn novamente. Rosita acena de longe e segue em frente para onde Tolby está. Uma das portas finalmente está trancada e não preciso de mais do que isso para sabe que o que está ali atrás é o que precisamos. Glenn me ajuda a arrombar.
Algo dá errado, não entendo muito bem o que. Um barulho acorda grande parte do prédio. Temos que nos jogar nas pontas do corredor para evitar os tiros.
—Você pega os caras e você arromba- grito por cima do barulho dos tiros, e o coreano concorda.
Dar cobertura para o coreano se mostra difícil mas faço o meu melhor. Não posso deixar que morra, não quando vai se rum pai. Não quando é uma pessoa boa, apesar de ser um linguarudo do caralho.
A porta cede e ele me puxa pela gola para dentro. Fechamos as portas na hora certa. O cômodo é cheio de armas, o que é bom já que minha munição já era. Armamo-nos novamente e procuramos o momento certo para abrir a porta.
Quando finalmente o fazemos encontramos nada mais nada menos que Jesus mascarado em cima de inúmeros corpos. Eles nos vê, faz uma reverencia e então seguimos os três em busca dos outros.
A coisa toda não demora a acabar. Não estavam prontos para nós e a surpresa foi mais que útil. Depois de carregarmos os caminhões e Tara e Heath saírem em uma busca um retardatário tenta fugir com uma moto. Com a minha moto.
—Filho da puta- resmungo e ergo a arma mirando. Atingo-o no ombro.
—Onde conseguiu essa moto?- grito cheio de ódio. Ele resmunga alguma merda.
O rádio chia e uma mulher estranha fala do outro lado. Eles tem Maggie e Carol. Claro que estava fácil demais para ser verdade.
Xingo em alto e bom som e soco a cara do desgraçado. Glenn se desespera um pouco. Tenho que encontrar os rastros e dá um pouco de trabalho mais conseguimos. Mantemos contato com pelo rádio nos fazendo de bonzinhos, mas estamos cada vez mais perto.
Encontramos um tipo de estação e nos organizamos para invadir. Eu e Abraham ficamos encarregados da porta enquanto Rick e Glenn ficam de atirar. Ao abrir somos surpreendidos por nada menos que Maggie e Carol.
O idiota conosco admite ser Negan e Rick mete bala em sua cabeça. Acabou mas não sinto como se o tivesse de fato. Algo está errado e não sei o que é. Seria só isso?
(...)
Voltamos para Hilltop, pegamos nossos mantimentos e Maggie é tratada pelo médico deles. Consegue inclusive um ultrassom.
Estamos voltando para casa quando o casal nos mostra a foto. Não dá para ver algo de fato, mas ainda assim a manchinha de vida ali é emocionante. Vejo nos olhos deles a felicidade e o amor. Fico feliz por eles.
Allyra adoraria ver essa porcaria de foto. Adoraria a porcaria de perspectiva de futuro. E se voltar( o que espero que faça) provavelmente vai fazer alguma reclamação de termos ido a luta sem ela.
Tento parar de pensar.
(...)
A semana se arrasta. As coisas melhoraram consideravelmente com os mantimentos e não temos muito com o que nos preocupar de imediato. Continuo a caçar, agora procurando rastros de uma pessoa em especial, mas sem nunca dizer a ninguém. Noto certa desestabilidade em Carol.
Às vezes quero culpa-la por minha briga final com Allyra, mas sei que a culpa é toda minha por ter caído na pilha.
Denise quer sair em busca de remédios e pede minha ajuda e a de Rosita. Em um primeiro momento não quero fazer isso, estou sem saco para ser babá e é exatamente o que vou ter que ser dela, mas acabo cedendo diante de todo o esforço da mulher em procurar um lugar e blablabla.
A ida é razoavelmente tranquila, mas temos que abandonar a porcaria da caminhote.
—Ir pelos trilhos é muito mais rápido- diz Denise cheia de convicção. Paro por um instante, olhando nessa direção e então balanço a cabeça.
—Não. É um caminho muito aberto, vamos por aqui mesmo.- resmungo e ela bufa irritada, mas me segue mesmo assim.
Acho quase divertido o modo como se porta. É uma novata nesse mundo, mas acho bom que esteja tentando se adaptar e melhorar.
—Espero que a sua namorada volte logo, porque com a Allyra por aqui você continua mal humorada, mas é menos assustador- comenta meio emburrada passando a minha frente. Balanço a cabeça e sorrio de lado.
Também queria ela de volta. Não digo nada em voz alta.
—Ela vai voltar, você sabe- murmura Rosita andando ao meu lado por um momento- Allyra vai voltar.
Todos parecem ter essa convicção, mas depois dessa semana já não tenho tanta certeza. Mais de uma semana para ser sincero.
Seguimos caminho sem maiores problemas, apenas um ou outro walker com o qual tanto eu quanto Rosita lidamos sem problemas.
A farmacinha do lugar de fato está cheia, então enchemos nossas mochilas o máximo possível, planejando voltar assim que possível. Denise tem problemas com uma zumbi patética e acabo com a coisa por ela.
Dessa vez seguimos pelo caminho do trilho, mesmo que algo me diga que isso vai dar merda. Contrariando meus instintos, nenhuma horda de walkers aparece.
Denise começa a ficar para trás olhando nos carros.
—Achei um cooler – diz em voz alta e paro para me virar em sua direção.
—Deixa essa merda ai, não precisamos disso- resmungo impaciente e volto a andar.
Tanto eu quanto Rosita estamos bem á frente quando ouvimos o baque e o resmungo quase grito. Viramos rapidamente e encontramos Denise a alguns metros de distancia brigando com um walker.
Corro em sua direção esperando que ela aguente até que a alcance. Estou a um passo de distancia quando ela grita para que eu não faça nada e diz que esse é dela. Quero agir assim mesmo, mas uma Rosita ofegante balança a cabeça para mim.
Com certo esforço a médica consegue enfiar a faca no crânio do cadáver e o joga para o lado. Levanta-se cambaleante, e então vomita, exatamente em cima dos óculos, nota e solta uma risadinha.
—Qual é o seu problema?-pergunto irritado por ela ter se arriscado daquela maneira por refrigerantes. — Se arriscando por refrigerantes!
—Não foi pelos refrigerantes, merda. Foi por mim e por saber que eu sou capaz. Alguns de nós não somos como você, que luta naturalmente e muito bem. Te chamei para vir comigo porque você me lembra meu irmão e me passa segurança, e não para me dar ordens e ser um chato. Você é incrível e forte e eu quero ser assim um dia. Eu vou ser, e matar aquele walker foi o inicio de tudo para mim. E eu...- ela é bruscamente interrompida. Engasga com o próprio sangue enquanto atônico vejo uma flecha atravessar seu crânio e sair por um de seus olhos.
Uma flecha minha. Ela engasga um pouco mais e tenta formar palavras, mas em vão. Agarro-a antes que caia e a deito gentilmente no chão. Rosita ao meu lado está a com a arma erguida, mas já estamos cercados e eles tem Eugene como refém. Vários homens saem do mato, entre eles o filho da puta que me roubou. Está com a cara estranha, mas é ele.
Xingo baixo.
—Abaixem as armas- manda e só então me dou conta de que de fato ergui uma de minhas armas.
—Filho da puta- xingo cheio de ódio, abaixando a arma relutante.
—Uma pena, a flecha não era pra ela- resmunga e então entendo que era para mim. O ódio toma conta de mim, meu sangue ferve e eu quero sangue e vingança- Mas sabe como é, o coice dessa coisa é mais forte que o esperado.
Tenho que usar cada mínima força minha para não me descontrolar. Ele fala mais algumas merdas que eu não registro, pois entram por ouvido e saem por outro. Vejo um reflexo ruivo atrás do caminhão e meu coração falha uma batida antes de entender que é Abraham. Desvio o olhar e finjo não ter visto nada.
Eugene também nota e então faz algo inusitado: morde o pau do cara e Abraham usa essa distração para começar a atirar. O resto acontece muito rápido. Eu e Rosita recuperamos nossas armas e começamos a atirar também.
Eles fogem para a floresta. Tento focar minha mira no tal Dwight, mas ele já está longe. Xingo alto e chuto o chão. Olho para Denise e meu coração doi. Era uma pessoa absurdamente boa e tinha uma vida inteira pela frente. Penso em Tara e na dor que vai sentir. Penso no quanto é minha culpa. A morte dela poderia ser evitade se eu tivesse matado o desgraçado naquele dia, mas não o fiz e agora a morte dela está sob meus ombros. É minha culpa.
Desisto momentaneamente de ir atrás do cara, e junto com Abraham preparo o corpo dela para levar para Alexandria. Ela merece um funeral digno e vai ter um. Vou ter vingança, mas não agora.
Fale com o autor