Among the Shadows
1 Capítulo 1- Little Monster
Notas iniciais
POV Daryl
Depois de tudo o que aconteceu, e de tudo o que aprendemos com Woddbury, nós ainda arriscamos a sorte nessa cidade esquisita. Observo da varanda da casa em que estamos ficando as pessoas daqui andando de um lado para outro, felizes como em um comercial de margarina. É ridículo.
A porta se abre e o pessoal do grupo começa a ganhar as ruas, a maioria já tem o que fazer, já foi designado a algum serviço. Rick para por um instante, a Bravinha nos braços. É estranho ver ele sem toda aquela barba. É estranho ter uma casa, chuveiro e até água quente. É tudo bom demais para ser de verdade.
—Nós vamos dar uma volta, conhecer a cidade. – avisa e só concordo com a cabeça.
Ele fala mais umas baboseiras sobre olhar casas em um bairro assim para morar com Lori e sei lá oque, mas eu não presto muita atenção. Não é nada da minha conta ou interesse e não finjo que é.
Carol sai por último, vestida de rica dona de casa, e eu tenho que segurar uma risada.
—Você está ridícula- aviso soltando um meio sorriso e ela me devolve um inteiro.
—E você precisa de um banho. Se quando eu voltar você ainda estiver sujo, vou te dar banho de mangueira enquanto você dorme.
Solto um grunhido e assisto ela sair também. Curto o silêncio por um momento, me sentindo estranho no meio de tudo isso. Me sinto subitamente preso, com paredes invisíveis de uma sociedade que não me aceitava antes dessa merda toda acontecer. Cacete.
Levanto bruscamente, e saio andando em direção a saída com a besta nas costas. Quero dar uma volta e ai se alguém tentar me impedir.
—Vai sair?- pergunta um cara que está perto do portão.
Concordo com cabeça, e ele dá de ombros começando a abri-lo para mim.
—Quando voltar, bate duas vezes na tela- diz e então eu saio.
Entro na floresta próxima a cidade e sinto um alivio absurdo de estar na minha área. Aproveito que estou fora e decido procurar um coelho para o jantar, e ligo o modo caçador.
Aos poucos, a sensação de deslocamento que tanto me irritava passa e minha concentração melhora. Tenho consciência de alguém me seguindo, mas ignoro por um momento, diminuindo o passo para que me alcance.
Quando a pessoa está perto o suficiente ergo a crossbow em sua direção
—Saia dos arbustos ou eu vou enfiar uma flecha na sua cabeça- rosno e um Aeron sem graça sai com as mãos levantadas e um sorriso amarelo.
—Você sabe que não é um errante só pelos passos?- pergunta parecendo admirado e eu dou de ombros, indiferente, sem a mínima vontade de explicar que errantes tem um andar arrastado.
—Por que estava me seguindo? – pergunto em um tom cortante e ele dá de ombros.
—Não estava. Estava caçando coelhos, mas não tive muita sorte.
Aperto os olhos em sua direção, mas decido deixar para lá. Ele me acompanha enquanto dou passos rápidos, claramente entendendo meu silencio como espaço para que me acompanhe quando na verdade estou dando abertura para que vá embora. Idiota.
—Eu ouvi você- diz sério- quando estavam sozinhos. Vi o jeito que os protegeu, procurou alimento e abrigo. Disse que são mais fortes juntos.
—É o que somos. — afirmo com os olhos fixos a mata a minha frente
—Você sabe identificar se uma pessoa é boa ou ruim.- não é uma pergunta, é uma afirmação.
Aperto os olhos para uma movimentação mais a frente, e penso por um momento sobre o que ele disse.
—Não exatamente- me vejo respondendo por fim- Não exatamente.
Ele abre a boca para falar mais alguma coisa, mas para quando aponto a movimentação. Aproximamo-nos em silêncio e encontramos um cavalo negro.
Fico parado por um instante, apenas com os olhos fixos no bicho majestoso a minha frente, enquanto alguns pensamentos fluem por minha cabeça. Antes de tudo isso ele tinha tido um lar, e era bem cuidado. Tento evitar movimentos bruscos.
—Esse é o Buttom- diz olhando para o bicho com fascínio.
—É de Alexandria?
—Uma das crianças o viu uma vez, sobre o muro. Colocaram o nome, e tentamos pega-lo. Nunca deu certo. É arisco demais.
Concordo com cabeça e peço a corda que ele tem na mochila com um movimento impaciente.
—Já fez isso antes?
—Meu grupo já.- respondo me lembrando do cavalo que Michonne costumava usar.
Depois de algumas tentativas que quase terminam em sucesso o jogo acaba e o cavalo está sendo devorado por aquelas coisas malditas. Estávamos tão perto, mas nessa merda em que vivemos cada segundo é precioso. Eu e Aeron matamos os errantes ao redor do cavalo, e depois disso ele dá um tiro de misericórdia.
Penso em voltar para a cidade do comercial de margarina, mas descubro que não estou nem um pouco afim de ir ainda. Balanço a cabeça negativamente para toda essa baboseira, e começo a andar na direção oposta.
—Você deveria tentar- diz Aeron do nada e me viro para ele sem entender que porra ele está dizendo- digo, se adaptar. Deanna vai fazer uma festa em comemoração para seu grupo, e você deveria ir.
—Bobeira.
—Sim.- ele concorda e isso me deixa meio confuso.- Antes disso começar você provavelmente era incompreendido, mas agora tem uma família e acho que o melhor para ela é Alexandria.
—E eu acho que você deveria cuidar da porra da sua vida.
—Desculpe. Eu era psicólogo antes das coisas desandarem e ainda continuo observando as pessoas. Faço os perfis mentalmente, e quero ajudar.
—Brinque de psicólogo com outra pessoa e para de me encher o saco.- rosno e me viro para entrar em uma clareira.
Uma errantes entra pelo o outro lado cambaleando, e depois do que aconteceu mais cedo eu só quero que todos esses desgraçados queimem no inferno, então levanto a crossbow e começo a mirar. Um outro aparece atrás do primeiro e estou prestes a soltar minha flecha quando Aeron me empurra bruscamente e eu caio no chão.
—Mas que porra foi essa?- meio que grito, irado me levantando e o pegando pela gola da camisa.
—Está viva- responde e aponta. Me viro a tempo de ver o que achei ser uma errante antes tirar um negocio pontudo das costas e enfiar na cabeça do errante atrás dela sem o menor problema. Está suja, cansada e cambaleando, mas viva.
Pisco atordoado diante do fato de que quase matei uma mulher, e antes que eu consiga pensar em mais alguma coisa Aeron já está caminhando até ela. Não dá mais pra retroceder, ele está no campo de visão e ela troca a coisa pontuda pela pistola que estava no coldre da perna em um tempo absurdamente curto.
—O que vocês querem?- sua voz sai em um rosnado firme e frio, e sinto que ela não vai hesitar nem por um momento em atirar, então volto a mirar.
Agora que estamos mais perto, posso reparar em como tem um corpo bonito. Eu não saberia dizer sobre o rosto, não quando ela está tão suja de lama e de sangue seco de errante. Não saberia dizer nem qual a cor dos cabelos dela, que estão amarrados em um rabo de cavalo, ou sei lá, mas os olhos, esses posso afirmar com certeza que são de um cinza tempestuoso.
—Queremos ajudar você- responde Aeron e ela revira os olhos.
—Obrigada, mas dispenso.
—Temos um grupo, estruturas... Podemos ajuda-la de verdade.
—Não estou interessada.- afirma com a arma ainda apontada para a cabeça dele. Sua mão não treme, e o dedo está bem próximo do gatilho. Não tem erro.
—Não precisa de tanta marra, garota.- digo por fim, porque apesar de odiar levar estranhos e arriscar a segurança, odeio a possibilidade de deixar uma mulher sozinha. Ela me encara por um momento, e então revira os olhos novamente.
—Grande merda. –diz e então abaixa a arma- muito legal da parte de vocês quererem me ajudar e sei lá mais o que, mas não estou afim. Tchau, até nunca mais.
E então a doida vira as costas e sai andando. Tanto eu quanto Aeron ficamos parados com cara de idiotas por um momento antes de finalmente a seguirmos.
—Você é estupida ou o que ?- me vejo perguntando- quer viver sozinha, mas simplesmente abaixa a arma e vira as costas para os supostos inimigos?
—Vocês não estão interessados em atirar. Eu sei achar a diferença no olhar de um atirador para o de quem só quer ajudar mesmo.
—Sabe é, mestra dos magos?
—Sei.
Que mulher irritante. Estou pronto para deixar que ela arda no inferno que o mundo é atualmente quando ouço o barulho de um grupo de errantes chegando. Antes que eu expresse para qualquer um dos dois, ela já está xingando e pegando a coisa pontuda, que agora vejo ser uma lança de duas pontas, que está presa nas costas.
É um grupo de dez deles, e estão vindo diretamente em nossa direção. Aeron finalmente entende as coisas e pega seu facão. Eu puxo ambos para meu lado de modo que estejamos em formação e ela me olha com os olhos apertados.
Acabamos tendo que lutar juntos, e apesar de estar focado em minha própria luta, não posso deixar de reparar na quantidade que ela deixa no chão e a facilidade com que executa os movimentos com a lança. Usa as duas pontas da lança quando é necessário, acabando com algum que chegue pelas costas.
Quando finalmente acaba estamos todos com a respiração pesada. A mulher se apoia na lança, fincando levemente uma das pontas no chão. Uma mecha do cabelo cheio de barro cai em seu rosto e ela joga para trás impaciente. Os olhos sempre atentos passando por mim, Aeron e o cenário ao redor.
Ainda estou tentando estabelecer minha respiração quando ela puxa a lança do chão em um movimento rápido e acho que ela cortar minha garganta com a lamina mais longa que o normal para lanças, mas ela me empurra com um dos braços, o qual eu agarro por puro reflexo, e ela ignora totalmente, enfiando a lamina em um zumbi que estava pronto para morder Aeron por trás.
Solto-a atordoado e ela se move para conseguir chutar o errante para fora de sua lança.
—Obri-gada – gagueja Aeron, olhando fixamente para o errante- você... você me salvou.
—De nada- diz enquanto gira a arma para limpar a outra lamina na roupa do cadáver no chão, logo depois guardando no suporte das costas.
Começa a se mover, mas para de repente fazendo uma careta.
—O que foi?- pergunto franzindo a testa e vejo sua camiseta ficar manchada de sangue novo- Está mordida?
—É claro que não — responde e apesar da sujeira em seu rosto sei que ela está franzindo a testa para mim.- Se tivesse sido mordida eu mesma teria acabado com isso, obrigada.
—Qual o problema então?- pergunta Aeron se aproximando gentilmente dela.
—Tiro de raspão- responde meio irritada- Se não fosse por vocês, que não me deixam em paz, os pontos não teriam rebentado.
—Temos recursos em Alexandria, vamos conosco até lá.
—Não.
—Pelo menos para fazer um curativo- pede Aeron- Você salvou minha vida, eu nunca colocaria a sua em risco depois disso.
—Isso é realmente desnecessário – diz séria e eu perco a paciência e começo a me aproximar.
—E só ir cuidar da porra do machucado e depois deixamos você em paz.- rosno irritado, meu olhar variando entre seus olhos tempestuosos e o sangue que está se acumulando em sua camiseta.
—Sei.
—Você não é a mestra dos magos que lê os olhos das pessoas?- pergunto debochado, puxando-a pelo ombro e colocando de frente para mim, olhos nos olhos. -Leia os meus, estou querendo te matar?
—Sim, mas não acho que vá faze-lo. – diz dando de ombros, e minhas mãos seguem o movimento. Arqueio uma sobrancelha para ela que balança a cabeça negativamente- Por favor, é obvio que eu te irrito.
—Irrita mesmo — concordo- E quero me ver livre de você o quanto antes.
—Ótimo – diz exasperada- faça isso então.
—Só depois de cuidarmos desse ferimento ai, Little Monster. — digo sério quando ela se desvencilha de meu aperto. Com o apelido ela para e aperta os olhos em minha direção.
—Little Monster?
—Se viu ultimamente? Está uma desgraça- aviso e ela balança a cabeça novamente. Começa a andar em direção oposta a Alexandria e nós voltamos a segui-la. Antes que eu a alcance ela cambaleia, e agora sei que é por sangue perdido.
—Little Monster- digo a amparando para que não caia. Resolvo pega-la e colocar no ombro carregando a força, mas ela me dá um murro potente no maxilar quando entende o que quero fazer. Vejo pontinhos coloridos, tamanha a intensidade, mas a falta de sangue faz ela cambalear novamente, e aproveito isso para pega-la. Xingo alto, seguro- a com força em uma espécie de abraço, enquanto arrumo a besta para poder fazer o que quero.
Jogo-a no ombro depois de deixar a besta despendurada em um dos braços, seguro-a como se fosse um enorme saco de batatas e ela se debate.
—Estamos indo para Alexandria sim, queira você ou não — digo, e sinto quando a mochila dela ameaça cair no chão, passando por sua cabeça. Faço um movimento para Aeron que tenta pegar a mochila. Ela se recusa, segurando ela mesma a mochila com a mão e apoiando a lança para não sair do suporte com a outra, então ele anda atrás de mim por todo o caminho, para o caso de alguma coisa cair.
—Você é um idiota- diz com um rosnado e bate com a mão que segura a alça da mochila em minhas costas com força. –Não quero sua maldita ajuda.
—Não tem que querer, Little Monster.
—Argh. Me põe no chão, esquisito.
—Não.
—Agora.
—Se eu por, você vai por conta própria ? – pergunto parando e sinto ela suspirar cansada.
—Depois de costurarem meu ferimento vou poder ir embora?
—Sim.- prometo, porque entendo o que ela quer dizer, a possibilidade de ficar preso em algum lugar é horrível.
—Tudo bem, eu vou. Me põe no chão.- faço isso, colocando a de frente para mim. Ela joga a mochila nas costas novamente depois de ajustar a lança no suporte.
—Sou Daryl Dixon, e ele é Aeron- digo nos apresentando.- Qual é seu nome?
— Eu disse que iria até esse lugar ai com vocês – diz com a voz gelada- não que compartilharia alguma informação.
—Nesse caso, vou continuar te chamando de Little Monster.
Ela dá de ombros indiferente e nos segue.
(...)
Quando chegamos em Alexandria Aeron assume a responsabilidade de levar a garota para a enfermaria e sei que ele está tramando algo para faze-la ficar. Não sei se ele vai ter sucesso, ela aparentemente faz só o que dá na telha.
Acabo indo para a casa que o grupo está dividindo e tomando um banho, tirando a terra e resto de errantes de mim. Quando desço as escadas com o cabelo ainda pingando dou de cara com Carol
—Finalmente!- exclama quando vê meu cabelo molhado e reviro os olhos.- soube que uma garota nova apareceu. E que você está no meio disso.
—Esbarramos com ela no mato aqui perto- respondo dando de ombros e pegando uma comida qualquer em nossa dispensa.- Não acho que ela vá ficar.
—Por que? Isso aqui é o sonho de qualquer um.- diz ela e eu arqueio uma sobrancelha- Não estou dizendo que é seguro, mas nem todo mundo é desconfiado e experiente como nós.
—Ela parece ser- respondo dando de ombros e terminando de comer minha segunda barra de cereal
—Quero saber o que vai dar, ouvi que Deanna estava entrevistando ela- diz e ela me parece uma daquelas vizinhas fofoqueiras, principalmente com aquela roupa, mas sei que tem algo por trás dessa curiosidade.
—Quem é a garota?- pergunta Rick brotando na cozinha também.
—Não sei o nome dela- digo dando de ombros e pegando uns biscoitos de um pote. Ergo o olhar e vejo que estão me encarando como se eu fosse um idiota que não pergunta o nome das pessoas. – Ela não quis dizer.
—Bem, eu vou lá descobrir- diz Carol e então sai.
Acabo saindo também, me lembrando que dei minha palavra de que ela poderia ir embora, e que vou garantir que isso aconteça caso seja o que ela realmente quer.
Estou procurando Aeron, que vai poder me dizer onde diabos ela está, quando vejo Ainden, o filho de Deanna entrar em uma briga com Glenn. Seguro o amiguinho covarde antes que ele possa ir e transformar a luta em dois contra um para cima do coreano, e o prendo no chão. Rick e Michonne aparecem e controlam a situação. Largo o covarde de má vontade.
Deanna também aparece, nomeia Rick e Michonne como policiais e me limito a assistir tudo pensando se a Little Monster já foi embora.
Vejo Aeron conversar com uma mulher de cabelos loiros ruivos que caem até metade das costas, muito bonita, num canto e me encaminho em sua direção, disposto a perguntar, porque eu dei a porra da minha palavra.
Franzo a testa ao observa-la melhor. Está vestindo calça jeans e jaqueta, como a maioria usa atualmente, mas o que me chama a atenção são as botas. Vermelhas. Balanço a cabeça negativamente.
—Aeron- chamo e a mulher se vira com o som de minha voz. Paro e fico piscando atordoado enquanto encaro-a. Cacete. Aqueles olhos cinza são inconfundíveis. É a Little Monster. Se eu soubesse que por baixo de toda aquela sujeira ela conseguia ser a mulher mais bonita e mais gostosa que eu já tinha visto, tanto antes quanto depois do mundo virar um cemitério, eu não teria deixado ela tomar banho. Cacete.
—Daryl Dixon- ela diz, e abre um sorriso de lado- O que você tem com confusões?
Dou de ombros.
—Já está indo embora?- pergunto e ela vira a cabeça de lado me encarando profundamente.
—Não exatamente.
—Mudou de ideia?
—Não exatamente.- responde novamente, depois se inclinando para pegar o suporte, com a lança, que está no chão próximo a ela, e eu não tinha notado. Ela o veste sem se preocupar. Assim de perto posso ver que o cabelo ainda está úmido.
—Seu cabelo fica melhor sem estar cheio de sangue e barro, Little Monster- digo e então me viro para ir embora.
—Ei.
—Que é?
—Allyra Lambertini.
—Oque?- pergunto me virando e ela sorri de lado.
—Meu nome. Você perguntou, e não faz mais sentido esconder- diz e então me lança uma piscadinha, saindo na direção oposta.
“Allyra Lambertini” repito mentalmente. Até mesmo o nome, de alguma forma, me dá a sensação de problema.
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