Among the Shadows
37 Capítulo 37 - Sentimentos que importam de fato
POV Allyra
Sete dias se passaram. Eu ainda tenho pesadelos, apesar de não acordar gritando. Eu ainda sinto o sangue em minhas mãos, apesar de elas estarem limpas. Quando fecho os olhos, ainda vejo o rosto de Negan – o rosto de meu pai- e tudo em mim varia entre saudade e magoa. Eu ainda sinto o ódio, quente e puro, correndo em minhas veias, sempre que penso em tudo o que perdi por culpa dele. Em todos que se foram. Glenn, Sasha, Abe, Tolby, Denise. O povo do reino. Muitos de Hilltop, muitos de Alexandria. Tantos que não posso contar.
Sim, as perdas foram poucas em comparação ao que se poderia esperar de uma guerra, mas ainda assim... Tantas vidas que nunca voltariam. Trabalho com Maggie durante a manhã, na divisão de mantimentos, todos aqueles que conseguimos nos depósitos dos salvadores. Eu, ela, Daryl, John, Rick e Ezequiel discutimos ontem sobre os sobreviventes, os que tinham sido manipulados por Negan ou simplesmente obrigados. Não era fácil distinguir os bons dos maus ali, mas o fato de eu e John termos estado do lado deles por um bom tempo serviu de ajuda.
—Acho que estamos tranquilas até o fim do mês- diz Maggie quando finalmente acabamos –Mesmo com tantas bocas novas para alimentar.
—Estamos, finalmente podemos desenvolver as coisas nas comunidades. Agora que não estamos mais em confronto direto quero que vá ver o Levi, médico do Reino, já que ambos os Carson morreram na guerra.
—Não, ainda tenho muito o que – interrompo-a no meio da frase com um olhar feio.
—Nem complete esse frase, Maggie Greene Rhee. Você tem que e cuidar, e não é apenas sobre você.
Os olhos dela lagrimejam e então ela me abraça com força.
—E se houver algo errado? — pergunta baixinho e eu a aperto de volta.
—Não vai. Maggie esse bebê vai ser saudável e feliz. Você o protegeu com unhas e dentes desde que soube de sua existência.
—Eu sei, mas enquanto esvamos em guerra eu me foquei muito no ódio e vingança, e se eu tiver descuidado dele, ou dela?
—Não o fez. Sei disso porque estava com você na maior parte do tempo.- digo calmamente, me afastando para encara-la- Você liderou o povo de Hilltop, foi atrás de vingança pelo seu marido e ainda protegeu o seu bebê. Agora que a adrenalina passou vem um pouco de medo, e isso é normal, Maggs.
—Obrigada por estar aqui, Ally- diz e eu aceno. Ela desvia os olhos por um momento- Estamos todos comemorando o fim da guerra, mas ninguém parou para pensar na sua dor. Ele era um monstro mas era seu pai. Não posso falar que sinto muito pela morte dele, mas sinto muito por você. Meus pêsames.
Maggie foi a primeira a me dizer isso, dentre todas as pessoas. John disse que estava ao meu lado e me apoiaria sempre. Daryl esteve lá por mim e minhas lagrimas, me apoiou e disse que não era culpa minha. Os dois batalharam para eu ficar bem, e Daryl entendeu mais que qualquer um no universo o problema pelo qual eu estava – estou- passando, mas o modo como Mags disse foi diferente. Ninguém tinha me dito sobre pêsames, pensando nele como uma morte da qual eu sentia.
Abraço-a de novo e agradeço. Sigo com ela até Levi, que a recebe com um sorriso no rosto e a educação no mil. Ele faz o ultrassom, a pesagem e diversos outros exames, e como o esperado, tudo estava bem.
Assim que a consulta acaba, me despeço dela e sigo para o portão. Não aviso a ninguém sobre essa saída, porque sei que alguém vai querer me acompanhar, Daryl principalmente, e eu quero fazer isso sozinha. Tenho que fazer isso sozinha.
Aceno para Rosita no portão e sigo para fora, andando calmamente até um dos carros encostados no muro. Dou a partida e pego a estrada.
Sigo em alta velocidade em direção ao Santuario e salto do carro. Com as janelas quebradas, as cercas caídas, e todo o resto, é mais uma fabrica mal assombrada que qualquer coisa. Desvio de um walker que vem em minha direção e salto alguns caídos, entrando pela porta da frente e me esgueirando pelos corredores, em direção aos quartos.
Passo primeiramente pelo de John, descobrindo que ele foi passado para frente, como o de Suzie. Aparentemente para Simon. Pego algumas coisas do meu primo que permaneceram intactas e jogo em uma bolsa qualquer, saindo do quarto em seguida e seguindo para o meu.
Coloco a mão na maçaneta pensando em quem pode ter assumido o lugar depois de mim, mas sou surpreendida ao abrir a porta e encontrar tudo exatamente como deixei. Tudo organizado, o guarda roupas cheio, itens de higiene no armário da suíte, fotos com meu pai na primeira gaveta, algumas outras com outros familiares que ficaram para trás também estão ali. Um negocio para afiar a lança permanece atrás da porta, e a colcha na cama permanece a minha. Os papeis rabiscados de planos para o futuro em cima da escrivaninha. É como se eu nunca tivesse saído.
Balanço a cabeça, saindo do torpor e das lembranças do inicio que tive aqui, com John, Suzie, e as vezes com meu pai, e não com Negan, e sigo para a gaveta do criado mudo, abrindo e pegando o livro que consegui com uma senhora que deixei partir com duas outras moças a muito tempo atrás. Ele era sobre o passado, mas que agora seve para o futuro. Nele haviam planos de moinhos, plantações, estruturas, sistemas de irrigamento, de energia solar e eólica, de criação de coisas em geral. Eu nunca quis compartilhar isso com os salvadores, mas quero compartilhar com o meu povo agora, e ainda não sei como fui burra o suficiente para deixa-lo para trás quando parti. Assim como deixei as fotos.
Pego tudo com cuidado e coloco em uma outra mochila, colocando outras roupas também, além de todas as fotos. Sorrio ao encontrar uma minha e de minha mãe, uma lagrima escorrendo por meu rosto. Limpo-a e termino de arrumar minhas coisas, saindo do quarto e seguindo para o lugar que eu realmente vim ver.
Abro a porta do quarto de meu pai e suspiro. O cheiro dele ainda está impregnado em tudo, e é como entrar em uma mistura de cômodos, metade decorado por um psicopata, com fotos de cabeças esmagadas, e outra muito parecida com o quarto de meus pais, na antiga casa em Washington. Um porta retrato na cabeceira da cama é uma foto dele com minha mãe e eu como um bebê de uns dois anos. Sem pensar em nada de fato, apenas tiro a foto e a dobro, guardando na mochila.
Encontro algumas armas, munições, planos e anotações. Negan nunca foi burro, então tem uma relação de todas as pessoas, todos os tenentes e todos os trabalhadores anotada. Dou uma olhado superficial e fico preocupada ao notar que alguns capangas não estão na nossa lista de capturados, ou mesmo listados.
Jogo as anotações na mochila, e vou para o guarda roupas. Dou de cara com inúmeras jaquetas de couro, outras tantas roupas, alguns sapatos, e livros de couro. Abaixo, puxando os livros para fora, e me sento sobre meus joelhos, abrindo.
Diários. Diários de Lucille. Sorrio surpresa, sem saber como Negan conseguiu trazer isso para cá em meio a toda essa merda de fim dos tempos. Me perco em um deles, que conta a historia de como ela teve que se adaptar na faculdade, de como odiava estar sozinha, dos amigos que fez, de começar os estágios para dar aula e então conheceu meu pai, também um estagiário de professor de educação física.
Quando volto a mim, a luz que entra pela janela já mudou e sei que estou aqui por muito tempo, provavelmente já passou da hora do almoço a um tempo e o pessoal está surtando com o sumiço.
Jogo os diários na mochila e empacoto as coisas de Negan, como em uma finalização. Fico parada olhando as caixas e as roupas jogadas, e suspiro. Sinto como se fosse um ponto final em tudo, como quando se empacota as coisas das pessoas que se foram e você ama. Puxo uma jaqueta do amontoado e a visto. Não fica exatamente boa, mas gosto da sensação.
Coloco todas as armas na mochila também, e me viro para ir embora. Sei que Daryl enterrou o corpo de Negan lá fora, então sigo na direção que sei que é, com a intenção de dizer adeus. Estou mais ou menos a uns quinze metros da porta dos fundos quando ouço movimentação. Paro onde estou e escuto com atenção. É um grupo de cinco bem armado. Oh, Deus, como eu gostaria de ter algum reforço .
Xingo baixo todas minhas gerações por ter saído sozinha, e pego a pistola na minha cintura, por precaução.
Eles planejam atacar Alexandria, oque seria patético se eles não estivesse com algumas fucking bombas no carro. Respiro fundo e guardo a pistola, trocando por uma arma de longo alcance e me posicionando melhor atrás de uma porta. Procuro a mira e começo a atingir um por um. Há uma gritaria, troca de ordens, tiros as cegas, e então os cinco estão no chão, mortos. Menos difícil do que achei que seria.
Confiro os corpos, tentando associar os rostos a nome, e ver se algum ainda está sumido. Acredito que se tem algum sumido é um ou outro. Garanto que as bombas estejam desativas e inutilizadas, para então ir embora.
Acelero em direção a Alexandria, e paro o carro na lateral. Carl está saindo pelo muro, então vou até o portão e grito por Rosita, ela me olha feio ao abrir o portão.
—Daryl está ficando louco- avisa e eu aceno em concordância.
—Vou estar na floresta – digo jogando as bolsas e a mochila nela e correndo na direção que Carl foi.
Não demoro muito a alcança-lo, que está entrando em um carro escondido.
—Fugindo, senhorzinho?- pergunto entrando no passageiro. Ele ergue o olhar com para mim, completamente surpreso e eu dou uma risadinha.
—Pelo que sei, você quem fugiu- acusa e eu dou de ombros.
—Já fugi e já voltei –digo e ele suspira. – Onde está indo e por quê?
—Ontem eu e meu pai estávamos buscando gasolina e encontramos um garoto. Meu pai não quis dar uma chance, mas não acho isso certo.
—Não posso dizer que estou surpresa- digo e ele pisca.- Tanto o lado dele, como o seu são corretos. Ele tem medo de arriscar, você tem convicção em continuar. Vamos lá.
Fomos juntos. No meio do caminho, notei Carl ficar tenso, então me virei no banco para olha-lo curiosa.
—O que há? – pergunto e ele respira fundo.
—Eu queria conversar com você sobre algo mas não sei como fazer isso- diz e eu suspiro.
—Comece falando, garoto- digo e ele sorri de lado.
—É sobre... O seu pai- diz e eu fico tensa- Sobre o que você teve que fazer.
—Sim?- pergunto e ele freia o carro, parando em seguida.
—Sei pelo que está passando – diz voltando o olhar para mim. O azul brilha de um jeito melancólico e triste- Eu tive que finalizar minha mãe. Ela se sacrificou por Judy. Ninguém nunca soube, mas isso me destruiu. Eu sentia o sangue em mim, eu matava sem dó. Eu não tinha sentimentos direito, e acho que com você é diferente. É pior. Você teve que fazer isso com uma mistura de ódio e amor e eu não sei se você sabe como lidar. Tenho medo que você entre em depressão ou algo assim, já te notei mais distante.
—Ninguém sabe como lidar com esse tipo de coisa- digo a verdade, sentindo meu coração doer por Carl, sabendo que ele era muito mais novo que isso, e teve que lidar com tudo.- Eu sinto muito por tudo o que você passou e sinto muito pelo que eu passei. Também perdi minha mãe e sei como é a dor. Ela era incrível, maravilhosa e guerreira. Dava aula para crianças, dançava na chuva e cantava. Deus, como cantava. Foi a pessoa que mais amei nesse mundo.- digo e pego a foto amassada no bolso da calça, aquela que estava no quarto de Negan, e mostro para ele.
—Ela era linda- diz e eu aceno orgulhosa- Vou mostrar minha mãe para você depois. Consegui uma foto para Judy. Ela precisava conhecer o rosto de nossa mãe, da pessoa que deu a vida pela dela. Sei que isso te afetou, mas e quanto a Negan?
—Estou afetada, e sinto o sangue em minhas mãos, sinto ódio, saudade e tristeza. Mas não estou presa a isso. Amo vocês, e tenho uma família. Não estou completamente bem, mas isso se deve ao fato de que meu pai está morto e vai continuar assim, então algo em mim se quebrou e eu tenho que lidar com uma espécie de luto. Foi isso que fui fazer. Lidar com o luto. Finalizar. Mas vai ficar tudo bem, porque eu sou feliz com vocês. Não se preocupe, meu bem. Falo sério. Amor é mais forte que as outras coisas, é o tipo de sentimento que importa de fato.
—Você está triste- acusa e eu sorrio, me inclinando, pegando seu chapéu e bagunçando seu cabelo.
—Tudo bem ficar triste de vez em quando. – digo dando uma piscadinha
—Tudo bem ficar triste de vez em quando- repete concordando e eu o puxo para um abraço. Ele retribui sem jeito e eu solto uma risadinha.
O carro volta a se movimentar e eu mudo o assunto para Enid, me divertindo com a vergonha dele e a coloração subindo por seu pescoço. Ele confessa gostar muito dela e eu fico feliz por isso. Achar afeto, amor, paixão já era difícil, no fim do mundo então é complicado pra caramba.
Encontramos o garoto, que se chama Siddiq e tem experiência médica. Se mostrou uma boa pessoa. As coisas começaram a sair de controle com um aglomerado de walkers, então entrei em ação com a lança, dando cobertura aos dois e juntos acabamos com isso rapidamente. Conferi se foram feridos, muito preocupada com Carl, e fiquei aliviada ao notar que está tudo certo. Seguimos para Alexandria com o garoto contando um pouco de sua historia e agradecendo sem parar por termos voltado por ele.
Dessa vez deixamos o carro mais perto do muro. Descemos juntos e mal saio do carro para dar de cara com Daryl.
—“ Vou estar na floresta”- diz fazendo aspas e uma careta- Onde você estava?
—Dessa vez foi culpa do Carl- digo como uma criança e Carl me olha chocado.
—Não estou perguntando de quem é a culpa, Allyra- resmunga e eu dou uma risadinha.
—Tinha coisas a resolver, Daryl. Resolvi as minhas e ajudei carl com as dele.
—E essa jaqueta?- pergunta analisando-me.
—Era de Negan- respondo me sentindo tensa.
—Era... o que?- pergunta piscando- Onde você estava?
—No santuário.- digo e sinto o olhar surpreso de Carl em mim- Tinha que fazer isso.
Antes que eu processe o que está acontecendo, Daryl me puxa e me abraça.
—Achei que tinha ido embora- rosna e eu o olho confusa.
—O que?
—Você disse, a muito tempo atrás, que costuma ir embora. Tive medo que tivesse ido de fato.
—Eu... – assim que a informação entra em minha cabeça soco seu ombro com força- Eu vou te bater, Daryl Dixon! Você acha mesmo que depois de tudo eu iria embora?
Carl e Siddiq entram para enfrentar Rick e deixar-nos em nossa própria briga.
—Acho que depois de tudo poderia estar desgastada e cansada e eu não poderia julga-la por ir.
—Daryl- brigo e volto a soca-lo repetidas vezes, até que ele, com muito esforço, segura meus braços. – Eu nunca iria embora, nunca abandonaria vocês. Acha que fiz tudo isso para ir embora?
—Esse não é o ponto, Allyra- diz segurando e me rodando, prensando no carro. – O ponto é que não poderia ir embora sem mim. Se quiser ir, tem que me avisar, tem que me deixar ir com você.
—Se eu fosse nunca te deixaria, seu imbecil- resmungo de volta. Ele cobre minha boca com a sua, em um beijo intenso e perigoso, tão de Daryl quanto pode ser, e eu me perco.
Perco-me dele, nas sensações, no amor. Quero bater nele por duvidar de mim, e quero continuar a beija-lo porque a paixão é forte demais, intensa demais, me consome, me fascina.
—Odeio você- resmungo e ele ri. –Odeio e amo você.
—Sinto o mesmo, Little Monster. Sinto o mesmo.
Tudo o que quero é seguir com ele para casa, para o quarto, mas Rick aparece e sei que quer conversar sobre Siddiq. Xingo baixinho e me desgrudo do meu caçador- anjo.
Demoramos a convencer Rick a aceitar o garoto. Maggie acaba por intervir, e eu aproveito a movimentação para falar do grupo que matei. Passo a lista para o pessoal ajudar a conferir. Também entrego o livro com as informações para o futuro.
Depois de discutir assuntos sérios, nos juntamos na sala de jantar de RIck, rindo e conversando. Noto a aproximação entre John e Rosita, e adoro isso. Maggie está mais leve e mais feliz. Aaron e Eric estão cuidando de Grace. Judy já conversa muita coisa, resmungando e rindo com Carl e Enid. Me faz lembrar do passado, do primeiro jantar ao qual vim. É uma grande família, e sobrevivem a tudo junto. Sobrevivemos a tudo juntos. Carol chega com Ezekiel e Jerry, se juntando a nós. A conversa flui para todos os lados, em todos assuntos, todos com todos.
É bom. São laços, mais que de sangue.
E dessa vez, quando vou para casa, o peso nas costas diminuiu. É provável que eu vá ter pesadelos eventuais, mas tudo bem. Eu sou mais feliz que triste. No fim das contas isso faz parte de ser humana.
Daryl me enlaça pela cintura assim que entramos em casa, começando novamente todo aquele jogo de sedução e eu só tenho ainda mais certeza de que é o meu lugar. Meu lar. Minha família.
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