Among the Shadows

2 Capítulo 2- Alexandria


Notas iniciais
Olá, aqui estou de novo. Acho que acabei me empolgando, e to postando bem rápido né? Acho que agora só fim de semana que vem. Espero que gostem. Obrigada a Lika Trevas, Isabella e Bianca Rocha pelos comentários ♥

POV Allyra

Levanto o rosto e sinto a água morna bater contra ele, então pego o shampoo e condicionar emprestado e esfrego meus cabelos, fechando a cara para a cor da água que cai, mostrando o quão suja eu estava. O apelido idiota que o caipira usou ecoa em minha cabeça: “Little Monster”

Fecho os olhos e deixo meus pensamentos viajarem.

Flashback on

Observo com atenção toda a estrutura da cidade, e logo de cara encontro falhas e mais falhas na segurança. Sigo Aeron portão adentro e depois em direção ao que creio ser a enfermaria. Em certo momento o caipira, tal Dixon, some de vista, e não me importo muito com isso. Decoro mentalmente rotas de fuga, é algo automático e gosto que seja assim.

Uma moça insegura nos recebe e de pronto diz que pode chamar o doutor para me atender, alegando ser uma simples enfermeira, e psicóloga. Sinto a insegurança dela de forma tão espessa que quase posso tocar. Me lembro vagamente de iniciantes nessa área com quem lidei em outras enfermarias e simplesmente balanço a cabeça em negativa.

—Não precisa- digo séria- são só uns pontos. Eu mesma faço.

—Não, que isso. Nesse caso e-eu faço – gagueja levemente, e acabo arqueando a sobrancelha para ela.

Concordo com a cabeça, achando que vai ser bom para ela ter noção desse tipo de coisa. Recuso o remédio para dor, e ajudo-a a limpar o local, tirando o resto dos pontos rebentados.

Ela treme um pouco, mas trabalha muito bem, com pontos firmes e gosto disso. Ela me olha insegura vez ou outra, e acabo por incentiva-la.

Assim que acaba pego minha mochila de volta e aceno em agradecimento para Aeron que se manteve ali durante todo o processo.

Uma senhora entra pedindo remédio para dor de cabeça e para bruscamente me encarando.

—Quem é ela?- pergunta com os olhos fixos em mim e sinto a segurança de uma líder naquela voz.

Ouço por alto a explicação de Aeron, impaciente, enquanto penso que não deveria ter aceitado entrar. Eles claramente não tem estrutura para me manter ali, e nem sequer tenho medo que sejam perigosos, mas ficar tanto tempo em grupo me incomoda.

—Posso conversar com você?- ela pede e a encaro com desinteresse- é o que sempre fazemos com novos membros.

—Não sou um membro novo- aviso com a voz neutra- não estou aqui para ficar.

—Podemos pelo menos conversar sobre isso?- aperto os olhos em direção a ela, e não consigo evitar fazer as comparações entre ele e ela. Líderes tão diferentes.- talvez você mude de ideia.

—Cinco minutos- digo por fim, mais pelo fato de que quero saber mais sobre eles do que qualquer coisa.

Ela caminha em direção ao que acredito ser a própria casa e me chama para entrar educadamente. Liga uma câmera, e assim que o faz, paro de me mover, longe da lente.

—Eu costumo filmar os entrevistados e...- ela começa a se explicar ao notar meu olhar analisador, mas eu a interrompo.

—Não sou filmada- deixo claro, a câmera me trazendo lembranças de antes do mundo acabar.- nem por um minuto ou cinco.

—Tudo bem- diz por fim e desliga a câmera.

Começa a fazer perguntas sobre mim, meu nome, minha vida antes disso, se eu tinha um grupo, se estou sozinha, e eu acabo por não dar respostas. O que eu era antes dos errantes não é da conta dela, o meu antigo grupo não vem ao caso, e tudo o que digo sobre mim é que sim, eu estou sozinha, e meu nome.

Ela assente, e pergunta o porque de eu não querer ficar. Penso por um momento, os motivos vindo em flashes, pensamentos e experiências. Quando eu decidi sair, era para não ter que lidar com o que eu não podia, então ficar aqui é perca de tempo. Além disso, sei de um lugar para ficar. Penso nas coisas boas que perdi também, o que só piora.

—Tenho meus motivos. Não conheço vocês, nem vocês me conhecem. Não preciso de ajuda, nem de ficar e criar laços. Vocês tem uma vida aqui com luxos e mais, mas não sabem como manter, tem falhas e vão cair. Todos caem.- bloqueio as imagens de gente caindo, de sangue e de dor que me vem a cabeça e a encaro nos olhos.

—Certo- diz e para pra pensar por um momento. Começo a me levantar para partir quando ela volta a se expressar- Que tal ficar por uma semana, como um teste?

—Por que quer tanto que eu fique?- pergunto parando e me virando para encara-la novamente.

—Você, e o grupo de Daryl Dixon, pessoas que viveram lá fora e enfrentaram aquelas coisas de frente, são o tipo de que precisamos. Você sabe, melhor do que eu até, que sem isso não vamos durar.

Aperto os olhos em sua direção novamente. Ela é esperta, sabe que são fracos. Demoro uns segundos para associar o nome ao caçador, mas quando o faço entendo o que quer dizer. Peso as possibilidades. Quero ignorar, quero ir embora, mas meu instinto me para. O mesmo que me guiou a fazer algo assim um tempo atrás.

Ela está certa, eu sei dos riscos. Sei mais que qualquer um. E não são apenas os mortos que devem temer.

—Não estou te entregando minhas armas- digo esperando para ver sua reação.

—Preciso que me entregue pelo menos as armas de fogo, ninguém aqui fica com essas.- penso nessa regra, no quão esperta e idiota é.

—Mesmo?- pergunto inclinando minha cabeça e a encarando ainda mais.- Não.

—Seja razoável- pede e penso na quantidade de munição que tenho em minha mochila. É bastante, e não estou entregando isso para ela só para ter uma semana de férias nesse lugar. Não mesmo.

—Nesse caso, estou indo embora.- digo com um dar de ombros e indo embora.

—Tudo bem-diz me parando novamente, quando já estou em sua varanda- você fica com suas armas, todas elas. Só tente.

—Você é idiota ou oque? – pergunto me encostando na parede – Não me conhece, não sabe nada sobre mim e simplesmente me deixa ficar armada aqui?

—Quer suas coisas e me critica por ceder?- diz me olhando – É disso que estou falando, Allyra. É esperta, consegue o que quer, e ainda assim é boa, está ai me criticando por pôr minha vida e dos outros em risco.

—Uma semana, Deanna- digo por fim- Uma semana e eu caio fora.

—Ou então fica. Fica o tempo que quiser, só porque quer. Não está presa aqui, mas estamos abertos a você. Algo que diz que vai fazer bem a Alexandria, Allyra Lambertini.

Duvido muito, mas ajuda-los a ter chance contra ele não me parece tão ruim.

Flashback off

Depois disso ela me guiou para uma casinha pequena qualquer, dois quartos, uma sala, cozinha e banheiro, e me deixou a vontade. Me cedeu alguns produtos de higiene, me indicou o caminho até onde está o estoque para pegar comida e depois saiu para cuidar de outras coisas. Tomar banho acaba por ser um alivio absurdo, e sentir o corpo finalmente livre de todo aquele barro e resto de errante é muito bom.

As imagens da luta na lama passam pelos meus olhos enquanto penso nisso. O idiota que conseguiu me encontrar, o tiro de raspão que atraiu vários errantes com os quais eu tive que lidar sozinha depois de ter matado-o. Ignoro as lembranças recentes que me são inúteis e visto o ultimo conjunto de roupas limpas que tinha na mochila. Penso em lavar as outras duas depois, e saio secando o cabelo com a toalha. Calço as botas vermelhas, porque gosto, porque são confortáveis, e porque eu quero. Pego minha jaqueta também, está frio.

Arrumo minha lança nas costas, deixo a arma dentro da mochila, escondida atrás do armário da sala, perto da porta, onde posso chegar rapidamente e onde ninguém vai pegar.

Resolvo sair para andar pela cidade, e mal estou fora da casa já sou parada por Aeron. Ele tem um sorriso enorme no rosto e só consigo franzir a testa para ele.

—Uau- diz parando e colocando as mãos na cintura enquanto me olha de cima em baixo- você limpa é outra coisa mesmo hein. Fico feliz que tenha resolvido ficar. E uau, você é ruiva!

—Não estou exatamente ficando, Aeron- explico e acabo por rir já que ele está reparando mais na cor do meu cabelo do que no fato de eu estar armada- Algo parecido com ruivo, sim. Estava meio marrom né?

—Sim- concorda, ainda sorrindo estupidamente. — Vou ter que perguntar, qual o seu nome?

—Allyra- respondo com um dar de ombros.

—Ei, vou ter que expressar essa curiosidade que está me matando- diz por fim- deixa eu ver essa sua lança.

—Só ver- aviso divertida com isso, e com um movimento tiro o suporte e a lança e seguro com as duas mãos em minha frente para que ele veja. Tiro do suporte para que ele possa ver melhor a parte afiada e a de segurar e ele parece assustado e maravilhado ao mesmo tempo. Seguro uma risada.

Capto uma movimentação estranha pelo canto do olho e me viro para lá imediatamente, pegando a lança mais firmemente antes que Aeron sequer encoste nela, e ele também percebe o movimento. Vamos juntos em direção a isso, ele com uma expressão preocupada.

Observo um babaquinha começar uma briga com um asiático, e eu mesma sinto vontade de dar uns tabefes no idiota. Ele provoca, diz que manda, diz idiotices sobre soltar errantes e então tenta um soco. O outro mostra habilidade e revida.

Um covarde ameaça entrar na briga transformando o mano a mano em dois contra um, então eu ameaço alguns passos em direção ao idiota, mas antes que eu chegue lá o caipira do colete chegou. Observo ele imobilizar o cara sem dificuldade e sorrio divertida com isso.

Um cara moreno de olhos azuis aparece separando a briga, e Deanna se faz ser ouvida. Descubro que o babaca é filho dela e não evito um revirar de olhos ao entender que é por isso que ele se acha o dono do mundo. Como se ser filho do líder te desse o mandato das coisas, quando na verdade você mesmo tem que fazer por merecer, seja a ordem das coisas ou o respeito. Sei bem disso.

Os eventos se desenrolam com rapidamente, vejo ela nomear dois policiais e não sei exatamente o que acho disso. Coloco a lança no suporte e apoio no chão próximo ao meu pé, onde posso pegar facilmente e penso sobre as coisas que acabaram de acontecer. Não somos a mesma civilização de antes, então não sei se distintivos são a solução.

—Quem são?- acabo por perguntar, curiosa a respeito da negra e do outro cara.

—São do grupo do Daryl, você se lembra dele- concordo com a cabeça, me lembrando da conversa com Deanna e associando eles como algumas das pessoas que sabem como é viver lá fora. Mesmo para mim, nova aqui, a diferença é nítida e creio que o coreano também seja desse grupo- Rick e Michonne. Acho que foi uma boa escolha.

—Não sou capaz de opinar sobre o que não sei.- digo e é verdade.

Sinto aproximação de alguém pelas minhas costas, e enquanto jogo parte do cabelo úmido para trás a voz rouca de Daryl Dixon se faz ser ouvida.

—Aeron?- chama e para bruscamente, os olhos encontrando os meus e depois descendo por meu corpo sem o menor pudor. A analise dele me diverte e acabo sorrindo de lado.

—Daryl Dixon- digo seu nome, testando a sonoridade. — O que você tem com confusões?

Ele dá de ombros e sigo o movimento com os olhos.

—Já está indo embora?- pergunta sem expressar emoção e viro a cabeça de lado para encara-lo em busca de algo que me ajude a decifra-lo.

—Não exatamente.- respondo sem querer me explicar

—Mudou de ideia?

—Não exatamente.- respondo novamente, depois me inclinando para pegar o suporte, com a lança e o vestindo em seguida.

—Seu cabelo fica melhor sem estar cheio de sangue e barro, Little Monster- diz usando aquele apelido idiota e logo depois se vira indo embora. Aparentemente a cor do meu cabelo é impactante depois de ter estado tão marrom.

—Ei.- chamo sem me controlar e ele para sem se virar.

—Que é?

—Allyra Lambertini.- digo encarando as asas em suas costas, e pensando em como ele não parece ter nada de anjo. Adoraria descobrir o quanto ele não é anjo. Afasto o pensamento fora de hora com um balanço sutil de cabeça. A crossbow está em seu ombro, e isso me mostra que não sou a única que tem as exceções de Deanna.

—Oque?- pergunta se virando para me olhar e acabo sorrindo novamente enquanto encaro aqueles olhos de um azul céu.

—Meu nome. Você perguntou, e não faz mais sentido esconder- digo lhe lançando uma piscadinha e caminhando em direção ao lugar que mais cedo me foi indicado como o estoque.

Observo as provisões do lugar enquanto espero pela comida que é cedida para mim. Eles estão com uma boa quantidade de suprimentos mas a distribuição é despreocupada e exagerada. Vejo a tal Olivia andando pelas prateleiras e pegando enlatados e outras coisas para mim, enquanto outros moradores entram e saem. A proteção do lugar é totalmente nula e o arsenal de armas é ao lado, próximo e de fácil acesso. Outro erro.

Agradeço pela sacola com os mantimentos e vou despreocupadamente em direção a casinha de mais cedo.

—Ei você é Allyra?- um homem alto e razoavelmente bonito grita de longe e me limito a mudar o peso de perna e concordar com a cabeça. Ele meio que corre em minha direção, e só por precaução deixo minha mão direita pronta para pegar a lança- Sou Spencer, filho da Deanna.

—Oi- respondo entediada enquanto penso em quantos filhos essa mulher tem e se são todos idiotas ou se isso é privilegio só do outro.

—Ela pediu para eu te encontrar e te pedir para aparecer na festa que vamos fazer amanhã. Achei melhor vir hoje, enquanto ainda estou lembrando.

—Talvez eu apareça, obrigada- digo sem muita vontade e volto a caminhar enquanto penso no quão idiotas eles são, fazer festas na merda do apocalipse, faça me o favor.

—Espero que goste de Alexandria- diz me acompanhando e seguro minha vontade de revirar os olhos.

—Também espero- me forço a responder e depois dou um tchauzinho e viro a rua.

Vejo Aeron sentado em um balanço de madeira em uma varanda de uma casa na mesma rua da que estou, com outro homem. Ele me também vê e acena

—Allyra, venha cá quero te apresentar ao Eric – diz com aquela voz gentil de sempre e só consigo pensar se é assim com todo mundo. Penso em recusar, mas ele é sempre tão educado que acabo parando no começo da varanda.

—Oi- digo sem graça.

—Então você é a famosa Allyra que salvou meu Aeron?- pergunta o outro homem me lançando um sorriso gentil. Está com o pé engessado e repara meu olhar nisso- ah, um acidente em uma busca.

—Acontece- digo com um sorriso de entendimento para ele- Sim, sou Allyra. Prazer em conhecê-lo.

—Eu quero te agradecer por salva-lo. Amo-o muito e não sei o que faria sem ele- diz carinhosamente e me dou conta de que são amantes. Sorrio sem me conter.

—Não há o que agradecer Eric- digo e dou de ombros- Não fiz nada demais.

Eles acabam me pegando de conversa e só consigo achar que são divertidos. Me esquivo educadamente das perguntas que não estou disposta a responder e depois de um tempo me despeço e vou para a casa.

Assim que entro, meus olhos passam pelos cômodos com atenção procurando alguma irregularidade, e algum errante, mais por costume do que por qualquer outra coisa. Confiro se minha mochila está onde deveria, lavo minhas outras roupas e como algum enlatado qualquer.

Listo mentalmente as falhas e pontos fortes da cidade. Lembro das crianças que vi de relance, de Aeron e Eric que foram tão gentis, e entendo que não posso deixa-los tão despreparados assim, não quando eu sei dos perigos que estão lá fora. Dos perigos além dos errantes. Sei sobre ele.

Eu não deveria ter vindo para cá, nem por pontos limpos que evitam uma infecção no ferimento, mas o fiz, e agora vou ter que ficar e fazer o que está ao meu alcance para evitar que aconteça o que sei que pode acontecer.

Notas finais
E então?